segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Quantos pais?

A discussão em torno de um cartaz polémico do Bloco de Esquerda, com a imagem de Jesus e uma questão sobre quantos pais tinha o mesmo, esconde-se atrás do argumento do bom gosto ou da falta dele, mas é muito mais do que isso, sendo na verdade mais um indício de que este pais é pequeno, sob demasiados pontos de vista. Todos criticamos o cartaz acusando o mesmo de ser de mau gosto, mas o que a maior parte de nós quer mesmo dizer é que o respeitinho é bem bonito e que existem assuntos intocáveis. O que muitos de nós negam é que gostamos do mundo bem cinzento – a cor do bom gosto.
Por outro lado, existem outras questões que mereciam igual ou maior reacção; igual ou maior reflexão. A título de exemplo, deixo uma sucinta lista:
- Quantos pais tem a austeridade? Quantos lutaram para uma “solução” chamada troika?
- Quantos pais tem a falência do BPN? Do BCP? Do BES? Do BANIF? E de outras que estão prestes a acontecer?
- Quantos pais tem o empobrecimento do país? Os mesmos pais que consideraram determinante ir mais longo do que a troika?
- Quantos pais mandam efectivamente na Europa? E como é que nós, filhos menos desejados, podemos sobreviver nessa Europa? Será mesmo possível viver, sob o mesmo tecto, com pais que nos desprezam?

Estes são apenas alguns exemplos de questões essenciais para pensarmos o futuro do país, ao invés de encetarmos caminhos que apenas mostram um país pequeno, atávico e tacanho.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Até tu Moody's!

Já se tinha percebido que as coisas não estavam a correr bem a uma certa direita portuguesa. Primeiro não conseguiram a tão desejada e necessária maioria absoluta; depois António Costa entendeu-se com os partidos à sua esquerda, numa solução política verdadeiramente inédita; depois ainda o Presidente estrebuchou, mas sem consequências; mais recentemente o OE2016 é aprovado com os votos da esquerda; pelo caminho Bruxelas e os mercados sobreviveram a um governo de esquerda em Portugal e mais recentemente a insuspeita Moody's dá a sua aprovação ao Governo de Costa, dando crédito positivo pela aprovação do OE e afastando o cenário de eleições antecipadas. Até tu Moody's! Até os tão amados mercados se viraram contra a direita assanhada.
Toda a argumentação de Passos Coelho assente na teoria da inevitabilidade caiu por terra em parcos meses. A solução política de esquerda é sólida e já são poucos os piegas que compreendem as políticas dos últimos anos, agora que se está a mostrar que é possível fazer diferente.
Passos Coelho, num partido com resquícios de bom senso, seria olhado como um fracasso, sobretudo quando se percebe que a retórica bacoca do anterior primeiro-ministro foi totalmente despida de fundamento. Porém não será esse o caso. As hostes laranjas agarram-se à esperança de um fracasso da esquerda e do subsequente período eleitoral que daria, nos seus seus sonhos mais atrevidos, uma maioria absoluta ao PSD.
O CDS, sem Portas, mas com Portas, acabará por se afasta deste PSD condenado ao insucesso e apostado em exercícios verdadeiramente autofágicos.
Até tu Moody's! Até esta agência de rating, filha do capitalismo selvagem e aliada de uma direita vendida, traiu a nossa direita assanhada que dificilmente recuperará de mais esta afronta dos mercados. A direita assanhada de pin na lapela tem razões para andar cada vez mais desorientada.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Ainda os desequilíbrios

Existe um exercício profícuo que nos permite dar consistência à ideia de que este Governo nunca contará com o beneplácito da comunicação social, à semelhança do que tem acontecido no passado. Esse exercício consiste num visionamento de canais de televisão, generalistas e informativos, e consiste também na leitura da comunicação social escrita. Na verdade, nem este Governo nem qualquer outro deveria contar com esse mesmo beneplácito; a comunicação social é caracterizada pelo rigor e pela isenção e não o contrário. Porém, o facto é que o Governo de António Costa nem teve direito a qualquer estado de graça, quanto mais alguma espécie de aprovação pelos nossos reputados meios de comunicação social.
O OE2016 foi historicamente aprovado pelos partidos à esquerda do PS. O facto é histórico e não há como negá-lo, mas que "história terá o OE da geringonça?", pergunta Bernardo Serrão do Expresso. O cepticismo e uma espécie de niilismo (até certo ponto involuntário) aliados a uma inépcia generalizada compõem a agenda da comunicação social - fazer oposição ao Governo de António Costa, apoiado pelos partidos à esquerda.
Escusado será abordar a falta de qualidade daquilo que chamamos comunicação social, até porque ela é por demais evidente. No entanto, a existência de um bloco, alegadamente informativo que mais não faz do que oposição a uma solução política, torna-se preocupante, sobretudo pelo impacto que esse enviesamento provoca numa opinião pública despolitizada e afastada da cidadania.
Vivemos tempos em que impera um desequilíbrio incomensurável no que diz respeito à informação prestada pelos órgãos de comunicação social: a informação é ´deliberadamente enviesada e os comentários são de uma parcialidade arrepiante. É claro que esse desequilibro serve os donos dessas empresas que tinham todo o gosto em ter como primeiro-ministro um homem de negócios como Pedro Passos Coelho.



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Orçamento possível

Contrariamente ao que assistimos nos últimos anos, o Governo em funções, coadjuvado pelos restantes partidos de esquerda, negociou com os senhores de Bruxelas o Orçamento de Estado, salvaguardando rendimentos do trabalho e pensões. E apesar de todas as dificuldades externas e internas, Costa conseguiu um feito: passar o Orçamento com a aprovação de partidos que em quatro décadas nunca o haviam feito. Vivemos tempos únicos.
É evidente que este não é o orçamento desejável. Existe um aumento da carga fiscal, embora longe do que aconteceu no passado recente e a reposição de rendimentos é módica.
No entanto, quebrou-se o ritmo da austeridade cavalar que penalizou incomensuravelmente quem trabalha e trabalhou. Essa é uma grande vitória de todos os partidos que fazem parte da actual solução governativa.
É também evidente que são muitas as nuvens cinzentas a pairar sobre nós: uma bolha financeira, uma União desunida, uma moeda sem futuro e um sistema capitalista autofágico.

Ainda assim, este é indubitavelmente o melhor caminho para ser trilhado nas actuais circunstâncias. Do lado da oposição de pin na lapela assistimos a exercícios de idiotice que não cessam de nos provocar um enorme sentimento de vergonha alheia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lições sobre o acto de ajoelhar

Passos Coelho, mestre no acto de ajoelhar perante as instituições europeias enquanto acusava os portugueses de pieguice, vem agora, num exercício humilhante, acusar o actual Governo liderado por António Costa de se ter ajoelhado perante a Europa". O mesmo Passos Coelho que na mais das vezes que deu lições sobre como ajoelhar, vem agora acusar Costa de fazer o mesmo. Aliás, Passos foi para além do ajoelhar, procurando ir mais longe do que a própria troika. Nem sei bem como classificar tal atitude.
Podemos recorrer a uma miríade de adjectivos para caracterizar a postura do anterior primeiro-ministro, mas o adjectivo que provavelmente encontra um melhor enquadramento é "desesperado".
No cômputo geral é de desespero que falamos, sobretudo depois de se perceber que a negociação é possível, contrariamente à postura de total subserviência adoptada pelo anterior governo. A negociação que teve lugar entre o actual Governo e as instituições europeias veio esvaziar de sentido toda a argumentação do anterior Executivo de Passos Coelho.

Paralelamente, o acordo entre as esquerdas tem-se revelado sólido, contrariamente às expectativas da direita mais assanhada, a aprovação do OE2016 vem mostrar isso mesmo. Deste modo, o comportamento do anterior primeiro-ministro, marcado pelas já habituais incongruências, assemelha-se também ao de um animal encurralado que se move apenas pelo instinto primário de sobrevivência. Andará a titubear, descoordenado e desesperado até que alguém, no PSD, lhe inflija o golpe fatal.

Lições sobre o acto de ajoelhar

Passos Coelho, mestre no acto de ajoelhar perante as instituições europeias enquanto acusava os portugueses de pieguice, vem agora, num exercício humilhante, acusar o actual Governo liderado por António Costa de se ter ajoelhado perante a Europa". O mesmo Passos Coelho que na mais das vezes que deu lições sobre como ajoelhar, vem agora acusar Costa de fazer o mesmo. Aliás, Passos foi para além do ajoelhar, procurando ir mais longe do que a própria troika. Nem sei bem como classificar tal atitude.
Podemos recorrer a uma miríade de adjectivos para caracterizar a postura do anterior primeiro-ministro, mas o adjectivo que provavelmente encontra um melhor enquadramento é "desesperado".
No cômputo geral é de desespero que falamos, sobretudo depois de se perceber que a negociação é possível, contrariamente à postura de total subserviência adoptada pelo anterior governo. A negociação que teve lugar entre o actual Governo e as instituições europeias veio esvaziar de sentido toda a argumentação do anterior Executivo de Passos Coelho.

Paralelamente, o acordo entre as esquerdas tem-se revelado sólido, contrariamente às expectativas da direita mais assanhada, a aprovação do OE2016 vem mostrar isso mesmo. Deste modo, o comportamento do anterior primeiro-ministro, marcado pelas já habituais incongruências, assemelha-se também ao de um animal encurralado que se move apenas pelo instinto primário de sobrevivência. Andará a titubear, descoordenado e desesperado até que alguém, no PSD, lhe inflija o golpe fatal.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mais dinheiro para o BPN

O OE2016 prevê a injecção de 567 milhões de euros nas sociedades que gerem os activos tóxicos do BPN, dinheiro esse que deve regressar à Caixa Geral de Depósitos, maior credor.
O caso BPN e suas graves sequelas continuam a persistir sob um manto de opacidade inadmissível em democracia. Quanto nos custou o BPN? Ninguém parece saber, os relatórios do Tribunal de Contas para além de desfasados, são insuficientes.
A história do BPN não tem fim. O Estado é chamado todos os anos a cobrir prejuízo das sociedades que gerem o lixo, pagando igualmente ao maior credor: a CGD. Entretanto são muitos os que estão ligados ao BPN, incluindo devedores, que nunca foram chamados às suas responsabilidades, entre eles figuras conhecidas e apreciadas. E quanto ao actual Governo, deve ser exigida maior transparência.

Mais dinheiro para o BPN, para além de profundamente imoral, significa menos dinheiro para os cidadãos e para as empresas. Percebe-se a dificuldade do Governo de António Costa: ou injecta dinheiro nas referidas sociedades ou é a Caixa Geral de Depósitos que fica ainda em maiores dificuldades. Porém, este é um problema longe de chegar ao fim e cujos prejuízos recrudescem a cada ano que passa. Para além das questões judicias (?) é preciso estudar uma solução financeira e política que permita colocar um ponto final a uma dos casos mais nauseabundos da história recente portuguesa.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Mais dois anos?

Passos Coelho prepara-se para mais dois anos à frente do PSD, recandidatando-se ao lugar do Presidente do partido. Não havendo oposição interna o anterior primeiro-ministro de má memória tem tempo para se dedicar à construção de uma nova pessoa. Pelo menos parece ser esse o seu grande objectivo.
De liberal, neo-liberal ou coisa que o valha, Passos procura, entre a mixórdia ideológica do partido, resquícios de social-democracia. Provavelmente não as encontrará, mas pouca diferença faz, porque não é só o poeta que é um fingidor, o político também o é. A única diferença está entre ter sucesso ou não e o líder do PSD não é exímio na matéria, mas a audiência também não será particularmente exigente.
Mais dois anos de Passos Coelho, ou pelo menos até a situação política se deteriorar à esquerda e surgir então um Messias no Partido Social-Democrata. Mais dois anos, ou durante o tempo em que o séquito de Passos Coelho dominar as bases do partido.
A notícia embora nos possa remeter para a náusea, de resto mais duas horas de Passos Coelho já parece tormento a mais, quanto mais dois anos, a verdade é que a notícia não será eventualmente assim tão negativa quanto isso. E porquê? Porque enquanto Passos Coelho andar por aí, a esquerda dificilmente deixará de estar unida. O elo de ligação é precisamente o anterior primeiro-ministro.

Sim, dois anos são uma possibilidade. Resta no entanto saber como será a Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa que, como se sabe, não morre de amores por Pedro Passos Coelho. A ver vamos se Marcelo não forçará uma outra liderança no PSD, o que poderia fragilizar a união das esquerdas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Os mercados

Os mercados, os sacrossantos mercados, serviram, mais uma vez, de pretexto para anunciar o Apocalipse. As televisões abriram os serviços noticiosos com os quatro cavaleiros do Apocalipse, afinal de contas os mercados não haviam gostado do OE2016, estando o seu desagrado a reflectir-se na subida dos juros. Para jornais, televisões e para o ministro das Finanças alemão Schaüble o alvoroço nos mercados tinha dois rostos: António Costa e Mário Centeno.
Questões que podiam ser explicadas com rigor, designadamente o receio dos investidores, simplesmente não existiam. Os problemas com o Deutshbank, o impacto das novas regras de resolução bancária nas expectativas dos investidores ou até o abrandamento da economia mundial não explicavam as oscilações nos mercados. O fundamento era apenas e só as opções político-económicas do Governo Português.
É evidente que a direita, alheia aos interesses nacionais, entrou em delírio com aquilo que considerou ser a vingança dos mercados. Mas a desilusão chegou cedo. Afinal os mercados não se compadeceram com as dores da direita portuguesa e para além de uma recuperação assinalável, os juros da dívida portuguesa baixaram sucessivamente.
Para a desilusão da direita portuguesa ser completa só faltou a agência de notação financeira canadiana DBRS não baixar o rating da dívida portuguesa, o que aconteceu, permanecendo a mesma acima de lixo. Um verdadeiro balde de água fria para a direita assanhada e desorientada. Há semanas para esquecer.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Um homem sem noção

Passos Coelho inaugurou uma escola que se encontra em funções desde 2013. Sim, é mesmo verdade. Passos Coelho, deputado, inaugurou o Centro Escolar de Lourdelo, no Município de Paredes, com presença garantida do Presidente da Câmara de Paredes do PSD.
Passos Coelho é um homem sem noção, já o era enquanto primeiro-ministro de má memória e continua a sê-lo agora na qualidade de deputado.
A desfaçatez e a mais inexorável ausência de noção caracterizam o homem que ainda julga ser primeiro-ministro. Já se tinha percebido que a desfaçatez era a prata da casa, mas agora Passos Coelho parece querer enveredar pela carreira de comediante, só assim se explica a declaração em que garante que o Banif, enquanto ele era primeiro-ministro, dava lucro e só assim se consegue perceber a inauguração de um agrupamento de escolas que funciona desde 2013, agora que Passos Coelho é deputado e não primeiro-ministro.
Alguém deveria dizer ao Sr. Passos Coelho que lá por andar com a bandeira de Portugal na lapela não faz dele primeiro-ministro.



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Preso por ter cão e preso por não ter

Somos particularmente adeptos da crítica, da crítica pela crítica, apesar de pouco ou nada fazermos para mudar o que consideramos estar errado. Esta posição, diria transversal ao povo português, explica as críticas que recaem sobre o primeiro-ministro António Costa depois de o mesmo ter optado por explicar o OE2016 através de uma sucessão de vídeos.
Se António Costa tivesse escolhido o silêncio e a evidente inexistência de explicações sofreria críticas por não prestar os devidos esclarecimentos. Ora, o primeiro-ministro escolheu a transparência e a natural explicação aos cidadãos. Reconheço que se trata de um exercício pouco habitual na nossa democracia e que a mesma tem andado afastada do diálogo permanente entre poder político e cidadãos. Talvez as críticas que recaem sobre Costa também se possam explicar pela falta de hábito. Mas António Costa será sobretudo preso por ter cão e preso por não ter. A irracionalidade, como se tem visto pelas sucessivas declarações de membros da direita, tem andado ausente da discussão política.

Costa fez bem. É também destes aparentemente pequenos gestos que se consolida a democracia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Terceira via

É importante não esquecer que o défice de 2015, responsabilidade de Pedro Passos Coelho e companhia,ultrapassou a meta imposta por Bruxelas e com a qual o anterior primeiro-ministro se entusiasmava e prometia cumprir. Agora Passos Coelho sorri quando diz que já viu este filme. Recomenda-se que veja o filme biográfico que retrata sobretudo os últimos anos de governação de Passos Coelho. O filme é deprimente, mas elucidativo.
Dito isto, Costa, depois do massacre aos gregos, procura um caminho intermédio, uma espécie de terceira via que, à semelhança daquela que procurou um caminho intermédio entre o socialismo moderado e o liberalismo económico, pode falhar.
Por agora pode ser que funcione, apesar das pressões externas e internas e assim se conseguir salvaguardar, pelo menos para já, rendimentos do trabalho e pensões.

De resto, Costa dificilmente poderia fazer diferente e olhando para a esperança de vida de uma Europa decadente e moribunda pode ser que a sua solução ultrapasse em longevidade a própria ideia que temos de Europa.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Bernie Sanders

A corrida à Casa Branca é tarefa árdua e Bernie Sanders parte com clara desvantagem: sem apoio de Wall Street e de todos os que têm interesse na manutenção do status quo e marcado ainda por uma comunicação social que o considera marxista (um verdadeiro anátema nos Estados Unidos), resta a Sanders o apoio daqueles que lutam por uma mudança no actual estado de coisas, sendo essa a grande vantagem do candidato democrata - conta com o apoio inequívoco de tantos que se têm manifestado com a ditadura da alta finança.
Apelidado de perigoso radical (comunista) quando na verdade se trata de um social-democrata aos olhos de qualquer europeu, Bernie Sanders tem mostrado ser substancialmente diferente da sua principal adversária no Partido Democrata, Hillary Clinton. Contrariamente à ex-primeira-dama, Sanders está disposto a lutar contra a preponderância de Wall Street, devolvendo a democracia a quem efectivamente ela pertence: ao povo americano. Essa é a principal diferença, a promessa de recuperar aquilo que americanos (e mais recentemente europeus) há muito perderam: o poder do povo, a democracia.
De resto, Sanders tem contribuído para assinalar uma diferença não só comparativamente com o Partido Republicano (infestado pelo “tea party” e, paradoxalmente, por uma espécie de vale tudo para a manutenção do referido status quo), mas no próprio interior do Partido Democrata, obrigando Hillary Clinton - vencedora antecipada - a mudar o seu discurso, aproximando-o das pessoas, sobretudo daqueles que, à semelhança de Sanders, têm lutado contra a ditadura da finança. Todavia, Clinton está demasiado comprometida com essa ditadura, com Wall Street, com os milionários e com os obscenamente multi-milionários.
Apesar dos primeiros resultados serem auspiciosos, dificilmente Bernie Sanders conseguirá vencer a corrida à Casa Branca no seio do Partido Democrata, mas já conseguiu uma vitória: trouxe à luz do dia a vontade de mudança que cresce em muitos americanos, uma mudança que um dia chegará, começando pela recuperação da democracia.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Desequilíbrio

Sou apologista de uma comunicação social isenta e rigorosa, coisa inexistente em Portugal. Uma comunicação social isenta e rigorosa contribui para o aprofundamento do pluralismo tão necessário à democracia, mas ao invés mostramos satisfação com a existência de órgãos de comunicação social ideologicamente comprometidos e que tratam os telespectadores, leitores e ouvintes como se fossem néscios.
Paralelamente o desequilíbrio tornou-se evidente nos últimos anos: a direita domina toda a comunicação social contribuindo assim para a existência de uma opinião pública ideologicamente envenenada. Na televisão, maná de muitos portugueses, tudo se resume ao seguinte: entre programas do entretenimento mais bacoco inserem-se blocos de pseudo-informação sem qualquer rigor e com o único objectivo de moldar as posições políticas. A título de exemplo atente-se à forma como o OE2016 tem sido tratado pela comunicação social, comparativamente a todos os orçamentos de Passos Coelho, invariavelmente inconstitucionais, e os seus inúmeros rectificativos. 
Hoje começa a discutir-se a necessidade do surgimento de um órgão de comunicação social de esquerda, declaradamente de esquerda. Em condições normais não me mostraria particularmente interessada, mas no contexto actual, indelevelmente conspurcado por uma forma prosaica de neoliberalismo, vejo-me forçada a reconhecer a importância de encontrar algum equilíbrio, por anódino que seja. De resto, não podemos ignorar que o próximo Presidente da República deve tudo à comunicação social, incluindo a própria presidência.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

E agora?

A direita anda desorientada, é um facto. Depois de anos de políticas de empobrecimento baseadas invariavelmente na teoria da inevitabilidade que visaram os "piegas" e depois de perderem o poder, PSD e CDS tudo fizeram para que o OE2016 sofresse o chumbo das instituições europeias.
Todavia, o OE2016, após as negociações encetadas por Costa e por Centeno, passou pelo crivo da Comissão deixando Passos Coelho e os seus acólitos órfãos de argumentos. Afinal pode-se negociar e conseguir resultados diferentes dos apregoados por PSD e CDS. Afinal a postura de subserviência não é condição sine qua non para os representantes políticos portugueses. Afinal podemos andar erguidos e não vem daí mal ao mundo.
E agora? O que resta à frouxa linha de argumentação de PSD e CDS? Resta criticar os aumentos de impostos contidos no orçamento, o tais que atingem bens importados longe de serem considerados de primeira necessidade e inventar uma nova ideia de classe média.
PS e restantes partidos de esquerda conseguiram preservar os rendimentos do trabalho, não ultrapassando nenhuma linha vermelha e cumprindo aquilo que prometeram - outra novidade dos últimos anos. PS e restantes partidos de esquerda conseguiram negociar com os obtusos de Bruxelas um Orçamento de Estado oposto ao empobrecimento a que o país tem sido sujeito e ainda assim conseguir que o mesmo seja aprovado. Não restam muitos argumentos à direita vazia e assanhada.

Ainda assim haverá quem, em exercícios de perfeito masoquismo, terá saudades de uma criatura de seu nome Pedro Passos Coelho, a começar pela comunicação social também ela comprometida como nunca se tinha visto.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Coisas impressionantes

Era uma vez uma senhora alemã, reputada lá para os seus lados, que confessou aos seus vizinhos ter tido um cãozinho capaz de feitos impressionantes. O cãozinho, infelizmente para a senhora, já não faz parte da sua vida, mas ela continua a elogiar os feitos impressionantes do pequeno animal.
E que feitos impressionantes foram esses? A senhora atirava uma bola e o cãozinho, com um vigor impressionante, ia buscar a bola até aos locais mais recônditos para a trazer de volta; o cãozinho quando via a senhora em questão abanava freneticamente a cauda, mas apesar do entusiasmo, o rafeiro obedecia cegamente às ordens da senhora: "senta", "dá a pata", culminando invariavelmente com uma lambidela no rosto. O cãozinho, embora rafeiro e longe de ser um animal considerado esperto, era absolutamente fiel à protagonista desta história, nunca rejeitando uma única ordem da senhora alemã.
Os tempos mudaram e o cãozinho que gostava de mostrar os dentes a algumas pessoas, curiosamente a portugueses, deixou de fazer parte da vida da senhora. Mas a dita continua a pensar no cãozinho com saudade e não se coíbe de elogiar os alegados feitos impressionantes que atribui ao animal, apesar de "impressionante" o animal nada ter.

Nota: Qualquer semelhança com a notícia que dá conta que Merkel elogiou Passos Coelho é mera coincidência. De resto, a responsabilidade de qualquer comparação pertence exclusivamente a mentes viciosas que fazem analogias de tão mau gosto.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Afinal é possível

Negociar sempre foi palavra maldita para o anterior primeiro-ministro, o peso da bacoca teoria da inevitabilidade aliada a uma mediocridade exasperante assim o exigiam. Desse modo, passámos mais de quatro anos a ouvir que tinha de ser assim porque tinha de ser assim. Invariavelmente munido de argumentos pueris, Passos Coelho engole agora um sapo de tamanho colossal, para utilizar um adjectivo que o líder do PSD tanto apreciava.
E agora? Afinal é possível negociar e António Costa, sem sucumbir aos profetas da desgraça, mostrou que é possível fazer diferente. E agora? Como fica o pueril linha argumentativa de Passos Coelho? Como fica a melhor amiga de Passos Coelho, a TINA (There is No Alternative)?
Com a passagem do OE2016 pelo crivo da UE, Costa mostrou como é que se fazem as coisas. Mas, Passos Coelho, encurralado por uma inusitada mediocridade, estará muito longe de reconhecer que estava errado. Tudo indica que Costa ganhou.

Costa mostrou que não é com uma subserviência canina que se consegue o que quer que seja. E não são as parcas cedências do actual Governo - aproveitadas por uma comunicação social servil - que retiram mérito a António Costa e a Mário Centeno. Afinal é possível, resume-se tudo à escolha das pessoas certas e Passos Coelho nunca foi uma, embora viva convencido que é um Messias com a bandeira de Portugal na lapela. Pelo caminho ficou uma oposição que procurou dificultar inexoravelmente a aprovação do OE2016 por Bruxelas, num exercício que se aproxima perigosamente da traição.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Portugal e a Europa

O nosso destino é indissociável do destino dos restantes Estados-membros da União Europeia, designadamente dos países do Sul da Europa, o que explica, em larga medida, a pressão das instâncias europeias ao Governo português, sobretudo agora que o Executivo de António Costa entregou o esboço do Orçamento de Estado.
Com a indefinição política em Espanha, onde existe a possibilidade de um governo de esquerda e com os italianos a mostrarem que não estão dispostos a sucumbir às pressões de Bruxelas, resta apertar com Portugal – país cujas lideranças políticas dos último anos podiam dar verdadeiras lições sobre fidelidade canina. António Costa, pelo menos até agora, dá sinais de querer reverter essa postura, dando outra imagem do país longe da insignificância que outros quiseram aprofundar no passado recente. Costa e a solução que a esquerda encontrou chega a ser motivo de inspiração em Espanha.
Mas pode ser que a mudança esteja de facto a chegar.

Por cá assistimos a uma multiplicidade de exemplos de irresponsabilidade. Por um lado uma comunicação social a torcer para que tudo corra mal; por outro, uma oposição a contribuir para que tudo corra efectivamente mal. A mesma oposição que dizia uma coisa para consumo interno e outra diametralmente oposta às instâncias europeias; uma oposição que com a bandeira de Portugal na lapela dizia que tudo fazer para garantir a salvaguarda do interesse nacional. Uma oposição que insiste no sucesso de uma receita contra todas as evidências. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Interesse nacional

Passos Coelho e o seu séquito passaram mais de quatro anos a fazer a apologia do interesse nacional, como pedra angular de toda a política do seu Executivo. Aliás o interesse nacional servia para justificar o injustificável, designadamente o empobrecimento colectivo. A Europa e o interesse nacional, sobretudo com o pedido de "ajuda" externa, tornaram-se absolutamente indissociáveis.
De pin na lapela e terço na mão direita, quando as circunstâncias eleitorais o justificavam, Passos Coelho dizia agir dentro daquilo que era o interesse nacional e foi assim que se seguiu cegamente as imposições de Bruxelas, como qualquer bom lacaio sequioso por agradar ao chefe, mostrando trabalho e procurando ir ainda mais longe do que a troika.

Será que é em nome desse mesmo interesse nacional que o PSD, agora na oposição, mostra-se tão esperançoso num chumbo do OE2016? Ou será esta mais uma incongruência da social-democracia recém descoberta por Pedro Passos Coelho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A social-democracia de Passos Coelho

Passos Coelho, doravante conhecido como o social-democrata, vê a sua legislatura manchada por mais um escândalo ao aumentar a remuneração mensal do Presidente, vice-Presidente e vogal da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) em 150 por cento. A título de exemplo: o Presidente da referida ANAC deixou de receber 6030 euros para receber 16.075 euros. A isto acresce a retroactividade da medida. Aumentos estes feitos nos últimos dias da legislatura, já em governo de gestão e com uma pressa louca de concluir negócios como a venda da TAP.
Sublinhe-se que em sentido contrário ao da lei, estes números foram convenientemente mantidos em segredo, apesar do desconforto quer da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública e da Comissão de Economia e Obras Públicas da Assembleia da República.

Escusado será dizer que Passos Coelho, doravante conhecido como o social-democrata, foi responsável pelos cortes sem precedentes nos trabalhadores da mesma Administração Pública. A social-democracia de Passos Coelho tem destas incongruências.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Excitação colectiva

É possível afirmar que vivemos momentos de excitação colectiva, designadamente de comentadores e jornalistas associados a uma agenda que não é aquela que serve os cidadãos, designadamente através de uma opinião fundamentada, com rigor e com isenção (no caso concretos dos jornalistas). A razão para tal excitação colectiva são os ventos que sopram de Bruxelas; ventos esses que bem podem ser de pequena intensidade, mas aos olhos dos comentadores e jornalistas do regime são verdadeiras tempestades.
Primeiro foram as diferenças entre os partidos da esquerda que nunca poderiam resultar numa união de esforços; depois terá sido a posição dos sindicatos que podia dividir PS do PCP; mais tarde verificou-se que os mercados que não entraram em sobressalto com a solução de esquerda; posteriormente o mesmo se passou com aqueles que jogam e dominam em larga medida os mercados numa espécie de arbitragem comprada - as agências de notação financeira; depois uma carta de Bruxelas, como outras que Maria Luís recebeu mas ninguém fez caso, e agora novamente o peso da inevitabilidade das imposições europeias. Tudo levado ao exagero e não raras vezes a raiar o absurdo.
A excitação colectiva de comentadores e jornalistas redunda na vontade expressa de que tudo corra mal ao Partido Socialista. Estou convicta que há quem anseie por um regresso de Passos Coelho e dos seus acólitos. De resto, Passos Coelho foi tão bom para os negócios e, naturalmente, deixou saudades. A dita excitação colectiva também se explica com o facto de que o falhanço deste Governo pode implicar o regresso de Passos Coelho ou criatura similar.