segunda-feira, 30 de abril de 2018

O papel dos cidadãos


As relações laborais mudam a uma velocidade vertiginosa, sobretudo com a “uberização” do trabalho, com empresas disfarçadas de empresas exclusivamente tecnológicas a operarem noutras áreas e a passarem todos os encargos legais para o trabalhador, visto como “micro-empresário” e não existindo o reconhecimento de vínculo laboral.
A proliferação destas empresas que acarretam mudanças incomensuravelmente lesivas para os trabalhadores parece difícil de parar. Embora outras formas de precariedade, particularmente embutidas nas nossas sociedades, tenham vindo a conhecer algumas mudanças positivas.
Por um lado, toda o caminho legislativo com o objectivo de travar essa proliferação esbarra num contexto económico desfavorável, de capitalismo selvagem, que se dá perfeitamente com empresas desta natureza e que beneficia do enfraquecimento das relações laborais que se verifica há pelo três décadas. Por conseguinte esperar que seja pela via legislativa é optimismo, o que não invalida, porém, o reforço do papel dos cidadãos que podem escolher aqueles partidos que não desistem de lutar contra as referidas empresas. E é precisamente o papel dos cidadãos que tem de ser reforçado. Não existindo uma margem de manobra significativa, ainda existem resquícios de livre-arbítrio, o que pode originar escolhas que podem enfraquecer essas empresas, o que poderá ainda resultar em mudanças a favor de todos nós. Ou alguém considera saudável para qualquer sociedade a existência de trabalhadores a viverem em contexto de acentuada precariedade? E quando nos tocar a nós, qual será a nossa percepção? Talvez nesse momento deixemos de escolher este género de empresa, mais não seja porque a escassez de dinheiro dificilmente admitirá essas escolhas.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Os avisos do Presidente

No habitual discurso de celebração do 25 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa chamou à atenção para os perigos do providencialismo e do messianismo, designadamente para a democracia. 
É bem verdade que a Europa e o mundo estão a ser alvo do ataque de homens e mulheres que se apresentam como salvadores de países em decadência que é o resultado - afirmam esses Messias em potência - do estrangeiro (imigrante, refugiado, pouco interessa). Nesse sentido, as críticas do Presidente da República fazem todo o sentido, assim como é assertivo sublinhar o facto dos vazios e dos falhanços degenerarem amiúde no surgimento desses ditos Messias.
Todavia, no contexto português não se vislumbra esse perigo, embora seja cauteloso não ignorar a possibilidade de um dia esse perigo se tornar real.
Com efeito, muitos não compreenderam a quem se dirigiram as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, a começar pelo próprio primeiro-ministro. Marcelo é populista e talvez por essa razão conheça bem de perto as derivas messiânicas. 


Embora certeiras, fica por perceber de facto em que sentido as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa foram proferidas. Na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa é o mais próximo de um Messias que existe em Portugal. 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Um sonho


A aproximação de António Costa a Rui Rio tem vindo a provocar excitação naqueles que sonham acordados com uma reedição do bloco central, com Francisco Assis à cabeça. As singelas imagens de Costa a sorrir ao lado do sempre sorridente Rio traz de novo esperança nessa reedição.
Com efeito, existem razões para alimentar esse sonho, não apenas pelas singelas imagens, mas sobretudo pelos pactos firmados entre o Governo e o maior partido da oposição. A confiança de Rui Rio é tal que fala abertamente de um acordo para a lei de bases da Saúde. Fica o desconforto visível nos partidos que apoiam esta solução de governo e o reacender da esperança de Francisco Assis e afins.
No entanto, e fazendo fé na sensatez de António Costa, a reedição de um bloco central pode muito bem não passar de um sonho. De resto, a actual solução política, apesar das dificuldades inerentes a um mundo de diferenças entre os partidos, não só tem funcionado, como chega mesmo a fazer escola para desgosto daqueles que utilizam o termo “geringonça”, de modo depreciativo.
Paralelamente, os parceiros mais à esquerda têm revelado serem confiáveis e fiéis – desbaratar esse capital seria um verdadeiro tiro no pé que destruiria uma solução que conta com o agrado dos cidadãos.
Ainda assim, importa que António Costa não se aventure excessivamente por terrenos escorregadios com aquele que, de forma sorridente, tenta esconder a sua periclitante posição no seio do PSD, procurando neste encosto ao PS uma espécie de solução que resulte no tão almejado estado de graça.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

PS, BE, PCP e Verdes: o difícil equilíbrio


Mariana Mortágua, em entrevista ao DN, tece considerações sobre aquilo que foi designado, com intenções pejorativas, por geringonça. O futuro à esquerda não se avizinha risonho e parece ter ficado o aviso.
Agora ficam também os avisos dos partidos à esquerda do PS sobre uma hipotética Lei de Bases para a Saúde – um hipotético entendimento entre PS e PSD, também neste particular.
António Costa estica alegremente a corda e está mais do que visto que a mesma corre o sério risco de partir. E Rui Rio goza o prato de ver a esquerda titubear com o pais a falar nele e com a oposição interna mais refreada.
Rio acaba por ser o grande vencedor, com um sorriso nos lábios, deixa a possibilidade de um novo entendimento sobre segurança social. Costa sairá mais derrotado do que parece pensar: esta aproximação ao PS põe em causa o entendimento à esquerda, mas põe sobretudo em causa o resultado nas próximas legislativas. Costa talvez considere que a ideia de um bloco central é apelativa. Tenho dúvidas que o eleitorado pense da mesma forma, até porque a dita “geringonça” está a funcionar com um relativo grau de sucesso.
Os partidos mais à esquerda serão vistos como vítimas da acção de Costa, papel esse que lhes será vantajoso no próximo acto eleitoral.
António Costa e o PS serão os grandes derrotados e se, por hipótese, na eventualidade de um maior entendimento com o PSD, o partido de Rio roer a corda, estes partidos de esquerda não farão parte de novos entendimentos com o PS. Naturalmente.
E hoje subsiste uma certeza para muitos eleitores: não será positiva uma maioria absoluta para o PS que lhe permita governar sozinho e talvez seja imperativo reforçar o poder dos partidos à sua esquerda.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Incêndios e a reportagem da TVI

A TVI, num exemplo perfeito do que deve ser o jornalismo de investigação, mostrou ao país os responsáveis pelo incomensurável incêndio que devorou o Pinhal de Leiria e como esse incêndio foi premeditado.
A reportagem da TVI mostra uma multiplicidade de madeireiros reunidos numa cave de um restaurante a congeminarem o incêndio que devastou o Pinhal de Leiria, num registo próprio de uma qualquer máfia.
Por um lado, o Ministério Público parece mais interessado em despejar na comunicação social vídeos dos interrogatórios de José Sócrates do que em investigar e levar à justiça os verdadeiros responsáveis pelos incêndios que assolaram o país no ano de 2017. Por outro lado, não se encontra justificação para que esta reportagem tenha feito tão pouco eco nos restantes órgãos de comunicação social. Fica a ideia de que é mais agradável apontar o Governo como grande responsável pelos incêndios do que trazer à luz do dia os verdadeiros criminosos. Vale mais explorar a tese que postula a ideia de que o Governo é o grande responsável, ideia também explorada pelo Presidente da República, do que a realidade das máfias dos incêndios.
Pena que assim seja. Pena que o Ministério Público não faça o seu trabalho, pena que todos chorem as vítimas, mas sem nada fazer para levar a julgamento os verdadeiros responsáveis. A impunidade, como se sabe, é a pior das opções. 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Quanto mais se foge...

Marcelo Rebelo de Sousa, em visita oficial a Espanha, procurou fugir da polémica em torno da questão catalã, chegando a referir que não se deve falar "do que se passa em casa do irmão". O Presidente julgava ser possível fugir de uma das questões mais prementes na Europa.
Saiu-lhe o tiro pela culatra: nas Cortes Generales, os deputados independentistas cantaram "Grândola", deixando Marcelo sem reacção. O Presidente português falou, os parlamentares ouviram e no fim do discurso cantaram "Grândola, Vila Morena". Marcelo ouviu.
Este episódio é paradigmático da impossibilidade de se fugir a determinados assuntos. Com efeito, a causa independentista pode ter sofrido duros golpes, mas nem por isso se extinguiu. Muito pelo contrário.
O Presidente da República agiu em conformidade com a acção das instituições europeias: assobiam para o lado, procuram fugir à questão ou agem como se a questão nem sequer existisse. O tiro sai sempre pela culatra, como Marcelo, o homem dos afectos, respeitador da casa do irmão, bem constatou em Espanha.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Estar bem com Deus e com o Diabo

António Costa tem jogado bem as suas cartas, mais à esquerda, bem entendido. Nova carta se apresentou depois do congresso do PSD e depois da saída de Passos Coelho. Essa nova carta é, claro está, Rui Rio - uma carta sorridente e aparentemente aprazível, mais do que o seu antecessor Passos Coelho.
Costa que até agora tem sido um brilhante estratega parece estar a perder qualidades, designadamente quando considera ser possível estar bem com Deus e com o Diabo, pegando nas palavras de Jerónimo de Sousa.
Deste modo, o primeiro-ministro deixa Mário Centeno mostrar toda a sua inflexibilidade em relação ao défice - talvez para fazer boa figura no Eurogrupo - e senta-se com a tal carta sorridente - Rui Rio - para a aprovação de medidas.
Os partidos à esquerda do PS vão suportando estoicamente os devaneios do PS. Mas até quando?
Costa engana-se quando pensa que pode estar bem com Deus e com o Diabo; Costa engana-se redondamente se está a fazer fé num resultado brilhante nas próximas legislativas, um resultado que lhe permita governar sozinho; e Costa ilude-se com a carta sorridente, mas passageira, do PSD. Costa engana-se se julga que a geringonça é à prova de tudo. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Uma mudança para a qual ainda não há nome

Uns chamam-lhe nova guerra fria, outros centram-se apenas na questão síria e apelidam a nova situação de justa guerra contra o regime de Bashar al-Assad, ou qualquer coisa semelhante. 
Na verdade a Síria é apenas a antecâmara para uma mudança de paradigma geoestratégico: de um lado a Rússia e a China e do outro EUA, França e Inglaterra (e uma UE amorfa e seguidista). São estes dois blocos a imporem uma mudança nos equilíbrios de poder com um dos blocos a tomar, mais recentemente, a dianteira nos ataques ao outro bloco.
Por um lado assiste-se a um ataque económico à China perpetrado pelos EUA (erro estratégico contestado até por muitos republicanos); por outro lado, o mesmo bloco ataca os interesses russos, primeiro com o caso Skripal e depois com o ataque cirúrgico à Síria mexendo com interesses russos, tudo precipitado e sem provas contundentes. De igual modo, por um lado procura-se enfraquecer a China, ameaça ao poderio económico americano, por outro existe uma clara tentativa de isolar a Rússia.
A China riposta economicamente e a Rússia não está disposta a mexer um milímetro a sua posição na Síria - decisiva para os interesses russos.
A UE, por sua vez, volta a mostrar toda a sua irrelevância, deixando a França mostrar o seu lado assanhado para a Rússia, o que mais não é do que o último estertor de uma potência falida.
E assim se vai brincando aos blocos e ao belicismo num contexto para o qual ainda não existe nome, mas reconhecidamente explosivo.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O que dizem do Presidente


James Comey, ex-director do FBI escreveu um livro em que comparou Donald Trump, Presidente dos EUA, a um chefe da máfia “desligado da realidade”.
Sendo certo que Comey foi afastado precisamente por Donald Trump e que por isso poderia muito bem estar apenas a vingar-se do Presidente, não deixa também de ser verdade que Comey é apenas mais um a juntar-se a uma longa lista de personalidades que conheceram ou que até trabalharam com Trump a fazer considerações de semelhante natureza.
Voltando ao antigo director do FBI, no livro “A Higher Loyaty – Truth, Lie and Leadership”, descreve o Presidente como um “incêndio florestal”, o “chefe no controlo total, os juramentos de lealdade”. A mundi-visão de nós-contra-eles”; “...a mentira sobre todas as coisas, grandes e pequenas, ao serviço de um qualquer código de lealdade que coloca a organização acima da moralidade e da verdade”. Comey vai ainda mais longe afirmando que “o país está a pagar um preço alto. Este Presidente é anti-ético e está desligado da realidade e dos valores institucionais. A sua liderança é transacional e egocêntrica e sobre lealdade pessoal”.
As considerações de Comey integram assim uma longa lista de outras feitas por quem conheceu Trump de perto, desde logo porque trabalhou com o Presidente – importa não esquecer.
Assim como se torna imperativo sublinhar o facto de ser este Presidente a liderar uma coligação anti-Assad, preparado para a atacar a Síria e para exasperar a Rússia que conta com o apoio de Irão e da China (já a travar uma guerra económica com o EUA). Importa igualmente sublinhar que as lideranças europeias comportam-se de forma canina seguindo Trump e a indústria do armamento – aquela que nunca abandona verdadeiramente o Presidente americano.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A quem interessa uma guerra?

Depois da expulsão de diplomatas russos a pretexto de uma história muito mal contada envolvendo veneno e espiões russos em solo britânico, é agora a vez de, após a utilização de armas químicas na Síria cuja responsabilidade é atribuída a Bashar al-Assad, voltar a azedar as relações entre EUA (com França e Inglaterra) e Rússia, maior aliado do regime sírio. O inefável Presidente Trump fala em mísseis que vão a caminho da Síria, Macron, Presidente Francês, põe mais lenha na fogueira e May, aquela espécie de primeiro-ministra britânica, está inexoravelmente ao lado dos EUA dando os seus contributos para aumentar a acrimónia com a Rússia. 
A quem interessa a guerra? Aos três protagonistas acima indicados. Trump, investigado em casa, encontra na guerra a maior forma de desviar as atenções, paralelamente, a guerra é qualquer coisa que parece causar acentuada excitação no Presidente americano; Macron quer ser o líder francês a recuperar espaço e importância para uma França decadente há longas décadas; May,, depois do Brexit que a desorientou a par da elite britânica, procura fazer o mesmo do que a França - recuperar espaço e importância. São estas potências falidas a querer a guerra, sobretudo depois de Putin ter conseguido o domínio um importante país do Médio Oriente: a Síria. E depois ainda de esta ser também uma vitória xiita, com o Irão a sorrir com o desfecho dos acontecimentos, facto que causa um indisfarçável desconforto em países com tendências hegemónicas e sunita como a Arábia Saudita  - outro potencial elemento da coligação anti-Assad e por inerência anti-Rússia e anti-Irão.
O enviado especial da ONU na Síria já declarou que a guerra naquele país já vai para além do conflito nacional ou regional, sendo agora uma ameaça à segurança internacional. 
O que parece certo é que se Donald Trump coadjuvado pela França, Reino Unido e eventualmente Arábia Saudita, insistir em percorrer este sinuoso caminho da confrontação, a Rússia responderá em força e o mundo terá de viver um conflito bélico cujo o desfecho é, agora mais do que no passado desprovido de armamento nuclear, imprevisível. Tudo isto pode deixar-nos a pensar nas palavras de T.S. Eliot:

"This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper".

Os compromissos externos

O actual Executivo, coadjuvado pelos partidos à esquerda do PS, representa uma incomensurável evolução sobretudo se compararmos com o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas. Os exemplos são abundantes: a cessação de cortes nas pensões e salários, na reposição de rendimentos, na cessação de cortes nos pilares do Estado Social, na filosofia que repudia que a culpa da situação difícil pertence a cada um de nós, sabe-se lá porquê. 
Todavia, existem falhas, algumas delas clamorosas como é o caso da mais abjecta falta de condições para as crianças com doença oncológica no S. João no Porto. Injustificável dir-se-á, e no entanto é com facilidade que encontramos a razão que subjaz à tal falta de condições: os compromissos externos, o serviço da dívida, a Zona Euro, tudo a mesma coisa. E tal como já se disse neste mesmo espaço, contrariamente ao que se promove como ideia de futuro, os pilares do Estado Social continuarão a ruir, desta feita às mãos da esquerda, tudo em nome dos compromissos externos. Os compromissos externos e até uma declarada intenção de ir mais longe do que o estipulado.
Cabe sobretudo aos partidos que se encontram à esquerda do PS lutarem para que Saúde, Educação e Segurança Social nunca venham a ser os parentes pobres de um país que se quer pôr bonito para quem o visita e que tenderá a esconder as suas imperfeições. Deve ser essa a função de Bloco de Esquerda e do PCP desde logo para lembrarem a todos a importância de evitar uma maioria absoluta do PS nas próximas eleições, jamais abdicando de sublinhar a existência de situações que são prioridades absolutas.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O bem mais precioso


A obtenção de dados, sem consentimento dos utilizadores, para a manipulação de eleições ou simplesmente de opiniões começa a ser uma realidade como o caso que envolve o Facebook e a empresa Cambridge Analytica bem o demonstram. Esses dados pessoais e esses perfis representam hoje bens verdadeiramente valiosos.
Mark Zuckerberg, criador e Presidente Executivo do Facebook desdobra-se em esclarecimentos, primeiro na comunicação social, depois no Senado americano e hoje ainda na Comissão do Comércio e Energia da Câmara dos Representantes. Na verdade, Zuckerberg assumiu a culpa, declarando que podia ter feito muito mais para proteger os dados dos utilizadores da rede social. Verdade ou nem por isso, o facto é que o mundo também nesse particular mudou substancialmente com a manipulação de dados que ameaçam a própria democracia. 
Resta saber qual o impacto da acção do Facebook (no caso talvez seja mais adequado falar em inacção) e da empresa Cambridge Analytica nas eleições americanas das quais saiu o inefável Donald Trump e no referendo sobre o Brexit. Terá sido suficiente para determinar os resultados que todos conhecemos? Em todo o caso, é tempo de agir no sentido de proteger dados dos utilizadores e sobretudo no sentido de evitar que esses dados sejam manipulados. Não estou certa que seja a essa a vontade daqueles que tomam as decisões. Afinal de contas este é só mais um ataque às democracias, um entre muitos outros, a começar pelo capitalismo desenfreado que se vai transformando em quotidiano.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Trump descartou a diplomacia

Donald Trump candidata-se a todo o género de adjectivação menos elogiosa e, como se isso não bastasse, o Presidente americano dá provas sistemáticas de querer descartar qualquer coisa remotamente semelhante à diplomacia, a última das quais apelidando Bashar al-Assad de "animal". Note-se que o epíteto foi escolhido após mais um ataque químico que matou mais de 70 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, cuja autoria tem sido atribuída ao Presidente sírio.
Mesmo que se confirme que este ataque, à semelhança de outros tão ou mais abjectos, foi ordenado por Bashar al-Assad, o epíteto em causa nada ajuda a resolver o problema, sendo que as relações entre Nações, por muito crispadas, têm a tendência a pautar-se pela diplomacia - facto absolutamente desprezado por Donald Trump.
Dir-se-ia que esta postura do Presidente americano contribui para piorar as já difíceis e estranhas relações entre EUA e Rússia (maior aliada de Bashar al-Assad e força preponderante na Síria). Até podia ser, se os russos e boa parte do mundo levasse o Presidente americano a sério. De resto, a influência russa nas eleições americanas, com benefício para Donald Trump, tinham como objectivo - suspeita-se - a eleição de uma espécie de palhaço sem qualquer crédito que muito ajudará os EUA a perderem a sua hegemonia. E Trump, tal como os russos suspeitavam, parece estar a ser muito bem sucedido. Na verdade este Presidente mais não é do que um sintoma da decadência do império americano.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Brasil e uma crise sem precedentes

O Supremo Tribunal Federal rejeitou o pedido de habeas corpus de Lula da Silva cujo objectivo era o de evitar que ex-Presidente fosse preso, ou na pior das hipóteses protelar essa prisão. O resultado? 6 votos a 5.
Assim, a prisão de Lula da Silva pode estar por dias ou por horas, depois de, em Janeiro, ter sido condenado a 12 anos e 1 mês de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em segunda instância.
Entretanto, altas figuras do Exército brasileiro manifestaram a sua opinião favorável à recusa do habeas corpus, manifestando igualmente que repudiam a impunidade, sendo que um general chegou mesmo a afirmar que "o Exército está atento às suas missões institucionais". Acresce que um juiz federal reproduziu comentários de generais, perfilhando a mesma linha.
Agudiza-se uma crise sem precedentes que teve o expoente máximo no absurdo processo de destituição de Dilma Rouseff e agora com a rejeição deste habeas corpus a ideia de que Lula está a ser impedido de concorrer à presidência ganha força, o que resulta num agravamento das divisões que já se fazem sentir no Brasil.
De um modo mais geral, o resultado de tudo isto poderá ir muito para além do enfraquecimento da democracia, facto que já se tem vindo a verificar, repito, desde o processo absurdo de destituição de Dilma Rousseff. O resultado poderá ser um recrudescimento da violência para níveis sem precedentes.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O sonho de Martin Luther King está longe de ser concretizado

São 50 anos desde a morte de uma das importantes figuras do secúlo XX americano. Martin Luther King, militante e líder histórico da luta pelos direitos civis, deixou para a humanidade o sonho que "um dia os seus filhos fossem julgados não pela cor da pele, mas pela força do seu carácter". Estas palavras ainda hoje ressoam nos corações de muitos de nós, não só pela beleza encontrada naquelas palavras simples, como pelo desejo sentido por todos de um dia seja mesmo possível. Esse dia ainda não chegou.
O sonho de Martin Luther King não só não só concretizou como nos últimos anos tem-se assistido a retrocessos no que toca aos direitos civis e o recrudescimento quer de facções racistas como de episódios onde a cor da pele ainda faz toda a diferença. A eleição de Donald Trump banalizou e legitimou a intolerância racial.
Hoje lembramos o homem que morreu por um sonho, mas poucos de nós saem verdadeiramente da tal indiferença de que King também tanto falou. Dir-se-á que são muitas distracções e que o vazio que nos engole tornou-se indisfarçável e que também por isso a cor da pele ainda faz toda a diferença. Há pouco activismo, existindo muita informação mas fragmentada e superficial, já para não falar na informação falsa e nas incomensuráveis doses de manipulação a que estamos diariamente sujeitos.
Ainda assim, e apesar do cenário sombrio, sobretudo no que toca aos direitos civis, existe quem não cruze os braços, preferindo fazer do activismo e da militância por uma causa elementos centrais nas suas vidas. Um bom exemplo são os jovens sobreviventes do massacre de Parkland que organizaram e marcharam em Washington pugnando por uma outra legislação que regule com maior rigor a venda de armas. Esses jovens representam mais do que tudo esperança, ajudando a manter o sonho de Luther King vivo, apesar de tanto retrocesso.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Quando se lê mentes

Ou melhor quando se julga que se lê mentes, o resultado é amiúde desastroso. Ainda assim Marques Mendes, aquela espécie de bruxo e de coscuvilheiro, tudo num só, aposta fortemente nesse exercício em que se presta à leitura de mentes. Agora a vítima foi o primeiro-ministro que, pese embora, tenha, em entrevista, excluído a hipótese de um bloco central, anseia, na verdade, por esse mesmo bloco central.
Por outro lado, pode muito bem ser que Marques Mendes nem sequer alimente a ideia de que consegue ler mentes e tudo isto não passe afinal de um exercício de psicologia ou até de psicanálise. Na verdade pode muito em ser que António Costa ao afirmar que rejeita a possibilidade de um bloco central esteja a alimentar no seu subconsciente o desejo desse bloco central. No seu subconsciente o que mais quer é um bloco central, um bloco central e um bom prato de sardinhas porque há muito tempo que o primeiro-ministro não come umas boas sardinhas.


Marques Mendes ou personifica o bruxo que acha que lê mentes e o futuro ou o Freud da SIC, capaz de entrar no subconsciente do primeiro-ministro para determinar quais são os seus desejos. Seja como for, eu se fosse António Costa punha-me a pau. E ainda dizem que a televisão tem vindo a perder qualidades, quando um canal como a SIC encontrou na mesma pessoa um bruxo e um psicanalista. Simultaneamente.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Uma terra habituada à violência


A violência jamais dá tréguas ao eterno conflito israelo-palestiniano, mas existem momentos em que a mesma recrudesce sem apelo nem agravo. Os últimos dias a Faixa de Gaza tem sido palco de protestos palestinianos e a subsequente reação israelita, resultando no tal recrudescimento da violência.
Segundo os palestinianos, os protestos que pugnam pelo regresso de refugiados palestinianos e pelo fim do bloqueio israelita em Gaza não justificam a repressão israelita que degenerou em mais de 15 mortos e 1400 feridos.
Por outro lado, os israelitas, liderados por um governo profundamente conservador, falam em violência do lado palestiniano que teve de ser combatida com recurso à força.
Pese embora existam duas versões da mesma história, como é de resto habitual, a verdade é que o próprio mundo há muito que se encontra habituado à violência na região, não manifestando, consequentemente, qualquer reação, para além das condenações habituais das Nações Unidas. Com efeito, a indiferença que daqui resulta constitui um dos maiores problemas do conflito israelo-palestiniano. E se por um lado, outros conflitos, por muito violentos, como é o caso da Síria, degeneram na tal indiferença quase generalizada, o que dizer de um conflito que persiste desde a criação do Estado Israelita? E o paradoxo reside no facto dessa indiferença grassar num contexto de abundância da informação.
Em suma, a violenta regressa em força à Faixa de Gaza e simplesmente ninguém quer saber, o que implica que ninguém pressionará os responsáveis políticos a agir. Todos podem assistir em direto à barbárie, mas poucos querem saber e menos ainda são aqueles que estão preparados para fazer o possível tendo em conta as suas possibilidades.