sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Que pena: nós não somos a Grécia

Os membros do ainda Governo, designadamente Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, têm afirmado e reafirmado que Portugal não é a Grécia. E eu respondo: que pena!
Dir-se-á que que os referidos membros do Governo fundamentam a afirmação em epígrafe com o "bom desempenho" da economia portuguesa e com o "sucesso" das políticas de austeridade (impossível não utilizar aspas). O "bom desempenho" não existe e o "sucesso" traduz-se em empobrecimento do país. Outros dirão que não somos a Grécia porque aquele país apresenta ainda maiores dificuldades do que nós, por essa ordem de ideias, espera-se que a Holanda, a Finlândia, a Bélgica, a França ou a esmagadora maioria de países que se encontram em melhor situação económica (crescimento da economia, taxas de desemprego, investimento, défice, dívida, etc) venham a proferir as mesmas afirmações. E se queremos falar de dívida, em particular, de devedores e credores, porque nãocolocar a Alemanha na qualidade de devedor e a Grécia na qualidadede credor?

É pena Portugal não ser a Grécia, sobretudo no que diz respeito ao dinamismo da sua democracia. Por cá mantemo-nos resignados, com uma aversão histórica à mudança, permissivos e desinteressados. Na Grécia, num contexto de consolidação da democracia daquele país, os cidadãos escolheram a mudança - é um facto. E fizeram essa escolha, apesar de todas as chantagens e pressões, com transparência, demonstrando que estão vivos e dispostos a recuperar a dignidade. Não é possível dizer o mesmo de Portugal, agarrado a elites políticas e empresariais promiscuas, refém da resignação e da indiferença. Em suma, um país que tem medo de se erguer. E ainda há quem diga, com acentuada satisfação, que Portugal não é a Grécia.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Plano do BCE

Encostado à parede pelas circunstâncias, pela demora em reagir e pela teimosia da Alemanha, Mário Draghi, Presidente do Banco Central Europeu (BCE) apresentou um plano de compra de títulos de dívida, que não sendo totalmente novo, seria impensável há uns meses atrás, pelo menos na sua envergadura e amplitude. Trocado por miúdos, a banca recebeu torrentes de dinheiro da troika com o objectivo que o mesmo fosse canalizado sobretudo nas empresas, ao invés, a banca investiu o dinheiro na compra de títulos de dívida de outros países com taxas de juro mais apelativos. Resultado: o dinheiro não chegou naturalmente à economia real. Agora, o BCE propõe comprar esses títulos de dívida de volta a banca para que a mesma banca se sinta aliviada e possa assim injectar dinheiro, sob a forma de crédito, nas economias da zona euro. Mais um plano que beneficia a banca.
Assim, o BCE volta a injectar dinheiro na banca sem garantias de que esse mesmo dinheiro chegue aos cidadãos e empresas.
Por outro lado, o plano implica a troca de dinheiro por austeridade.
Apesar do optimismo que por aí grassa, receio que neste cenário de deflação, sem investimento, de que pouco adiantará a compra de obrigações. A questão do investimento é central. Com austeridade, sem investimento e sem consumo não haverá recuperação económica.

A compra de activos públicos e privados no valor de 60 mil milhões de euros por mês com o objectivo de combater a deflação que ameaça a Europa é sintomática do estado a que a zona euro chegou. Esta é o último trunfo de Draghi e se não resultar? Peça-se contas sobretudo à Alemanha e aos leais seguidores da senhora Merkel, a começar pelo nosso ilustre primeiro-ministro.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma lição de democracia

Democracia – uma palavra que anda nas bocas de tantos, porém quando o povo grego dá uma verdadeira lição de democracia, o conceito perde força e dá lugar a uma azia indisfarçável.
Uns relembram as responsabilidades; outros apostam nas generalizações invariavelmente abusivas em torno de todo um povo; e há ainda aqueles que associam as políticas do partido vencedor, o Syrisa, a um “conto de crianças”, isto dito pelo responsável pelo empobrecimento atroz a que o país foi sujeito – não um conto, mas a realidade que está a destruir o país.
Seja como for, e minudências dos habituais protagonistas insignificantes à parte, o povo grego brindou a Europa com uma incomensurável lição de democracia: a mudança que tantos almejavam foi conseguida através do voto, com transparência, consciência e, por muito que custe a alguns, responsabilidade. Um sinal que o país que tantos acusam de irresponsabilidade, mostra ser precisamente o contrário.

A mudança chegou através da democracia. Uma lição para a Europa, sobretudo para as lideranças políticas que através das políticas falhadas de austeridade não têm feito outra coisa que não seja enfraquecer as democracias. Esta não será, infelizmente, uma lição ao alcance de todos. Por cá, alguns precisam primeiro de aprender a pronunciar o nome “do partido que venceu as eleições na Grécia”, isto se a arrogância do costume o permitir.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

David e Golias

A luta que o Syrisa tem pela frente encontra paralelo com a História bíblica. Por outras palavras, talvez mais dentro do contexto em questão, a luta de Alexis Tsipras, novo primeiro-ministro grego, será hercúlea.
As lideranças europeias encontram-se presas à ditadura da austeridade, mesmo com algumas tímidas excepções. De um modo geral, nem socialistas, nem sociais-democratas encetam qualquer esforço para combater a receita imposta pela Alemanha - uma receita que todos reconhecem ter falhado.
É neste contexto que Tsipras encontrará dificuldades assinaláveis e é também neste contexto que o novo primeiro-ministro grego deve contar com o apoio de todos aqueles que não se revêm numa Europa que prende os povos à austeridade sem limites - a tal receita falhada. De resto, o Syrisa já recebeu apoios claros que partidos como o Podemos espanhol e outros apoios mais tímidos de partidos um pouco por toda a Europa. Os poderes instalados estão preparados para exercer pressão e tudo fazer para que o Syrisa falhe. Em bom rigor, um hipotético falhanço do Syrisa abre as portas a outros falhanços de partidos que ameaçam o status quo como é precisamente o Podemos espanhol.
Todavia e tal como na história referida em epígrafe, no fim da história é David a vencer, contra todas as expectativas e com uma pontaria excepcional e talvez com a ajuda de alguém inesperado. Assim esperamos. Talvez assim possamos... voltar a ter esperança no futuro.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Vitória do Syrisa

A vitória do Syrisa significa a possibilidade, pela primeira vez real, de assistirmos a uma mudança. Apesar das dificuldades e apesar das pressões, o povo grego deu uma grande lição de democracia.
Mas o que significa uma vitória deste partido de esquerda radical?
Significa desde logo a mudança, uma mudança que se começou a sentir ainda antes das eleições gregas do passado domingo, com um ligeiro abrandamento da chantagem a que a Grécia tem sido sujeita, em particular nas últimas semanas. Uma mudança que se consubstancia na introdução – mais uma vez que ultrapassa a mera retórica – da reestruturação da dívida grega e das dívidas de outros países da zona euro e é aqui reside a mudança que interessa verdadeiramente a boa parte da Europa: com Tsipras, o novo primeiro-ministro grego, poderá assistir-se, finalmente, à união de várias lideranças europeias cujos países foram devastados pela austeridade e pela dívida – essa aliança é fundamental para se alterar o rumo desastroso da zona euro e da União Europeia. Finalmente, um desses países devastados pela austeridade e pela dívida tem uma liderança que propõe uma mudança tão necessária que outros poderão seguir. Existe uma visão da Europa que é partilhada por vários partidos e movimentos políticos, finalmente assistimos à chegada ao poder de um partido que tem essa mesma visão. Esta é uma excelente notícia.
É evidente que as dificuldades são incomensuráveis para Tsipras e para o Syrisa: a Grécia está numa situação de grande fragilidade e depara-se com a intransigência da Alemanha. Neste contexto em particular, a referida união de países que partilham as mesmas dificuldades poderá ser a chave do sucesso, garantindo a viabilidade de alternativas que seguramente não são vistas com bons olhos por aqueles que querem manter o actual estado de coisas.
Finalmente, a vitória do Syrisa, não deixando margens para dúvidas, é também mais um sinal do falhanço retumbante das políticas de austeridade impulsionadas por uma UE vergada aos ditames alemães, por muito que as ameaças subsistam e até subam de tom - assim se espera nos próximos tempos. Entre a esperança e as ameaças, venceu a esperança, pelo menos na Grécia.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Se é a esquerda radical...

O partido de esquerda radical Syrisa pode sair vencedor das próximas eleições legislativas na Grécia, embora se anteveja uma panóplia de dificuldades se o partido não vencer as eleições com maioria absoluta - cenário provável - e, em consequência, ser obrigado a coligar-se.
A esquerda dita radical é particularmente enfatizada pela comunicação social na Europa, uma esquerda radical invariavelmente associada à hipotética saída da moeda única. Trata-se da utilização de uma retórica que não é nova e que visa inquietar os cidadãos, sobretudo aqueles que vão a votos neste domingo e outros que mais tarde, nos seus países, poderão sentir-se tentados a votar em partidos similares, em partidos que rejeitam a austeridade, defendem a renegociação da dívida, etc.
O Syrisa é um partido europeísta que defende políticas para a Europa que não fiquem reféns da austeridade, defendendo também uma renegociação da dívida para os países da periferia, sem essa renegociação não haverá relançamento das economias e subsequente criação de emprego.

De qualquer modo, se é a esquerda radical a fazer a defesa genuína dos direitos dos trabalhadores; se é a esquerda radical a lutar contra a precariedade das relações laborais; se é a esquerda radical a recusa da austeridade até à morte; se é a esquerda radical a defender o Estado Social, considerando-o indissociável das próprias democracias, contra aqueles que se arrogam democratas, mas que apenas estão ao serviço de interesses que não se coadunam com os interesses dos cidadãos, então eu estou com a esquerda radical.  

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Em sentido contrário ao desenvolvimento

Portugal, sobretudo nos últimos quase quatro anos, enveredou por um caminho contrário ao do desenvolvimento. Existe um vasto consenso acerca da importância da educação, da ciência e do avanço tecnológico para o desenvolvimento dos países. De resto, essa tem sido a chave que explica o avanço dos países.
Em Portugal, a coberto da crise e da troika, o desinvestimento nas áreas acima referidas tem sido muito significativo. É a ideologia bacoca a funcionar; a crise e a troika são pretextos para se aplicar políticas que de outra forma seriam mal recebidas.
O país político não tem estratégia nem tão-pouco interesse em retomar o caminho do desenvolvimento, sobretudo o actual Governo; quanto ao resto, também não parece particularmente preocupado com o desinvestimento operado nas referidas áreas. É assim um país que se despediu do futuro,

No Capital no Século XXI, Thomas Picketty insiste na importância da educação, da ciência e do avanço tecnológico como instrumentos essenciais para o desenvolvimento das economias e para a mitigação das desigualdades, não descurando o factor chave que é o poder político e, naturalmente, as suas decisões. Muito mais do que um país viver de investimento estrangeiro, tantas vezes resultando em situações que raiam a neocolonização, é a educação, a ciência, avanço tecnológico e cultura que fazem toda a diferença.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Consequências

Existirá alguma relação entre o aumento de mortes nas urgências dos hospitais e o desinvestimento feito por este Governo no Sistema Nacional de Saúde? Existirá, de facto, um aumento do número de óbitos nas urgências dos hospitais, comparativamente com períodos análogos? Os hospitais poderiam ter feito mais ou trata-se de casos intrincados que nem a melhor resposta médica poderia salvar?
Estas questões merecem respostas urgentes, sendo difícil dissociar o que tem vindo a acontecer no SNS e o desinvestimento de largas centenas de milhões de euros a coberto da troika, da crise, do que quer que seja. É possível falar-se de consequências directas?
Se atentarmos ao que se passa na Grécia, verificamos que a área da saúde pública foi das mais fortemente fustigadas pelas imposições externas e pela conivência de governos fieis a essas exigências. Todos os indicadores no caso grego, sobretudo na área da saúde, são assustadores.
Dir-se-á novamente que Portugal não é a Grécia e concordamos, desde logo, porque em Portugal estamos muito longe de apostar numa solução governativa fora dos partidos do costume como é o caso da Grécia e do Syrisa, mas ainda assim importa não desprezar os resultados da austeridade naquele país.

Por ora, aguarda-se uma explicação cabal que permita compreender o que está a passar, em particular, nas últimas semanas nos hospitais públicos portugueses. A contratação de médicos reformados para os centros de saúde e de mais mil enfermeiros mais não é do que uma forma de escamotear uma situação que não estará longe do já referido desinvestimento a que a área da Saúde tem vindo a ser sujeita, assim como não podemos dissociar o desinvestimento na saúde pública do claro benefício que esse desinvestimento traz ao sector privado. Não é por acaso que se fala da possibilidade das urgências de hospitais privados poderem assistir doentes do SNS. Está cumprido o desígnio: a mais abrangente mercantilização da saúde de que há memória.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O que fazer?

O que fazer com um país que ainda não se livrou totalmente da religião, do caciquismo e do obscurantismo, embora tenha passado, em larga medida para o jugo da plutocracia e da corrupção?
As coisas não acontecem por mero acaso, é um cliché, mas simultaneamente uma verdade. É neste contexto em que ainda vigora a influência excessiva do padre e do cacique, acrescida de uma casta plutocrata, até larga medida ignorante e amiúde corrupta; é com este enquadramento que se espera o país se desenvolva?
Recorrendo ao vocabulário religioso, milagres não existem, apenas um conjunto de evidências que são também justificações e que explicam o nosso atraso.
Em bom rigor, mesmo que não vivêssemos escravos da dívida incomensurável e impagável, continuaríamos a sentir dificuldades em trilhar o caminho do desenvolvimento e com a agravante de agora termos responsáveis políticos nada interessados em trilhar esse referido caminho.
Assim, a educação, a cultura, a ciência e a tecnologia parecem luxos para os quais - dizem-nos - não há dinheiro para pagar. Como trilhar o caminho do desenvolvimento sem educação, cultura, ciência e tecnologia? Simplesmente não é possível.
No passado desprezámos a importância da cultura, educação, ciência e tecnologia, com escassas e honrosas excepções; hoje dizem-nos que essas áreas são luxos que não nos são permitidos. Verdadeiramente não sairemos do país da religião, do caciquismo, da plutocracia, da corrupção, do obscurantismo, e de um modo geral, da ignorância.

O que fazer então? Desde logo livrar-nos daqueles que querem manter o actual estado de coisas; não permitir que insistam na tese de que não temos futuro; não vivermos condicionados por uma dívida que simplesmente não podemos pagar e, sobretudo, não nos resignarmos nem admitirmos que nos tirem as conquistas sociais que ainda assim transformaram, embora de forma manifestamente insuficiente, o país. Querem-nos empobrecer até à alma. É imperativo dizer basta.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Um país despido de ideias

António Costa limita-se a fazer uma gestão de silêncios; desprovido de ideias e sobretudo de alternativas, espera pacientemente pelo agravamento do desgaste do actual Governo durante os meses que estão pela frente, até ao momento de eleições legislativas.
No entanto, e num país despido de ideias, em suspenso, resignado, à espera não se sabe muito bem do quê, Costa lança para o debate o tema da regionalização.
Na verdade, a iniciativa do líder do PS é louvável – este tema, a par de outros, merece uma discussão aprofundada; uma discussão que não fique refém dos partidos políticos. Esta discussão vem contrastar com o marasmo que se instalou no país.

Resta saber se o lançamento, por parte de António Costa, deste tema não será um mero acidente de percurso, é imperativo a existência de lideranças políticas apostadas na discussão aprofundada de temas decisivos para o país – a democracia consolida-se igualmente através de trocas de ideias, discussões e pluralismo de opinião. Se de facto Costa quer discutir os assuntos mais prementes para o país, para quando uma verdadeira discussão sobre a dívida externa e o que fazer com a mesma?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Liberdades

A liberdade tem sido profusamente discutida em Portugal e sobretudo no resto da Europa. O atentado ao Charlie Hebdo abriu a discussão sobre as liberdades. De resto, essa mesma discussão enquadra-se perfeitamente no próprio conceito de democracia que chama a si próprio as liberdades e o pluralismo, também no que diz respeito às opiniões.
Porém, esse pluralismo é amiúde esquecido. Ana Gomes escreveu no twitter ter ficado desagradada com a última edição do Charlie Hebdo. As respostas não esperaram pela demora e há quem fale de liberdade esquecendo-se da liberdade do outro na manifestação da sua opinião ou até mesmo do seu repúdio. A capa do Charlie Hebdo - edição desta quarta-feira - é passível de críticas, é precisamente esse o espírito do pluralismo que enriquece as democracias. De resto, posso opinar favoravelmente sobre a escolha do profeta para a capa da última edição do Charlie. Quem não se revê nesta ou noutras publicações é livre de manifestá-lo. O que se torna inaceitável é que se ponha em causa o que quer que seja por hipotéticas ofensas.
Pessoalmente quero viver numa sociedade em que existem publicações como o Charlie Hebdo e lutarei por viver nessa sociedade. No entanto, tenho de aceitar que existe quem discorde, não da existência da publicação, mas do seu conteúdo. As pessoas são livres de criticar o conteúdo desta e de outras publicações. Poderei refutar essas críticas, mas não as posso por em causa, caso contrário como fazer a apologia da liberdade se acabo por cercear a liberdade dos outros? Liberdade de pensamento e de opinião.

Para finalizar: lamento não viver numa sociedade onde existam verdadeiramente publicações ou outros instrumentos de opinião como o Charlie Hebdo. Sim, porque Portugal ainda é o país onde se pode brincar, criticar, e eventualmente satirizar, mas com "respeitinho".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Uma coisa e o seu contrário

O primeiro-ministro, no princípio do seu mandato, fez questão de convidar os portugueses a emigrar. Uma situação inusitada e sem precedentes. Poucos manifestaram o seu repúdio perante um convite tão singular e, sob todos os pontos de vista, inadmissível.

Em ano de eleições, o governo liderado por Pedro Passos Coelho tem a iniciativa de aprovar estágios que permitam o regresso precisamente daqueles que saíram do país. 
Dito por outras palavras: depois de um convite para sair, em ano de eleições, há um convite para regressar.
Só não muda de ideias quem não tem ideias para mudar, como se costuma dizer. Todavia, não será bem este o caso. 2015 obriga à aplicação de medidas mais populares e a ideia de um primeiro-ministro que convidou portugueses a sair do seu país e que tudo fez para que essa possibilidade se tornasse real não é favorável para quem pretende ser reeleito. Assim, dir-se-á que este é um Governo empenhado no regresso daqueles que estão fora (medida enquadrada num plano de estágios profissionais para maiores de 30 anos) e anula-se a ideia inaceitável de se ter um primeiro-ministro que convida os seus representados a sair do país. Será esta a intenção que se enquadra num contexto mais vasto de anulação de quase quatro anos de empobrecimento e suas consequências.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Eleições e migalhas

Pedro Passos Coelho referiu por mais do que uma vez estar-se a "lixar" para as eleições. Segundo o ainda primeiro-ministro, o eleitoralismo não seria seu apanágio, pelo contrário, Passos Coelho, o indefectível, estava disposto a fazer o que fosse necessário para consolidar as contas do país, independentemente das potenciais consequências nefastas.
Ora, a realidade volta a desmentir o primeiro-ministro. É neste contexto que serão distribuídas algumas migalhas nas tabelas de IRS.
É evidente que nada disto está relacionado com o facto de estarmos em ano de eleições. É coincidência e não eleitoralismo.

O homem que fez do empobrecimento um objectivo pretende que todos esqueçamos o passado e nos agarremos a migalhas que se traduzem em muito pouco ou mesmo nada. Pelo caminho Passos Coelho e o seu séquito deixaram um rasto de destruição: Saúde, Educação, desvalorização salarial, desemprego, precariedade, Justiça, Segurança Social, enquanto se vendeu o país as pedaços. Um rasto de destruição que é impossível esquecer e está longe de ser mitigado por uma ou outra migalha.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A propósito da crise

A propósito e com o pretexto da crise procedeu-se a um desinvestimento assinalável no Sistema Nacional de Saúde. Não é por acaso que se assiste às dificuldades crescentes do SNS, em particular no que diz respeito, à capacidade de dar resposta aos utentes, ao mesmo tempo que, a capacidade de resposta do sistema privado aumenta. O enfraquecimento de um não pode ser dissociado do fortalecimento do outro. 
Com efeito, assiste-se a uma tentativa de empurrar os utentes para os sistemas privados e assim será desde o momento em que o sistema público não tiver respostas para oferecer. Quanto àqueles que não podem socorrer-se do sistema privado pela simples razão de possuírem capacidade económica, sujeitam-se a ficar sem resposta.
A crise, a vinda da troika, o que seja serve de pretexto para o enfraquecimento dos serviços públicos, a Saúde não escapa a esse enfraquecimento até por ser um sector fortemente apetecível e rentável.

Dir-se-á que não há dinheiro para fazer mais, quando na verdade é objectivo deste Governo enfraquecer os serviços públicos, abrindo portas ao sector privado. A crise, a troika, o que seja são meras desculpas para se retroceder incomensuravelmente. É um objectivo, é ideológico e é uma atrocidade para a qual ainda muitos portugueses ainda não acordaram.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O que fazer?

Depois das mais de 50 horas de terror vividas sobretudo na cidade de Paris, fica a questão sobre como proceder doravante. Em suma, o que fazer?
Percebe-se que os acontecimentos dos últimos dias resultarão inevitavelmente num aumento de sentimentos contra a comunidade muçulmana, no aumento de popularidade da Frente Nacional de Marine Le Pen e no desaparecimento inexorável de François Hollande.
Por outro lado, os acontecimentos dos últimos dias contribuem para o aumento da ostracização de muçulmanos que serão mais permissíveis ao recrutamento para as fileiras radicais.
Não há receitas fáceis e imediatas para combater o terrorismo desta natureza. Pode-se combater a doutrinação em mesquitas, escolas e por aí fora; deve-se evitar generalizações; pode-se aumentar a vigilância com custos para as nossas liberdades; deve-se apostar no melhoramento dos serviços de informação; a cooperação entre países e policiais será essencial e essa cooperação terá de se estender a país predominantemente muçulmanos.
Aprender com os erros, designadamente aqueles relacionados aos apoios a grupos de natureza fundamentalista e a venda de armamento a esses grupos – o Estado Islâmico contou até há pouco tempo com apoio das potências ocidentais, sobretudo com vista a derrubar o regime de Bashar al-Assad na Síria, a Al-Qaeda idem. Uma utopia em tempos em que o dinheiro é o valor supremo.
Enfim, existem naturalmente caminhos que podem e nalguns casos devem ser percorridos, no entanto é impossível conseguir-se impedir todos os atentados, em particular aqueles que não necessitam de um grande planeamento e podem ser executados por pequenas células numa qualquer cidade europeia.
De qualquer modo, devemos ter uma certeza: façam o que fizerem, digam o que disserem, as sociedades europeias manter-se-ão fiéis a si próprias, orgulhosas de si próprias e livres. Nada poderá mudar isso.

Entretanto e segundo a Amnistia Internacional mais de duas mil pessoas terão morrido na Nigéria pelas mãos do grupo fundamentalista Boko Haram – uma geografia que faz toda a diferença na forma como o mundo ocidental olha ou nem por isso para esta hecatombe humana.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Filhos e enteados

Depois de anos de congelamento de salários dos funcionários públicos, de cortes salariais e até de despedimentos, o Governo prepara-se para aumentar alguns funcionários públicos, designadamente funcionários da ministério das finanças, criando para o efeito uma carreira especial. Para os outros mantêm-se os cortes, os congelamentos e afins. Na Função Pública, uns são filhos e outros enteados.
Com efeito, esta é mais uma medida que espelha a governação do Executivo de Passos Coelho: tributação e amiúde perseguição ao cidadão comum, deixando de fora a verdadeira fuga aos impostos através de off-shores e expedientes similares. Para tal, são necessários funcionários de finanças que executem essa perseguição tantas vezes atroz e nada consonante com a própria democracia.
Os filhos - executantes - terão direito a aumentos; para os outros restam promessas de reposição gradual de salários, depois de anos de sacrifícios.

Ficamos assim com mais uma ideia de qual o conceito de Estado para este Governo: não serão os médicos, professores e outros funcionários públicos a merecer consideração, mas aqueles que executam uma perseguição vergonhosa aos cidadãos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Barbárie

O atroz ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo toca-nos a todos – a todos os que defendem a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. A ofensiva que resultou na morte de 12 pessoas é um ataque claro às várias formas de liberdade que fazem parte das democracias. Agora é precisamente tempo de não abdicar de nenhuma dessas formas de liberdade, agora é tempo de reforçá-las.
Todavia, este ataque atroz resultará também num fortalecimento dos discursos xenófobos que caracterizam algumas forças políticas europeias, designadamente em França com a Frente Nacional encabeçada por Marine Le Pen.
É precisamente nestas alturas difíceis que medram as ideias mais simplistas e generalistas. O grau de receptividade será incomensuravelmente maior depois do que aconteceu ontem no Charlie Hebdo.
Espera-se ainda assim que o bom senso seja mantido e que a luta contra esta forma de extremismo se faça com inteligência, imaginação, mantendo aquilo de tão positivo que nos caracteriza: o amor pela liberdade, mas também a igualdade e a fraternidade. É também desta forma que se honrará os nomes daqueles que em nome da liberdade perderam as vidas num ataque abjecto que nos toca a todos.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Tudo é política

Por muito que nos desagrade, por muito que tentemos ignorar, a verdade é que a política tem um impacto incontornável nas nossas vidas. Infelizmente muitos de nós preferem manter uma visão exígua da política e do seu impacto - um conceito que, amiúde, se esgota no pagamento de impostos e nos eventuais cortes de salários e pensões.
Todavia, a política é muito mais do que a carga fiscal que temos de suportar ou os cortes nos salários e pensões. A política também é a escassez de médicos; a ausência de apoios para crianças com deficiência; o acesso ao ensino; a investigação; a ciência; a sustentabilidade da segurança social; as desigualdades; o presente e o futuro; o bem comum e o bem-estar dos cidadãos.
Em rigor, tudo é política ou tudo é o resultado de escolhas políticas. Ainda assim, muitos escolhem um total afastamento da política e das decisões políticas; um afastamento que apenas beneficia quem já está confortavelmente instalado no poder e que apregoa dia após dia a inevitabilidade do fim do bem-estar social. A mudança assusta-nos e o envolvimento na salvaguarda do bem-comum - finalidade da política - não é prioridade para a esmagadora maioria de nós. Tudo nos parece bem num contexto de estranha normalidade e com a privatização do Estado assistimos ao enfraquecimento da política, sem inquietações.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vale tudo

Até pelo menos dia 25 deste mês a Grécia estará sujeita à chantagem que apenas vem envergonhar uma Europa sem rumo.
Alemanha; países como Portugal, incapazes de se livrar da canga da dívida, cujos responsáveis políticos chegam a ser mais papistas do que o papa; povos amedrontados e lançados para o obscurantismo e para a ignorância; comunicação social servil e manietada – todos estão presentes no que toca ao exercício triste da chantagem.
Vale tudo, ou quase tudo; vale tudo, menos uma vitória do Syrisa, da esquerda “radical”, enfim, dos que ousam apresentar alternativas à morte lenta a que a Europa se sujeitou. Vale tudo, menos uma vitória dos que não se calam perante as injustiças gritantes dos poderes instalados: da banca, da banca, sempre da banca.

Vale tudo menos uma vitória da democracia, isto porque o conceito minimalista de democracia que agrada aos mercados e aos seus lacaios não inclui naturalmente quem põe em causa o funcionamento terrorista desses mesmos mercados. Democracia? Só aquela que lhes interessa. Até 25 de Janeiro valerá tudo e, porém, quem sabe, a democracia dos povos pode ainda assim dar um arzinho da sua graça.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A apatia intrínseca ao “está tudo bem”

É consensual que estamos muito longe de estar bem; sabemos que está tudo, mas agimos como se estivesse tudo bem; agimos como se tudo fosse suportável; sucumbimos à apatia do está tudo bem.
De um modo geral, vivemos bem com os atropelos à democracia e a todo o género de injustiça.
As dificuldades financeiras, o sufoco causado pelos créditos só vieram agravar um estado generalizado de apatia, de sofrimento escamoteado.
De resto, essa apatia apenas encontrou o contexto ideal: uma educação que promove a passividade, desprezando a diversidade própria da democracia; uma educação e uma sociedade que promovem o individualismo, ignorando em absoluto o motor da evolução da espécie humana: a cooperação. Por outro lado, e ainda enquadrado no já referido contexto, verifica-se um desânimo que assola sobretudo aqueles que não têm ocupação e que sentem que não têm um lugar na sociedade – a vergonha de não trabalhar, de não estudar, vergonha essa que redunda amiúde na mais inexorável ausência de participação na vida colectiva. “Colectivo”: palavra conspurcada por ideologias nefastas, esquecida, ignorada, desprezada.
A televisão – peça central no mencionado contexto – nas mãos de quem pugna pela passividade, pela apatia; televisão nas mãos de quem teme que a falsa normalidade seja colocada em causa; nas mãos dos defensores indefetíveis do status quo. Com a televisão não há lugar ao pensamento crítico; tem sido como alguns já referiram um “agente pacificador” que alimenta o medo, sobretudo o medo do outro.
E finalmente, o contexto não seria bem um contexto sem o consumismo excessivo. A publicidade nefasta, defensora da uniformização e da manipulação – mentiras para alimentar a apatia reinante, arauta do individualismo que invalida o colectivo e sentimentos associados ao colectivo como o caso da solidariedade e do bem comum.
No actual estado de apatia generalizada que tomou conta das sociedades ocidentais verifica-se que a mudança tarda de facto a chegar. Ainda assim e apesar do contexto acima descrito, acredito que a mudança chegará. Um dia. No dia em que a apatia do está tudo bem for obnubilada pelo peso da realidade.