sexta-feira, 31 de maio de 2013

Eleições antecipadas

Desta feita, a sugestão é de Alfredo José de Sousa, Provedor de Justiça, que utiliza a expressão "refrescamento na situação política".
O desejo de novas eleições começa a ser transversal a toda a sociedade portuguesa. Ontem teve lugar mais uma iniciativa - Conferência "Libertar Portugal da Austeridade - em que as críticas e descontentamento deram o mote. Mário Soares recebeu mesmo uma carta de Pacheco Pereira com este a manifestar o seu apoio à iniciativa enquanto tecia severas críticas ao Governo.
Amanhã, dia 1, espera-se que os Portugueses se manifestem em várias cidades portuguesas, num protesto internacional.
O descontentamento e o anseio por eleições antecipadas é generalizado.
Todavia, e apesar dos desejos do pai de Passos Coelho, este e o seu séquito mantêm-se irredutíveis. Afinal de contas, o trabalho ainda não está todo feito: o processo de venda do país aos pedaços ainda não está concluído; a destruição do Estado Social ainda não é suficiente; a desvalorização salarial ainda pode ir mais longe; os Portugueses ainda podem ser mais pobres.
O apoio de Cavaco Silva, alheio aos anseios do país, é determinante para o actual estado de coisas e será essencial para o futuro ainda mais negro que se avizinha: mais défice, uma dívida sem precedentes e pobreza, ainda mais pobreza.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A culpa é do outro

Vítor Gaspar, no mesmo dia em que a OCDE divulgou números trágicos para o futuro da economia portuguesa, volta a insistir na tese de que a culpa não é sua, mas sim do PS que negociou mal o memorando de entendimento. O tal memorando que já conheceu uma infinidade de versões. É curioso verificar que sobre as palavras de Lobo Xavier, proeminente membro do CDS, em que é dito que o PSD e o CDS fizeram pressão para que se aceitasse a solução troika, mesmo contra os desejos alemães, nem uma palavra. É também curioso verificar que sobre os incessantes erros nas previsões do Governo português, nem uma palavra.
A culpa é do PS. Dois anos volvidos, eleições, novas versões do memorando, expressões como "ir mais longe do que a troika", erros crassos nas previsões, afundamento do país, empobrecimento dos portugueses, a tentativa de se aniquilar o futuro do país - sobre estas matérias, o silêncio.
Dia 1 de Junho haverá mais uma oportunidade a não perder para mostrar o que há limites e que estes já foram há muito ultrapassados.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A banca

Em 2008 rebentou a crise do subprime, revelando toda a voracidade da banca e do sistema financeiro. Essa crise, apesar de tantos momentos periclitantes, com o dinheiro dos contribuintes e com a coadjuvação de políticos, foi esquecida.
Passou-se então a discutir as crises soberanas com intervenções atabalhoadas e injustas sobre Estados que fizeram uma má escolha: a moeda única.
Hoje, fica na memória a crise soberana, a outra - a da banca - já foi convenientemente esquecida.
A banca envolvida nos negócios ruinosos dos Estados, resgatada por esses mesmos Estados, apostada no lucro fácil - um lucro que nunca chega para satisfazer a sua voracidade, continua a comportar-se como dona e senhora dos países. E como se isso não bastasse, e no caso concreto português, alguns dos seus administradores e presidentes não se coíbem de nos impingir um falso moralismo, infectado pelo preconceito, pela ignorância e pelo egoísmo. Primeiro foi o presidente do BPI, agora foi a vez do senhor do BES a relembrar os Portugueses que estes não querem trabalhar, mas antes preferem viver de subsídios. O registo é próprio do interior de qualquer táxi.
Por último, a mesma banca, usuária e dirigida por gente sem vergonha, nada faz pela economia real. O investimento é nulo - a culpa é dos políticos, respondem os senhores da banca. Errado, a culpa também é da banca habituada a negócios que garantiam rendas apelativas, recusa agora riscos quando o retorno nunca lhes garantirá o nível das tais rendas.
Ora, exposto isto, resta dizer que a banca, nos actuais moldes, é inútil e incrivelmente dispendiosa.
Assim sendo, não se encontram razões objectivas para que a banca, em Portugal e não só, continue a ser privada. De facto, não chega nacionalizar apenas os prejuízos.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Epítetos

Apesar de na passada sexta-feira, a Assembleia da República ter sido o palco de mais um debate quinzenal com participação do primeiro-ministro, a actualidade ficou marcada pelo facto de Miguel Sousa Tavares ter chamado "palhaço" ao Presidente da República e por este ter apresentado queixa ao ministério público.
Miguel Sousa Tavares já reconheceu publicamente ter-se excedido, o que deveria ser suficiente para pôr um ponto final na conversa, mesmo se tratando de Sua Excelência o Presidente da República.
Esta guerra de epítetos mais não serve do que desviar a atenção dos assuntos que são verdadeiramente importantes e decisivos para a nossa vida colectiva.
De resto, a história dos epítetos serve na perfeição um Presidente da República que tem apenas uma determinação: a manutenção do Governo a todo o custo.
Assim, a conversa sobre "palhaços" e queixas ao ministério público permite aliviar a pressão que recai sobre Cavaco Silva. É preferível perder-se tempo com "palhaçadas" do que com a discussão de assuntos sérios que implicam determinação da mais alta figura do Estado

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Crescimento, competitividade e emprego


É este o tema do debate quinzenal a ter lugar na Assembleia da República. O Governo irá munido de um superpacote fiscal de apoio ao investimento que beneficiará escassas empresas - exportadoras - as que ainda podem investir. Uma medida aliás anunciada há algumas semanas.
É num país que soçobra à força da austeridade que o Governo se mostra disposto a apoiar o crescimento e o emprego. Resta saber como é que se procederá ao milagre de conciliar austeridade em doses cavalares e crescimento real da economia - um crescimento transversal, que não deixe de fora os do costume.
Enquanto se fala de investimento, crescimento, competitividade e afins, o empobrecimento segue o seu rumo. O Governo, na pessoa de Passos Coelho e Vítor Gaspar, é um indefectível defensor de cortes nas pensões, num país em que quase 90 por cento dos pensionistas da Segurança Social recebem menos de 500 euros por mês; e na Caixa Geral de Aposentações (pouco mais 400 mil pensionistas) nem um por cento recebe mais de 3000 euros mês.
É no anódino suporte de tantos desempregados - os pais e avós -, muitos que já não recebem qualquer subsídio, que o Governo quer atacar.
Nos juros que o país paga por uma dívida opaca, ninguém toca; nas isenções fiscais cujo peso no orçamento de Estado surpreende, também não.
As transferências milionários de dinheiro para a banca faz escola em Portugal; a palavra renegociação contém em si mesma um anátema.
O empobrecimento vai fazendo o seu caminho, com o desemprego, a desvalorização salarial, a precariedade, os cortes nas pensões e a destruição do Estado Social. No Parlamento, fala-se de competitividade, crescimento e emprego. As incompatibilidades são uma evidência. Só não vê quem não quer.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Vítor Gaspar quando confraterniza com o ministro alemão das Finanças ou com membros do Banco Central Europeu (BCE) mostra-se invariavelmente entusiasmado (ainda assim um entusiasmo inopinado, quase inumano),
Ontem assistimos a esse entusiasmo, inundado por sorrisos e até por alguma excitação, quando o ministro das Finanças português se encontrou com o seu congénere alemão, a propósito do apoio de um banco público alemão às empresas portuguesas.
Wolfgang Schäuble, o inefável ministro alemão, tem manifesto interesse em fazer de Portugal, nem que seja à força, o bom exemplo de uma Europa à beira da desintegração. As eleições alemãs aproximam-se e Angela Merkel, naturalmente coadjuvada pelo seu Executivo, precisa de bons exemplos, de bons alunos, mostrando aos eleitores alemães que as receitas por si preconizadas são profícuas. Vítor Gaspar mais não faz do se que prestar a essa ridícula figura, ainda para mais com redobrado entusiasmo.
Por cá, tudo soçobra: o desemprego atinge números insustentáveis, a economia conhece uma recessão sem precedentes, o empobrecimento grassa.
Mas Gaspar, obnubilado por uma ideologia caduca, mostra uma inusitada excitação sempre que regressamos aos mercados ou quando se encontra com o inefável ministro alemão das Finanças, alheio ao que por cá se passa e, porque não dizê-lo, alheio à triste figura a que se presta.
Seja como for, bom filho à casa torna, e Gaspar regressará à casa que tanto gosta - ao BCE. Não querendo com esta afirmação contraria o oráculo Marques Mendes que profetiza um cargo de comissão para o também inefável (é difícil encontrar adjectivos para descrever o ministro das Finanças) Vítor Gaspar.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Os desabafos de um pai

Em entrevista ao jornal I, o pai de Pedro Passos Coelho, sublinha ter avisado o filho para os perigos da política e que "vão fazer uma festa quando ele se livrar disto" e que o seu próprio filho "está morto por se livrar disto". A manchete do I é apelativa "Pai de Passos aconselha filho a demitir-se", acrescentando - palavras do pai: "isto não tem conserto, entrega isto".
Não me parece que as palavras do pai de Passos Coelho mereçam grandes comentários, afinal de contas trata-se do pai e há mais emotividade nas palavras do progenitor do que racionalidade.
Seja como for, espera-se que o filho siga os conselhos do pai: demita-se. Entregue isto. O que for. Mas que se demita.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Conselho de Estado

Do Conselho de Estado de ontem, cuja finalidade era a discussão sobre o pós-troika, saiu a seguinte conclusão: é necessário promover o "adequado equilíbrio entre disciplina financeira, solidariedade e estímulo à actividade económica” no contexto europeu.
Depois de sete horas de reunião, a conclusão é singela: a solução dos nossos problemas é indissociável da Europa. É imprescindível uma união entre consolidação das contas públicas, solidariedade e crescimento económico. E é ainda essencial empreender-se um sério combate ao desemprego.
No que diz respeito às questões internas, nem uma palavra. Pelo menos a julgar pelo comunicado, embora alguns órgãos de comunicação social avancem outros assuntos - incluindo a queda do Governo - alegadamente bloqueados pelo Presidente.
Ora, sendo certo que o nosso destino é indissociável do destino europeu, também não é menos verdade que o rumo político interno é também decisivo. Nesse aspecto particular, a capacidade/vontade de adoptar outras políticas é invalidada por uma cegueira ideológica, que afecta sobretudo o ministro das Finanças. Sobre esta matéria, sobre a crise na coligação ou sobre as consequências de políticas que apenas promovem a miséria, nem uma palavra.
O Presidente da República, num misto de pusilanimidade, inépcia e malícia, tudo fará para que o Governo se mantenha em funções.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Denunciar ou renegociar acordo com a troika

Confesso não ter propensão para comentar resultados de sondagens, mas o estudo da Eurosondagem para o Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa merece um comentário.
A conclusão é clara: perto de 80 por cento dos inquiridos defende que "Portugal deveria renegociar profundamente com a Troika ou denunciar o memorando".
Os números são expressivos e, paradoxalmente, não se coadunam com outras sondagens que indicam intenções de votos. Ou seja, 41 ,5 por cento dos inquiridos defendem a denúncia do memorando, mas quando olhamos para sondagens sobre intenções de votos, percebemos que os partidos que defendem a denúncia do memorando estão longe de alcançar resultados tão expressivos.
Ainda assim, conclui-se que não há um apoio dos cidadãos ao memorando (s) que o Governo tão diligentemente pretende aplicar.
Por outro lado, a mesma sondagem indica que 47,8 por cento dos inquiridos mostra o seu desagrado com a assinatura do memorando.
Curiosamente, Lobo Xavier, proeminente membro do CDS, afirmou que o que levou à assinatura do memorando foram as pressões exercidas por PSD e por CDS e que a própria Alemanha não se mostrava interessada nessa solução. Grave, muito grave.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

As preocupações de Hollande

Um ano depois de ter sido eleito, e com a situação económica do país a agravar-se, o Presidente Francês, François Hollande, manifesta as suas preocupações com o rumo da Europa, sugerindo a criação de um governo económico europeu.
Com efeito, a economia francesa está a atravessar momentos de particular dificuldade. Os últimos dados dão indicação de que a economia francesa está em recessão, a taxa de desemprego já ultrapassa os dez por cento.
François Hollande sabe que uma recuperação da economia francesa é indissociável da própria Europa, sobretudo dos países que compõem a zona euro. Nesse sentido, Hollande sugere a criação do governo económico europeu que implicasse uma coordenação das políticas económicas, ignorando talvez que o problema não passa pela coordenação propriamente dita, mas essencialmente pela natureza das políticas; sugere ainda um plano para combater o desemprego jovem; e ainda a aposta numa estratégia de investimento.
Ora, todas estas questões fogem do essencial - a natureza das políticas económicas europeias, assentes no regime intergovernamental; assentes nas assimetrias cada vez mais gritantes entre Estados-membros e, sobretudo, assentes num Banco Central com poderes reduzidos, aparentemente independente, mas com inspirações alemãs.
De resto, sem uma mudança na filosofia do BCE (passando a ser independente sim, mas dos mercados); sem um orçamento comunitário digno desse nome; sem um banco de investimento, longe da configuração do BEI; sem um combate sério às assimetrias sociais entre Estados-membros; sem apoios ao investimento e à inovação; sem o regresso aos princípios de solidariedade que norteiam o projecto europeu; e, claro está, sem uma união política, os planos de Hollande são mais do mesmo, não resolvendo o essencial.
Resta dizer que a França perde terreno do ponto de vista económico, tal como perde terreno do ponto de vista da política europeia. Hoje é indiscutível que o eixo franco-alemão não tem a mesma força do passado recente, dando antes lugar à hegemonia alemã.
A situação francesa, a par da europeia, vai piorar se se insistir neste rumo político-económico. Todavia, as implicações da deterioração da economia francesa, com todas as consequências sociais associadas, terão outra magnitude, comparativamente com o que temos visto nos países que estão a ser alvo de intervenção e naqueles que, embora ainda não se encontrem sob a alçada da intervenção externa, atravessam dificuldades.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Alemanha contra austeridade

Depois da destruição social de vários países europeus, a começar na Grécia e a acabar ainda não se sabe muito bem onde, vários responsáveis alemães criticam agora as receitas de austeridade que têm sido impostas a países como Portugal, Grécia, Irlanda, Chipre e até certo ponto em Espanha.
Ora estas críticas são estranhas, em particular as que se dirigem ao Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, quando o Presidente amiúde critica as mesmas medidas de austeridade.
Ou os responsáveis alemães não têm ouvido a Chanceler alemã, o ministro das Finanças alemão e outros responsáveis governativos, ou entrámos no domínio do surreal.
Não deixa de ser curioso as mesmas críticas coincidirem com dados que mostram um crescimento anódino da economia alemã, rodeada por economias deprimidas. Facto que terá surpreendido os analistas.
Outro elemento a ter em conta prende-se com o período eleitoral que se avizinha. O fraco crescimento económico da Alemanha não é uma boa notícia para Merkel. A este propósito importa não esquecer que apesar de alguma viragem nos interesses económicos alemães, a verdade é que a Europa continua a ser um mercado decisivo para as suas exportações e o arrefecimento económico de vários países da UE, sobretudo aqueles que compõem a zona euro, não pode ser um bom presságio para a Alemanha.
De um modo geral, estas críticas extemporâneas chegam tarde e de um país que tem sido o mais fervoroso adepto da austeridade em doses cavalares.
O enfraquecimento da Europa corresponderá sempre a um enfraquecimento da própria Alemanha. Talvez agora se comece a perceber essa inevitabilidade.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Inspirações

Cavaco Silva congratulou-se com o fim da sétima avaliação da troika, referindo-se a uma inspiração de Nossa Senhora da Fátima, pelo 13 de Maio.
Confesso que senti a necessidade de verificar, por mais do que uma vez, se não estava a ler a notícia no "Inimigo Público" do jornal "Público". E não, não se tratava do "Inimigo Público", mas sim de uma fonte não satírica. O Presidente da República fez mesmo as afirmações acima referidas.
Foi por ocasião de uma entrega de prémios que o Presidente da República nos brindou com a dita inspiração.
Um dia depois, o inefável ministro das Finanças apresenta o livro ""Desta vez é diferente, Oito séculos de loucura financeira", obra de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff", os tais economistas responsáveis pelo polémico estudo - que tantas decisões políticas influenciou - sobre o impacto da dívida pública no crescimento, estudo entretanto descredibilizado. Vítor Gaspar é também responsável pelo prefácio do livro publicado pela Almedina. E não, esta também não é uma notícia do mesmo jornal de humor satírico "Inimigo Público".

terça-feira, 14 de maio de 2013

Pós-Troika

No auge da polémica em torno das penalizações das reformas e pensões, a Presidência da República anuncia a convocação de um Conselho de Estado. O tema? “Perspectivas da Economia Portuguesa no Pós-Troika, no Quadro de uma União Económica e Monetária Efectiva e Aprofundada”.
Não, não se trata de uma piada e até se consegue vislumbrar algum sentido num tema aparentemente sem sentido. Note-se que a discussão sobre o pós-Troika tem o dom de lembrar os cidadãos que vai haver um pós-Troika; dito por outras palavras, esta discussão passa a ideia de que os sacrifícios do presente serão compensados no futuro, isto porque um dia eles vão embora.
Deste modo, o Presidente da República - o promotor da discussão - procura aliviar a pressão do presente com promessas de futuro; com a promessa de um país pós-Troika.
É evidente que a aparente extemporaneidade da discussão é alvo de crítica, mas a verdade é que o Presidente da República está a ser fiel a ele próprio: ao convocar este Conselho de Estado, no auge da polémica em torno da coligação, desvia as atenções do essencial, ao mesmo tempo que relembra as pessoas que haverá um país depois da Troika. O que restar de um país.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cisma grisalho III

Como é que ficou o cisma grisalho de Portas, depois do CDS ter aprovado "excepcionalmente" taxa sobre pensões?
Diz-se que a medida é facultativa e só entrará em vigor caso o Governo não encontre soluções alternativas. Diz-se.
O facto é que o cisma grisalho de Portas sai reforçado paradoxalmente por ele próprio. Recorde-se que num domingo Portas manifesta-se, em comunicação ao país, contra mais ataques aos pensionistas, e no domingo seguinte aprova, "excepcionalmente" uma taxa sobre pensões. Se o caso não fosse tão sério até daria para rir.
A desculpa de Portas passará pelo carácter facultativo na medida. Num bom jogo de retórica, dir-se-á que Portas conseguiu defender os reformados e pensionistas. Podia ter sido pior. Pode sempre ser pior. A ver vamos se a medida não será de facto levada a avante, sobretudo quando se verificar que não é possível cortar na despesa para compensar a não aplicação da medida.
Portas ficou mal na fotografia; o Governo fica mal da fotografia. Um dos oráculos de domingo (o mais antigo) diz que o Governo é "fraquinho, fraquinho, fraquinho" e que "já não é levado a sério por ninguém".

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Cisma grisalho II


O ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, Luís Marques Guedes, afirmou ontem que as declarações do secretário de Estado da Administração Pública sobre a retroactividade da diminuição das pensões se insere "no plano das hipóteses".
Assim, voltamos ao "cisma grisalho" denunciado por Paulo Portas - no campo das hipóteses, mantém-se o "cisma grisalho".
Paralelamente ao "cisma" denunciado por Paulo Portas, coloca-se a questão da constitucionalidade da medida. Será que o Governo vai insistir na aplicação de políticas inconstitucionais? Se o fizer, sobram poucos adjectivos para além de "incompetente".
E o cisma de Portas? Esse cisma pode muito bem ser a gota de água; de facto, não se pode excluir a forte possibilidade de ser o tal "cisma" a deitar por terra a coligação. Pode ser que Paulo Portas, finalmente, acabe por apostar numa consonância entre o que diz e o que faz. Eleições, a quanto obrigas?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cisma grisalho


Paulo Portas, no passado domingo, afirmou que não queria que em Portugal se instalasse uma "espécie de cisma grisalho", demonstrando assim estar contra mais cortes nas pensões. Escassos dias depois, o secretário de Estado da Administração Pública, insiste na possibilidade de se proceder a alterações na fórmula de cálculo das pensões - espante-se! - com efeitos retroactivos.
Assim, o cisma grisalho tão criticado por Portas continua a fazer o seu caminho. Esperamos pelas reacções do líder do CDS que, numa tentativa de voltar a cativar boa parte do seu eleitorado, criticou mais cortes nas pensões e nas reformas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Acossados

A história dos acossados do Sul da Europa conta-se em poucas linhas. A União Europeia prometia atenuar as assimetrias sociais e económicas entre Estados-membros, como parte integrante do projecto europeu. Para atingir esse pretenso objectivo, os países do sul - longe de conhecerem os níveis de desenvolvimento dos países do centro e do norte da Europa - receberam apoios comunitários. Em simultâneo acentuou-se a desindustrialização, agrava-se a iniquidade das políticas agrícolas e de pescas.
Primeiro Maastricht, depois a União Económica e Monetária e o euro. Taxas de juros baixas, ilusões, consolidação de um mercado no sul da Europa para escoar os produtos do centro e norte. Pelo caminho, a banca que tudo financiou, regozijava.
Os mercados - essa panaceia - e o Banco Central Europeu, uma relação favorável para uma ínfima minoria.
A Alemanha. Hoje já ninguém fala do tão famigerado eixo franco-alemão. A Alemanha consolida a sua hegemonia económica e política.
O sistema intergovernamental, versus o federalismo. Por ora prefere-se o sistema intergovernamental que na prática se traduz num exercício constante de poder por parte de um país.
A crise, primeiro dos bancos, depois dos países. Esquece-se a origem, aplicam-se políticas económicas duras nos países que se portaram mal.
A culpa. Os processos de culpabilização. Os países do sul viveram acima das suas possibilidades.
A revolta. Comedida, controlada, cantada em alguns casos. Se as mesmas políticas fossem aplicadas nos países do centro e do norte da Europa teríamos "uma rebelião social". As palavras não são minhas - uma humilde cidadã europeia (ou da Europa do sul?); as palavras são de Jean-Claude Juncker.
Com efeito, se os acossados vivessem no norte da Europa, a história deste continente seria seguramente outra. Ou talvez os acossados do sul ainda venham a mostrar que a história do velho continente pode ainda ser outra.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Eleições, a quanto obrigas

Paulo Portas conseguiu sair quase ileso dos efeitos do anúncio de sexta-feira de Pedro Passos Coelho.
É escusado recordar que na passada sexta-feira, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho voltou a anunciar medidas de austeridade, com especial impacto nos funcionários públicos e pensionistas.
Paulo Portas, parceiro de coligação, reagiu 48 horas depois. No domingo, Paulo Portas mostrou a sua perícia, conseguindo transformar um partido aparentemente demasiado comprometido com as políticas anunciadas por Passos Coelho, num partido que não esquece as pessoas e Paulo Portas é exímio em mostrar que não esquece as pessoas. No passado domingo, o líder do CDS fez aquilo que faz melhor. Mostrou ser um indefectível defensor dos pensionistas e reformados, manifestando o seu total desagrado com políticas que afectem este sector da sociedade.
A razão para esta defesa é, em larga medida, evidente. O CDS corre o risco de erosão e, em última instância, arrisca-se a desaparecer caso este segmento do eleitorado se afaste do partido.
As autárquicas estão à porta e não se pode excluir a possibilidade de novas eleições legislativas antes do tempo previsto. As eleições, as previstas e as imprevistas, obrigam o líder do CDS a afastar-se (embora ainda muito longe do que seria desejável) do PSD.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O que dizer de mais austeridade?

O primeiro-ministro voltou a brindar o país com mais medidas de austeridade, visando novamente funcionários públicos e pensionistas. Todo o discurso de Pedro Passos Coelho voltou a assentar na divisão. A ideia é invariavelmente a mesma: tentativa de aproximar público do privado; tentativa de uniformizar; tentativa de aproximar um sistema a outro. Aparentemente são medidas de justiça.
O anterior primeiro-ministro e outros antes dele utilizaram o mesmo recurso: dividir para reinar, passando a mensagem que deste modo se acabará com as injustiças.
De qualquer forma, o primeiro-ministro limitou-se a fazer o mesmo de sempre: anunciar mais austeridade, isto não obstante os maus resultados até hoje obtidos; não obstante todos os casos de insucesso. Com efeito, já não há muito mais a dizer sobre uma política que tem destruído o país e nada mais.
O parceiro de coligação, Paulo Portas, critica as medidas que atingem os reformados e pensionistas e encontrou uma frase que contém em si a palavra "grisalho" para descrever políticas negras. Paulo Portas não se  pode dar ao luxo de desiludir ainda mais o seu eleitorado.
O que dizer de mais austeridade? Não mais do que aquilo que já se sabe: este Governo está empenhado em fragilizar todas as funções do Estado; este Governo está comprometido com o empobrecimento; este Governo está comprometido com o sector financeiro, as grandes empresas e com os interesses do núcleo duro de Bruxelas.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A receita

A receita de austeridade falhou. O Governo insiste na aplicação de medidas de austeridade em doses cada vez maiores. Desta feita, caminha-se para o maior corte jamais feito na despesa social, no sentido de corrigir os erros do Governo: os erros nas previsões; os erros subjacentes à inconstitucionalidade das medidas orçamentais; os erros resultantes de negociações bacocas e tristes com as instâncias internacionais.
A receita, todavia, serve os intentos de um Governo que pretende mudar a face do país, despindo-o de apoio social. O alvo é o Estado Social e esse, graças a uma crise que se agudiza, vai conhecendo o seu fim.
As medidas em concreto ainda não são conhecidas. Depois da comemoração do 25 de Abril e do 1º de Maio serão anunciadas. Cortes no Estado Social, mais desemprego, mais precariedade, mais miséria - o resultado de mais austeridade, em mais um exercício de sadismo que merece ser veementemente combatido.