quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Vender a alma ao Diabo

Manuela Ferreira Leite,  incapaz de esconder a excitação pela eleição de Rui Rio, sublinhou a possibilidade do seu partido poder "vender a alma ao Diabo" com o intuito de afastar o PS e a esquerda do poder. "Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao Diabo, exclusivamente com o objectivo de pôr a direita na rua, acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao Diabo para pôr a esquerda na rua". Ora, depois de tanta sapiência aliada a uma loquacidade inaudita, coloca-se a seguinte questão: como é que Manuela Ferreira Leite vê o Diabo vender a alma (se é que a tem) a outro Diabo? Será esta uma nova versão da lenda de Fausto, uma versão desencantada lá para os lados da São Caetano?
Compreende-se o entusiasmo de todos aqueles que abominaram os anos de Pedro Passos Coelho, precisamente agora que ainda líder do PSD se prepara para fazer parte do passado e depois do seu séquito apoiar o candidato derrotado, Pedro Santana Lopes. Compreende-se o entusiasmo dos arautos do bloco central, seja pelo acesso ao poder, seja pelos singelos negócios. Mas ainda assim espera-se alguma calma e sobretudo racionalidade. É que pedir impossibilidades como esta apregoada por Ferreira Leite do Diabo vender a sua alma (?) ao Diabo, talvez a outro Diabo é simplesmente ridículo.
Por outro lado, resta saber se haverá vontade, por parte deste PS liderado por Costa, de se unir com o PSD, sobretudo tendo em conta que esse género de união tem sido uma verdadeira sentença de morte para quase todos os partidos socialistas e sociais democratas da Europa. Mas isso pouco interessa a Manuela Ferreira Leite e a outros entusiastas pela nova situação do PSD, de resto vale tudo, até pugnar para que o Diabo (PSD) venda a sua alma (?) a outro Diabo (PS), seja lá isso o que for. Vale tudo para regressar ao poder e aos negócios.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Alguém está a preparar a despedida?

Pedro Passos Coelho que já tinha avançado que sairia da liderança do PSD, volta a partir corações, desta feita com o anúncio de que abandonará também o Parlamento. Resta saber se já haverá quem esteja a preparar a despedida.
Pesaroso com o facto de não ter chegado a um segundo mandato, isto porque a democracia funciona, o ainda líder do PSD mostrou-se invariavelmente incapaz de ultrapassar a sua condição: líder do PSD e deputado.
Depois de ter contribuído decisivamente para a vinda da troika - facto convenientemente esquecido -, Passos Coelho escolheu o pior dos caminhos: uma austeridade que postulou sacrifícios incomensuráveis para trabalhadores e pensionistas e o recrudescimento de potenciais negócios, numa espécie de eldorado para as empresas e suspeitos do costume.
Agora confrontado com a dura realidade (fora do Governo e na sombra dos sucessos do actual Executivo) Passos Coelho sai de cena, uma verdadeira inevitabilidade, sem no entanto fechar definitivamente a porta da política, infelizmente.
Dir-se-á que, à semelhança de outros que também passaram pela política, rapidamente esqueceremos Passos Coelho. Talvez não. Na verdade o país ainda hoje está a pagar a factura das suas políticas, seja com a destruição dos serviços públicos, seja com as privatizações. Passos Coelho partilha com José Sócrates uma característica: ambos são difíceis de esquecer porque as suas acções ainda habitam o presente.
Seja como for, a questão mais premente permanece: estará alguém a preparar a despedida de Passos Coelho? Existem razões que justificam a uma festa... de despedida, mas ainda assim uma festa.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Eleições no PSD

As eleições no PSD, tendo em conta os candidatos, resultam em muito pouco, ou seja quase nada. Rui Rio venceu sem surpresa as eleições. De resto, as sondagens indicavam invariavelmente a vitória do ex-Presidente da Câmara do Porto. E o que é que Rui Rio trará de novo ao partido? A ideia de um bloco central volta a ganhar força, dando particular ânimo aos negócios, ficando no entanto por se saber se a outra parte alguma vez estará disponível para voltar a dançar o tango com o PSD. Esta é a grande diferença que Rui Rio acarreta, sobretudo quando Passos Coelho e Santana Lopes recusaram essa possibilidade.
Internamente, a vida dos órfãos de Passos Coelho complica-se. Contrariamente a Santana Lopes, Rio começou, ainda antes de se saber o resultado das eleições, a enviar recados para o partido, designadamente depois de Relvas ter falado. Recorde-se que Passos Coelho era pai e Relvas mãe – ultimamente ausente, mas ainda assim mãe.
No cômputo geral, estas são as novidades que Rio traz. Porém, a mediocridade, a ausência de ideias e um vazio incomensurável, o que também ajuda e promove a ideia de um bloco central, estão lá, a par da insídia, da imagem austera que ainda tanto agrada a um certo Portugal e de um novo potencial para os negócios que vivem do Estado, deixando as migalhas do costume para quem se aproxima.
Mas nem tudo é pouco ou má notícia. Agora inicia-se um novo ciclo sem Passos Coelho. E essa é indiscutivelmente a melhor notícia dos últimos tempos.





sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Trump - o rei que transforma tudo em merda

Quem esperava o Rei Midas desengane-se, aparentemente o melhor que os americanos conseguiram arranjar foi alguém que orgulhosamente transforma tudo o que toca em merda - o Rei Trump, não num contexto mitológico, mas num pesadelo sem precedentes. 
Vem isto a propósito de mais um exemplo do que acima foi explanado e desta vez num episódio que inclui a palavra "merda", ou melhor "países de merda" (shitholes), mais concretamente: "Porque razão temos todos estas pessoas de países de merda a virem para aqui?". O Presidente americano referia-se a países como o Haiti, Salvador e países africanos, dando igualmente conta da sua preferência por noruegueses. A frase, acompanhada por outras pérolas como "para que é que queremos haitianos aqui?" ou "Para que é que queremos estas pessoas de África aqui?", foi proferida numa reunião na Casa Branca, na qual dois senadores apresentaram ao Presidente um projecto de lei migratório para a concessão de vistos a alguns cidadãos oriundos de países retirados do Estatuto de Protecção Temporária.
Curiosamente, discute-se por estes dias o estado da saúde mental do Presidente americano. Não sei se Trump está senil ou se se trata apenas de alguém com especial atracção pela idiotia, mas o facto é que, contrariamente a Midas que transformava em ouro tudo o que tocava, Trump transforma orgulhosamente em merda tudo o que toca e, se lhe for permitido, acabará o seu mandato deixando todo um país atolado em merda.

PSD: um debate decisivo

Seria suposto tratar-se de um debate decisivo aquele que teve lugar nos estúdios da TVI, no dia 10. Não terá sido o caso, tratou-se, ao invés, de um debate que nada acrescentou porque nada existe a acrescentar, existe apenas vazio de conteúdo, de ideias, de projectos, de futuro com ambos candidatos presos ao passado por não terem qualquer espécie de futuro para oferecer.
Santana Lopes cola-se o mais que pode a Passos Coelho (está a contar com a orfandade do ainda Presidente do partido para ganhar as eleições) procurando escamotear um passado pejado de falhanços, não se livrando, por muito que tente, de uma certa aura de chico-espertismo. 
Rui Rio quer parecer sério, credível, em inexorável oposição ao seu adversário, posicionado menos à direita, mas resta também o vazio que partilha com Santana, a par de uma certa artificialidade. Rio tenta sobretudo parecer mais sério do que Santana, o que, sejamos realistas, não é particularmente difícil.
Ambos querem ter a orfandade de Passos Coelho do seu lado; ambos sabem que os órfãos daquela espécie de neoliberal pode ser decisiva; ambos chegaram ao ponto de tratar Passos Coelho, o tal neoliberal de pacotilha, como uma espécie de herói nacional - isto para se ter ideia do quão a orfandade do ainda líder do partido é apetecível.
Mas e um projecto alternativo? Falou-se de reorganização administrativa do território, saúde e segurança (sem quaisquer propostas), crescimento económico (discussão meramente semântica), políticas sociais (concretamente? nenhuma). Em resumo, uma manifesta pobreza de conteúdo.
De um modo geral não existem muitas diferenças entre os candidatos, embora exista uma que salta à vista: com Rui Rio vencedor manter-se-á a sigla PSD; com Santana Lopes teremos que nos habituar à exasperante sigla PPD/PSD. E quanto a diferenças dignas de registo, estamos verdadeiramente conversados.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Desinvestimento na Saúde

Depois de anos de desinvestimento no Sistema Nacional de Saúde, por imposição externa e por se tratar de uma área particularmente apetecível para os negócios, o actual governo socialista, apoiado pelos partidos à sua esquerda, não tem vindo a repor o que foi retirado. O resultado não pode propriamente surpreender: listas de espera que continuam a ser um problema, quer para consultas, quer para intervenções cirúrgicas; serviços de urgência atolados, mais ainda no pico da gripe; displicência no que diz respeito a determinadas áreas da saúde, designadamente na saúde mental; incapacidade de resposta a doenças prolongadas e cuidados paliativos. É também neste contexto que surgem imagens de serviços de urgência repletos de gente em agonia ou até de recepções de hospitais onde são despejados doentes. 
No entanto, e apesar de importância das imagens sobretudo para um debate que já deveria ter acontecido, desenganem-se aqueles que consideram serem estes actos louváveis, sem quaisquer objectivo político, concretamente de quem promove as denúncias. Ainda assim, as imagens não deixam de tocar no essencial: quem entra num hospital corre o risco de deixar a sua dignidade à porta.
O Partido Socialista está por detrás da criação do Sistema Nacional de Saúde, ou seja tem responsabilidade acrescida e o dever moral de zelar pelo SNS e pela dignidade dos utentes. Os partidos à sua esquerda, desde logo por imperativos ideológicos, não podem baixar os braços neste particular.
Existe, porém, questões que são indissociáveis do investimento necessário no SNS: a dívida pública, os juros, as imposições externas, restando saber até que ponto será possível cumprir as imposições externas e repor o investimento no SNS, retirando, claro está, margem de lucro a quem ganha com a degradação dos serviços de saúde pública.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

PSD e o fetiche Bloco Central

A escassos dias das eleições para a liderança, o PSD é um partido à procura do seu lugar, num contexto onde o espaço já foi consideravelmente mais relevante. É também nesse sentido que se discute acordos com o PS, numa espécie de fetichismo difícil de disfarçar. Rui Rio mostra-se aberto a essa possibilidade; Santana Lopes não, afiançando não se tratar de uma "embirração pessoal", e avançando mesmo uma teoria para dar consistência à sua posição: trata-se afinal de um erro, "se os dois principais partidos vão para o governo quem é que fica de fora? Os extremos do sistema". São frases como esta que dão origem a anos de descodificação e eventualmente a novas teorias no âmbito da ciência política.
Agora um pouco mais a sério, os candidatos que concorrem pela liderança do PSD adoptam posições diferentes, pelo menos no que diz respeito a uma eventual reedição do Bloco Central. Na prática Santana Lopes procura apenas agradar à orfandade de Passos Coelho, situada à direita e com manifestas alergias a tudo o que cheire a esquerda.
É claro que fora desta equação ficam de fora os interessados sem os quais não haverá sequer uma ínfima possibilidade de reedição do tal Bloco Central, concretamente o PS que encontrou uma solução governativa que deixou de fora o PSD, com os bons resultados conhecidos. O que levaria o PS a entender-se com o PSD? O falhanço de entendimentos à esquerda? A pressão dos negócios? O Presidente da República? São todas possibilidades que só se concretizarão, alegadamente, se Rio vencer as eleições internas. Ou se Santana Lopes mudar de ideias e de teoria, coisa que não seria propriamente inédita.