quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Inexplicável

É desta forma que o ministro da Economia, António Pires de Lima, qualifica o caso BES. Diz o ministro que se trata de uma situação inexplicável para os investidores e para o próprio Pires de Lima. Inexplicável, para Pires de Lima, também é o caso do chico-espertismo da PT.
O caso será inexplicável para quem acredita no funcionamento do sistema financeiro e nas parcas formas de supervisão. É inexplicável para quem esqueceu a origem da crise e as similitudes entre o sistema financeiro e organizações de natureza criminosa.
O caso BES será inexplicável para o ministro da Economia, mas tem uma várias explicações: uma voracidade inesgotável, presunção, elitismo, promiscuidade entre poder financeiro e poder político (veja-se o cadastro do BES nos últimos dez anos, não havia negócio escabroso e opaco em Portugal que não tivesse o cunho do banco), ineficácia da regulação, de um sector que está há largos anos fora de controlo. O caso BES é mais um, apenas isso.
De resto, estamos longe de vislumbrar as consequências de mais este desastre da banca. Mas podemos especular – também podemos especular: despedimentos em massa, desde logo no Grupo Espírito Santo; contágio a outros bancos, como se vê pelo comportamento desses bancos em bolsa e por novas suspensões de venda de acções, enfraquecimento da credibilidade externa, no que diz respeito aos investidores; credibilidade essa tão cara ao nosso Governo, etc.
Os principais responsáveis do Governo, sobretudo aqueles que não estão a banhos, garantem que vai correr tudo bem. Inexplicável é ainda alguém acreditar nisso.

quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

Sem risco

A frase mais repetida nos últimos dias. Depois de outras frases terem sido regurgitadas pelos mais ilustres representantes políticos e pelo Governador do Banco de Portugal: "O BES é sólido"; "O Estado não vai intervir no BES"; ou ainda "uma coisa é o BES, outra é o GES". Nunca é demais repetir que quem proferiu estas frases, garantindo que estava tudo bem, são os mesmos que repetem até à exaustão a ideia de que esta solução do "bom" e do "mau" não implica riscos para os contribuintes. O mais incrível é que mais um bocadinho estas mesmas pessoas ainda aparecem como salvadoras dos contribuintes e dos depositantes. Anteontem foi a vez da ministra das Finanças papaguear as mesmas palavras, embora lá tenha acabado por reconhecer que não "há soluções sem risco", mas que este "é muito diminuto". Também foi assim com o BPN, tudo inicialmente muito apelativo e depois... a história conhecida, os valores é que nem por isso. Ficou-se também a saber que o juro a pagar anda perto dos 2,8 por cento, um contraste com os 8,5 por cento que BPI e BCP pagam pelos empréstimos do Estado.
Por aqui já se discutiu a questão da confiança e até a questão da fé. De resto, este Governo e este Presidente da República já nos deram uma vasta multiplicidade de exemplos que resultam na antítese da confiança. Com efeito, torna-se impossível confiar naquilo que sai das bocas de tão ilustres representantes políticos. O caso BES foi o último exemplo e este atinge uma dimensão "colossal".
Sublinho novamente que estas são as mesmas pessoas a garantir que solução escolhida não pesará no erário público, quando se trata precisamente de dívida pública, a menos que se consiga vender o banco no imediato e por valores, mais uma vez, colossais. Recorde-se que o banco na passada sexta-feira valia pouco mais de 500 milhões de euros e que se pretende vender por quase 5 mil milhões. Entramos novamente no domínio da fé.

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Uma questão de confiança

Governador de Banco de Portugal, Presidente da República e primeiro-ministro afirmaram e reiteraram que estava tudo bem com o BES. Diz-se que teriam como objectivo a salvaguarda  da confiança - elemento essencial no funcionamento do sistema financeiro... também se diz.
Porém, ao proferirem tais afirmações e ao darem tais garantias criaram a ideia de que se tratava de um banco sólido - uma ideia esfacelada em escassos dias. Investidores, sobretudo pequenos investidores, acreditaram na história da solidez, confiaram nas palavras do Governador do Banco de Portugal e nas palavras dos responsáveis políticos. Confiaram e hoje perderam tudo. Os grandes... enfim, veja-se o Goldman Sachs. É evidente que o risco faz parte do jogo, mas quando o regulador refere a existência de uma almofada financeira e quando alega a existência de investidores interessados dá a impressão de se tratar de um negócio lucrativo.
O Governador do Banco de Portugal falhou, mas falharam também os membros do governo que sempre defenderam a tese de que estava tudo controlado e que não seria necessária qualquer intervenção do Estado. É também evidente que Passos Coelho e o seu séquito pretendiam fazer um brilharete, deixando a ideia de que se trata de um Executivo diferente do anterior que nacionalizou o BPN, não tendo assim qualquer intenção de aplicar dinheiros públicos na banca. Não foi assim, como se viu. É tudo uma questão de confiança.
Insiste-se agora na tese de que os cidadãos estão a salvo de mais esta palhaçada. Passos Coelho diz ter salvaguardado os contribuintes, mas não refuta a possibilidade deste empréstimo ter impacto negativo no défice. A solução encontrada deixa de fora os contribuintes, penalizando os accionistas. A verdade é que muito poucos acreditam nessa salvaguarda. Relativamente ao empréstimo do Estado cobra-se 2,8 por cento de juros e espera-se vender o Banco dentro em breve. Afinal tudo uma questão de confiança, ou será de fé?

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

O Estado não vai intervir e o seu contrário

O Estado português não vai intervir no BES”: palavras de Passos Coelho que duraram umas meras duas semanas. E por muito que Passos Coelho tivesse repetido a frase ao longo das últimas semanas, nem por isso passou a ser verdade, bem pelo contrário: o Estado vai intervir no BES e no imediato.
O BPN também fora anunciado como um bom negócio, importa não esquecer. Agora é diferente, dizem-nos. No caso do BES separa-se o banco bom – Banco Novo (não é piada é mesmo esta a designação escolhida) do banco mau (que agregará os ativos tóxicos). No fundo são os mesmo do costume a financiar mais este exemplo de crime organizado: um fundo de resolução que capitaliza o banco, com o Estado a entrar com 4,5 mil milhões de euros, dinheiros que não são nossos (empréstimo temporário com dinheiros da troika), a par de uma participação de outros bancos de 400 milhões (e as garantias?). Chega? Qual o valor real do buraco? Não se sabe. Mais tarde vender-se-a o novo banco. Assim, diz o ministério das Finanças, esta é uma solução que não pesa no erário público. Nem podia ser de outra forma, ou melhor, nem se podia dizer de outra forma, afinal de contas as legislativas aproximam-se e o primeiro-ministro, curiosamente a banhos, voltou a meter o pé na poça.
As consequências e a equação são também conhecidas: mais juros, menos salários, pensões, maior enfraquecimento do Estado Social, com uma agravante: a dimensão que este caso poderá atingir é incomensuravelmente maior do que no caso BPN.
Ora, todos nos recordamos do BPN e do seu pretenso carácter de excepção. Com efeito, o BPN era um caso de polícia, uma excepção. Enquanto não se perceber que o sector financeiro tem uma forma de funcionamento que apresenta assinaláveis similitudes com organizações criminosas e se agir em conformidade, estes casos repetir-se-ão, empobrecendo os países. Foi com o sector financeiro que começou a crise e será devido ao funcionamento criminoso deste sector que a crise se intensificará porque quase nada foi feito para alterar um sistema que – repito – apresenta assinaláveis similitudes com qualquer organização criminosa. E sabemos que partidos políticos recusam alterações a esse sistema. Espera-se que nas próximas eleições todos se lembrem deste particular.
Passos Coelho que tanto afirmou não haver necessidade de intervir no BES, motivo de regozijo para os seus acólitos, tem agora mais um sapo para engolir. Entretanto Passos tudo fará para salvar o banco, alegando não onerar os contribuintes. Passos Coelho salva o banco, o mesmo já não se pode dizer da sua face.

sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Afinal não está tudo bem

Contrariamente ao que vinha a ser dito nas últimas semanas nem a questão BES está controlada, nem tão-pouco está tudo bem. O incauto António José Seguro foi dos primeiros a revelar a sua surpresa, depois de há escassas semanas ter ficado mais descansado na sequência de uma conversa que teve com o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. Outros mostraram surpresa, de resto não se esperava que os prejuízos deste semestre atingissem mais de 3,5 mil milhões de euros. Como é que gente tão impoluta, tão bem posta, tão sagaz e tão importante foi capaz de tamanha desonra?
Aqueles que não se esquecem da origem desta crise; aqueles que sabem que o funcionamento do sector financeiro apresenta similitudes com o funcionamento de organizações criminosas; aqueles não ignoram a promiscuidade entre este sector e o poder político, já não se surpreendem como António José Seguro se surpreende.
Afinal não está tudo bem com o banco do regime e com o grupo económico que o detém; afinal os negócios imobiliários, especulativos, em off-shores, em Angola e em paraísos fiscais não correram como o previsto. E é precisamente essa a questão: estes negócios repletos de opacidade, para não ir mais longe, correram mal, tornaram-se visíveis, outros negócios, de outras instituições financeiras, vão passando incólumes.
Afinal não está tudo bem. Quem diria?

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Uma pipa de massa

Durão Barroso, ainda Presidente da Comissão Europeia, mostrou-se regozijado com um acordo firmado com o Governo português, a envolver 26 mil milhões de euros que Portugal deverá receber. Mais fundos a juntar a tantos outros que Portugal já recebeu. “Uma pipa de massa”, segundo Durão Barroso que serve também para calar quem tem falado mal da Europa. E como se isto não bastasse, Durão Barroso atira mais mil milhões de euros como prémio de bom comportamento, ou por outras palavras, pela fidelidade canina demonstrada nos últimos três anos.
Todas as Tecnoformas do país regozijaram juntamente com o Presidente da Comissão Europeia.
Num estilo paternalista, Barroso deixa recomendações: utilizem bem o dinheirinho. De fora do momento idílico partilhado por Barroso e por Passos Coelho ficou o empobrecimento do país; de fora ficou o retrocesso de décadas; de fora ficou, naturalmente, a responsabilidade de um e de outro no retrocesso social, no aumento das desigualdades, no desemprego avassalador, no enfraquecimento do Estado Social; de fora ficou ainda o facto da dívida não dar sinais de estabilizar, sendo inexoravelmente impagável e do próprio défice estar longe de ser o almejado, com o primeiro semestre deste ano a dar sinais disso mesmo.
Uma pipa de massa” para se perder nos meandros da burocracia e da opacidade; “uma pipa de massa” para esconder a miséria imposta e patrocinada precisamente por Barroso e por Passos Coelho.
Dito por outras palavras: “uma pipa de massa” para esconder o enorme falhanço deste Governo, coadjuvado pelas sumidades europeias, na consolidação das contas públicas e “uma pipa de massa” para atenuar os efeitos do empobrecimento a que o país foi sujeito. De resto, “uma pipa de massa” também dá jeito a pouco tempo de eleições.

Mais do mesmo

António José Seguro e António Costa formalizaram as candidaturas às primárias do PS. Contas feitas e a escassos dois meses das eleições, somos confrontados com mais do mesmo. Com efeito, entre Seguro e Costa não existem diferenças substanciais, sobretudo no plano ideológico. Haverá seguramente uma vasta multiplicidade de diferenças no campo da personalidade, porém no que diz respeito às ideias e projectos para o país, mais do mesmo.
Das eleições de Setembro sairá aquele que muito provavelmente será o próximo primeiro-ministro de Portugal, alguém que tem uma função clara: não mexer substancialmente no que está feito; dito por outras palavras: não alterar a ordem das coisas, não mexer em demasia num sistema que permite a perpetuação e agravamento das desigualdades e que garante a manutenção de um determinado conjunto de pessoas no poder político, económico, etc.
António José Seguro ou António Costa não vão alterar profundamente a ordem de coisas, nem tão-pouco apresentarão quaisquer formas de ruptura. Aqueles que poderiam proceder às rupturas tão necessárias são apelidados de radicais, desprovidos de vocação de poder, mentores de ideias exequíveis.
O Tratado Orçamental e reestruturação da dívida são dois dos temas dos quais os candidatos procuram fugir como o diabo da cruz, preferindo uma discussão genérica e inócua.
Da parte dos eleitores pelo menos para boa parte deles, a escolha mantém-se exígua: entre dois escolhe-se um. A comunicação social vai dando uma mãozinha outros nem optam por não fazer a sua escolha. Assim se perpetua uma dicotomia responsável, em larga medida, pelo estado a que o país chegou.
As semelhanças entre os dois candidatos é tanta que até se verificou uma quase simultaneidade na formalização das candidaturas: meia-hora separou uma da outra. Pouco muito pouco separa um candidato do outro.