sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O princípio do fim

Certo. Talvez seja exagero anunciar o princípio do fim, apesar deste princípio ter como protagonista Donald Trump. Talvez ele nem chegue a ocupar o lugar durante os quatro anos, com tanto potencial em matéria de escândalos, irregularidades, ilegalidades e afins. Talvez.
Seja como for, a realidade é esta e dói de cada vez que pensamos nela: Donald Trump é, a partir de hoje, o Presidente dos Estados Unidos da América. Entre sentimentos de asco e incredulidade, os factos são estes e teremos - tarefas que não serão exclusivas dos americanos - de saber lidar com este Presidente. 
Com Obama era fácil, o máximo, ou o pior que poderia acontecer - e até certo ponto aconteceu - era a desilusão. Com Trump o pior pode acontecer, simplesmente o pior poder acontecer. E seguramente acontecerá. Desde as mudanças previstas na famigerada ordem mundial, passando pelo fim das políticas de Obama sem a existência de alternativas, culminando na personalidade megalómana que raia o amiúde o execrável. Pelo caminho os temas mais prementes, como as questões ambientais, sofrerão uma abordagem perigosa. 
Espera-se uma multiplicidade de retrocessos em áreas tão distintas como a Saúde, a Educação, o Ambiente ou a própria política externa. Provavelmente sem exageros, este é o princípio do fim, sobretudo quando os ditos retrocessos acontecem em matéria ambiental, o que nos condenará a todos, americanos e não só. Resta lutar, não sucumbindo à tentação de pensar que agora é assim e nada existe a fazer. Cabe à sociedade americana não ceder àquilo que rapidamente se dirá ser a normalidade.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Calcanhar de Aquiles

Não será difícil encontrar razões para elogiar a solução governativa encabeçada pelo PS, mesmo com algumas contrariedades que, contas feitas, são normais até nas coligações, quanto mais numa solução engenhosa como aquela encontrada por PS, BE, PCP e Verdes. Desde logo a filosofia subjacente à solução política merece os mais rasgados elogios, refiro-me naturalmente à tentativa de repor salários e pensões, acabando assim com os cortes acéfalos protagonizados pelo aziado Passos Coelho e pelo seu séquito.
Contudo, existe um calcanhar de Aquiles nesta solução, sobretudo no que diz respeito ao próprio PS: a comunicação. O PS falha na comunicação, designadamente no que diz respeito a medidas a serem tomadas e no combate a uma direita que destila azedume, incapaz de se livrar da mediocridade.
Esta questão torna-se mais premente quando se percebe que a comunicação e o combate político, mesmo estando o PS no Governo, são essenciais para a prossecução das políticas. Exceptuando João Galamba, um dos mais activos deputados do PS, resta muito pouco. Abre-se assim espaço que a comunicação social convenientemente ocupa com imagens e palavras incessantes e vazias de Pedro Passos Coelho e de Assunção Cristas. PCP e BE, muito em particular o BE, mantêm-se activos no campo da comunicação, isto apesar de viabilizarem a referida solução política. BE e PCP percebem que, pese embora viabilizem o Governo PS, necessitam de manter as respectivas identidades, o que os leva a permanecerem activos no que diz respeito à comunicação.
O PS, por sua vez, como partido de Governo, falha na defesa das suas medidas. Não existe verdadeiramente um porta-voz, um rosto, que faça o combate político, fora do Parlamento. Como se sabe o combate político feito no interior da casa da Democracia é manifestamente insuficiente.  


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

“Levar Portugal a sério”

Passos Coelho aparece amiúde em frente de um cartaz do PSD que diz a seguinte frase: "Levar Portugal a sério" - uma espécie de lema do partido que é, ao mesmo tempo, uma curiosidade na precisa medida em que ninguém já leva a sério o líder do PSD.
De resto, avolumam-se as vozes críticas direccionadas à actual liderança: Marques Mendes terá sido o último a proferir severas críticas à liderança de Passos Coelho, desta feita a propósito da TSU - uma trapalhada filha do oportunismo.
Já ninguém leva Passos Coelho a sério, sobretudo na qualidade de rei do azedume na oposição. Quando era primeiro-ministro, apesar das inúmeras incongruências, era levado a sério. Afinal de contas era primeiro-ministro, mal ou bem.
Agora, entre diabos e outras entidades, Passos Coelho não tem qualquer credibilidade. Enquanto espera pelo Diabo a credibilidade - a pouca que lhe resta - vai-se-lhe acabando. Mais a mais, quando Passos Coelho cai no oportunismo barato de ir contra a questão da TSU quando ainda há um mês era a favor, tudo com o objectivo de colher dividendos políticos, dá mais uma machadada na credibilidade enquanto denota desespero. Já para não falar dos seus tempos como primeiro-ministro em que se pretendeu reduzir a TSU ao mesmo tempo que se aumentaria a contribuição dos trabalhadores.
O PSD tem como lema levar Portugal a sério, a questão que se coloca é no entanto a seguinte: Como é que se pode pedir para levar Portugal a sério quando ninguém já leva a sério o líder do PSD? 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Passos Coelho e o desespero

Agora a propósito da TSU, Passos Coelho, sozinho e incapaz de ser líder da oposição, caiu em mais uma contradição. Nos seus saudosos tempos de primeiro-ministro, Passos Coelho viu o país sair à rua precisamente contra a mexidas que o ministro Gaspar pretendia introduzir na questão da TSU. Não teve outro remédio que não recuar.
Agora, na difícil posição de líder do maior partido da oposição, o mesmo Passos Coelho, no seu habitual registo que mistura catastrofismo com cinzentismo, vem agora dizer não a uma redução da TSU que fará parte do acordo firmado entre o Governo PS e os representantes patronais a troco de um aumento do salário mínimo nacional. O que mudou desde então? Passos Coelho na qualidade de anódino líder da oposição, cheio de fome de poder, vê-se obrigado a apanhar qualquer migalha que lhe caia no colo. Uns dizem que se trata de puro oportunismo político. Eu diria mais: na verdade trata-se de puro desespero político em que já pouco ou nada interessa, nem sequer o mínimo de coerência.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O show ainda nem começou...

...e já Donald Trump dá sinais claros de pretender seguir o caminho do autoritarismo. A conferência dada pelo Presidente eleito, pouco depois de Obama se ter despedido e horas após se conhecer o conteúdo de um relatório de um ex-espião do MI6 que caiu nas secretas americanas e que alegadamente indicam que a Rússia tem informações comprometedoras sobre o novo Presidente americano, Donald Trump dá um espectáculo próprio de um tirano. Para além de se ter tratado de um exercício de ignorância sobre o que a democracia é, designadamente, com Trump a afirmar que ganhou e ponto final, como se a legitimidade democrática se esgotasse nos resultados eleitorais, Trump ainda hostilizou a comunicação social presente, sobretudo a CNN, depois desta ter sido uma das responsáveis pela divulgação do aludido relatório. Os apoiantes de Trump, qual arruaceiros, vaiaram e expulsaram jornalistas. Com os restantes jornalistas a assistirem impávidos e serenos.
RobertReich elaborou uma listagem de características, posicionamentos e situações em que é possível detectar sinais de tirania. A título de exemplo: constantes alegações de fraude eleitoral, sem a existência de quaisquer provas; referência aos adversários como sendo "inimigos"; hostilização dos média; preferência de comícios rodeado pelos apoiantes do que as habituais conferências de imprensa; utilização de mentiras, num ritmo constante, para atingir os seus objectivos autoritários; culpabilização de imigrantes pelos problemas económicos; elaboração de registos sobre minorias religiosas; nomeação de familiares para os mais altos cargos; promoção de alianças pessoais com ditadores estrangeiros; incapacidade de fazer a distinção entre propriedade privada e pública, lucrando com o cargo que ocupa.
E o show ainda nem começou.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Adeus Obama

Barack Obama proferiu o seu discurso de despedida relembrando que a democracia "está sob ameaça, uma ameaça que não é de agora mas sim latente, sempre que se toma a democracia como um dado adquirido". O adeus emocionado de Obama é também um momento triste para muitos americanos e para o resto do mundo que sabe que esta despedida implica um novo começo com Donald Trump.
Obama concluiu o seu discurso com "yes we can", "yes we did". Até certo ponto. Não há dúvidas que Obama tentou. Tentou no que diz respeito às alterações climáticas; tentou exortar os cidadãos a participarem de forma mais activa na construção da democracia americana (e voltou a exortá-los no discurso de despedida); Obama evitou sucumbir aos pretensos encantos dos mercados - de forma insuficiente, é certo. Nada de substancial mudou. Obama tentou melhorar a vida de muitos americanos - o Obamacare é disso exemplo. 
Obama tentou. Mas falhou, sobretudo no que diz respeito aos mecanismos de regulação da finança, fez pouco, muito pouco. Falhou em muitos aspectos da política externa americana que continua a ser belicista e de ingerência, embora tenha dado passos importantes no restabelecimento de relações com países como o Irão ou Cuba. Falhou em Guantanamo. Mas falhou sobretudo porque não tinha espaço de manobra para fazer mais e talvez não estivesse assim tão interessado nas tão necessárias rupturas.
Ainda assim, e com os todos os falhanços, o mundo vai sentir a falta de Obama, designadamente da sua sensatez, dos seus equilíbrios e da sua simpatia - tudo o que Donald Trump não tem e não é.

Adeus Obama, apesar de tudo, o mundo vai sentir a tua falta. Já sente. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O falhanço da esquerda abre as portas ao populismo

Tal como nos anos 20 e 30 do século passado, o falhanço da esquerda, designadamente da esquerda não comunista, abre as portas ao populismo e até à extrema-direita.
Tal como no passado, o descontentamento sente-se órfão: a direita conservadora deu lugar à direita neoliberal que contribuiu para a agudização do capitalismo selvagem e subsequente descontentamento; essa direita, paralelamente alia-se com facilidade a um tecnocentrismo que ninguém compreende, mas que se percebe ser razão de enfraquecimento das democracias. A direita neoliberal, refém do poder económico, marchará para onde esse poder o entender, até para o populismo ou pior, se for caso disso.
A esquerda, por sua vez, desdobra-se no socialismo democrático que falha por toda a Europa, demasiado perto da direita neoliberal, demasiado distante das suas origens próximas da social-democracia. Existem poucas excepções: o Partido Socialista de António Costa é uma delas. Até ver.
As esquerdas mais à esquerda do socialismo democrático ou não conseguem arrancar simpatias ou espalham-se clamorosamente como foi o caso do Syrisa grego.
Estes falhanços, sobretudo o falhanço da esquerda, sendo que a direita neoliberal, a direita dos interesses, se vir os seus interesses beliscados apoiará o populista ou até a extrema-direita, determinam a abertura de um espaço à quase irracionalidade - quando tudo deixa de fazer muito sentido - o mais perigoso dos mundos como nos avisava Nietzsche. 

Sobra uma excepção, como já anteriormente se disse: o Governo de Costa apoiado pelos partidos à sua esquerda. Mas mesmo essa excepção vai tendo viabilidade graças a uma UE que percebe que existem problemas mais graves do que o défice português, como o caso do Brexit, e, consequentemente, aligeirou o discurso. Para já. O país e, por inerência a solução política portuguesa, continuam reféns dos ditames europeus. Por enquanto vamos tendo benefícios fruto das circunstâncias, para já. Porém, como se tem visto nos últimos meses, tudo muda a um ritmo alucinante. Tudo menos a esquerda, sobretudo a esquerda dita socialista democrática que se refugia num centrão que talvez já nem exista pela simples razão que é o descontentamento que toma o seu lugar.