quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Morte e chantagem

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, admite, como quem não quer a coisa, mas que lhe dava jeito dava, que a greve dos enfermeiros aos blocos operatórios pode "potenciar mortes de doentes", para depois procurar amenizar a conversa com o reconhecimento de que a exaustão dos enfermeiros aumenta esse risco. 
Ou seja, Ana Rita Cavaco, defende essa greve, mesmo que ela possa causar mortes evitáveis. É claro que essas mortes não acontecerão se o Governo aceitar as reivindicações dos enfermeiros.
Não discuto sequer a legitimidade dos enfermeiros, que me parece de resto óbvia, ponho em causa - e de que maneira! - esta forma ignóbil de levar a cabo uma luta. De um modo geral, essa mesma luta perde sim força quando quer andar de mãos dadas com a morte. 
Ana Rita Cavaco ultrapassou uma linha vermelha. Espera-se uma profunda reflexão sobre estas ameaças mais ou menos veladas, a começar pelos próprios enfermeiros que escolheram lamentavelmente esta bastonária para os representar. Não vale tudo. Não vale

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

E depois dos protestos?

Os franceses continuam a sair às ruas, munidos dos já mais do que famosos coletes amarelos, mesmo depois de alguns recuos de Emmanuel Macron. Agora a palavra de ordem é demissão. Muito bem. E depois? Quem está na linha da frente para ocupar o Eliseu? Marine Le Pen? Estas são as questões centrais. Quando as reivindicações redundam num clamoroso e uníssono pedido de demissão, importa perguntar para quê; importa refletir sobre o dia seguinte a essa demissão.
Para já Macron reúne-se com sindicatos, patrões e autarcas, mas não com a liderança ou líderes dos protestos porque não existirem. Mas as cedências – a existirem mais para além das anunciadas – nunca irão responderão, na totalidade ou perto dela, às exigências de quem protesta. E depois?
De resto, as políticas de Macron, à direita e limitadas pela moeda única, não poderiam ter um desfecho mais feliz para o presidente francês, o que não elimina as ditas grandes questões relacionadas com o futuro da França, com a Marine Le Pen a espreitar o Eliseu.
Por cá, naturalmente, há quem pugne por revoltas semelhantes, agarrando-se a comparações fáceis e em larga medida absurdas, na sua maioria sobre o custo de vida, como se os Estados fossem livres de adoptar as políticas económicas que bem entenderem.
E no caso português? O que resultaria dessas manifestações? Primeiro algumas reivindicações satisfeitas e depois a demissão do Governo? E depois? O regresso da direita? Qual direita?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

PSD: casa onde não há pão

Casa onde não há pão - leia-se poder - todos ralham e ninguém tem razão. Cinjo-me estritamente ao domínio da política partidária e refiro-me, naturalmente, ao PSD.
A falta de pão e a subsequente fome é a causadora de todas as zangas. Rui Rio nunca prometeu abastança, mas talvez poucos acreditassem que o partido ficasse arredado do poder e sem perspectivas de vir a recuperá-lo. Muitos ainda acalentam a esperança num regresso de Pedro Passos Coelho, até porque, esse sim, matou a fome a muita gente no partido, enquanto, paradoxalmente, criava as condições para que a fome regressasse um pouco por todo o país.
Com efeito, a falta de poder e sobretudo a angústia de saber que esse poder está longe do partido, põe toda aquela gente à beira de um ataque de nervos. Senão vejamos os acontecimentos dos últimos dias: "Assessor do PSD insulta Presidente e Teresa Leal Coelho repreende-o", prometendo medidas draconianas para regular a utilizar das redes sociais. Neste caso, o assessor do PSD foi longe ao ponto de escrever, e passo a citar: "...babam-se todos perante o poder do dinheiro imperial." - referindo-se à visita do Presidente chinês a Portugal. Entretanto, o dito assessor já pediu desculpa; paralelamente, os casos de deputados que faltam que nem gente grande volta a encher páginas de jornais e tempo de antena, revelando o mais abjecto despudor por parte de alguns; e ainda o deputado Miguel Morgado, um apaniguado de Passos Coelho, em entrevista ao Observador, admitindo as "guerras internas", reconhece que o definhamento do partido ainda consegue ser pior do que essas guerras.
Guerras. A palavra é adequada. Até porque em casa onde não há pão, todos ralham e acabam em guerra.Entretanto, a deputada que votou pelo colega, o famoso Feliciano Barreiras, demitiu-se de todos os cargos do grupo parlamentar, esta era a tal deputada que não sabe se carregou ou não no botão de votação do colega e, se o fez, justifica-se com a singela desculpa de que "todas as bancadas o fazem". Uma criança de 5 anos não diria melhor.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Eles que andaram tão ocupados

Eles, os líderes europeus, passaram anos ocupados com processos de humilhação de Estados-membros acusados de não cumprirem as regras draconianas impostas por países como a Alemanha. Eles, líderes alemães, franceses, holandeses e quejandos passaram anos a apontar o dedo a alguns Estados-membros, salvando bancos e deixando os cidadãos em perfeita agonia, ignorando olimpicamente as causas da crise que deixara de ser do sistema financeiro para passar a ser dos dívidas soberanas.
Alheio ao facto acima descrito, Macron insiste nas mesmas receitas neoliberais que estiveram subjacentes às humilhações que deixaram alguns políticos tão entretidos. Alheio às necessidades do povo que governa, Macron pavoneia-se como se não havendo pão, restassem os famigerados brioches.
Agora, perante as maiores revoltas desde o Maio de 68 Macron mete o rabinho entre as pernas e recua nas medidas que deram origem aos protestos.
No entanto, e como é evidente, quem se manifestou tem outras reivindicações que não se esgotam no aumento do preço dos combustíveis. Por conseguinte, o mal-estar não cessará com a anunciado recuo. Os problemas são incomensuravelmente mais intrincados.
Resta a Macron jogar o arriscado jogo que consiste em encostar os franceses à parede e que se pode traduzir pelo seguinte: ou eu (Macron) ou a extrema-direita.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Onde queremos a Europa?

A questão já não se prende tanto com que Europa queremos, mas passou a ser sobretudo onde queremos a Europa.
Num contexto caracterizado pelo enfraquecimento dos EUA, com evidente perda de hegemonia, e agora nas mãos de um tiranete, marcado também por uma Rússia à procura de recuperar tempo e espaço perdidos e ainda com a China que alcançou a hegemonia económica e que consegue conquistar o mundo se disparar um único tiro, onde fica a Europa? Onde se posiciona o velho continente? E, designadamente, onde fica a União Europeia?
Depois de ter feito tanto para minar o projecto europeu e o anódino sentimento de pertença dos cidadãos à Europa (das humilhações), a Alemanha aparece agora como uma potência europeia politicamente enfraquecida, com e sem Angela Merkel, sob a ameaça constante de um ressurgimento da extrema-direita. O Reino Unido passou a ser carta inexoravelmente fora do baralho europeu, e a França, com uma economia demasiado dependente da UE, embora finja o contrário, cede a ímpetos mais ou menos revolucionários, com uma extrema-direita a regozijar e à espreita - a mesma extrema-direita pouco amiga da ideia de Europa.
O resto da UE agonia-se, com Estados-membros entalados entre problemas económicos e quem oferece curas baseadas nos preconceitos que acaba mesmo por dar vitórias eleitorais a quem não esconde o seu ódio à diferença.
Posto isto, onde fica a Europa? Qual o espaço para a UE? E qual a sua relevância?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

França: entre o purgatório e o inferno

Os franceses encontram-se presos entre o purgatório e o inferno, ou seja entre Macron e as suas políticas neoliberais, mesmo que pintadas com a cor verde, e a extrema-direita que deixou de espreitar pela esquina para se mostrar orgulhosamente disposta a tomar conta do país. Ora, as manifestações levadas a cabo pelos “coletes amarelos”, primeiro devido ao preço dos combustíveis, depois por causa de outras razões – na sua maioria resultantes do já referido neoliberalismo – põem a nu as escolhas com que os franceses se deparam.
Este dilema, a que o desaparecimento da esquerda em França não é alheio, poderá servir os interesses de Macron que sabe que dificilmente os franceses querem, de facto, ser governados pela extrema-direita xenófoba e sem qualquer espécie de soluções para os problemas económicos, mas entalada num estranho e anódino misto entre neoliberalismo e proteccionismo – numa espécie do pior dos dois mundos. De resto, num cenário de segunda volta para as eleições presidenciais, colocando frente a frente Macron e Le Pen, creio, e Macron também alimentará a mesma crença, ganhará Macron.
É evidente que esse cenário não é garantido, assim como a violência que tomou conta das ruas de Paris, num cenário amiúde semelhante a uma guerra, deve levantar sérias inquietações ao Governo e à Presidência de Macron.
Paralelamente, também parece óbvio que o levantamento popular serve os interesses imediatos daqueles que querem uma nova solução política que eles próprios estão dispostos a encabeçar. Refiro-me naturalmente à extrema-direita de Marine Le Pen e não ao que resta da esquerda, sem hipóteses de vencer eleições.
Em suma, e numa primeira análise, a revolta serve os interesses da extrema-direita que acalenta assim a esperança de derrubar a actual solução política, ir a eleições e vencer. No entanto, creio, ao invés, que a revolta apenas vem colocar em cima da mesa o já referido dilema: ou o neoliberalismo de Macron ou a extrema-direita, naturalmente vazia de ideias e cheia de preconceitos, de Le Pen. E perante o dilema, os franceses escolherão Macron.
De qualquer modo, não devemos deixar de nos preocuparmos com a crescente e perigosa ingenuidade de pensar que a democracia sobrevive à intolerância.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Largo José Saramago

Diz-se que a voz do povo é a voz de Deus, mas quem anda pelas caixas de comentários dos jornais online ou pelas famigeradas redes sociais, rapidamente se apercebe que não podia existir maior engano. Deus, a existir, não daria voz a tanta idiotia.22
Vem isto a propósito da mudança de nome de parte do Campo das Cebolas para "Largo José Saramago". O facto causou forte indignação, com provas de que a memória conspurcada pelos nossos preconceitos é uma receita pouco digna de se ver. 
Assim, a indignação alicerça-se na posição ideológica de Saramago, no facto de ter escolhido Espanha para viver (sabe-se lá por que razão) ou simplesmente porque escrevia fora das convenções. Enfim, tudo serve para que a vox populi manifeste a sua indignação com o facto do Campo das Cebolas (em parte) passar a ter a designação "Largo José Saramago", duas décadas depois de ter sido galardoado com o prémio Nobel da Literatura.
Em suma, muito barulho por nada, como diria o grande dramaturgo inglês. Saramago, muito provavelmente, estaria-se nas tintas para o acontecimento.