segunda-feira, 27 de março de 2017

60 anos e à beira do abismo

Este foi o fim-de-semana das celebrações dos 60 anos do Tratado de Roma, o que deu origem à C.E.E. Uns dias antes da celebração da data, uma das mais altas figuras da Europa, o Presidente do Eurogrupo, deu mais um contributo para as divisões entre Estados-membros, acusando os países do Sul da Europa de gastarem o dinheiro em mulheres e em copos. Sinais de uma Europa repleta de mediocridade e de egoísmo – uma Europa em futuro.
Os principais responsáveis políticos ensaiaram exercícios bacocos de celebração a propósito de uma data que nada diz aos cidadãos, procurando que se esquecesse que esta é uma Europa à beira do abismo. Entre críticas tímidas e celebrações sem particular entusiasmo, todos querem passar a mesma mensagem: apesar dos problemas, a UE ainda tem futuro.
Seria desejável que a UE fosse um projecto de futuro, mas não é, graças a figuras, tantas vezes não sufragadas pelos cidadãos; figuras essas obliteradas pelo egoísmo, ignorância histórica e pelos preconceitos.

Ontem foi um dia de fingimento: fingiu-se que o projecto europeu de coesão social, união e solidariedade ainda vale um chavo; fingiu-se que não existem verdadeiramente divisões entre Estados-membros; fingiu-se que os cidadãos europeus não estão assim tão afastados da Europa; fingiu-se uma importância que já não existe; fingiu-se uma competência e visão do mundo que simplesmente já não têm lugar na Europa. Ontem fingiu-se um futuro que já não existe.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Dijsselbloem e a falta de vergonha

A falta de vergonha tem feito escola junto de uma classe política que, infelizmente, também se encontra à frente dos destinos da Europa. Dijsselbloem é um excelente exemplo da dita falta de vergonha. O ainda Presidente do Eurogrupo que, ao que tudo indica desempenhará essas funções até Janeiro de 2018, manifestou a sua intenção de se recandidatar. 
Recorde-se que Dijsselbloem sofreu uma derrota clamorosa, através do seu partido, nas últimas eleições holandesas e, em consequência, deixará de ser ministro das Finanças. Todavia, as regras flexíveis do Eurogrupo permitem que o seu Presidente não tenha forçosamente de ser ministro das Finanças.
Recorde-se também que Dijsselbloem voltou a manifestar os seus preconceitos contra a Europa do Sul, mas de forma mais brejeira do que é seu costume, facto que está a dar azo a pedidos de demissão de vários representantes políticos europeus.
O que o Presidente do Eurogrupo e outros não querem perceber é que falsos socialistas e sociais-democratas estão a ser fortemente castigados nas urnas. Dijsselbloem parece relutante em retirar ilações dos desastrosos resultados do seu partido. Dijsselbloem resiste, manifestando uma total incapacidade em perceber que a deturpação dos valores socialistas e sociais-democratas estão a abrir espaço ao populismo que desde logo denuncia políticos rendidos aos negócios, ao compadrio e à corrupção, absolutamente alienados dos interesses dos cidadãos que esses partidos populistas juram defender. Dijsselbloem e similares não querem saber, nem têm pudor em revelar a sua verdadeira face e estão a dar o mais forte contributo para o enfraquecimento das democracias, criando as condições necessárias para que partidos populistas possam emergir.
De uma coisa podemos estar certos: com estas pessoas ao leme a Europa afunda-se a cada dia que passa. Com um cínico sorriso nos lábios; um sorriso demasiadas vezes repleto de falsa superioridade.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Sobre a liberdade de expressão

A propósito da polémica envolvendo a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Jaime Nogueira Pinto e uma tal de "Nova Portugalidade", não posso deixar de escrever algumas linhas sobre o assunto, designadamente sobre os novos arautos da liberdade de expressão.
Recorde-se que a propósito de uma "conferência" protagonizada exclusivamente por Jaime Nogueira e que contava com a organização da dita "Nova Portugalidade" caiu o Carmo e a Trindade a propósito de uma alegada tentativa de silenciar opiniões veiculadas por Jaime Nogueira Pinto. Percebeu-se mais tarde, pelo menos quem quis perceber, percebeu, que a história andou a milhas de distância de qualquer tentativa de silenciamento.
No entanto desta história mal contada emergiu uma nova classe de arautos da liberdade de expressão, os mesmos que, paradoxalmente, defendem ideias de um passado que cerceou essa mesma liberdade de expressão.
Existe paralelamente uma clara tentativa de cavalgar outros movimentos conotados com o populismo ou até com a extrema-direita que surgem e se tentam consolidar um pouco por toda a Europa e até nos EUA. Tudo misturado com uma espécie de regresso a um conceito muito próprio de Portugalidade que nos remete para aquele passado amiúde excessivamente diabolizado ou excessivamente deificado.
Seja como for, podemos estar certos do seguinte: a estabilidade política, que passa pelo trabalho da solução política de esquerda e pela cooperação do Presidente da República, a par de um ambiente saudável para a discussão própria da pluralidade democrática, são os melhores antídotos contra as ideias bacocas e tantas vezes contraditórias de movimentos saudosistas assentes em premissas pouco consonantes com a própria democracia. 



quarta-feira, 22 de março de 2017

Dijsselbloem, rua!

O ainda Presidente do Eurogrupo – o mesmo cujo nome nos obriga a recorrer incessantemente à função copia e colar – e pertencente ao partido que sofreu a mais humilhante derrota nas eleições holandesas, acusou os Europeus do sul de gastarem o seu dinheiro em “copos e mulheres” e depois “pedirem ajuda”.
As declarações feitas a um jornal alemão centram-se igualmente na alegada social-democracia de Dijsselbloem, onde a solidariedade se confunde com xenofobia, sexismo e imbecilidade.
Contudo, importa lembrar que Dijsselbloem não está sozinho, tendo contado com a companhia de Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, já para não falar de Schaüble, ministro das Finanças alemão. Este alegre grupinho fez da austeridade uma espécie de texto sagrado no qual a culpa sempre recaiu sobre os trabalhadores, os desempregados, os pensionistas – os tais que viveram acima das suas possibilidades, os tais que gastam tudo o que têm em copos e mulheres.
Dijsselbloem, à semelhança dos restantes membros do alegre grupinho da austeridade insistem numa retórica gasta que não colhe junto de muitos europeus e Dijsselbloem devia ter noção disso mais do que ninguém, ele que vai andar a pedir esmolinhas para se aguentar à frente do Eurogrupo; ele que faz parte da social-democracia aldrabada que tanto foi castigada pelos holandeses.
As afirmações de Dijsselbloem revelam uma criatura pequena e preconceituosa, em fim de vida. No entanto essas afirmações enquadram-se num contexto mais alargado de outras criaturas que, à semelhança de Dijsselbloem, nos têm acusado de sermos culpados pela situação em que nos encontramos, entre os quais se incluem Passos Coelho e o que resta do seu séquito.

Quanto a Dijsselbloem, rua! É esse o caminho. E “copy-paste”, abençoado sejas. 

terça-feira, 21 de março de 2017

O melhor que pode fazer pela sua imagem

Durante algum tempo pensou-se que o melhor que se pode fazer pela imagem seria recorrer a serviços especializados nessa área que abrangem um espectro que vai do aspecto físico à postura, passando claro está pela retórica.
Hoje sabe-se que o melhor que se pode fazer pela imagem é um encontro com Donald Trump, facto que só por si dispensa tudo e mais alguma coisa. A título de mero exemplo veja-se as maravilhas que um encontro com Trump fez por Ângela Merkel. Mesmo os mais críticos das políticas da Chanceler alemã rapidamente se colocaram ao seu lado naquele surreal encontro com o Presidente americano.
Para além da já famigerada situação que envolve apertos de mão, Ângela Merkel acabou por contar com a compreensão do mundo inteiro, num encontro que fez maravilhas pela sua imagem, muito mais do que qualquer agência ou qualquer perito poderiam fazer.

Por cá, o melhor que poderia acontecer a Passos Coelho, por exemplo, seria precisamente um encontro com Trump. De resto, o ainda líder do PSD precisava urgentemente de melhorar a sua imagem, depois da espera por um Diabo que tarda em chegar.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Ainda a Coreia do Norte

Em visita à Coreia do Sul, o Secretário de Estado americano Rex Tillerson,  afirmou que uma acção militar contra a Coreia do Norte é uma opção, acrescentando que a política assente na"paciência estratégica" chegou ao fim. Paralelamente, Tillerson defendeu a instalação do sistema de defesa anti-míssil na Coreia do Sul, facto que tem exasperado a China.
Com estas afirmações assentes na ideia de que a Coreia do Norte insiste na tecnologia nuclear pode ser o prenúncio de um conflito militar tão desejado por Steve Bannon, uma das personagens mais influentes desta Administração. Com estas afirmações percebe-se que esse conflito pode muito bem ser uma realidade se a Coreia do Norte insistir nos testes que inquietam os países vizinhos e não só. Por outro lado, não é expectável que Kim Jon-un, líder da Coreia do Norte, passe subitamente a adoptar um comportamento mais consonante com o que Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão pretendem.
Acresce ainda que é pouco provável à actual Administração americana resistir ao desgaste consequente da sua incompetência e das sua políticas ineptas sem um conflito militar ou um atentado terrorista que permita quer desviar as atenções dos problemas americanos, quer alimentar a máquina de guerra.

Assim sendo, a Coreia do Norte, com as suas acções provocatórias, pode muito bem ser a mais forte candidata. Resta, no entanto, saber como se posicionarão países como a Rússia e sobretudo a China.

sexta-feira, 17 de março de 2017

As mensagens de Schaüble

Pese embora o ímpeto populista e de extrema-direita de alguns países europeus, representantes políticos como Schaüble, ministro das Finanças alemão, insiste na receita desastrosa que, em larga medida, nos trouxe até aqui.
Schaüble deixou a sua mensagem, novamente a Portugal: "certifiquem-se de que não será necessário novo resgate". Ainda no mesmo tom paternalista, mas acéfalo, o ministro alemão acredita ainda que os bons resultados conseguidos por alguns países "devem-se à pressão" que os governos sofreram para atingir metas. 
Schäuble faz parte de um conjunto de políticos que ainda não percebeu que os problemas da Europa estão muito longe dos resultados económicos de países periféricos e que estas afirmações, a par de outras, e de uma conduta persecutória, ajudou a fragilizar os partidos políticos tradicionais que hoje são vistos como incapazes de resolver os problemas dos cidadãos, abrindo assim espaço para que o populismo, o ódio, a intolerância medrem como no passado.
Schaüble finge não existir uma relação entre a degradação das condições sócio-económicas, com o estreitamento de todo e qualquer conceito de futuro e o crescimento do euro-cepticismo.
Schäuble faz parte de um conjunto de políticos que não quer perceber que quanto mais distante a Europa estiver do projecto europeu, mais se aproxima do abismo.
Schaüble insiste nas suas mensagens, nas suas ameaças veladas, agindo muito para além das competências de um ministro das Finanças de um Estado-membro da UE.
Numa altura em que se assiste ao crescimento da extrema-direita e do populismo e numa altura em que, incompreensivelmente, se cimentam as divisões com sugestões para o aprofundamento de uma Europa a várias velocidades, pouca esperança resta para a Europa como projecto de coesão social e de igualdade. Ficam estes resquícios de uma Alemanha com tiques de autoritarismo, à procura de uma hegemonia perdida, num mundo que parece não compreender. É claro que a destruição do projecto europeu tem os seus protagonistas conhecidos: no topo da lista estará Wolfgang Schäuble. Ficará na História, pelas piores razões.