terça-feira, 28 de junho de 2016

A confusão do costume

O resultado das eleições em Espanha não permitem que o país saia da confusão do costume, embora das eleições apresentem algumas diferenças que podem, no essencial, ser decisivas: o aumento de deputados do Partido Popular, vencedor das eleições; a manutenção do PSOE como segunda força política, embora perdendo deputados, quando as sondagens davam o partido como terceira força política; e a manutenção, mais coisa, menos coisa, dos partidos Podemos (coligados) e Ciudadanos. 
O resultado das eleições, que se traduz num reforço do bipartidarismo, também é indissociável do comportamento dos partidos depois das últimas eleições, designadamente dos partidos de esquerda, com PSOE e Podemos em guerra aberta, ao invés de procurarem soluções. O resultado destas eleições pode ser um PP a governar, apesar dos inúmeros escândalos de corrupção, talvez com o beneplácito do PSOE, o que a verificar-se corresponderá a um enfraquecimento da já anódina liderança de Pedro Sánchez. A ver vamos.
A inexistência de proximidade das várias tendências de esquerda resultou num fortalecimento do PP, pouco significativo é certo, mas ainda assim um fortalecimento. Em Espanha, aparentemente, nada de novo se avizinha.



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Eu europeísta me confesso

Estou convicta que ser europeísta é, antes de mais, ser democrata. Eu europeísta me confesso.
Estou há muito tempo zangada com a União Europeia, precisamente por ter traído o projecto europeu, mas acredito, ainda acredito, que esse projecto é o garante de paz e coesão social. Aliás, não consigo imaginar a Europa sem esse projecto. Eu europeísta me confesso.
Agora é tempo e insistir ainda mais no aprofundamento da democracia na Europa. Não é tempo para desistir. Caso contrário, serão as forças que se escondem atrás das democracias, mas sem perfilharem as suas orientações, que vão continuar a ganhar terreno, cavalgando na ideia de que a UE é um alvo a abater. É também desta forma que, apontado mais um inimigo, esses partidos escondem os vazio das suas propostas, invariavelmente apoiadas no ódio.
Eu europeísta me confesso.
O problema não está exclusivamente na UE, muito menos estará no projecto europeu, mas sim naqueles que o traem e no neoliberalismo transversal.

Há largos anos que me sinto zangada com a União Europeia, mas agora ainda me sinto mais zangada com a escolha do Reino Unido. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit. E agora?

Os britânicos escolheram a saída da UE, o que, bem vistas as coisas, não surpreende: uma longa tradição eurocéptica, factores que pesam sempre nestas equações como o caso da imigração e a germanização da Europa justificam a vitória do Brexit.
Por um lado, as migrações, a crise dos refugiados, a incapacidade da UE em lidar com estas questões, terão seguramente pesado na decisão dos britânicos que, pese embora, tenham beneficiado de um regime de excepção, manifestamente favorável, consideram que a permanência não se justifica. Tudo misturado com o já habitual nacionalismo. Neste particular, acredito que os preconceitos e a demagogia terão tido o seu peso.
Por outro lado, também me parece que os britânicos não querem fazer parte de uma Europa dominada pela Alemanha. Se o eurocepticismo foi sempre relevante no Reino Unido, mais será numa Europa germanizada. E atrás dos britânicos virão outros com a mesma recusa. Com efeito, compreende-se uma a relutância em viver numa Europa obcecada por défices, que ignora os problemas sociais, com a Alemanha a definir a estratégia, de forma mais ou menos sub-reptícia. De resto, os responsáveis pelas instituições europeias, que partilham as mesmas obsessões, preferiram ignorar a possibilidade do Reino Unido sair, e quando questionados sobre essa possibilidades, proferiram afirmações pueris de quem manifestou estar-se nas tintas para essa possibilidade. O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker é disso um bom exemplo.
E agora? Como será o futuro quer do Reino Unido, com a Escócia e a Irlanda do Norte mais europeístas, e, sobretudo, qual será o futuro da UE agora que perdeu um dos seus membros? Como será a Europa se outros países escolherem a saída?
Os senhores e as senhoras que presidem às instituições Europeias e a própria Alemanha talvez ainda não tenham percebido, mas podem muito bem ficar na História como os responsáveis pela morte do projecto europeu.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

As razões da saída

Importa deixar claro que independentemente da decisão do povo britânico, deve imperar o respeito pelo caminho escolhido. Dito isto, façamos o seguinte exercício: pensar sobre as razões que justificam a saída, ou que, pelo menos, fundamentam a posição daqueles que querem ver a UE pelas costas.
As questões que se prendem com dinheiro britânico que entra no orçamento europeu não são suficientemente fortes, embora manifestamente mistificadas. A burocracia das instituições europeias não devem chocar os britânicos, tanto que justifique a saída. A preponderância da Alemanha nas decisões europeias já, por outro lado, poderá contribuir para um mal-estar que se estende a outros Estados-membros. Mas será a imigração a pesar fortemente na decisão do "brexit", mesmo sabendo que a saída da UE está longe de significar um eterno fechar de fronteiras. A livre circulação de pessoas, os imigrantes e os refugiados representam argumentos decisivos na hora de escolher a saída ou a permanência. Esta é a questão central, uma questão que, uma vez mais, se estende a vários Estados-membros da UE. 

É claro que a imigração e a UE são os bodes expiatórios por excelência. Deste modo justifica-se o desemprego, a precariedade e aquele constante retrocesso que nos invadiu a existência. É claro que a imigração e a UE dão muito jeito a quem defende políticas neoliberais, sobretudo para explicar o resultado dessas políticas. É isto que hoje estará em cima da mesa: cair na falsa ideia de que é a imigração e a UE (mesmo estando o Reino Unido a beneficiar de um regime de excepção) que subjazem à miséria que se está a tornar gradualmente transversal, libertando assim os políticos neoliberais da responsabilidade por essa miséria. Ou,  pelo contrário, perceber que o Reino Unido que sempre esteve apenas com uma perna na UE, nada ganha em sair e que os seus problemas são fruto do capitalismo selvagem apregoado por muitos políticos, em larga medida precursores de Margaret Thatcher. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A saída não é a solução

Uma eventual saída do Reino Unido da UE não é a solução quer para os problemas do próprio Reino Unido, quer para as dificuldades que a UE atravessa, sobretudo quando os cenários políticos que se avizinham são assustadores: Boris Johnson do Partido Conservador inglês que, na eventualidade de chegar ao poder, arrastará o Reino Unido para mais receitas neoliberais, ou o nacionalismo crescente em vários Estados-membros da UE.
Neste contexto, a existência de um Reino Unido fora da União - ainda mais - só contribuirá para o enfraquecimento da UE, ao mesmo tempo em que os próprios britânicos assistirão ao agudizar das suas próprias dificuldades. 
A saída do Reino Unido pode significar a abertura de uma caixa de Pandora que resultará na própria desintegração europeia. É evidente que esta União Europeia não serve os interesses dos seus cidadãos, demasiado rendida que está ao neoliberalismo. É evidente que a UE encontra-se enfraquecida como nunca esteve. Todavia, abdicar inexoravelmente do projecto europeu de paz, coesão social e prosperidade representará um retrocesso sem precedentes numa Europa já contaminada pelo bacilo do nacionalismo - um nacionalismo bem tolerado pelos neoliberais de serviço.

É importante acreditar que a UE é reformável e que pode retomar o caminho desenhado pelo projecto europeu, oferecendo aos seus cidadãos um modelo diferente daquele postulado pelo neoliberalismo repleto de selvajaria. É importante que o Reino Unido escolha a permanência, mas é igualmente importante que a própria UE aprenda com os seus erros e que retire ilações das divisões que se verificam quer no Reino Unido, quer noutros países. Se não o fizer, estará condenada.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Com ou sem “brexit”

Independentemente do resultado do referendo da próxima quinta-feira, o Reino Unido mostra-se dividido. Evidentemente uma vitória da permanência do Reino Unido permitirá, sobretudo à própria UE, respirar de alívio. E importa não esquecer que o Reino Unido é um Estado-membro da UE que mantém um regime de excepção perante os restantes Estados-membros, com as famigeradas options-out.
A trágica morte da deputada trabalhista, Jo Cox, seguramente contribuirá para uma recuperação da permanência na UE.
No entanto, e como já é patente nas declarações dos responsáveis pelas instituições europeias, não se prevê que a Europa retire as ilações necessárias do mal-estar existente no Reino Unido, mas também noutros Estados-membros - um mal-estar sobejamente aproveitado por partidos nacionalistas.
Ainda durante a semana passada, o Presidente do Eurogrupo, Dijsselbloem, mostrava-se entusiasmado perante a possibilidade da aplicação de sanções a Portugal. Há escassas semanas o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não escondia que a França era a França, o resto é o resto. Tudo perante uma Alemanha que serenamente consolida a sua posição de liderança numa Europa que simplesmente abdicou do seu projecto.
Com ou sem “brexit”, as divisões permanecem, o mal-estar persiste e os principais responsáveis pela existência de uma UE enfraquecida e decadente insistem em não olhar para a realidade, corrigir trajectórias e inverter o rumo que desembocará forçosamente no abismo.
Se há uma evidência em tudo isto é a seguinte: é manifestamente fácil destruir o projecto europeu que nos garantiu a paz e os mínimos de coesão social desde o final da II Guerra Mundial. Demasiado fácil.


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Brexit

A 23 de Junho o Brexit pode vencer. Dito por outras palavras, a 23 de Junho os britânicos podem escolher a saída da UE. Se tal acontecer os resultados são imprevisíveis e o futuro da União Europeia, já por si periclitante, pode passar pelo seu fim, desde logo porque o efeito de contágio será considerável: Dinamarca, Suécia, Hungria, República Checa, Polónia e até França, se Le Pen chegar ao poder, poderão ser os países que se seguem.
Claro que subjacente ao Brexit e a outros eventuais “exits” estão os nacionalismos associados a uma UE enfraquecida, concentrada em salvaguardar os interesses da alta Finança, entregue aos ditames alemães. Uma Europa que, lamentavelmente, traiu o projecto europeu.
É curioso constatar como os nacionalismos que degeneraram nas guerras devastadoras para a Europa estejam de regresso, com nova roupagem, mas mantendo a sua natureza invariavelmente malévola. É interessante verificar que a tibieza da França, o fortalecimento da Alemanha e a desvalorização até à insignificância dos restantes Estados-membros nunca fez soar as campainhas nas cabeças de tecnocratas e neoliberais.

A UE teve tempo para corrigir a trajectória, reverter as políticas de austeridade, deixar cair as tendências hegemónicas da Alemanha. Não o fez. A UE teve a oportunidade de escolher não seguir cegamente o neoliberalismo. Escolheu não o fazer. A esquerda, sobretudo aquela que se aliou ao neoliberalismo tem também as suas responsabilidades. O resultado começa a ser vislumbrado e é verdadeiramente assustador. Se a isto acrescer uma eventual vitória de Donald Trump nos EUA, o melhor mesmo será sonhar com viagens e longas estadias numa qualquer estação espacial.