sexta-feira, 31 de julho de 2015

Bem-vindos ao surreal

A coligação PSD/CDS participou num novo exercício que desafia claramente as leis do real, isto por ocasião da apresentação do programa de governo que contou com declarações de Passos Coelho e Paulo Portas.
A retórica do costume resume-se a uma cacofonia de acusações dirigidas ao anterior governo e a promessas patéticas - tudo num desafio permanente do real.
Passos Coelho reclama para si a luta por Abril, insinuando ter alguma espécie de respeito pela herança de Abril (?), isto dito por quem mais contribuiu para destruir os princípios que emanam desse período da história do país. O ainda primeiro-ministro insiste em desafiar o real: todo o mal do mundo deriva do mesmo sítio: o largo do rato, nº 2. Os socialistas são acusados de tudo: da bancarrota e do resgate, na verdade impulsionado por Portas e Passos Coelho, da única forma que conhecem - através da insídia. Com mais um bocadinho de imaginação, pode-se inclusivamente depreender que o PS é responsável por toda a crise que assolou o mundo em 2008. Bem-vindos ao surreal.
Outra estratégia com vista a dominar os néscios prende-se com o medo e Passos Coelho, recorrendo às suas parcas capacidades intelectuais, promove o medo: medo de votar no PS e voltar a cair num novo cataclismo (Portas já relacionou uma hipotética vitória do PS a um terceiro resgate), e agora medo das agências de rating que, aparentemente vão estar em suspenso até dia 4 de Outubro - sim, as mesmas agências de rating que, com as suas análises, deram uma boa ajuda à crise de 2008; sim, já para não falar da torrente de dinheiro que o BCE injecta nos mercados financeiros para manter o euro à tona de água - nada disso entra no discurso sórdido de Passos Coelho.
Quanto ao programa - o propósito de juntar tanta gente ilustre na mesma sala - temos mais do mesmo, com excepção da Segurança Social onde se pretende dar início à privatização parcelar. Aqui assume-se ter a intenção de ir mais longe.

Em suma, e até Outubro vale tudo: o patético, o que desafia o real, a mentira. Contas feitas, resta uma mediocridade sem precedentes.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O grande desígnio

O mesmo Passos Coelho que conta com todo o tempo de antena nas principais televisões e que se insurge contra o peso do Estado, insinuando vezes e vezes sem conta que o Estado está onde não deve estar, prepara-se para gastar mais 53 milhões de euros com escolas privadas.
Recorde-se que este é o mesmo governo que procedeu a cortes de centenas de milhões de euros na Educação; o mesmo Governo que desinvestiu no ensino superior; o mesmo Governo incapaz de esconder a sua repulsa pela investigação cientifica e pela cultura.
Os homens de negócio, perdão, os membros do Executivo de Passos Coelho têm feito transferências crescentes de dinheiros públicos para o privado, enquanto apregoam que o Estado gasta muito e faz mal - parte da receita do neoliberalismo na sua versão mais provinciana.
Nem tão-pouco será por acaso que assistimos ao enfraquecimento do Estado Social - Saúde, sem capacidade de resposta; Educação num declínio vertiginoso de qualidade e Segurança Social, invariavelmente considerada sem sustentabilidade e em constante ameaça de não dar resposta no futuro. Empurra-se o cidadão para serviços privados que, amiúde, se mostram despidos da qualidade a que o público nos habituou, que se torna mais visível em áreas como a Saúde.
De qualquer modo, existem serviços públicos que não se podem transformar em negócio - são demasiados os exemplos que mostram a falácia do privado.
Este enfraquecimento faz parte da estratégia, sendo aliás essencial. Diz-se que o Estado não tem capacidade de dar resposta nas principais áreas sociais - por ineficiência, por falta de dinheiro - ao mesmo tempo que se transfere quantidades incomensuráveis de recursos do Estado para o privado.
Este foi um dos principais desígnios do actual Executivo e se os portugueses, num qualquer acesso de insanidade mental temporária, decidirem dar mais quatro anos aos partidos da coligação, assistiremos à transformação do desígnio na mais cruel das realidades.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Era preferível termos uma silly season

Este Verão não será marcado pela já habitual silly season por razões óbvias: as próximas eleições que se avizinham, designadamente as legislativas do próximo 4 de Outubro, o que pressupõe uma contínua actividade dos partidos políticos. Todavia e a julgar pelas últimas semanas marcadas por um vazio incomensurável, associado a torrentes sem fim de banalidades e mentiras, seria preferível termos a já habitual silly season. Seria preferível, a bem da sanidade mental colectiva.
O PS não se cansa de titubear em relação aos assuntos mais prementes: desde a sustentabilidade da Segurança Social; passando pela dívida e pela necessária reestruturação; culminando num novo vazio sobre a Europa e o euro.
Os partidos da coligação, sobretudo o PSD, através do seu líder, escudam-se num pretenso sucesso fruto das suas políticas que permitiram que o país sobrevivesse ao Apocalipse da que resultou da responsabilidade de José Sócrates. Entre mentiras e inanidades, Passos Coelho tenta construir uma fábula baseada no trabalho árduo e subsequente recompensa ("uma nova fase do país". Talvez fosse recomendável uma consulta psiquiátrica: alucinações, desfasamento da realidade, uma estranha megalomania e uma propensão incontrolável para a mentira são motivos de inquietação que justificam um despiste psiquiátrico.
Os partidos mais à esquerda contam com uma comunicação social pouco interessada em contrariar o pensamento único, o que enfraquece a sua presença no espaço público que ainda é dominado pela televisão.
Resta-nos assistir à farsa: partidos sem ideias, a transbordar de mediocridade e com esta novidade: mente-se compulsivamente sem quaisquer consequências. Chega-se a ter saudades da silly season.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Malabarismos

Os governos recorrem amiúde a malabarismos para dar a impressão de serem rigorosos com as contas. Mas há malabarismos ridículos como é o caso de desviar dinheiro do IVA para pagar automóveis topo de gama no famigerado concurso da fatura da sorte. É bacoca a atribuição de automóveis como incentivo à boa cidadania, como é bacoca a forma como apressada e irregularmente se subtrai receita à revelia do Orçamento de Estado.
Uma auditoria do Tribunal de Contas à administração central detectou o irregular desvio de receitas do IVA para promover a dita iniciativa indiscutivelmente pueril que se resume a uma versão moderna da cenoura à frente do burro, com o devido respeito pelo contribuinte.
Malabarismos, artimanhas, meia-verdades, mentiras por inteiro e uma inaudita presunção de que o cidadão é néscio caracterizam este governo que pede "humildemente" para ser reeleito. Por falar em ridículo...

Paralelamente anos de empobrecimento, incompetência e destruição do país, a par de inexistente noção do ridículo - o ridículo que outrora era fatal em política - são tidos como questões de somenos. Estranhos tempos estes em que a mentira é comummente aceite e que o ridículo recusa-se a fazer as suas vítimas do costume.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Traído pela Europa

Passos Coelho, um indefectível europeísta, dedicado a seguir todas as ordens de quem manda na Europa, acabou precisamente por ser traído por essa Europa – tudo em escassos dias. Primeiro, Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, acabou por revelar que a brilhante ideia que Passos Coelho reclamou como sua e alegadamente desbloqueadora do impasse europeu, foi afinal ideia do primeiro-ministro holandês.
Depois foi vez de Jean-Claude Juncker, revelar que o Governo português, à semelhança do espanhol e irlandês, manifestou não querer sequer discutir qualquer alívio da dívida grega antes dos períodos eleitorais que se aproximam. Tratou-se, segundo o Passos Coelho, de um mal-entendido e de uma meia-verdade.
Finalmente, o Organismo Europeu de Luta Anti-fraude levanta questões sobre a famigerada empresa administrada por Passos Coelho: Tecnoforma - uma investigação que envolve o Ministério Público português e a Direcção-geral do Emprego para recuperar verbas indevidamente utilizadas pela Tecnoforma. Refira-se que no período em causa os fundos estavam sob tutela de Miguel Relvas e Passos Coelho prestava consultadoria à empresa. Anos volvidos, Passos Coelho lá aprendeu mais sobre pagamentos à segurança social.

O primeiro-ministro. um perdido pela Europa, sobretudo pela Europa de Merkel, sempre disposto a tudo para agradar à UE, credores e afins, é agora tramado pela mesma Europa que tanto adulou. Ironias do destino.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Reestruturação de dívida? Não.

É desta forma primária que Passos Coelho vê a possibilidade de reestruturar a dívida e mais: o primeiro-ministro de Portugal, segundo o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, recusou o alívio da dívida grega, e por inerência, da própria dívida portuguesa. De resto, com que a argumentação pode o primeiro-ministro de Portugal recusar o alívio da dívida de um país da Zona Euro e pugnar por um qualquer alívio da dívida portuguesa? A tal que não é sustentável.
Juncker afirmou que países como Portugal e Espanha recusaram a discussão sobre a reestruturação da dívida antes das eleições legislativas que se avizinham. Passos Coelho afirma que se tratou de uma confusão do Presidente da Comissão Europeia e pode contar com o apoio do indefectível Cavaco Silva.
Este episódio apenas vem demonstrar que Passos Coelho não se está a lixar para eleições, como está disposto a tudo para vencer, e esse tudo inclui colocar os seus interesses e os do seu partido à frente dos interesses do país. 
Recorde-se que o ainda primeiro-ministro português sempre rejeitou a possibilidade de qualquer reestruturação da dívida, nem sequer queria ouvir falar desse cenário, inviabilizando desse modo qualquer discussão sobre um assunto central.

Se já sobejavam razões para não depositar o voto em tamanha irresponsabilidade sempre acompanhada por um rol vergonhoso de mentiras, o que dizer agora de mais esta peripécia de Passos Coelho?

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A vez do irrevogável

O irrevogável - vulgo Paulo Portas - contou com tempo de antena para proferir as banalidades do costume. Numa entrevista concedida à SIC, Portas, fez a defesa da governação, com a cautela do costume, procurando mostrar que não está fora da coligação, mas que esta também nunca foi verdadeiramente um exemplo de coesão. Com a sua pose habitual de estadista, Portas, à semelhança de Passos Coelho, mostrou não ter uma ideia para o país, deixando no ar expectativas de recuperação e promessas de fazer o possível para acabar com a sobretaxa do IRS. Pelo caminho, o discurso esbarra sempre nos culpados do costume: o PS - aparentemente terá sido o PS a governar nos últimos quatro anos.
Paulo Portas, alguém indelevelmente ligado ao famigerado, desastroso e opaco negócio dos submarinos, age como se fosse verdadeiramente determinante para o país, pese embora o seu partido conte com uns meros seis por cento de votação.
É isto que temos: partidos que governaram o país durante os anos de empobrecimento e que se vangloriam com feitos que não existem ou que foram escamoteados pelo peso da realidade. Ideias para o país? Nem uma. Apenas a multiplicação de entrevistas inócuas, mas pejadas de uma estranha gabarolice.
O irrevogável cumpriu a sua parte sem se distanciar de Passos Coelho. Todavia, eles sabem que a mediocridade, estranhamente, colhe votos.