sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Um Orçamento sem oposição

O país já conhece o Orçamento de Estado 2018 e a oposição ainda não decidiu exactamente para que lado se virar. Todos repetem o mesmo: "orçamento eleitoralista" e obtusidades como aquela que postula que o OE 2018 faz lembrar os orçamentos do tempo de José Sócrates, não se percebendo exactamente se se referem ao período de tempo subsequente à crise de 2008 e em que a política europeia foi expansionista durante perto de um ano ou a outro período. Enfim, de qualquer modo for a comparação é absurda, não merecendo sequer qualquer comentário alongado.
O Governo de António Costa, que contou mais ou menos com a participação dos parceiros desta solução, elaborou um documento que vem na linha dos anteriores: alguma, mas parca, reposição de rendimentos, designadamente com aumentos nas pensões e salários, mitigação da precariedade, muito longe ainda assim do que seria necessário, e algumas operações de cosmética que dão a impressão de investimento em áreas como a Saúde e Educação. Na verdade, pouco mudará de substancial.
Trata-se de mais um orçamento a prometer muito e a traduzir-se efectivamente por muito pouco. À semelhança dos anteriores. Por conseguinte, falar em eleitoralismo ou pior, estabelecer paralelismos com orçamentos apresentados no tempo de José Sócrates só pode ser o resultado da confusão que grassa pelos partidos de oposição, deixando-os verdadeiramente perdidos e sem rumo. Rui Rio que o diga.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Tempo de união

Restam cada vez menos dúvidas: apenas a união daqueles que defendem a democracia pode impedir a ascensão ao poder de um fascista no Brasil e no regresso à ditadura. Apenas uma grande frente contra Bolsonaro poderá evitar uma verdadeira tragédia para o Brasil. Haverá quem ainda considere estas palavras exageradas e distantes da realidade, exactamente na mesma linha de tantos outros há largas décadas atrás na Europa e depois na América do Sul. Não há nada de exagerado nestas palavras e se sentimos a necessidade de as corrigir é porque as mesmas pecam por não descrever, com necessário rigor, o que está na calha.
Todavia, a incapacidade do neoliberalismo continuar a fornecer ilusões para esconder a realidade, a subsequente morte da esperança, o desencanto com as soluções oferecidas pelos políticos, o cristianismo evangélico que conta com a ignorância e com a miséria para aumentar o seu poder e regressar à idade das trevas , a corrupção endémica, mas apenas atribuída a um dos lados políticos graças a um comunicação social pouco isenta, a mais gritante falta de cultura democrática e sobretudo um sistema pouco alicerçado em partidos políticos que evite a subida ao poder do autoritarismo são indicadores que merecem ser explorados se quisermos compreender a ascensão de várias formas de autoritarismo. Não esquecer que estes ditadores em potência utilizam a democracia para chegar ao poder para depois liquidá-la. E nesse contexto os partidos políticos são, amiúde, o grande óbice à ascensão desses ditadores em potência.Em suma, não resta outro caminho que não passe pela união imediata de todos os democratas para combater essa ascensão e também a curto prazo encontrar formas de fortalecer as democracias, sob pena de as mesmas sucumbir às mão do primeiro imbecil com o discurso do ódio.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Passos Coelho: uma oportunidade perdida

Numa altura em que se exige que os democratas se insurjam contra as diferentes ameaças autoritárias, torna-se ainda mais evidente a importância de algumas palavras e de alguns gestos como a manutenção do apoio de Pedro Passos Coelho à candidatura à Câmara de Loures de André Ventura. Recorde-se que o inefável candidato pelo PSD à edilidade apostava num discurso racista contra um grupo étnico. Consequentemente, e nessa altura, tornou-se claro que Ventura era um populista em potência, para não dizer mais e ainda assim Pedro Passos Coelho manteve o seu apoio, pese embora o CDS, por exemplo, o tenha retirado.
Ora, uma das formas dos democratas combaterem a ameaça autoritária, venha ela sob a forma de um populismo aparentemente inócuo ou sob a forma de fascismo mais difícil de disfarçar, é precisamente retirar toda e qualquer forma de apoio. De resto, Mussolini e Hitler contaram com o apoio de políticos ou partidos seus contemporâneos, com os resultados conhecidos.
Por conseguinte, importa lembrar quem se posicionou do lado certo da História e quem, por mero calculismo político, se colocou ao lado de quem promove as divisões como forma de fazer política e de quem agora se apresenta com um novo partido com medidas como a castração química, o regresso às penas de prisão perpétua, à proibição constitucional da eutanásia ou à proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E como se sabe estas medidas constituem apenas a entrada, faltando o prato principal.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A morte das democracias

A democracia, o tal sistema a que nos habituámos, de tal maneira que nos esquecemos de lutar por ele, está em perigo de morrer e até em países europeus como a Hungria essa morte já foi consumada.
Em tempos, as democracias morriam às mãos de golpes militares ou outros golpes de Estado, agora são os próprios cidadãos, através do seu voto, a viabilizar a escolha do autoritarismo que, no melhor dos casos, enfraquecerá o sistema democrático e, no pior, acabará por matar a própria democracia.
A democracia morre assim às mãos de cidadãos descontentes e/ou desinteressados, executada por ditadores que usam caminhos democráticos a seu favor, transformando-os, dando-lhe o tão necessário cariz autoritário.
Dissociar a evolução do capitalismo desta deriva autoritária pode ser um exercício precipitado. De resto, o capitalismo selvagem pejado de especulação, pai das desigualdades, movido exclusivamente pelo aumento do lucro e convenientemente disfarçado pela tecnologia e pelos seus encantos, dá origem a um mundo a que muitos não sentem pertencer; dá origem a um mundo que muitos simplesmente não compreendem (Nietzsche já dizia que o maior dos perigos acontecia quando tudo deixava de fazer sentido); dá origem a um mundo sem esperança numa vida melhor para si e para o seus filhos.
Por outro lado, esses ditadores ou aqueles que tentam lá chegar contam com o apoio, mais ou menos tácito, das elites capitalistas para quem a morte da democracia não é forçosamente negativa desde que essa morte e o que lhe sucede não ameace os negócios. Não se espere, consequentemente, que sejam essas elites a lutar pelas democracias, desde logo porque essas mesmas elites quando colocadas perante a possibilidade de se deitarem com Deus e com o diabo escolhem quem dá mais lucro.
Perante isto, resta aos cidadãos saírem das suas redomas para lutar pela democracia – uma luta que, em bom rigor, nunca devia ter sido abandonada. Resta aos cidadãos lutarem pela democracia – pela sua soberania, pela possibilidade de escolha, pelo seu poder - sobretudo aqueles que escolhem o silêncio como modo de vida.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Chega

André Ventura, vereador do PSD na Câmara de Loures, conhecido pelo seu discurso inflamado contra a comunidade cigana, vai renunciar ao mandato para criar um partido político, um tal de "Chega".
Ora, aproveitando os ares dos tempos, Ventura prepara-se assim para evitar uma nova maioria de esquerda, propondo a proibição constitucional da eutanásia, a castração química de pedófilos, o regresso da prisão perpétua ou a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. 
A ascensão do fascismo e o sucesso de alguns movimentos ou figuras políticas dessa natureza dá força a quem recentemente procurou assaltar o poder no PSD e, perante o insucesso, resolve aproveitar o espírito dos tempos em que o fascismo voltou a ser opção para apresentar um novo partido que acabará, mais cedo ou mais tarde, de se aproximar desses ditos movimentos.
E não vale a pena desvalorizar, mesmo a mais abjecta das propostas - aquelas que deveriam arrepiar qualquer ser humano - tem os seus seguidores que, perdida a vergonha, assumem o que são e fazem campanha por quem partilha um ódio visceral pelo seu semelhante.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Subjacente ao fascismo

O neoliberalismo deu à luz gerações de frustrados, despidos de qualquer esperança num futuro melhor para si e para os seus, empenhados em dirigir a revolta contra os que lutam politica e democraticamente contra as desigualdades, sempre na expectativa do regresso de um pai que os proteja e que lance luz sobre um mundo que já não compreendem e que lhes causa tanto sofrimento. É também desta forma que se explica a ascensão dos movimentos fascistas.
De resto, essas gerações que outrora se sentiam confortavelmente nas classes médias ou com esperanças de vir a entrar nesse clube, agarram-se agora ao primeiro ditador boçal, invariavelmente armado com um discurso simplório, mas pejado de ódio, um ódio que é simultaneamente um sucesso precisamente por ser um ódio contra si próprio.
Por outro lado, o terreno não podia ser mais propício ao regresso do fascismo: a tecnologia cria a ideia de desenvolvimento e de mais informação. Pelo caminho não existe cultura democrática, apenas órfãos da História, com gente adulta transformada em crianças que seguem radicalmente os pais, chegando mesmo a abandonar os seus egos para andar atrás de quem lhes promete a ruptura.
Que não subsistam dúvidas: o neoliberalismo deu um forte contributo para o enfraquecimento massivo não só das democracias (que não resistem a níveis elevados de desigualdade social), mas também da auto-estima de demasiada gente.
E perante o regresso do fascismo, promovem-no ou silenciam-se, um pouco à semelhança das elites alemãs que, desvalorizando Hitler, julgavam que o conseguiam controlar. Enganaram-se. Para desgraça de todos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A ascensão do ódio

Não sabemos qual será o resultado da segunda volta das eleições no Brasil, mas Bolsonaro parece muito bem posicionado para ser Presidente do maior país da América do Sul. Apenas uma grande coligação pró-democracia pode eventualmente evitar o pior dos cenários - sim, Bolsonaro é a antítese da democracia e pode muito bem juntar-se a Duterte, Órban, Trump, Erdogan, Salvini e Putin. Ainda assim, Bolsonaro, ordinário, justicialista, misógino, homofóbico e por aí fora, bem ladeado por evangelistas, consegue a proeza de ser ainda pior do que as figuras atrás enunciadas.
Entretanto outros se prepararam para chegar ao poder através de um ideário racista, misógino, com excitação pela autoridade de chefes masculinos, com propostas de deportações de massa, banalizando a violência, transformando-a numa coisa aceitável e até necessária, invariavelmente enquadrados numa espécie de luta pobremente inspirada nas teorias de Darwin, em plena exultação de massas. Em suma, fascismo. Em suma, ódio.
Acresce que em Espanha um partido designado por "Vox" apela abertamente a deportações em massa de imigrantes, menor protecção para mulheres vítimas de violência doméstica e o regresso à pena de prisão perpétua. Um partido fascista que cresce exponencialmente perante a passividade geral.
Todos têm em comum o ódio, na sua versão mais descarada e perversa. Já nem sequer se dão ao trabalho de polir o discurso e disfarçar as intenções mais abjectas, bem pelo contrário, fazem dessas intenções e desse discurso perverso elementos chaves da sua acção política, estando esses mesmos elementos directamente relacionados com o sucesso dos movimentos, partidos ou figuras políticas fascistas.
A passividade de todos que se consideram democratas terá, uma vez mais, custos incomensuráveis.