quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Crise política na Alemanha

Com a cada maior certeza de novas eleições na Alemanha, sobram as incertezas quer para a Alemanha, quer para a própria Europa, impondo-se a questão: até que ponto o falhanço dos principais partidos alemães quer no alcance de um acordo, quer na própria resolução dos problemas mais prementes, não poderá resultar num maior desgaste desses próprios partidos, com benefício da extrema-direita?
A resposta, claro está, só após a realização de novas eleições, mas o risco está lá e o AfD está também presente para aproveitar o que vier e que será bem-vindo. Recorde-se que nas últimas eleições este partido conseguiu um resultado histórico, enquanto a CDU de Merkel teve um resultado abaixo do habitual. E os sociais-democratas do SDP (que se haviam coligado com a CDU) tiveram um dos piores resultados da sua história, seguindo os passos de outros partidos socialistas e sociais-democratas, num processo iniciado pelo PASOK grego cujo destino, ironicamente, não pode ser dissociado da própria Alemanha.
Merkel paga a factura da má gestão que fez da questão dos refugiados e a Europa colhe aquilo que a Alemanha ajudou a semear, sobretudo durante o processo de gestão da crise financeira transformada em crise das dívidas soberanas, num processo também iniciado com a Grécia. A Europa saiu mais fragilizada, menos coesa, longe, muito longe, do projecto europeu, tudo para que a Alemanha pudesse disfarçar o desregramento do seu próprio sistema bancário.
O resultado está à vista: apesar das aparentes melhorias, os países debatem-se com elevadas taxas de desemprego, maior precariedade, menos futuro. Esta é uma factura que se paga. Paga-se com deslocamento de votos do convencional para os extremos; paga-se com o aumento do ódio; paga-se sobretudo com a desunião - a antítese do projecto europeu. As responsabilidades da Alemanha em tudo isto ainda estão por se contabilizar.
Por outro lado, a Europa fica mais fragilizada se a crise política na Alemanha se complicar, sobretudo num contexto em que existem variáveis como o Brexit, Trump e Rússia. É que se Alemanha fez mal ao projecto europeu, este terá poucas hipóteses de sobrevivência sem a Alemanha.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

4 partidos, 4 semanas. Resultado: novas eleições

4 partidos (CSU, conservadores sociais cristãos, CDU, partido conservador liderado por Angela Merkel, os liberais do FDP e Verdes), 4 semanas de negociações. Resultado: zero. Não há acordo e muito provavelmente a realização de novas eleições.
Terá sido o FDP a fragilizar e inviabilizar o acordo conhecido por Jamaika (correspondência das cores dos partidos com a da bandeira daquele país). Contrariamente ao que se poderia esperar, as dificuldades não vieram dos Verdes, partido que tem vindo a virar à direita, rendendo-se aos encantos do neoliberalismo. Foi mesmo o FDP a colocar um ponto final na questão.
Segundo a imprensa, existiram dois temas quentes na agenda de negociações: refugiados e clima, sendo que era neste último tema que os Verdes procuraram reclamar a sua agenda ecológica. Mas terá sido sobretudo a questão dos refugiados a colocar pressão numa ferida que parece cada vez mais aberta e cujas receitas para que se verifiquem melhorias não parece estarem ao alcance dos principais partidos. À espreita está o AfD, partido de extrema-direita, que conseguiu mais de 12 % dos votos e representação parlamentar, pela primeira vez. O falhanço das negociações entre os principais partidos pode efectivamente contribuir para um aumento da erosão dos mesmos, facto que já se verificou nas últimas eleições, com a CDU e o SDP a perderem eleitorado.
Será na realização de novas eleições que reside esse perigo. Não sendo possível a coligação entre os quatro partidos, a possibilidade de Merkel solicitar ao Presidente novas eleições volta a estar em cima da mesa. 

Na verdade a realização de novas eleições parece a hipótese mais plausível. Não parece realista que Merkel governe em minoria, nem tão-pouco existe essa tradição na Alemanha; nem parece provável que o SDP volte atrás na palavra e aceite coligar-se com a CDU. Restam, por conseguinte, novas eleições, nas quais não é de excluir nova penalização dos partidos de governação, com benefício para partidos como o AfD. Afinal de contas, sobra também a ideia de que esses partidos não são capazes de se entender ou de resolver problemas prementes e que promovem a divisão como é o caso dos refugiados. O AfD está à espreita ansioso por uma nova oportunidade.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Angola: sinais promissores?

O afastamento dos filhos do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos das principais empresas do Estado, sobretudo da filha Isabel dos Santos da Sonagol, são, aparentemente, sinais promissores. Sinais de que João Lourenço, apontado como sucessor de Eduardo dos Santos no MPLA e dos destinos do país, quer mudar Angola. Se esses sinais podem significar uma verdadeira mudança já é, naturalmente, e para já, uma incógnita. O que é certo é que até ao momento João Lourenço fez mais de 60 exonerações, apelidado já de "exonerador implacável".
Depois de 38 anos de poder e de uma guerra civil, José Eduardo dos Santos afastou-se da presidência, deixando os filhos em locais estratégicos dos negócios angolanos. Até às últimas semanas imperou a ideia de que João Lourenço mais não era do que a continuidade de Eduardo dos Santos e nem se sonharia com os afastamentos agora verificados. Porém, o novo Presidente angolano parece disposto a encetar verdadeiras mudanças, começando exactamente pela prole de Eduardo dos Santos. De resto, esses afastamentos emitem não só sinais políticos, mas também económicos, com uma tentativa de estabilizar a difícil economia angolana. E a julgar pela reacção de Isabel dos Santos, o seu afastamento não terá sido minimamente esperado, o que afasta teorias que apontam para um jogo combinado entre o actual Presidente e o ex.
Por outro lado, existe a questão militar, designadamente as cúpulas afectas ao ex-Presidente. Esta é uma questão central se a ideia de João Lourenço será mesmo a de mudança, o que fazer com essas cúpulas? A transição será suave? Natural? A ver vamos.
Seja como for, os sinais emitidos pelo Presidente João Lourenço nos últimos dias são claramente positivos, agora se os mesmos se ficarão apenas por algumas mudanças na prole de Eduardo dos Santos ou irão mais longe é outra questão. Ainda assim e a julgar pela rapidez com que João Lourenço encetou estas profundas mudanças, mais poderão estar na calha. E já vai sendo tempo.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A vontade política e os compromissos

A greve dos professores trouxe, uma vez mais, ao de cima as dificuldades que este ou qualquer outro Governo encontraria para corrigir esta e outras tantas injustiças. Todavia e contrariamente ao anterior Executivo, este tem na sua cartilha ideológica a vontade política de corrigir injustiças, pelo menos a vontade está lá, e a prova disso mesmo prende-se com a reposição de rendimentos que são apanágio do Governo de Costa, coadjuvado pelos partidos mais à esquerda. Esta é uma diferença fundamental: os recursos são parcos, os constrangimentos externos incomensuráveis, mas ideologicamente este Governo procura uma justa redistribuição de rendimentos, totalmente o contrário do que fazia o anterior governo. 
Com efeito, o Governo de Passos e Portas deram um forte contributo para o alargamento do fosso entre quem mais tem e quem pouco ou nada tem, fomentando desigualdades e injustiças que fazem parte da cartilha que seguem, nunca se coibindo de promover divisões entre os cidadãos, com especial relevo para funcionários públicos versus trabalhadores do sector privado. E este é todo um mundo de diferença.

O actual Governo tem procurado fazer o contrário e com resultados melhores, mesmo contando com a relutância e cepticismo da Europa. Todavia, é difícil ir mais longe na eliminação das injustiças sem exaltar os ânimos europeus - coisa que nem PS, nem o Presidente da República admitem como possibilidade. Deste modo, as ditas injustiças, muitas delas aprofundadas nos anos em que a troika excitava as hostes laranjas, continuarão a existir e o melhor dos cenários parece ser a possibilidade de não se verificar um aprofundamento dessas mesmas injustiças. Pelo menos para já torna-se intrincado traçar outro cenário.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Um descaramento sem fim

Os partidos da direita, os que há muito perderam o rumo, procuram alcançar ganhos políticos com tudo o que cheire a tragédia. Foi assim com os incêndios e tem sido assim com os casos de legionella. A conversa assenta invariavelmente no mesmo pressuposto: o Governo PS, coadjuvado pelos partidos da "esquerda radical", não conseguem garantir as principais funções do Estado relacionadas com a segurança dos cidadãos. 
Assim, e tendo em conta que não existe outra estratégia que não passe pelo aproveitamento da desgraça, PSD e CDS unem esforços e atiram na mesma direcção. Tudo isto seria muito bonito não fosse o caso destes partidos que agora estão na oposição terem levado um elevado número de cortes nas funções do Estado. Ora, ainda assim tanto um partido como o outro não se coíbem de apontar o dedo a este Governo como se a austeridade até à morte não estivesse ainda a colher vítimas, como continuará a fazê-lo, sobretudo em áreas como a saúde.
Por outro lado, ao PS pode-se apontar o dedo sim, mas com outro fundamento: não estará a repor atempadamente o que foi retirado, sobretudo no que diz respeito à salvaguarda de áreas relacionadas com as funções do Estado. Mas como fazê-lo? Se sobre a cabeça pende a espada de Bruxelas? A margem não será muita e a Europa torcerá sempre o nariz a reposições, como já o faz no que diz respeito a reposições de rendimentos. Ou se continua a cumprir as regras draconianas europeias e haverá falhas no funcionamento do Estado, ou deixa de se cumprir com as consequências que se podem antever: olhe-se para a Grécia e ter-se-á um vislumbre do que nos espera.
Entretanto, fica o tal descaramento incomensurável de partidos que foram responsáveis por cortes sem precedentes no funcionamento do Estado e que agora vêm pedir responsabilidades a terceiros. 


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

As contradições de um partido sem rumo

Já com o sentimento de orfandade a perpassar o partido, o líder da bancada parlamentar do PSD acusa o Governo de estar a falhar onde o Estado não pode falhar. Vem agora isto a propósito do surto de "legionella" no Hospital São Francisco Xavier. Esta acusação não é inédita e foi exaustivamente repetida aquando da questão dos incêndios, sobretudo depois do pai Passos Coelho ter cometido um monumental erro ao ter procurado aproveitar-se de suicídios que nunca existiram no rescaldo de Pedrogão Grande. 
O argumento único repete-se assim e repetir-se-á sempre que for possível, até porque não há mais nenhum. No entanto, tudo se desmorona quando procuramos aprofundar o tema, designadamente os porquês. As respostas acabam invariavelmente por fazer ricochete. No caso dos incêndios e para além da questão dos eucaliptos fortemente promovidos pela ex-ministra da Agricultura, Assunção Cristas, fica também no ar o enorme desinvestimento na floresta, mais um que se inseria no contexto da austeridade em doses cavalares tão defendida e aplicada pelo Governo PSD/CDS. 
Agora no caso do surto da doença, e depois de se indagar um pouco pelos porquês, somos novamente confrontados com o dedo do PSD/CDS, desta feita em matéria legislativa que, segundo alguns especialistas, esvaziou a fiscalização tão necessária. É evidente que nada disto inviabiliza ou enfraquece a necessidade de se apurar cabalmente o que falhou no Hospital. Porém, as acusações proferidas pelos órfãos de Passos Coelho têm tido o condão de fazerem ricochete, chamando deste modo a atenção para a própria actuação do Governo do qual o PSD fazia parte.
Em suma, assistimos às contradições de um partido sem rumo, cuja orfandade chora a perda do pai, murmurando, esporadicamente, uma contradição ou outra.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Trump: um ano

Com a mais baixa taxa de aprovação dos últimos 70 anos, a rondar os 37 %, Donald Trump cumpre o seu primeiro ano de mandato. Um ano que, a julgar pelos aspectos negativos, é sentido como uma década de provação.
Um ano marcado por gaffes, fait-divers, palhaçadas e uma enorme prepotência conjugada por uma igual boçalidade; um ano marcado pela incapacidade em cumprir as mais emblemáticas promessas, designadamente o fim do Obamacare e o famigerado muro a separar os EUA do México; um ano marcado pelas estranhas relações entre a campanha de Trump e a Rússia, com graves suspeita de influência russa nas eleições americanas; um ano marcado pelo agravamento das divisões no seio da sociedade americana, com especial enfoque nas divisões raciais, e com o Presidente a fomentar essas mesmas divisões. Em suma, um ano em que não é possível destacar-se quaisquer aspectos positivos numa presidência que corre o sério risco de vir a ser considerada a pior de todos os tempos. Mas nada disto parece afectar o Presidente, cheio de si próprio, incapaz de sair de um registo de conflitualidade, coadjuvado por quem partilha consigo todo um mundo de mediocridade.

Um ano em que os EUA e o mundo saíram a perder. A democracia americana, desde logo, passou 12 meses terríveis e prepara-se para mais do mesmo ou ainda pior. Muitos caem na esparrela das divisões e das distracções, descurando o essencial: a América está perto do irreconhecível e as perspectivas não são animadoras, bem pelo contrário.