sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

É melhor não perguntar

A frase em epígrafe é uma entre outras reveladoras de um contexto onde impera o dinheiro indevido e a informação privilegiada. Esse contexto dá pelo nome de Reunião do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo - a gravação mencionada reunião acabou divulgada pela comunicação social.
Na conversa entre Ricardo Salgado e outros membros do Grupo Espírito Santo é discutida a distribuição de comissões pagas pela aquisição dos famigerados submarinos. 5 milhões para aqui, 15 para ali Quanto para quem? É melhor não perguntar, responde Salgado. Um exemplo do poder incomensurável dos membros da casta dominante composta por homens de negócio e políticos.
Dessa gravação percebe-se que o arquivamento do processo dos submarinos já era conhecida por Salgado. Recorde-se que este processo esteve em investigação no DCIAP desde 2006; recorde-se também que processos relativos ao consórcio alemão Ferrostal resultaram em condenações na Alemanha e na Grécia;  e, finalmente, importa lembrar que o procurador em 2012 referiu que "grande parte dos elementos referentes ao concurso público de aquisição dos submarinos não encontrava arquivada nos respectivos serviços (da Defesa). Paulo Portas, ministro da Defesa na altura, escapou incólume.
Entretanto, em semana de greves dos transportes públicos daqueles que procuram salvar as migalhas, ouve-se o habitual conjunto de palavras de desagrado precisamente dirigidas a quem tenta salvar o pouco que resta, fruto do seu trabalho. O que se passa com este país? É melhor não perguntar?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Greve

A greve é o último recurso dos trabalhadores, sinal de que o contexto em que se encontram inseridos se degradou de forma assinalável. Infelizmente, para alguns, a greve é merecedora de críticas inexoráveis. Em rigor, se fosse possível, a greve, para alguns, merecia ser abolida - porque põe em causa os interesses do país; porque não é economicamente viável, porque causa transtorno aos cidadãos, ou porque sim, simplesmente porque sim.
Exemplo de interesses do país - a venda da TAP. Existe alguém que acredite que a venda da TAP será positiva para o país? Mesmo com a multiplicidade de casos de outras privatizações que destruíram o pouco que nos restava, onerando cidadãos/consumidores?
Quanto à viabilidade económica, a dívida externa portuguesa não é viável e não vejo tanta alma inquieta com esse facto.
Finalmente, o transtorno dos cidadãos. É evidente que as greves causam dificuldades, sobretudo as greves do sector dos transportes públicos. No entanto, temos sido presenteados com perto de quatro anos de transtornos incomensuráveis e sem paralelo, resultado da governação de Passos Coelho e Paulo Portas sem que, insisto, veja muitas almas inquietas. Curioso, não é? Talvez fosse interessante questionar os Belgas sobre as suas impressões sobre a greve; quem diz os Belgas, diz boa parte dos povos europeus.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Confiança

Passos Coelho, entre membros do seu partido, referiu que não necessita do CDS para ganhar eleições. Isso é que é confiança. O ainda primeiro-ministro que enfrenta dentro de meses legislativas mostra-se convencido que vai ganhar as eleições.
Com efeito, o pior político é aquele que não vê as evidências; o pior político é aquele que se mostra incapaz de percepcionar os sentimentos dos seus cidadãos,
Passos Coelho demonstra viver absolutamente desfasado da realidade e essa realidade - a do desemprego, do trabalho precário, do enfraquecimento do Estado Social, do menosprezo pelos cidadãos; dos cortes salariais e de pensões e da venda do país - cair-lhe-á em cima precisamente no próximo período eleitoral. Com o CDS ou sem o CDS.
Passos Coelho sempre se mostrou incapaz de perceber que é sempre possível fazer mais e melhor pelos cidadãos. É preciso querer; é essencial existir vontade política. Passos Coelho não quis e não quer. Não faz parte do seu ideário e seguramente não fará parte da sua personalidade. É tão simples quanto isso.
As forças de mercado, a crise, os compromissos não explicam tudo - são inúmeros os exemplos disso mesmo. Passos Coelho não quer ver e, pior, não quer que os cidadãos se apercebam que é possível fazer muito mais e melhor. Passos Coelho ficará na História como a antítese dessa possibilidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O trabalho ainda não está feito

Qual a motivação para políticos como Passos Coelho e até certo ponto Paulo Portas lutarem pela reeleição? Desde logo, a incógnita que paira sobre um futuro desprovido de cargos políticos, em especial de governação. Um futuro que não será seguramente tão promissor do que aquele que implica a existência desses mesmos cargos. Mas existe outra motivação: concluir o trabalho que tem vindo a ser feito, em matéria de transformação social e de venda do país.
No que diz respeito à transformação social, importa consolidar aquilo que já foi feito: aumento da precariedade laboral, desvalorização salarial pressionada por elevados níveis de desemprego e enfraquecimento do Estado Social, passando sectores sob a alçada do Estado para o sector privado, designadamente na área da Saúde e Segurança Social.
Relativamente à venda de sectores estratégicos do Estado, temos a TAP, e no futuro a água poderá muito bem entrar para o vasto rol de privatizações. De resto a inexistência de limites à imaginação faz-nos temer o pior.
Por conseguinte, o trabalho ainda não está todo feito e será muito provavelmente essa a razão se encontra subjacente às motivações dos senhores acima referidos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dívida

Se a discussão sobre a dívida externa fosse meramente adiada em virtude do calendário eleitoral estaríamos nós muito bem – a discussão acabaria efectivamente por acontecer, seria apenas uma questão de tempo. Porém, não será essa a situação – os partidos do “arco da governação não querem que este seja um problema amplamente abordado e discutido.
PSD e CDS limitam-se a atribuir uma componente moral à dívida, esquecendo, convenientemente, que esse carácter moral – que pesa exclusivamente sobre o devedor – acaba invalidado com o facto dos credores lucrarem com os empréstimos. E que lucros!
PSD e CDS apoiam a parca discussão no carácter moral: tem que se pagar o que se deve, embora tenham deixado cair a tese ridícula e ofensiva de “viverem acima das suas possibilidades”.
PS, alinhado com os partidos acima referidos, demonstrando apenas ligeiras divergências, evita a discussão porque esta implica, sobretudo à sua esquerda, a preponderância de questões e posições pertinentes. O PS não quer discutir a dívida, não quer tomar posições que em rigor não são distintas daquelas manifestadas por PSD e CDS.
A dívida é o maior problema do país – invalida o futuro e escraviza um povo. A dívida que merece ser discutida, sobretudo quando se destaca um contexto de relações desequilíbrios entre credores, dotados de uma capacidade incomensurável de fazer valer as suas posições, e devedores, reféns de políticos vendidos e de povos amedrontados.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Logro

O logro é prática comum nos últimos anos, sobretudo ao longo da última década de governação socialista e social-democrata com o apêndice CDS. Mas há um que tem sido exposto pelos partidos mais à esquerda do PS: os números do desemprego.
Então não é que o Banco de Portugal vem dar razão a esses partidos que sempre questionaram os números do desemprego? Segundo o Banco de Portugal, o emprego criado - real - fica muito abaixo da propaganda oficial
Assim, os 6 por cento de aumento no sector privado, são na realidade uns meros 2,5 por cento e dentro deste número entram os famigerados estágios  O número real cifra-se nos 1,6 por cento.
As discrepâncias são explicadas com alegadas razões metodológicas. Sempre é preferível falar-se em razões metodológicas do que em mentira e na verdade é mesmo disso que se trata: de mais um mentira vinda de um governo que isoladamente se gabava dos números relativos à criação de emprego, mesmo quando um dos responsáveis da troika mostrava a sua admiração com os números do desemprego e criação de emprego em Portugal - as suas interrogações assentavam na desconfiança relativamente a esses resultados milagrosos.
Estes números do Banco de Portugal aproximam-se mais da realidade, embora fora da equação fique a questão da precariedade que subjaz à criação dos parcos empregos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Os donos disto tudo...

... afinal alegam não ser donos disto tudo, considerando mesmo o epíteto ofensivo, pelo menos Ricardo Salgado. As televisões inundaram o espaço público com frases sonantes e acusações recíprocas dos senhores que até há bem pouco tempo estavam à frente dos destinos de um dos maiores bancos do país - um dos bancos que mais participou na derrocada do país, estando invariavelmente envolvido numa boa parte dos negócios escabrosos realizados em Portugal num contexto de promiscuidade abjecta entre poder político e poder económico-financeiro.
O país real - dos desempregados, trabalhadores precários, famílias endividadas que viram as suas situações agravar-se com cortes salariais e de pensões, país daqueles que já têm dificuldades em suprimir as necessidades básicas - assiste ao confronto entre primos cuja voracidade atingiu limites incompreensíveis.
Entrar nos detalhes opacos e intrincados do caso BES é exercício que não me interessa; entre contabilistas, governador do Banco de Portugal, primeiro-ministro, ministra das Finanças, primos e afilhados - desta feita sem motoristas envolvidos - alguém será culpado.
O facto é que os custos desta derrocada, resultado de um fome de dinheiro e de poder sem limites, passará inevitavelmente para o lado dos cidadãos - os tais do país real, aqueles que um dos donos disto tudo afirmou serem os verdadeiros donos disto tudo. Enfim, um nojo a que o país estranhamente parece ter-se habituado.