sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Bernie Sanders

A corrida à Casa Branca é tarefa árdua e Bernie Sanders parte com clara desvantagem: sem apoio de Wall Street e de todos os que têm interesse na manutenção do status quo e marcado ainda por uma comunicação social que o considera marxista (um verdadeiro anátema nos Estados Unidos), resta a Sanders o apoio daqueles que lutam por uma mudança no actual estado de coisas, sendo essa a grande vantagem do candidato democrata - conta com o apoio inequívoco de tantos que se têm manifestado com a ditadura da alta finança.
Apelidado de perigoso radical (comunista) quando na verdade se trata de um social-democrata aos olhos de qualquer europeu, Bernie Sanders tem mostrado ser substancialmente diferente da sua principal adversária no Partido Democrata, Hillary Clinton. Contrariamente à ex-primeira-dama, Sanders está disposto a lutar contra a preponderância de Wall Street, devolvendo a democracia a quem efectivamente ela pertence: ao povo americano. Essa é a principal diferença, a promessa de recuperar aquilo que americanos (e mais recentemente europeus) há muito perderam: o poder do povo, a democracia.
De resto, Sanders tem contribuído para assinalar uma diferença não só comparativamente com o Partido Republicano (infestado pelo “tea party” e, paradoxalmente, por uma espécie de vale tudo para a manutenção do referido status quo), mas no próprio interior do Partido Democrata, obrigando Hillary Clinton - vencedora antecipada - a mudar o seu discurso, aproximando-o das pessoas, sobretudo daqueles que, à semelhança de Sanders, têm lutado contra a ditadura da finança. Todavia, Clinton está demasiado comprometida com essa ditadura, com Wall Street, com os milionários e com os obscenamente multi-milionários.
Apesar dos primeiros resultados serem auspiciosos, dificilmente Bernie Sanders conseguirá vencer a corrida à Casa Branca no seio do Partido Democrata, mas já conseguiu uma vitória: trouxe à luz do dia a vontade de mudança que cresce em muitos americanos, uma mudança que um dia chegará, começando pela recuperação da democracia.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Desequilíbrio

Sou apologista de uma comunicação social isenta e rigorosa, coisa inexistente em Portugal. Uma comunicação social isenta e rigorosa contribui para o aprofundamento do pluralismo tão necessário à democracia, mas ao invés mostramos satisfação com a existência de órgãos de comunicação social ideologicamente comprometidos e que tratam os telespectadores, leitores e ouvintes como se fossem néscios.
Paralelamente o desequilíbrio tornou-se evidente nos últimos anos: a direita domina toda a comunicação social contribuindo assim para a existência de uma opinião pública ideologicamente envenenada. Na televisão, maná de muitos portugueses, tudo se resume ao seguinte: entre programas do entretenimento mais bacoco inserem-se blocos de pseudo-informação sem qualquer rigor e com o único objectivo de moldar as posições políticas. A título de exemplo atente-se à forma como o OE2016 tem sido tratado pela comunicação social, comparativamente a todos os orçamentos de Passos Coelho, invariavelmente inconstitucionais, e os seus inúmeros rectificativos. 
Hoje começa a discutir-se a necessidade do surgimento de um órgão de comunicação social de esquerda, declaradamente de esquerda. Em condições normais não me mostraria particularmente interessada, mas no contexto actual, indelevelmente conspurcado por uma forma prosaica de neoliberalismo, vejo-me forçada a reconhecer a importância de encontrar algum equilíbrio, por anódino que seja. De resto, não podemos ignorar que o próximo Presidente da República deve tudo à comunicação social, incluindo a própria presidência.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

E agora?

A direita anda desorientada, é um facto. Depois de anos de políticas de empobrecimento baseadas invariavelmente na teoria da inevitabilidade que visaram os "piegas" e depois de perderem o poder, PSD e CDS tudo fizeram para que o OE2016 sofresse o chumbo das instituições europeias.
Todavia, o OE2016, após as negociações encetadas por Costa e por Centeno, passou pelo crivo da Comissão deixando Passos Coelho e os seus acólitos órfãos de argumentos. Afinal pode-se negociar e conseguir resultados diferentes dos apregoados por PSD e CDS. Afinal a postura de subserviência não é condição sine qua non para os representantes políticos portugueses. Afinal podemos andar erguidos e não vem daí mal ao mundo.
E agora? O que resta à frouxa linha de argumentação de PSD e CDS? Resta criticar os aumentos de impostos contidos no orçamento, o tais que atingem bens importados longe de serem considerados de primeira necessidade e inventar uma nova ideia de classe média.
PS e restantes partidos de esquerda conseguiram preservar os rendimentos do trabalho, não ultrapassando nenhuma linha vermelha e cumprindo aquilo que prometeram - outra novidade dos últimos anos. PS e restantes partidos de esquerda conseguiram negociar com os obtusos de Bruxelas um Orçamento de Estado oposto ao empobrecimento a que o país tem sido sujeito e ainda assim conseguir que o mesmo seja aprovado. Não restam muitos argumentos à direita vazia e assanhada.

Ainda assim haverá quem, em exercícios de perfeito masoquismo, terá saudades de uma criatura de seu nome Pedro Passos Coelho, a começar pela comunicação social também ela comprometida como nunca se tinha visto.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Coisas impressionantes

Era uma vez uma senhora alemã, reputada lá para os seus lados, que confessou aos seus vizinhos ter tido um cãozinho capaz de feitos impressionantes. O cãozinho, infelizmente para a senhora, já não faz parte da sua vida, mas ela continua a elogiar os feitos impressionantes do pequeno animal.
E que feitos impressionantes foram esses? A senhora atirava uma bola e o cãozinho, com um vigor impressionante, ia buscar a bola até aos locais mais recônditos para a trazer de volta; o cãozinho quando via a senhora em questão abanava freneticamente a cauda, mas apesar do entusiasmo, o rafeiro obedecia cegamente às ordens da senhora: "senta", "dá a pata", culminando invariavelmente com uma lambidela no rosto. O cãozinho, embora rafeiro e longe de ser um animal considerado esperto, era absolutamente fiel à protagonista desta história, nunca rejeitando uma única ordem da senhora alemã.
Os tempos mudaram e o cãozinho que gostava de mostrar os dentes a algumas pessoas, curiosamente a portugueses, deixou de fazer parte da vida da senhora. Mas a dita continua a pensar no cãozinho com saudade e não se coíbe de elogiar os alegados feitos impressionantes que atribui ao animal, apesar de "impressionante" o animal nada ter.

Nota: Qualquer semelhança com a notícia que dá conta que Merkel elogiou Passos Coelho é mera coincidência. De resto, a responsabilidade de qualquer comparação pertence exclusivamente a mentes viciosas que fazem analogias de tão mau gosto.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Afinal é possível

Negociar sempre foi palavra maldita para o anterior primeiro-ministro, o peso da bacoca teoria da inevitabilidade aliada a uma mediocridade exasperante assim o exigiam. Desse modo, passámos mais de quatro anos a ouvir que tinha de ser assim porque tinha de ser assim. Invariavelmente munido de argumentos pueris, Passos Coelho engole agora um sapo de tamanho colossal, para utilizar um adjectivo que o líder do PSD tanto apreciava.
E agora? Afinal é possível negociar e António Costa, sem sucumbir aos profetas da desgraça, mostrou que é possível fazer diferente. E agora? Como fica o pueril linha argumentativa de Passos Coelho? Como fica a melhor amiga de Passos Coelho, a TINA (There is No Alternative)?
Com a passagem do OE2016 pelo crivo da UE, Costa mostrou como é que se fazem as coisas. Mas, Passos Coelho, encurralado por uma inusitada mediocridade, estará muito longe de reconhecer que estava errado. Tudo indica que Costa ganhou.

Costa mostrou que não é com uma subserviência canina que se consegue o que quer que seja. E não são as parcas cedências do actual Governo - aproveitadas por uma comunicação social servil - que retiram mérito a António Costa e a Mário Centeno. Afinal é possível, resume-se tudo à escolha das pessoas certas e Passos Coelho nunca foi uma, embora viva convencido que é um Messias com a bandeira de Portugal na lapela. Pelo caminho ficou uma oposição que procurou dificultar inexoravelmente a aprovação do OE2016 por Bruxelas, num exercício que se aproxima perigosamente da traição.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Portugal e a Europa

O nosso destino é indissociável do destino dos restantes Estados-membros da União Europeia, designadamente dos países do Sul da Europa, o que explica, em larga medida, a pressão das instâncias europeias ao Governo português, sobretudo agora que o Executivo de António Costa entregou o esboço do Orçamento de Estado.
Com a indefinição política em Espanha, onde existe a possibilidade de um governo de esquerda e com os italianos a mostrarem que não estão dispostos a sucumbir às pressões de Bruxelas, resta apertar com Portugal – país cujas lideranças políticas dos último anos podiam dar verdadeiras lições sobre fidelidade canina. António Costa, pelo menos até agora, dá sinais de querer reverter essa postura, dando outra imagem do país longe da insignificância que outros quiseram aprofundar no passado recente. Costa e a solução que a esquerda encontrou chega a ser motivo de inspiração em Espanha.
Mas pode ser que a mudança esteja de facto a chegar.

Por cá assistimos a uma multiplicidade de exemplos de irresponsabilidade. Por um lado uma comunicação social a torcer para que tudo corra mal; por outro, uma oposição a contribuir para que tudo corra efectivamente mal. A mesma oposição que dizia uma coisa para consumo interno e outra diametralmente oposta às instâncias europeias; uma oposição que com a bandeira de Portugal na lapela dizia que tudo fazer para garantir a salvaguarda do interesse nacional. Uma oposição que insiste no sucesso de uma receita contra todas as evidências. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Interesse nacional

Passos Coelho e o seu séquito passaram mais de quatro anos a fazer a apologia do interesse nacional, como pedra angular de toda a política do seu Executivo. Aliás o interesse nacional servia para justificar o injustificável, designadamente o empobrecimento colectivo. A Europa e o interesse nacional, sobretudo com o pedido de "ajuda" externa, tornaram-se absolutamente indissociáveis.
De pin na lapela e terço na mão direita, quando as circunstâncias eleitorais o justificavam, Passos Coelho dizia agir dentro daquilo que era o interesse nacional e foi assim que se seguiu cegamente as imposições de Bruxelas, como qualquer bom lacaio sequioso por agradar ao chefe, mostrando trabalho e procurando ir ainda mais longe do que a troika.

Será que é em nome desse mesmo interesse nacional que o PSD, agora na oposição, mostra-se tão esperançoso num chumbo do OE2016? Ou será esta mais uma incongruência da social-democracia recém descoberta por Pedro Passos Coelho.