quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Uma moção cheia de nada

A moção de censura apresentada pelo CDS, e que teve a feliz coincidência de cair na mesma altura em que se soube qual o papel da líder do CDS, Assunção Cristas, no polémico processo de venda do antigo pavilhão atlântico ao genro de Cavaco Silva, resultou, como todos sabiam, numa mão cheia de nada.
O CDS conseguiu apenas fazer uma triste figura de si próprio e nem a ideia veiculada de que esta estratégia bacoca poderá afectar negativamente o PSD parece fazer qualquer espécie de sentido. A única coisa que o CDS conseguiu foi cair no ridículo de apresentar a tal moção cheia de nada, condenada à nascença e a parcos meses de períodos eleitorais.
O PS saiu reforçado e o apoio dos restantes partidos mais à esquerda, apesar dos inegáveis altos e baixos, não sofreu de forma alguma alteração. Ou seja, a "esquerdas radicais" irredutivelmente junto do PS.
Resta uma liderança do CDS marcada pela vacuidade onde não existe verdadeiramente oposição capaz de enfrentar Cristas e para a qual a maior ameaça - Nuno Melo - procura um lugar na Europa, apesar de, depois de conseguir a eleição, não manifestar particular vontade de ficar, isto a julgar pelas faltas que o Eurodeputado, sem qualquer espécie de pudor, vai dando.
Por conseguinte, tratou-se da tal moção cheia de nada, inconsequente, e que pouco afectará o partido cuja imagem não é particularmente apelativa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Favorecimento no caso Pavilhão Atlântico e como isto anda tudo a correr mal à direita

Assunção Cristas, figura particularmente cara à comunicação social, pelo menos a julgar pelo tempo de antena que as televisões lhe dispensam, acaba por sair mal na fotografia veiculada por uma reportagem da TVI sobre o processo de venda do antigo Pavilhão Atlântico ao consórcio do genro de Cavaco Silva. Desta-se a suspeita de favorecimento daquela que era na altura ministra do Ambiente e Ordenamento do Território.
E tanto mais é assim que uma parte do CDS - constituída por quem não se revêm na actual liderança - pede mesmo a constituição de uma comissão parlamentar para investigar o envolvimento de Cristas num negócio que cheira mal independente da forma com que se olhe para ele.
Ora, estas suspeitas de favorecimento vêm dar mais um contributo para o enfraquecimento da direita. Sem estratégia e agora a chafurdar em escândalos, envolvendo não só actuais lideranças, como o chefe de eles todos - o inefável Cavaco Silva -, resta a Cristas e a outros fingirem-se de mortos e esperar que tudo passe.
No entanto, o tempo joga contra Cristas e apaniguados, as eleições estão quase aí e nem todo o tempo do mundo nas televisões chegará, sobretudo quando estas, esporadicamente, dão uma no cravo e outra na ferradura. Estamos muito em cima do período eleitoral para se fazer uma limpeza com eficácia.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Moção de censura

A moção de censura que será apresentada pelo CDS é nada mais, nada menos, do que uma prova de vida de uma direita que não sabe muito para onde ir. A escassos meses de eleições (europeias e legislativas) e perante a incapacidade de fazer uma oposição inteligente, a direita não tem muitos caminhos para além daquele que serve para mostrar que está, de alguma forma, viva.
No caso concreto do CDS, torna-se cada vez mais visível a incapacidade do partido de cavalgar no insucesso do PSD e nem a visibilidade facultada pela comunicação social, designadamente pelas televisões, é suficiente para fazer crescer o partido.
Nestas circunstâncias e a escassos meses de eleições, Cristas arrisca aquilo que considera ser um trunfo, mas cujo efeito, mesmo contando com os votos favoráveis do PSD, é perfeitamente nulo. A moção de censura está condenada à nascença por não contar com votos suficientes para ser aprovada e aproxima-se vertiginosamente do ridículo tendo em conta a aproximação do tal período eleitoral e a fragilidade da fundamentação.
Mas Cristas não terá de facto muitas janelas de oportunidade. Afinal de contas, o seu lugar não está assim tão garantido e ela não poderá continuar a enviar Nuno Melo para a Europa, esperando que ele por lá se mantenha. Para sempre. Desde logo porque a levar em conta o absentismo do eurodeputado podemos inferir que o mesmo não aprecia o lugar.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O estranho caso do fascínio da comunicação social com a Aliança

O estranho caso do fascínio da comunicação social com a AliançaAs sondagens indicam que o recém-criado partido Aliança não passará dos 3% das intenções de voto. Outros partidos atingem ou andam perto desse valor irrisório e não contam com o tempo de antena e páginas de jornais que a Aliança conta. Dir-se-á que a razão prende-se naturalmente com Santana Lopes, por se tratar de uma figura mediática que já ocupou cargos relevantes e que até já foi primeiro-ministro. Ainda assim, este seu partido é uma insignificância no cenário político. De resto, tomara a outros partidos contarem com tanta atenção.
Este estranho fascínio não se justifica apenas com a figura que criou o partido, é mais, muito mais do que isso. A direita anda de rastos, dividida entre os que vêem esperança em Rio e aqueles que sonham com o D. Sebastião de Massamá. Pelos intervalos está Assunção Cristas e a mais gritante vacuidade, levada ao colo pela mesma comunicação social que, desesperada por um novo fôlego da direita, olha embevecida para figuras gastas como Santana Lopes.
Este estranho caso do fascínio da comunicação social com a Aliança só se explica com a situação de desespero a que chegaram os arautos da direita: neste cenário desolador tudo o que aparecer é bem-vindo, até Pedro Santana Lopes.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

ADSE: uma guerra injusta

Esta guerra entre Estado e empresas no sector da saúde, com as últimas a rasgarem contratos com a ADSE é profundamente injusta para os beneficiários que, recorde-se, pagam inteiramente este subsistema de saúde. Mais: as razões invocadas por essas empresas, designadamente pelo Mello Saúde e Luz esbarram na lei e denotam uma ganância que não se justifica nem num contexto de capitalismo selvagem.
A ADSE reclama 38 milhões de euros com base num parecer da Procuradoria-Geral da República, os privados que se julgam acima da lei apoiam-se na chantagem e rasgam contratos, manifestando um desprezo abjecto pela saúde das pessoas - o lucro, o sacrossanto lucro, fala sempre mais alto. E quanto às tabelas de preços, a gula sempre foi apanágio destas empresas, por conseguinte não se encontra qualquer razão de espanto.
Ora, o que esta guerra nos mostra é que a chantagem também pode ser cartelizada e que o Estado tem que ter cuidado extremo nas relações que estabelece com estas empresas, cuidado extremo. De resto, ninguém coloca em causa a procura de lucro por parte destas e de outras empresas privadas, o que se põe em causa é não só o desrespeito pela lei, como a voracidade que degenera num desprezo desumano por quem já está em sofrimento.
E depois há as coincidências: a discussão que tem agora lugar a propósito da Lei de Bases da Saúde que traz à colação o papel dos privados nesta área da Saúde. Coincidências.
Não seria má ideia olhar para o caso de Vasco de Mello (Grupo Mello) e para os 900 milhões que ficou a dever à Caixa Geral de Depósitos; tivesse o banco do Estado agido da mesma forma como o Grupo Mello age agora neste processo da cartelização de chantagem, brincando com as vidas das pessoas, e teria caído o Carmo e a Trindade.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Ódios de estimação

Há um ódio de estimação pela intelectualidade de esquerda e há também um ódio de estimação promovido em parte por essa mesma intelectualidade relativamente à direita, com, convenhamos, demasiadas generalizações.
No entanto, o ódio de estimação pela intelectualidade de esquerda fomentado por uma direita extremista tem vindo a ganhar contornos preocupantes, designadamente com a ascensão de tiranetes que estão empenhados num processo de destruição das democracias.
Ora, dito isto, importa perceber as causas que subjazem a esse ódio de estimação com consequências particularmente nefastas para as democracias. De resto, esse ódio recrudesce à medida que a incompreensão relativamente aos tempos em que vivemos aumenta e que a esperança diminui - um ódio que dá força e é naturalmente alimentado pela extrema-direita; um ódio que se espalha por todo o lado: através da forma bacoca de se fazer politica, através da arte e pela crítica à transgressão tão inerente à arte; pelos "bons costumes" na sociedade, etc.
Existe uma parte da direita, muito especificamente a alt-right americana, que alimenta uma cultura tóxica, assente na ignorância e na boçalidade que procura apelar aos sentimentos mais primários de quem não compreende o mundo em que vive e de quem se sente excluído por ele - de quem tem vindo a perder importância a cada dia que passa, desprovido de qualquer esperança num amanhã melhor. A outra direita - a democrática - prefere assistir de camarote ou dar o seu apoio, de forma cada vez menos tácita.
O resultado está à vista: Trump, Brexit, Bolsonaro - naquilo que pode muito bem ser o último estertor das democracias tal como as conhecemos. E esses ódios estão muito longe de cessar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

E assim se destrói todo um conceito de greve

Na greve, à semelhança de outros acontecimentos da vida, não pode caber tudo e mais alguma coisa, designadamente o recurso à greve para cumprir agendas politicas distantes, muito distantes, dos trabalhadores ou para alimentar egos de dirigentes, alguns deles que nem sequer são dirigentes dos sindicatos.
Ora aquilo que a Ordem dos Enfermeiros tem vindo a fazer enfraquece todo o conceito de greve, não só pelo carácter cirúrgico da mesma, ou pelas exigências impossíveis de cumprir ou até por se tratar de uma guerra pessoal da actual bastonária, mas sobretudo porque se trata de uma greve desumana.
Recorde-se que o direito dos trabalhadores, no caso em apreço o direito à greve, inscreve-se numa matriz humanista que nada tem a ver com este desprezo manifestado por alguns em relação a esses mesmos princípios humanistas. Dito por outras palavras, quem se dispõe a passar por cima de tudo e de todos, colocando em causa a própria vida das pessoas, não pode estar à frente do que quer que seja, sobretudo em democracia. Dirigentes sindicais e outros desprovidos do mínimo de humanismo contribuem também para a divisão, até mesmo entre classes profissionais, como se começa a perceber no seio de médicos e enfermeiros. 
Em suma, é todo o conceito de greve que carece também do mínimo de compreensão por parte da sociedade que está a ser posto em causa com estas greves. De resto, a greve não pode ser vista como uma vaca sagrada sobretudo quando a responsabilidade já atingiu o grau zero. 



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