sexta-feira, 28 de abril de 2017

Passos Coelho critica o discurso dúplice do Governo

Sem nada para dizer, Passos Coelho insiste em proferir o já habitual rol de vacuidades que amiúde lhe rebentam na cara. Rebentavam - pretérito imperfeito. Na verdade, hoje já ninguém escuta ou sequer olha para o ainda líder do PSD.
Ainda assim, Passos Coelho não desiste. Desta feita acusou o Governo e os partidos que o suportam no parlamento de terem um discurso dúplice em relação à União Europeia. A crítica faz sentido sobretudo vinda de alguém que, na mais inexorável e exasperante ausência de espírito crítico, bajulou até à exaustão os líderes europeus, mais concretamente os responsáveis políticos alemães.
Passos Coelho, no alto da sua sapiência, não concebe que se possa criticar o contexto a que se pertence; Passos Coelho, nos píncaros da sua sagacidade, não percebe que o espírito crítico faz parte do pluralismo democrático e que, na ausência do mesmo, resta o vazio e a bajulação, como foi o seu propósito durante mais de quatro anos. Se o PCP sempre foi crítico da UE e da Zona Euro, nada disso é novidade e não tem sido essa questão em particular a inviabilizar pontes com o PS; se o Bloco considera a saída do Euro uma possibilidade, um plano B, criticando os tratados que têm sido, genericamente, nefastos para o país, nada de novo também neste particular - o que, uma vez mais, não inviabiliza os entendimentos e esforços necessários para forçar mudanças que consideram necessárias. O Partido Socialista, de natureza europeísta, não se coíbe, no entanto, de proferir críticas àquilo que considera errado no contexto da UE e da Zona Euro. Uma verdadeira lufada de ar fresco comparativamente com a atitude de subserviência adoptada por Coelho e seus acólitos que envergonhava o país, mantendo-se fiel à necessidade de ser forte com os fracos (internamente) e fraco com os fortes (externamente).

Pluralidade e não subserviência, carácter e não cobardia. Os  partidos visados por Passos Coelho mantêm a sua identidade e continuam a pugnar pelos seus ideários, sem perder a total noção da realidade, como já aconteceu com Passos Coelho ao acreditar que ainda tem alguma espécie de futuro à frente dos destinos do PSD e sobretudo ao acreditar que ainda voltará a ser primeiro-ministro.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Arábia saudita e os direitos das mulheres

Parece anedota, mas a Arábia Saudita integrará a Comissão dos Direitos das Mulheres das Nações Unidas. Já em 2015, na ONU, o mesmo país tinha encabeçado um painel dos direitos humanos. Não é anedota, não é falta de noção, são os petrodólares a ditar as regras, por muito ridículas que estas possam ser.
Nunca será demais recordar que o reino da Arábia Saudita trata as mulheres de forma ignóbil. Por ali, onde reina o petróleo e a compra de armas às potências mundiais, as mulheres não podem conduzir, nadar, fazer exercício em público. Não podem casar ou sair do país sem autorização masculina - as mulheres têm um guardião masculino. Têm acesso condicionado a universidades, transportes públicos, bancos, etc, já para não falar em direitos essenciais como o voto (apenas podem votar em eleições locais). Tudo sob vigilância apertada da Mutaween (polícia religiosa). Por ali, onde reina o petróleo e a compra de armas aos EUA, França ou Reino Unido, as mulheres são tratadas abaixo de cão.
A UN WATCH (ONG) compara esta votação à escolha de um incendiário para chefe dos bombeiros.
É evidente que esta escolha só vem enfraquecer o que resta de credibilidade das próprias Nações Unidas, deixando a certeza de que os negócios entre alguns dos seus países, no caso os países que votaram no Conselho Económico e Social da ONU, dominam tudo, inclusivamente os direitos humanos, em concreto os direitos das mulheres.
É ridículo, é um atentado aos direitos das mulheres, é um retrocesso - é isso tudo. E é sobretudo o peso dos petrodólares. Ponham os olhos nos países que votaram favoravelmente. Até gostaríamos de o fazer, mas a votação é secreta. Esconde-se a vergonha. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Os perigos da extrema-direita não desaparecem

Com o resultado eleitoral em França, no passado domingo, e com a mais do que provável vitória do candidato nem-nem (nem de esquerda, nem de direita), dito de centro, pró-europeu e que, embora se encontre fora dos partidos políticos que dominaram a cena política francesa partilha com eles a mesma natureza, os perigos da extrema-esquerda não desaparecem.
Marine Le Pen dificilmente conseguirá vencer a segunda volta das presidenciais, mas deixa uma semente que com facilidade germinará na eventualidade do falhanço de Macron e Macron tem tudo para falhar: ex-banqueiro, neoliberal não assumido, Macron não será capaz de resistir a mais desregulação laboral, menos Estado Social, enfim, mais receita desastrosa que tem contribuído para o afastamento dos cidadãos relativamente aos políticos convencionais - os que têm dominado a cena política nas últimas décadas; os mesmos que abdicaram da ideologia em nome do mercado, os mesmo que se vangloriam com a morte dessa ideologia, rendidos aos encantos dos mercados, dos negócios, da inanidade.
Marine Le Pen regressará em força quando esses políticos falharem, sobretudo num contexto em que a par da insegurança no emprego e no futuro, junta-se a insegurança nas ruas. Quando Macron falhar, estará lá Le Pen ou outra personagem similar para em cima dos destroços prometer um paraíso: sem imigrantes, sem refugiados, sem UE - todos os que, na óptica de muitos europeus são os responsáveis pelo retrocesso das suas condições de vida.

A Europa, diz-se por aí, respira de alívio. Por ora, o pior parece ter passado. Apenas por ora. Rob Riemen lembra-nos que Albert Camus acreditava que o bacilo do fascismo nunca morria, verdadeiramente. Quando Macron falhar, com a ajuda de republicanos, socialistas e afins, essa bacilo voltará a dar que falar.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nem de direita, nem de esquerda

Em França venceu o candidato nem-nem, o candidato que se vangloria de não estar nem à direita, nem à esquerda, facto que redunda amiúde na direita neoliberal. Terá de disputar agora as eleições com a inefável Marine Le Pen.
E porquê Macron? O candidato nem-nem é indiscutivelmente o homem preferido pelos negócios e subsequentemente pela comunicação social. Ex-banqueiro, envolvido com a fina flor dos negócios franceses, Macron é adorado. Tanto mais que foi escolhido pela comunicação social que o vendeu como sendo o único candidato capaz de vencer Marine Le Pen. A Europa que não muda também respira de alívio. Por enquanto. E os outros candidatos?
Fillion, embora interessante sob o ponto de vista dos negócios, viu-se irremediavelmente comprometido depois de escândalos de corrupção demasiado evidentes; escândalos esses que arruinaram as suas hipóteses. Hamon, o candidato socialista, mais socialista do que muitos e sobretudo mais do que Hollande, não teve tempo para mostrar essa sua natureza genuína e nunca teve a comunicação social do seu lado. O Partido Socialista Francês está acabado.
Mélenchon, nada interessante para os negócios, por razões óbvias. Logo, não teve boa comunicação social.
E Le Pen, não será ainda assim suficientemente atractiva aos olhos do poder económico e financeiro, não tanto pelo seu carácter xenófobo ou divisionista, mas porque Fillion e sobretudo Macron oferecem mais garantias a esse mesmo poder.

O resultado será a vitória de Macron numa segunda volta em que a maioria não quer ver Le Pen à frente dos destinos do país. Mas o resultado também será mais desregulação na legislação laboral de que Macron tanto sabe; será mais para mais ricos e menos para os restantes, em suma será mais doses da mesma receita que tanto tem contribuído para afastar os cidadãos da política. Embora numa segunda volta a vitória de Le Pen seria o pior dos cenários, a verdade é que a vitória de Macron é também uma oportunidade perdida. Talvez a última. Oportunidades destas, perdidas, só dão mais poder aos populistas. A continuar assim, o seu dia chegará.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Em nome da revolução

Em nome da revolução (bolivariana) valerá a pena sacrificar um povo, o seu povo? Vale. Sob o regime autoritário/chavista de Maduro vale e assim vai a Venezuela com o povo - em nome de quem foi feita a revolução  - privado dos bens mais essenciais, em fuga, reprimido ou até morto em manifestações. 
19 de Abril marcou o 207º aniversário da revolução de 1810 que deu à Venezuela a sua independência, data também marcada por protestos, pela repressão da Guarda Nacional Bolivariana e pela morte de dois civis e de um militar.
Recorde-se que há escassas semanas atrás o Supremo Tribunal assumiu as funções de um Parlamento eleito democraticamente e, embora a medida tenha sido revertida, as palavras que ecoam na cabeça de muitos venezuelanos não se dissiparam e a sensação da golpe de Estado permanece presente. Por outro lado, importa lembrar que ainda durante esta semana Nicólas Maduro anunciou a sua intenção de aumentar em 500 mil os membros da milícia bolivariana, armando todos eles. E a entrega de armas a civis não é exactamente um prelúdio de uma guerra civil? Mulheres e homens armados que Maduro almeja que atinjam um milhão não é exactamente o princípio de uma guerra civil?
Em nome da revolução de seu nome bolivariana o regime mostra a sua face cada vez mais autoritária, com repressão, prisões à revelia do Estado de Direito, mortes em protestos e um povo que sofre a escassez na pele. Em nome da revolução a Venezuela aproxima-se de uma guerra civil.    



quinta-feira, 20 de abril de 2017

Eleições no Reino Unido

Depois do famigerado Brexit que contou com a demissão de David Cameron, Theresa May ficou incumbida de dirigir um processo de saída que ninguém sabe muito bem como culminará. A primeira-ministra britânica afirma agora pretender a convocação de eleições com vista a eleger "um governo forte, com um mandato claro para negociar a saída do Reino Unido da UE". Aparentemente May procura um reforço de legitimidade para dar continuidade a um processo que se avizinha difícil e cujo desfecho é, como se disse, imprevisível. Seguramente também procura ganhar tempo.
Com a aprovação do parlamento britânico, as eleições terão assim lugar um Junho, três anos antes do que seria previsto.
Segundo alguns analistas May estará a aproveitar as sondagens que lhe dão a maioria das intenções de voto, havendo quem arrisque profetizar que este é o caminho escolhido para uma saída dura, o "hard" Brexit.

A primeira-ministra britânica navega em águas desconhecidas e, na verdade, compreende-se esta jogada que se traduz na convocação de eleições antecipadas. Se é para navegar em águas desconhecidas, mas que se desconfiam turbulentas, que seja com um reforço de legitimidade. Resta apenas dizer que o Brexit, com ou sem reforço de legitimidade, dificilmente proporcionará ao Reino Unido ou à Europa qualquer vantagem. Enfim, não podemos falar em surpresas quando vivemos na época da mais absoluta insensatez.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Uma Europa cada vez mais isolada

Depois de passarem anos a acusar os países "intervencionados" de serem responsáveis todo o mal do mundo, os principais responsáveis europeus tardam em mudar a estratégia, preferindo apostar no erro, enquanto a Europa, mais concretamente a UE, vai ficado progressivamente mais isolada.
Primeiro foi a crise do sector financeiro rapidamente transformada em crise das dívidas soberanas; depois o Brexit; para complicar os EUA escolheram Trump para a presidência e agora a Turquia vira regime autoritário declarado, afastando-se também ela da Europa. 
Sem capacidade de se unir, com protagonistas medíocres como o inefável Presidente do Eurogrupo que apenas fomentam as divisões da forma mais abjecta, deixando a indelével impressão que almejam uma Europa minimalista composta por países do centro e norte da Europa, o projecto europeu passou para o domínio da fantasia.

Hoje temos uma Europa desunida, com personagens não sufragadas e medíocres, sem o Reino Unido, sem poder contar com o aliado americano e com a Turquia voltada de costas para a Europa. Esperar que desta equação saia um resultado promissor é no mínimo ingénuo. Um abalo, bastará um abalo, económico, financeiro ou uma guerra para tudo desabar com a maior das facilidades - assim é quando se procuram as cisões ao invés da união. Assim é quando a UE se encontra sozinha, em larga medida, por culpa própria, e sobretudo por passar anos a preocupar-se com o acessório, descurando o essencial.