sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Neoliberalismo provinciano

Talvez seja esta a melhor forma de descrever aquela espécie de ideologia que está subjacente à acção governativa do Executivo de Passos Coelho - um neoliberalismo provinciano, néscio, medíocre; um cruzamento de ideologia e interesses; a que ideologia abre as portas à satisfação de interesses adjacentes a grupos ligados aos partidos repletos de seres vazios que fazem o papel de lacaios.
Neste sentido, percebe-se a utilidade do neoliberalismo, mesmo provinciano, néscio e medíocre: o reduzido papel do Estado na economia, a redução da despesa pública e consequente redução da qualidade dos serviços públicos aliado ao reforço do privado na economia; as privatizações servem os interesses que movem os partidos da coligação. É perfeito: a coberto de uma ideologia aliada a pretensas imposições externas abriu-se a porta a negócios que os alegados discípulos de Hayek e Friedman aproveitam sem reservas.
Para compor o cenário, os executantes destas políticas, invariavelmente gente medíocre e enfatuada, recorrem a uma retórica gasta e anódina, mas ainda assim eficiente, muito por culpa dos partidos da oposição que ou têm dificuldade em encontrar um discurso contundente ou não podem contar com os holofotes da comunicação social.
Finalmente, a dita comunicação social que serve de plataforma primordial para a difusão profusa do discurso dos neoliberais provincianos tem feito um trabalho exímio, pelo menos no que toca ao tempo de antena e espaço disponível na imprensa escrita para divulgar a mediocridade habitual.

Talvez assim seja possível compreender as alegadas intenções de voto - significativas e algo surpreendentes - nos partidos que compõem a coligação mais medíocre de que existe memória.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Não confundir batatas com laranjas (podres)

Marco António Costa afirma não confundir batatas, cebolas e laranjas porque se "está a falar de pessoas", referindo-se aos números do desemprego e a uma frase proferida por Catarina Martins, porta-voz do Bloco de Esquerda. Marco António, o mesmo senhor que fez um trabalho inesquecível na autarquia de Vila Nova de Gaia, apela à não confusão e sublinha a importância das pessoas.
Seguramente, poucos confundirão batatas com laranjas, sobretudo se estas forem pequenas e em avançado estado de putrefação como são as laranjas do PSD. No que toca aos números do desemprego, boa parte dos cidadãos conhece de perto a realidade, ou por se encontrarem nessa condição de desempregado ou por terem pessoas no círculo mais íntimo que se encontram no desemprego. Aquilo que também é perceptível prende-se com a insistência quer do Governo, quer do maior partido da oposição em se dedicar à luta de números, ignorando amiúde que esses números se traduzem em dramas incomensuráveis. É um cliché, mas por detrás dos números estão pessoas cujas vidas se transformam num imenso vazio. São as pessoas que contam, quanto aos números esses não enganam e consubstanciam uma realidade que o país não pode suportar.

O impoluto Sr. Marco António Costa - subitamente preocupado com pessoas - não precisa de se inquietar: ninguém confunde batatas com laranjas podres e se, por mera hipótese, exista quem caia nessa confusão esses não chegam para que os Marco António Costas se perpetuem no poder. E será tudo uma questão de tempo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Uma Europa à deriva

Depois da crise da Zona Euro (actualmente meramente adormecida) a Europa depara-se com uma crise humanitária consequência da chegada de imigrantes a território europeu. 
David Cameron, primeiro-ministro britânico, adoptou uma retórica anti-imigração, comportando-se como se o seu país nada tivesse a ver com o problema. Voltamos à questão da ausência problemática de sentido histórico. Afinal de contas, o passado recente do Reino Unido como peça essencial na instabilidade de países que hoje servem de plataforma para a migração olhada com tanto desdém, não existe. Prescindo de abordar o passado mais remoto o que me obrigaria a referir verdadeiras “pragas” de outros tempos.
Mais: a Europa, afundada na mediocridade das suas lideranças, não tem capacidade de atenuar o fluxo migratório. Existirá apenas retórica e uns muros reais ou imaginários. A questão exigia uma coordenação e eficiência que não existe nas actuais lideranças.
No entanto, não deixa de ser irónico que um continente envelhecido, com baixas taxas de natalidade e com parcas perspectivas de futuro, se mostre tão repugnado com estes fluxos migratórios, os mesmos que o futuro exigirá como essenciais para a continuidade de vários países da União Europeia.
Na verdade, nem todos os países que compõem a UE conseguem atrair imigração qualificada e dificilmente conseguirão no futuro.
Esta é, ironicamente, uma Europa à deriva.


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Os números do desemprego

Um dos temas da actualidade política pré-campanha eleitoral tem sido o desemprego, aliás, tema que perpassou toda a legislatura, com particular ênfase nos últimos anos. Os número que o Governo usa como fruto do seu sucesso estão - como se sabia - muito longe da realidade.
Eugénio Rosa, num estudo da CGTP, põe a nu a realidade atroz dos verdadeiros números do desemprego. Assim verifica-se que mais de 500 mil desempregados não entram nas listas, ficando de fora dos números mágicos com os quais o governo faz mais um número de propaganda política absolutamente desfasada da realidade. Se essas pessoas que estão fora da lista contassem como verdadeiros desempregados (que são), a taxa de desemprego em Portugal atingiria os 22 por cento.
Este ´é o número real. Porém, este é um número que não interessa ao Governo preocupado em ganhar eleições, pese embora o ainda primeiro-ministro tenha manifestado estar-se "nas tintas" para as ditas eleições.
Serve o estudo de Eugénio Rosa para alertar os mais incautos, apesar de existir sempre quem prefira ignorar estes factos, preferindo antes render-se à voz colocada do primeiro-ministro.

Com efeito, impõe-se a frase de Orwell no famoso livro 1984: "Teve a curiosa sensação de não se tratar de um autêntico ser humano, mas uma espécie de manequim. Não era o cérebro do homem que emitia ideias; era a laringe que emitia sons. O que saía da boca eram palavras, mas não era fala no verdadeiro sentido; era um barulho sem consciência, como o grasnar dum pato".

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

PAF

Se a PAF (Portugal à Frente) vencer as eleições não é prudente descartar um puf! - já que estamos numa de onomatopeias - Puf! à Segurança Social, semi-privatizada; puf à Caixa Geral de Depósitos, ficando assim o país entregue à especulação financeira sem um banco público de que se possa socorrer - quando nos depararmos com a próxima crise financeira, sim, é só mesmo uma questão de tempo, lá virá o tempo de arrependimento. Afinal a CGD até podia dar algum jeito. Até lá assistiremos ao enfraquecimento da CGD - a receita não é nova, como se sabe.
A PAF apresentou o seu programa que não traz novidades e que dá particular ênfase à componente social. Isto depois de 4 anos de acentuado empobrecimento. Os dois pilares da PAF são o crescimento económico, com previsões muito optimistas, e a já referida componente ou desenvolvimento social. Será agora que se vai combater a pobreza e as desigualdades; as mesmas criadas pelos partidos da coligação PSD/CDS. Curioso, no mínimo, patológico, na melhor das hipóteses.
As previsões do PSD/CDS não podiam ser mais optimistas: crescimento médio de 2/3 por cento; défice, já em 2015, inferior a 3 por cento; dívida com redução de 130 para 107 por cento em 2019. Pois, volvidos os quatro anos voltaremos a dizer "puf" a estas previsões.
Para adoçar a boca dos cidadãos, a PAF promete a reposição salarial na função pública em 20 por cento ao ano, a eliminação (gradual) da sobretaxa de IRS, uma redução do IRC para 17 por cento, a par da mágica transformação de Portugal numa das 10 economias mais competitivas do mundo.
Continuando no ridículo e nas meias-verdades tanto do apreço de Passos Coelho, chega-se à conclusão de que afinal é possível reduzir mais as rendas energéticas, isto depois de anos a ouvir o contrário. O que mudou? São as eleições, estúpido.
Continuando no domínio da alucinação, a PAF promete aumentar as exportações em 50 por cento.
Quanto ao problema demográfico, a coligação anuncia um vasto rol de medidas que são, como se sabe, meros paliativos - sem qualidade de vida e um vislumbre de futuro não haverá um incremento na taxa de natalidade que, arrisco dizer, não será suficiente para resolver o problema demográfico. A imigração será um aspecto a relevar no futuro. E o regresso dos portugueses que partiram afigura-se pouco provável.
Quanto à legislação laboral, simplesmente não se percebe a história da "previsibilidade legislativa". Arrisco novamente avançar que esta coligação continuará a degradar e desvalorizar o trabalho.
Finalmente, Segurança Social. Os 600 milhões do referido buraco financeiro avançado pela ministra das Finanças não merece referência no programa da PAF. Todavia, a privatização parcial da Segurança Social não foi esquecida: mais negócios escamoteados por uma pretensa escolha pessoal de cada cidadão; mais dinheiro para os bancos; mais insegurança e instabilidade para boa parte dos cidadãos.

Para concluir, e continuando no domínio da patologia porque jamais sairemos dela, dizer apenas que esta coligação promete melhorar a relação entre contribuinte e Fisco, esqueçam os últimos quatro anos de perseguição, de atropelos, de injustiças. Agora é que é. Se não for, e já que estamos numa de onomatopeias: Puf! Ouch! Aaai!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Bem-vindos ao surreal

A coligação PSD/CDS participou num novo exercício que desafia claramente as leis do real, isto por ocasião da apresentação do programa de governo que contou com declarações de Passos Coelho e Paulo Portas.
A retórica do costume resume-se a uma cacofonia de acusações dirigidas ao anterior governo e a promessas patéticas - tudo num desafio permanente do real.
Passos Coelho reclama para si a luta por Abril, insinuando ter alguma espécie de respeito pela herança de Abril (?), isto dito por quem mais contribuiu para destruir os princípios que emanam desse período da história do país. O ainda primeiro-ministro insiste em desafiar o real: todo o mal do mundo deriva do mesmo sítio: o largo do rato, nº 2. Os socialistas são acusados de tudo: da bancarrota e do resgate, na verdade impulsionado por Portas e Passos Coelho, da única forma que conhecem - através da insídia. Com mais um bocadinho de imaginação, pode-se inclusivamente depreender que o PS é responsável por toda a crise que assolou o mundo em 2008. Bem-vindos ao surreal.
Outra estratégia com vista a dominar os néscios prende-se com o medo e Passos Coelho, recorrendo às suas parcas capacidades intelectuais, promove o medo: medo de votar no PS e voltar a cair num novo cataclismo (Portas já relacionou uma hipotética vitória do PS a um terceiro resgate), e agora medo das agências de rating que, aparentemente vão estar em suspenso até dia 4 de Outubro - sim, as mesmas agências de rating que, com as suas análises, deram uma boa ajuda à crise de 2008; sim, já para não falar da torrente de dinheiro que o BCE injecta nos mercados financeiros para manter o euro à tona de água - nada disso entra no discurso sórdido de Passos Coelho.
Quanto ao programa - o propósito de juntar tanta gente ilustre na mesma sala - temos mais do mesmo, com excepção da Segurança Social onde se pretende dar início à privatização parcelar. Aqui assume-se ter a intenção de ir mais longe.

Em suma, e até Outubro vale tudo: o patético, o que desafia o real, a mentira. Contas feitas, resta uma mediocridade sem precedentes.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O grande desígnio

O mesmo Passos Coelho que conta com todo o tempo de antena nas principais televisões e que se insurge contra o peso do Estado, insinuando vezes e vezes sem conta que o Estado está onde não deve estar, prepara-se para gastar mais 53 milhões de euros com escolas privadas.
Recorde-se que este é o mesmo governo que procedeu a cortes de centenas de milhões de euros na Educação; o mesmo Governo que desinvestiu no ensino superior; o mesmo Governo incapaz de esconder a sua repulsa pela investigação cientifica e pela cultura.
Os homens de negócio, perdão, os membros do Executivo de Passos Coelho têm feito transferências crescentes de dinheiros públicos para o privado, enquanto apregoam que o Estado gasta muito e faz mal - parte da receita do neoliberalismo na sua versão mais provinciana.
Nem tão-pouco será por acaso que assistimos ao enfraquecimento do Estado Social - Saúde, sem capacidade de resposta; Educação num declínio vertiginoso de qualidade e Segurança Social, invariavelmente considerada sem sustentabilidade e em constante ameaça de não dar resposta no futuro. Empurra-se o cidadão para serviços privados que, amiúde, se mostram despidos da qualidade a que o público nos habituou, que se torna mais visível em áreas como a Saúde.
De qualquer modo, existem serviços públicos que não se podem transformar em negócio - são demasiados os exemplos que mostram a falácia do privado.
Este enfraquecimento faz parte da estratégia, sendo aliás essencial. Diz-se que o Estado não tem capacidade de dar resposta nas principais áreas sociais - por ineficiência, por falta de dinheiro - ao mesmo tempo que se transfere quantidades incomensuráveis de recursos do Estado para o privado.
Este foi um dos principais desígnios do actual Executivo e se os portugueses, num qualquer acesso de insanidade mental temporária, decidirem dar mais quatro anos aos partidos da coligação, assistiremos à transformação do desígnio na mais cruel das realidades.