quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Mais do mesmo

António José Seguro e António Costa formalizaram as candidaturas às primárias do PS. Contas feitas e a escassos dois meses das eleições, somos confrontados com mais do mesmo. Com efeito, entre Seguro e Costa não existem diferenças substanciais, sobretudo no plano ideológico. Haverá seguramente uma vasta multiplicidade de diferenças no campo da personalidade, porém no que diz respeito às ideias e projectos para o país, mais do mesmo.
Das eleições de Setembro sairá aquele que muito provavelmente será o próximo primeiro-ministro de Portugal, alguém que tem uma função clara: não mexer substancialmente no que está feito; dito por outras palavras: não alterar a ordem das coisas, não mexer em demasia num sistema que permite a perpetuação e agravamento das desigualdades e que garante a manutenção de um determinado conjunto de pessoas no poder político, económico, etc.
António José Seguro ou António Costa não vão alterar profundamente a ordem de coisas, nem tão-pouco apresentarão quaisquer formas de ruptura. Aqueles que poderiam proceder às rupturas tão necessárias são apelidados de radicais, desprovidos de vocação de poder, mentores de ideias exequíveis.
O Tratado Orçamental e reestruturação da dívida são dois dos temas dos quais os candidatos procuram fugir como o diabo da cruz, preferindo uma discussão genérica e inócua.
Da parte dos eleitores pelo menos para boa parte deles, a escolha mantém-se exígua: entre dois escolhe-se um. A comunicação social vai dando uma mãozinha outros nem optam por não fazer a sua escolha. Assim se perpetua uma dicotomia responsável, em larga medida, pelo estado a que o país chegou.
As semelhanças entre os dois candidatos é tanta que até se verificou uma quase simultaneidade na formalização das candidaturas: meia-hora separou uma da outra. Pouco muito pouco separa um candidato do outro.

terça-feira, 29 de Julho de 2014

Israel está a perder a guerra mediática

A mais recente ofensiva israelita em território palestiniano, designadamente na Faixa de Gaza, já resultou em mais mil mortos palestinianos, entre eles 200 crianças e mais de 40 mortos israelitas, sobretudo militares.
A desproporção é óbvia e Israel começa a perder uma outra guerra: a guerra mediática. Esta é a consequência directa da desproporção e da morte de crianças. É óbvio que não será intenção de Israel matar crianças, mas tem acontecido de forma brutal e implica a perda de apoio internacional, sobretudo da opinião pública. A desproporção de meios e de resultados e a morte de civis, sobretudo de crianças, torna a vida de Israel, no plano internacional, muito mais intrincada. De resto, é contraproducente e apenas beneficia o Hamas.
Desde modo, o radicalismo do Hamas que rejeita a existência de um Estado israelita e que utiliza todos os meios ao seu dispor para atacar o território israelita passam a ser questões pouco relevantes que são obnubiladas pelas imagens atrozes de civis palestinianos mortos e feridos.
Se o objectivo de Israel é intrínseco ao enfraquecimento do Hamas e da sua capacidade de atacar o território israelita é bem provável que esta seja uma guerra vitoriosa para Israel, dotado de meios militares sem paralelo, sobretudo se compararmos com os meios do Hamas. Porém, pelo caminho Israel perde a guerra mediática, com a comunicação social a passar imagens dos resultados da ofensiva israelita: primeiro 4 crianças mortas numa praia em Gaza depois uma escola sob a alçada das Nações Unidas bombardeada com mais crianças mortas. O facto é que nem o melhor relações públicas consegue fazer esquecer essas imagens.

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

A crise

Sobre a crise já muito se disse: que as pessoas, pensionistas, funcionários públicos, trabalhadores do sector privado, viveram acima das suas possibilidades; que o Estado Social é insustentável; que o Governo anterior tinha sido o responsável exclusivo pela difícil situação a que o país chegou. Todos repetiam esta litania e foi precisamente com esta litania, a par de algumas manobras insidiosas, que o actual Governo chegou ao poder.
O sector financeiro, responsável pela crise, teve um papel secundário no processo de culpabilização dos últimos três anos. Pelo caminho ouvimos banqueiros criticar o subsídio de desemprego ou garantir que os cidadãos não tinham outro remédio que não fosse aguentar. Pelo caminho os arautos de um neoliberalismo desenfreado esqueceram-se de dizer que o a carga fiscal para a banca é insignificante - 2,1 por cento do total da receita de IRC em 2012, por exemplo, beneficiando ainda de outras benesses fiscais. Os mesmos arautos esqueceram-se de referir que o Estado endividou-se com o processo de recapitalização do sistema bancário e em contrapartida esse mesmo sistema fechou as torneiras do crédito à economia. Os ditos arautos nunca foram capazes de referir que todos os negócios ruinosos que o país fez e que ainda hoje paga sem discussão tiveram o cunho da banca.
Agora descobre-se mais podres do banco do regime – o BES – com a Justiça a agir do modo a que sempre nos habitou nestas circunstâncias: tardiamente, com grande celeuma e escassos resultados.
Diz-se, timidamente, que é um problema de regulação. Diz-se que está tudo controlado ou que é essencialmente uma questão familiar. É muito mais do que isso. O sistema está podre, arruína países, destrói vidas, sempre com o beneplácito de governos comprometidos com esse sistema. Foi essa a história do BPN, BPP, é essa a história do BES e de outros bancos; é também essa a história recente do nosso país e de uma União Europeia disposta a tudo para fazer a defesa do sistema financeiro.

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Maus resultados em plena silly season

A execução orçamental no primeiro semestre não foi famosa. O défice da administração pública subiu mais 140 milhões. A culpa é do Tribunal Constitucional (TC), o bode expiatório do costume e não da insistência por parte do próprio Governo na aplicação de medidas inconstitucionais. Outra notícia relacionada: Portugal foi o terceiro país onde a dívida pública mais aumentou, atingindo os 132,9 por cento do PIB - o terceiro valor mais alto de toda a UE.
Entretanto já estamos todos esquecidos da origem desta crise e
da transferência do ónus da dívida de um sector bancário excessivamente endividado que apostou num sector imobiliário fortemente sobrevalorizado e em tudo o que foram negócios ruinosos para o país. Esse ónus passou para a dívida soberana. O capital moveu-se e nada mais. Trabalhadores e pensionistas ficaram com a fatura.
Em plena silly season o Governo é confrontado com as más notícias que tenta escamotear, responsabilizando o TC. Esquece-se de referir o aumento do pagamento de juros que só no primeiro semestre ronda os 4,5 mil milhões de euros; esquece-se de referir o aumento das benesses concedidas a grandes empresas e à banca, sobretudo de natureza fiscal. E estamos para conhecer a verdadeira situação do BES e as suas consequências.
O Governo insiste e insistirá que este é o caminho certo para o país. Pouco importa o empobrecimento da esmagadora maioria; pouca relevância terá a venda das empresas mais lucrativas; pouco interessa o enfraquecimento do Estado Social.
Em plena silly season, más notícias. Não se faz.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Guiné Equatorial na CPLP

A CPLP conta agora com mais um membro: a Guiné Equatorial. Aquele país corrupto, liderado por um ditador que chegou ao poder através de um golpe de Estado sem misericórdias. A História deste país é conhecida: Teodoro Obiang - é assim que o senhor se chama - chafurda no luxo resultado dos vastos recursos do país, enquanto 80 por cento dos seus cidadãos vivem na mais abjecta miséria. Este é um dos países mais ricos da África subsariana.

A Guiné Equatorial aderiu à CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Na sua maioria não falam português (excepção de algumas regiões onde se falam línguas crioulas e que, com algum esforço, se encontrará algum resíduo da língua portuguesa). Detalhes sem importância. A Guiné Equatorial está nos antípodas do que é a democracia. Não interessa. Detalhes sem importância. A Guiné Equatorial desrespeita visceralmente os direitos humanos. Mais uma vez meros detalhes. Não sejamos picuinhas. Obiang, o líder daquele país, vai investir no Banif com o beneplácito de Luís Amado - agora no Banif, outrora detentor da pasta dos Negócios Estrangeiros. Detalhes sem importância? Coincidências, meras coincidências.
Rui Machete, o actual detentor da pasta dos Negócios Estrangeiros, afirmou que "Portugal se sente à vontade com esta decisão." Pois claro que se sente.

Noutros tempos, as relações com líderes políticos pouco amigos do conceito de democracia fazia a comunicação vibrar. José Sócrates que o diga. Hoje as coisas são substancialmente diferentes. Outros tempos, outras vontades, outras cores políticas, a mesma comunicação social, o mesmo país inerte, alheado de quase tudo que se passa em seu redor.

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Tréguas

A violência que tomou conta de Gaza, nos territórios palestinianos, recrudesceu dramaticamente com a ofensiva terrestre israelita.
O conflito israelo-palestiniano dura há décadas, esta é uma região historicamente instável e depois da torrente de vítimas ao longo dos anos, o conflito perdura. Pelo caminho as resoluções das Nações Unidas são desprezadas. Este mais recente agravamento, depois da morte de três jovens israelitas na Cisjordânia (do lado palestiniano alega-se que dois jovens palestinianos já tinham sido assassinados), Israel respondeu visceralmente.
A comunidade internacional pede tréguas, sem grande ímpeto , como de resto tem sido habitual.
De um lado o anti-semitismo do Hamas e a utilização de rockets, insistindo numa posição contraproducente e que dá força às acções militares israelitas, fornecendo aos israelitas um pretexto, uma razão, uma certa legitimidade; do outro, de forma esmagadora, uma espécie de colonização por parte de Israel, controlo da águas, da eletricidade e até das relações comerciais, a par da implantação de um sistema em tudo semelhante ao apartheid, que, paradoxalmente, fazem lembrar tempos vergonhosos. Acresce a toda esta situação insustentável os constantes bombardeamentos numa faixa em que milhão e meio de pessoas vivem encurraladas. Se esta não é uma forma de tirania, não sei o que se enquadra nessa definição.
Mais de 600 palestinianos pereceram, 75 por cento dos quais civis, dezenas de crianças. Os hospitais não têm resposta para tantos feridos e muitos acabarão por morrer. O ódio medra.
Israel alega o direito a proteger o seu território. A verdade é incomensuravelmente mais complexa. A própria existência legítima de um Estado Palestiniano é posta em causa, deliberadamente. Aliás, não se deve descartar outras intenções que possam subjazer a esta operação militar que, num plano mais abragente, podem passar pela inviabilização absoluta do Estado Palestiniano, inviabilizando também uma solução de futuro que passe pela existência de dois Estados.
Importa que a comunidade internacional intensifique a pressão no sentido de forçar uma trégua. Dos Estados Unidos pouco se espera, sobretudo tendo em consideração o historial com Israel; as Nações Unidas, reféns do conjunto de países habitual, não tem conseguido que as suas resoluções sejam levadas à prática e nada leva a crer que essa situação seja agora invertida; a União Europeia poderia ter aqui uma oportunidade para mediar as partes, procurando a tão almejada trégua, mas esta, como tantas outras, será uma oportunidade perdida. Com efeito, muitas são as empresas americanas e europeias que beneficiam do actual estado de coisas, desde a finança, passando por sistemas informáticos e de transportes, culminando, naturalmente, no fornecimento de armas. Ódio e dinheiro falam sempre mais alto.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Aliança à esquerda

A Associação Fórum Manifesto propõe uma “plataforma política disposta a participar na governação”. Dito por outras palavras, Ana Drago e Daniel Oliveira mostram-se dispostos a encetar uma aproximação ao PS. Segundo os intervenientes, a urgência dos tempos assim o exige.
Recorde-se que Ana Drago constitui a mais recente baixa no Bloco de Esquerda e que Daniel Oliveira já se tinha afastado do partido faz algum tempo. Agora pugnam pela “construção de um programa que impeça o desmantelamento do Estado Social e uma plataforma política disposta a participar na governação”.
Procura-se assim uma plataforma de entendimentos que incluia naturalmente o Partido Socialista. Percebe-se a intenção: exequibilidade. Com efeito, e na perspectiva de quem propõe uma plataforma que é como quem diz uma aliança à esquerda, uma mudança só será possível numa esquerda onde caiba simultaneamente o entendimento e a governação. A ideia faz sentido. 
Todavia, não estou assim tão certa que para os lados do Largo do Rato esse entendimento que Ana Drago e Daniel Oliveira advogam seja sequer remotamente almejado. Desde logo, importa que o PS se defina, no contexto da actual liderança ou no contexto de uma nova liderança; e depois, resta saber se o PS – ideologicamente desvirtuado – não sucumbirá à tentação de se aliar ao PSD, sem Passos Coelho, mas ainda assim ao PSD.