quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Trump: um Presidente apostado na desunião

Já em campanha eleitoral Donald Trump aproveitou o medo e a ignorância de muitos americanos para fazer o seu caminho. O medo era conhecido: medo do outro, medo que o outro venha a ser a maioria, transformando-os, forçosamente, na minoria. A tudo isto soma-se a ignorância, o falhanço da educação e a dificuldade em atribuir a miséria e o desemprego a um sistema económico complexo e empenhado no logro e no engano, facilitando-se deste modo a atribuição de culpas ao outro: ao imigrante, ao hispânico, ao judeu, ao negro.
Trump, na qualidade de Presidente, não mudou. Primeiro demorou dias até finalmente criticar, sem particular convicção, grupos neo-nazis e supremacistas brancos pelos crimes cometidos na cidade de Charlottesville. Depois optou por desvalorizar o que aconteceu atribuindo culpas a ambos os lados: aos nazis e fascistas, mas também aos anti-fascistas. Segundo o Presidente americanos, as vítimas também têm culpa.
É evidente que Trump não o podia ter feito sem ter recorrido ao auto-elogio, salientando ser ele o único a possuir a coragem de dizer a verdade. Até na estupidez mais atroz, Trump encontra espaço para se vangloriar.
Recorde-se que em Charlottesville num protesto de extrema-direita e já durante um contra-protesto de anti-fascistas, uma mulher foi mortal e deliberadamente atropelada por um neo-nazi confesso. Por ali se viu e ouviu o quanto é possível o ser humano odiar com base na premissa da inferioridade racial, sexual, etc; por ali se ouviu “heil Hitler” e “heil Trump”.
Trump prefere alimentar este fogo que já arde há demasiado tempo. Trump aposta na divisão, no relativismo histórico, comparando o primeiro Presidente americano com o líder da Confederação Robert. E. Lee e recebe os agradecimentos de David Duke, um dos mais conhecidos supremacistas brancos.
Nada disto é por acaso. Na verdade, Donald Trump não está interessado em afastar os seus apoiantes e inclusivamente a sua base de apoio.

De um modo geral, Trump fomenta as divisões, alimenta o ódio, dá segurança a quem se considera superior (raça), não lidera o que quer que seja e das duas uma: ou vê impávido e sereno o fogo medrar ou atira gasolina para cima do mesmo. Um desastre para os EUA.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Coreia do Norte: guerra das palavras

A questão da Coreia do Norte volta a mostrar que Donald Trump é um Presidente que está muito longe de estar à altura dos acontecimentos e é também porque Trump ocupa a Casa Branca que as relações entre Pyongyang e os EUA têm-se degradado substancialmente.
Trump, no seu habitual estilo cowboy senil, passa os dias a ameaçar o regime da Coreia do Norte, endurecendo o discurso com frases como “fúria e fogo”; “soluções militares estão preparadas caso a Coreia do Norte se comporte imprudentemente”; ou “talvez não tenha sido suficientemente duro”, referindo-se ainda à expressão “fúria e fogo”.
A Coreia do Norte, por seu lado, tudo faz para esconder o facto de se sentir ameaçada, desde logo perante um Presidente dos EUA errático e indisponível para o diálogo. O regime liderado por Kim Jong-un galvaniza todo um povo que vive na maior das penumbras, recorrendo a ameaças com disparos de mísseis para as águas de Guam – base militar pertencente aos EUA.
A China, por sua vez, deixa sair notícias que dão conta da sua posição perante um eventual conflito: manter-se-á neutra caso seja a Coreia do Norte a iniciar as hostilidades; neutralidade essa que cairá por terra caso seja Trump a atacar a Coreia do Norte.
São muitos os que acreditam que na verdade ninguém tem interesse num conflito que será de grande escala. Aliás, no seio das forças militares americanas acredita-se que Kim Jong-un não terá vontade de encetar um conflito que será de natureza nuclear.

Ainda assim não serão muitas as certezas, excepto no que diz respeito à preparação do actual Presidente americano para lidar com um problema tão complexo. E neste particular regista-se sobretudo a incapacidade de desenvolver negociações como os seus antecessores fizeram com relativo sucesso. Para Trump, um cowboy com sinais de senilidade, não há espaço para o diálogo e para as negociações. De resto, Trump não está nem tão-pouco alguma vez estará preparado para essa via, preferindo tecer considerações grosseiras, em exercícios de manifestação de força que têm sempre qualquer coisa de patético. Do outro lado do conflito, assiste-se a outro líder que deve igualmente muito pouco ao ridículo, desesperado por se manter no poder que considera ameaçado por um Presidente americano cujo comportamento errático deixa pouco espaço à imaginação.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Venezuela em pleno autoritarismo

Não há como ficar indiferente ao que se está a passar na Venezuela: violência, supressão de direitos, abusos de poder, reaccionarismo. Num contexto de forte conturbação, onde se assiste a uma espécie de guerra civil que nunca chega verdadeiramente a sê-lo, desde logo pela desproporção de poder entre ambos os lados, resta pouca ou nenhuma esperança para uma solução pacífica.
Confesso ter dificuldade em fazer a defesa de um regime que, sem hesitações, aposta tudo para garantir a sua manutenção, e a democracia, ou que restava da mesma, acaba por ser mais um obstáculo no meio de tantos outros. Por outro lado, não teço elogios à oposição ao governo de Maduro, reconhecendo desde logo o seu acentuado reaccionarismo; mas não posso compactuar com a política do vale tudo, incluindo a supressão de liberdades, mortes e prisões arbitrárias em nome desta ou daquela revolução.
O culto da personalidade a Hugo Chávez, o pouco o nenhum respeito pela democracia representativa e pelo pluralismo democrático resulta num endurecimento do regime. De resto, as eleições para a Assembleia Constituinte ao mesmo tempo que se enfraquece a Assembleia Nacional que foge ao controlo do regime, não fortalece o argumento do progresso social impulsionado por Chávez que de pouco vale se esta deriva autoritária persistir.
Bem sei que existe que defenda a revolução bolivariana a todo o custo, tudo contra o império do mal que, por muito que tenha os olhos postos no petróleo venezuelano, não pode servir de justificação para a morte da democracia às mãos do Presidente Maduro. 
De igual modo, lá como noutras partes do mundo discutem-se números: quantos manifestantes contra Maduro pereceram? E quantos daqueles que são chavistas morreram? Seja como for, os números são assustadores e representam o prelúdio de uma situação absolutamente insustentável.

Qualquer saída para a situação, nunca será demais dizê-lo, terá que ser democrática, com respeito pelo pluralismo, pela liberdade de expressão e manifestação e pela separação de poderes. Mas a questão que se impõe é que já resta pouca ou nenhuma democracia e nada se constrói de profícuo sobre os seus escombros. Paralelamente, as responsabilidades não podem ser dissociadas do Presidente Maduro, por muito que isso custe a todos os que sonham com a revolução bolivariana ou com qualquer outra.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Anthony Scaramucci - o exemplo da degradação na Casa Branca

Anthony Scaramucci, director de comunicação da Casa Branca, representa um exemplo máximo do grau de degradação que atingiu a Administração Trump e, por inerência, a própria democracia americana, que se transforma numa espécie de nepotismo circense, depois de passar pela longa fase de oligarquia, discreta, o quanto baste.
Scaramucci foi entretanto afastado do cargo, depois de proferir o maior de rol de ofensas de que há memória entre membros próximos de um Presidente e mais grave: toda essa brejeirice foi dirigida a membros desta Administração. O director de comunicação durou dez dias, apenas dez dias, mas a impressão de que deixou será indelével: Scaramucci é e continuará a ser apreciado por Donald Trump e apenas foi afastado por pressão e imposição do novo chefe de gabinete do Presidente Americano. Se dependesse apenas de Trump, o agora ex-director de comunicação continuaria a proferir frases como "I'm not Steve Bannon, I'm not trying to suck my own c...."
E é assim que vão as coisas do outro lado do Atlântico, um país atolado em níveis de mediocridade e populismo sem precedentes e obrigado a assistir a um espectáculo verdadeiramente deplorável. Torna-se pois impossível não reconhecer os danos que todo este abjecto espectáculo provoca na democracia americana que, embora tenha andado longe da perfeição, não merecia, ainda assim, tudo isto. Aliás nenhuma democracia merece.

Entretanto, as estranhas relações entre a Administração Bush e a Rússia conhecem novos desenvolvimentos com a Rússia a expulsar uma quantidade incomensurável de diplomatas americanos de solo russo. Tudo se resume “a um grande dia na Casa Branca"

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Agora são os números do desemprego

O ainda líder do PSD, Pedro Passos Coelho, vem manifestando uma inusitada atracção por números: antes dos números do desemprego haviam sido os números de vítimas mortais de Pedrogão, tudo em escassos dias, sendo certo que o antigo primeiro-ministro optou por deixar aos seus apaniguados a tarefa de entrar em discussões surreais e abjectas. Mas a obsessão com os números está lá.
Agora o PSD, desta feita através do seu líder, continua não só com a referida obsessão como com os delírios. Então não é que a redução significativa do desemprego, recuando para níveis de 2008, se deve ao PSD e não ao Executivo que está há quase dois anos em funções.
O actual primeiro-ministro recordou as palavras do líder do PSD que davam conta dos perigos de um aumento do salário mínimo, correlacionando esse aumento com a subida do desemprego. António Costa recordou ainda outro fascínio de Passos Coelho: a emigração. Assunto sobre o qual já se disse e escreveu o suficiente.
Não deixa pois de ser curioso assistir não só à atracção que Passos Coelho sente por números, sempre num contexto de delírio. 

Já se sabe que o séquito do ex-primeiro-ministro defenderá o seu líder recorrendo aos truques do costume: bancarrota (alheios ao contexto externo ou à acção do seu próprio partido ao chumbar o PEC IV, apostados numa outra obsessão: José Sócrates) e a inevitável troika, coisa pouca para Passos Coelho para quem era necessário ir ainda mais longe. E é deste modo que se pretende justificar tudo e mais alguma coisa até os delírios de Passos Coelho, quando estes têm uma explicação bem mais simples: são fruto do desespero. Puro e simples.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Vá de férias Sr. Coelho, vá de férias

Vá de férias Sr. Coelho, vá e aproveite para se fazer acompanhar pelos seus apaniguados, e não se esqueça do novo líder parlamentar do seu partido, um tal de Hugo Soares.
A mais recente deriva populista até nem lhe fica mal Sr. Coelho, mas não colhe junto dos portugueses. Na verdade, a pouca credibilidade que lhe restava dissipou-se com o aproveitamento que procurou fazer da tragédia de Pedrogão, primeiro com pretensos suicídios e depois com insistências sobre a lista de vítimas.
Vá de férias, respire o ar da Manta Rota, faça uma reflexão sobre os últimos acontecimentos, designadamente sobre o referido aproveitamento político. Lembre-se que tantas vezes o tiro sai pela culatra: repito, a história dos suicídios correu-lhe manifestamente mal. Depois, pouco tempo depois, mantendo-se próximo da morte já que o Diabo não quis nada consigo, dedicou-se a desconfianças sobre listas, deixando em bom rigor o trabalho sujo ao tal Hugo Soares, com ultimatos e afins - o que também lhe correu mal.
Agora que provavelmente já se terá apercebido que tudo falhou e que o restou foi puro desespero, saia de cena e banhe-se nas águas tépidas do Algarve e aproveite também, quando as encontrar mais frescas, para mergulhar a cabeça - diz-se que é bom para aclarar as ideias.

Seja como for, nunca será demais insistir neste aspecto: vá de férias e tire o maior proveito das mesmas, isto porque quando regressar as autárquicas estarão à porta e com elas o Diabo. Finalmente o Diabo, mas contrariamente aos seus anseios, ele estará pronto para bater à porta da S. Caetano, 9.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os números estão em cima da mesa. E agora?

Depois de semanas de aproveitamento indecoroso, partidos da oposição e parte significa da comunicação social ficaram sem conversa para alimentar polémicas em dias quentes de Verão, como forma de sobreviverem pelo menos até ao próximo período eleitoral.
Os números de vítimas mortais nos incêndios divulgados pela Procuradoria-Geral da República não comportam quaisquer surpresas, sendo os conhecidos e até avançados pela comunicação social. O PSD deixou cair o assunto, pelo menos a nível parlamentar.
No entanto parece surreal que se tenha passado tanto tempo em torno de especulações e teorias da conspiração, prestando-se alguns jornalistas às mais tristes figuras de que há memória. E afinal a montanha pariu um rato.
Quanto aos partidos cujas lideranças procuram a todo o custo sobreviver, ficou a ideia indelével de um aproveitamento político indecente, com a ameaças de moções de censura e ultimatos de 24 horas.
Mas desengane-se quem julga que os protagonistas destes tristes episódios baixarão os braços. O que está em causa é a própria sobrevivência de lideranças que têm subjacentes grupos ansiosos por salvaguardar as suas posição. É claro que o desespero tornou-se indisfarçável deitando por terra os resquícios de credibilidade que restavam.

E agora? Agora continuar-se-á a insistir nos falhanços, desta feita a propósito dos incêndios, imputados ao Governo. No entanto, ficam as seguintes questões: o que acontecerá aos jornalistas que pediram a demissão do Governo em consequência da polémica forçada dos números de vítimas mortais dos incêndios? Nada. O que acontecerá a Assunção Cristas que deixou implícita a ideia de uma moção de censura? Ou ao líder da bancada parlamentar do PSD, Hugo Soares, ao exigir uma lista em 24 horas? Nada. Porque ter-se-á de esperar pelas eleições que se avizinham para se perceber o que acontecerá aos partidos da direita. E será o tempo a ditar o futuro sombrio de uma comunicação social alucinada e presa aos grandes interesses económicos que por sua vez são indissociáveis da direita.