quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Trump e o seu estilo de vida

Depois de um mês trágico para a democracia americana, sabe-se agora que os passeios de Trump já custaram mais do que Obama gastou durante todo um ano, ou seja mais de 10 milhões de dólares. Trata-se de dinheiro gasto em três fins-de-semana mais os custos associados à segurança. Fala-se de um estilo de vida "inusitadamente elaborado". Dir-se-ia que a democracia tem custos, mas nem esses custos podem ser tão elevados (um mês desde a tomada de posse), nem Trump faz o que quer que seja pela democracia, bem pelo contrário.
Entre alguns dos detalhes deliciosos foi conhecida a despesa do Estado de Nova Iorque para proteger a Trump Tower (onde vive a primeira-dama e um filho): 500 mil dólares por dia.
Haverá sempre quem considere esta notícia mais um ataque à Administração Trump e, por cá, também existem os que consideram que Trump é uma vítima da comunicação social, do poder económico, do poder político, do "establishment". Os ataques à democracia, os ataques aos direitos humanos, o retrocesso sem precedentes e um Presidente e seus acólitos verdadeiramente amadores, não parece causar qualquer espécie de inquietação. O mal, claro está, reside na comunicação social - inimiga do povo americano.

Não deixa de ser irónico saber que entre aqueles que votaram Trump, estarem os alinhados com o movimento Tea Party, que faz dos gastos excessivos do Estado Federal uma das suas bandeiras. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

10 mil milhões

Entre 2011 e 2014 o país conheceu uma formidável fuga de capitais com destino a offshores: 10 mil milhões comunicados pelas instituições financeiras, mas que contaram com um conveniente fechar de olhos das Finanças. Importa lembrar que todos os anos os bancos prestam informações sobre transferências de dinheiro ao fisco, mas por alguma razão que importa agora deslindar, essas transferências contaram com o desprezo das Finanças, ao contrário do que dita a lei.
As "omissões" foram detectadas pelo Ministério das Finanças entre finais de 2015 e princípio de 2016. O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, pretende que se apure o que se passou.
Recorde-se também que estes foram os anos de austeridade imposta por Passos Coelho que trocou, temporariamente, essa sua estranha obsessão pelas famigeradas SMS trocadas entre o actual ministro das Finanças e o ex- Administrador da Caixa Geral de Depósitos. Passos Coelho e os seus ministros das Finanças, enquanto pediam sacrifícios aos trabalhadores, aos desempregados e aos pensionistas, deixaram que perto de 10 mil milhões de euros desaparecessem sem exigir quaisquer satisfações. Ou alguém acreditará que essa foi uma decisão dos serviços de Finanças, à revelia do ministério?
Ao invés de andar preocupado e até obcecado com SMS e afins, Passos Coelho faria muito melhor figura se viesse explicar o que raio se passou entre 2011 e 2014.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Será a destituição uma miragem?

A presidência americana transformou-se numa farsa, amiúde com contornos trágico-cómicos. Exemplos não faltam, a um ritmo diário.
Todavia, existem razões para equacionar a possibilidade de destituição do Presidente americano, até porque o mesmo já terá violado por inúmeras vezes a constituição americana. Segundo Robert Reich, Trump fê-lo quando baniu sete países (de maioria muçulmana), abrindo a excepção a cristãos, violando a 1ª Emenda que versa sobre o livre exercício religioso.
Voltou a fazê-lo quando elegeu a comunicação social como o principal inimigo do povo, violando novamente a 1ª Emenda. Não satisfeito, desferiu novo ataque, desta feita sobre a 14ª Emenda, ao incitar à violência contra americanos de origem mexicana, de origem muçulmana ou de origem Africana. E muito provavelmente terá violado o artigo III, cláusula 3.ª - traição contra os EUA, ao ter conhecimento ou até mesmo ao ter participado nas investidas russas para o eleger. 
Entretanto, o Comité dos Serviços Secretos do Senado fizeram um pedido à Casa Branca e a agências do Governo para que os registos das comunicações com a Rússia sejam mantidos, isto no âmbito da investigação sobre a interferência russa nas eleições americanas.
Falta perceber se os Republicanos vão ficar em silêncio ou não, até porque daqui por menos de dois anos há eleições para o Congresso.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Instabilidade na Era Trump

A eleição de Trump e sobretudo a sua tomada de posse têm tido consequências inusitadas. Um bom exemplo é o facto de vários psiquiatras e psicólogos terem vindo a terreiro falar da mais alta figura da nação - numa iniciativa sem precedentes.
Aqueles que não se coíbem de alertar para a instabilidade do novo Presidente americano afirmam que este é um megalómano, com tendência para distorcer a realidade, manifestando invariavelmente uma rejeição absoluta de opiniões que divergem da sua e que desencadeiam reacções de raiva, desprovido de qualquer empatia. Tudo isto se agrava com os exercícios de poder. Em suma, trata-se de alguém que não reúne as condições necessárias para ser Presidente.
Na verdade, tudo o que é dito por psiquiatras e psicólogos é demasiado evidente para nos ter escapado. Em pouco menos de um mês, o mundo já assistiu à manifestação de exercícios e megalomania, distorção da realidade, reacções de raiva, incapacidade de empatia, tudo misturado com um também assustador amadorismo. Ora, aquilo que tem sido salientado por especialistas em saúde mental é também o que caracteriza um ditador. E há mais para nos causar desconforto e ausência de esperança no futuro: Trump está rodeado de seres que possuem as mesmas características, designadamente no que toca à empatia, ou à falta dela, e creio que alguns dos seus acólitos terão uma vantagem em relação a Trump: são mais metódicos, dotados de uma estratégia e sobretudo mais inteligentes do que o Presidente, o que torna tudo ainda mais inquietante.
O resultado de tudo isto, para já, é a instabilidade já referida, mas essa instabilidade poderá, e terá, de ser transformar em qualquer outra coisa, sendo que a Trump já luta por uma reeleição em 2020. E essa "outra coisa" será muito pior do que aquilo que conhecemos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Como dar cabo de mais um banco e ainda assim fazer-se de vítima em três lições

Sobre a frase em epígrafe importa olhar para o PSD. Depois de ter sido Governo, depois defender a privatização da Caixa Geral de Depósitos, ao mesmo tempo que ignorava os problemas e necessidades do banco, Passos Coelho e os seus acólitos vestem o papel de ofendidos e de vítimas. Como? Fácil: atiram tudo o que podem ao ministro das Finanças que subitamente cometeu o mais grave dos crimes, como se todos estes ofendidos e vítimas fossem, de alguma forma impolutos.
Vamos ao que interessa: como dar cabo de mais um banco e ainda assim vestir o papel de vítima:
Primeira lição: não ter pudor, ao invés, manifestar a incrível capacidade de ter a maior lata do mundo, ignorando os problemas do banco público e centrando todas as atenções no Ministro que tem conseguido fazer aquilo que competia ao PSD, corrigir aquilo que herdou do anterior Governo – garantir a liquidez e viabilidade do mais importante banco do sector financeiro português. Ao mesmo tempo que se aproveita a oportunidade para escamotear o sucesso do actual Governo nas metas e indicadores económicos que merecem, inclusivamente, elogios da Comissão Europeia.
Segunda lição: fingir que são incapazes de dormir à noite preocupados que estão com a dignidade do Parlamento, ao ponto do Presidente da Comissão de Inquérito demitir-se. Fingir igualmente que a dignidade do Parlamento acabou no dia em que SMS trocadas entre o ministro das Finanças e aquele erro de casting de seu nome Domingues não foram escarrapachadas na A.R. e, evidentemente, na comunicação social.
Terceira lição: vitimização, atrás de vitimização, enquanto se finge que a privatização da C.G.D. nunca foi desejo ardente da liderança do partido. Com a ajuda de um advogado/comentador numa muito aldrabada quadratura do círculo (com uma única e honrosa excepção), o PSD dedica-se à vitimização enquanto anseia pela queda do Ministro e a subsequente instabilidade política e financeira.
A ironia disto é indisfarçável: o mesmo partido que grita a palavra dignidade, é o mesmo que já a perdeu, desde logo quando, em troca de um regresso ao poder, está disposto a ver o país a arder. Viva o PSD, viva Portugal, de preferência sob o jugo do Diabo. Pelo caminho esqueça-se a vontade de privatizar e ignore-se aquilo que aparenta ser incompetência e que tantas vezes degenera nessa mesma privatização e nos subsequentes negócios, partições e percentagens. Afinal de contas o PSD nem foi Governo durante os últimos (quase) cinco anos.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Traição

Confesso que era minha intenção escrever sobre a oposição PSD/CDS, designadamente a postura da oposição relativamente à questão de Centeno e da CGD. Todavia, tudo se resume a três ou quarto adjectivos para caracterizar essa postura e a própria oposição e, por outro lado, existem assuntos mais prementes e relevantes.
Voltamos assim à Administração Trump e às suas relações insidiosas com a Rússia.
Por um lado a demissão de Michael Flynn, Conselheiro Sénior para a Segurança Nacional, depois de este ter mantido conversas ao telefone com o embaixador russo sobre alegadas informações que não foram convenientemente prestadas acerca de sanções à Rússia - uma história mal contada que envolve novamente a Rússia. Flynn terá alegadamente falado na reversão de sanções e da expulsão de 35 diplomatas russos decididas por Obama em consequência da ingerência russa nas campanha para as eleições presidenciais.  
Agora o New York Times avança a notícia dando conta de que os serviços secretos de informação americanos têm registo de uma multiplicidade de conversas mantidas, durante a campanha, entre colaboradores de Trump e agentes secretos russos, designadamente um oficial sénior dos serviços secretos russos. Mais uma história suspeita, depois da "ajudinha" que os russos deram à campanha daquele que é hoje o Presidente dos EUA. Mais uma história a envolver a Rússia, mais uma história que levanta questões sobre os negócios que Trump mantém ou manteve com os russos; mais uma elemento a juntar à estranha história que envolve Trump e a chantagem russa, suscitada por um ex-membro dos serviços secretos britânicos. Sabe-se também que as comunicações de que o New York Times dá conta foram interceptadas na mesma altura em que se descobriram provas de interferência russa nas eleições presidenciais.
Trump afirma que não tinha conhecimento das conversas mantidas entre Flynn e o embaixador russo. Mas até quando Trump conseguirá sacudir a água do capote? Não estaremos perante a ponta do iceberg? Não será esta a forma que condenará este Presidente a um processo de destituição? Aliás "impeachment" e "traição" são palavras recorrentes quando se fala das estranhas relações entre esta Administração e Putin.

Se Trump estiver afinal colado a Flynn, com promessas, chantagens e interesses económicos desta Administração e Putin, o escândalo Watergate que resultou na demissão de Richard Nixon, acabará por parecer uma brincadeira de meninos ao pé do que pode sair da Administração Trump. De resto, um Presidente alvo de chantagens, envolvido em negócios opacos com um país como a Rússia, vulnerável por ser alvo de chantagem, não tem qualquer espécie de viabilidade. É que de facto tudo isto tem um nome e não é bonito: Traição. E tudo isto pode ter afinal um fim mais prematuro que se esperaria.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A culpa será do sistema judicial

Quando Trump afirma que se algo acontecer no país (leia-se um ataque terrorista) a culpa será do sistema de justiça, está para além de tentar encostar esse sistema à parede, está a limpar a sua administração da responsabilidade na criação de condições para que esse atentado efectivamente aconteça. Imagine-se o que seria e como esta Administração reagiria na eventualidade de um ataque terrorista acontecer em solo americano. Trump seria o primeiro a reforçar a culpa do sistema de justiça e auto-excluir-se de qualquer responsabilidade.
A tudo isto acresce que a taxa de popularidade de Trump muito provavelmente subiria em flecha. Recorde-se o que aconteceu com a Administração Bush com a subida incomensurável da sua popularidade.
Dito por outras palavras, Trump, que conta com baixas taxas de popularidade e com uma forte oposição sobretudo da sociedade civil americana, ficaria numa situação mais favorável caso uma desgraça de natureza terrorista acontecesse, designadamente se por detrás dessa mesma desgraça estivesse o jihadismo.
Trump e a sua Administração dificilmente aguentarão este ritmo de governação, com ataques diários, como uma oposição sem precedentes na democracia americana e com o funcionamento dos “checks and balances” próprio do sistema democrático. Já para não falar do amadorismo que cerceia esta Administração e que é indubitavelmente indisfarçável.

Assim, resta saber até que ponto as políticas que visam uma população em especial que é feita por Trump e pelos seus acólitos não terá consequências trágicas para o povo americano, mas extraordinárias e salvíficas para a Administração Trump.