sexta-feira, 29 de julho de 2016

Patética mudança de discurso

Primeiro as sanções, na óptica do PSD e de comentadores de pacotilha ao seu serviço, mais não eram do que uma forma de punir o actual Governo pela trajectória escolhida, embora esta ainda esteja a dar os primeiros frutos. Assim sendo, as punições recairiam sobre o que ainda não aconteceu, sobre o futuro - um futuro pejado de conceitos mediavais como o Diabo que, alegadamente, chega em Setembro. Depois, quando a sanção virou zero, o mesmo PSD e comentadores seus acólitos, mudaram radicalmente o discurso - afinal, a ausência de punição é paradigmática do bom trabalho desempenhado pelo anterior Governo, numa súbita viragem e regresso ao passado. É claro que nada disto tem sentido.
Por um lado terá existido uma conjuntura de factores que inviabilizaram a abertura de precedente com a aplicação de sanções aos Estados "incumpridores". Desde logo, Shaüble terá intercedido a favor da sanção zero. Porquê? Por causa de Espanha: um castigo infligido ao Estado espanhol seria um castigo a Rajoy, num contexto onde não existe verdadeiramente qualquer solução política saída das últimas eleições. Ou seja, um castigo seria um forte contributo para as críticas que recaem sobre a Europa, críticas proferidas por partidos mais à esquerda do PP de Rajoy. 
Por outro lado, factores como o Brexit, o crescimento exponencial de sentimentos anti-Europa que se consubstanciam em escolhas políticas consonantes e o facto da Europa estar a ser confrontada com problemas incomensuravelmente mais graves do que umas décimas de um qualquer défice, transformou toda esta questão num enorme exercício desnecessário e contraproducente.
Nada disto viabiliza a tese de que o trabalho de Passos e apaniguados foi meritório aos olhos das instituições europeias; assim como nada disto tem a ver com o que ainda não aconteceu. Simplesmente existem interesses muito superiores à acção dos principais intervenientes nacionais.  


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Sanção zero. E agora?

Preocupados com a aplicação de castigos a países mais ou menos periféricos e apesar da Europa se confrontar com problemas de dimensão incomensurável, comparativamente, os líderes das instituições europeias ameaçaram e ameaçaram e voltaram a ameaçar Portugal e Espanha. Mas afinal não há multa. E não deverá existir cortes nos fundos estruturais, pelo menos por uma questão de coerência.
Já no passado recente assistimos a exercícios de perfeita humilhação da Grécia - transformada num problema de grandes dimensões -, ao mesmo tempo que se minimizava as verdadeiras ameaças à estabilidade da Europa. Depois do Brexit, algo pode ter mudado. Repito: pode.
No caso das sanções aplicadas a Portugal, escusado será argumentar o que quer que seja. O caso era simplesmente ridículo, para além de injusto. Por mais de cem vezes não se cumpriram as regras, sem que com isso recaíssem sobre os "incumpridores" qualquer punição. 

Esta é sobretudo uma má notícia para Passos Coelho: primeiro por ter acusado o actual Governo de seguir o caminho errado, justificando assim as sanções, pelos vistos é precisamente o contrário. Depois porque no seu íntimo Coelho tinha esperança de que as sanções fossem o prelúdio da hecatombe provocada pela Europa que redundaria na convocação de eleições antecipadas e no seu regresso. E, finalmente, por ficar ainda mais isolado, nem os amigos europeus lhe estendem a mão. E agora? Talvez ir beber um copo com Dombrovskis e com Dijsselbloem para afogarem as mágoas.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Afinal...

O défice foi reduzido em 971 milhões de euros no primeiro semestre, ou seja a execução orçamental está a correr manifestamente bem. Contrariamente a outros tempos, a notícia não teve o destaque que seguramente merecia e quando se abordou a questão na comunicação social das duas uma: ou se desvia a atenção para outras questões, tantas vezes sem qualquer ligação directa, ou se procurou desvalorizar o feito recorrendo a conjecturas que redundam invariavelmente numa maquilhagem das contas. Provas disso? Nenhumas. Todavia, vivemos tempos em que a retórica anda sozinha depois de ter abandonado a dialéctica. Basta dizer, não é necessário fundamentar.
É evidente que a boa execução orçamental torna a questão das sanções ainda mais ridícula; é evidente que a boa execução orçamental deixa Passos Coelho ainda mais isolado; é evidente que a comunicação social preferia notícias de pendor mais apocalíptico. 

A realidade por vezes é uma chatice. Afinal, contra tudo e contra todos, a "geringonça" não só funciona, como é bem sucedida, em oposição aos anos de Passos Coelho. Afinal a união das esquerdas, apesar das pressões internas e externas, vai colhendo os seus frutos e até as sondagens reflectem o sucesso desta solução política. Não admira pois que Passos Coelho manifeste despudoradamente o seu desespero.

terça-feira, 26 de julho de 2016

A vez de Hillary Clinton

Arrancou ontem a Convenção do Partido Democrata que consagra Hillary Clinton como a candidata democrata e depois do triste espectáculo oferecido por Trump e pelos seus apaniguados, espera-se um regresso à normalidade.
É evidente que Hillary Clinton não será a candidata desejada por muitos democratas. Demasiado comprometida com o "establishment", pouco carismática e sem ideias que levem às mudanças almejadas por muitos, Hillary tentará não comprometer, tendo a seu favor, paradoxalmente, estar a combater politicamente um dos maiores desastres na prossecução da presidência americana: Donald Trump.
 O Partido Democrata procurará passar a ideia de união, embora os documentos revelados na semana passada e que dão conta de um esforço hercúleo por parte do partido com o objectivo de minar a campanha de Bernie Sanders possa ser um motivo de desunião. Ainda assim, Trump tem o condão de aproximar todos de Hillary que contará, creio eu, com o apoio das grandes comunidades nos EUA - todos excepto parte da comunidade branca, o que não chegará para eleger um Presidente, apesar das peculiaridades do sistema eleitoral americano.

É precisamente essa a grande vantagem de Clinton: Trump espalha o ódio, afasta os moderados, nada faz para combater as tensões sociais, bem pelo contrário, o que pode resultar numa base de apoio e de votação sem margem para crescimento. Espero vir a ter razão, afinal de contas, o EUA e o mundo não precisam de um Trump.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Pedro e o Diabo – uma pequena história

 Pedro estava disposto a vender a alma ao Diabo, ou melhor, o Pedro pretendia trocá-la por um regresso ao poder, afinal de contas, até há bem pouco tempo, o Pedro fora um homem poderoso. Porém, a vida dá muitas voltas e o Pedro ficou órfão de poder, mostrando-se, por isso, disposto a tudo para recuperá-lo, incluindo vender a alma ao Diabo.
O Diabo, esse, sabe muito e sabe muito porque é velho, não viu mais na proposta de Pedro do que um mau negócio. Desde logo, a alma de Pedro tinha pouco ou nenhum valor e nem tão-pouco o inferno estava disposto a albergar mais almas medíocres. Dizia-se por ali que deixara de haver mercado, logo não havia interesse.
O Diabo entendeu por bem responder aos apelos de Pedro:
- Nem o Diabo te quer; não interessas nem ao Diabo. Não és nenhum Fausto, Pedro. Nem tão-pouco anda por aí um Mefistófeles interessado em ti.
Pedro, confuso, respondia: Um quê?
O Diabo, deitando as mãos aos cornos, dizia: Esquece, Pedro. Esquece. A felicidade absoluta não chegará, nem a tua alma despertou sequer curiosidade. Mas mesmo que esse interesse existisse, não creio que todo um povo cometa novamente o erro de te escolher, os meus poderes de influência também têm os seus limites. Por conseguinte, o que me pedes, mesmo que eu anuísse, não to posso oferecer.
Acabrunhado, o Pedro voltou a questionar o Diabo: O que fazer então?
- Sou o Diabo, mas não tenho respostas para tudo. Não sei. Já pensaste em experimentar filatelia?
Pedro mostrou-se novamente confuso: Fila…? Telia?
O Diabo, novamente deitando as mãos ao par de cornos, respirou fundo e calmamente respondeu: Tenta qualquer coisa. Olha dedica-te à pesca pode ser que o peixe… mas agora desampara-me a loja e quando estiveres com o teu bom amigo Aníbal diz-lhe que por aqui também não há grande interesse nele.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Um exercício desnecessário

Bem sei que falar ou escrever sobre Passos Coelho é um exercício desnecessário, tal como dedicarmos o nosso tempo a qualquer outra insignificância. Para além de desnecessário, perder tempo com Passos Coelho é igualmente penoso, mas enquanto o dito por aí deambular...
Vem isto a propósito da última baboseira de Passos Coelho, classificando a governação de António Costa como "quase criminosa", que é o equivalente a dizer que a observação de Passos Coelho é "quase estúpida", quando na verdade é um verdadeiro hino à estupidez. Há escassos dias o antigo primeiro-ministro acusava o actual Governo de ter "roubado a legislatura".
Para além da falta de nível que se exigiria sobretudo a alguém que até ao ano passado desempenhava as funções de primeiro-ministro, existe um desespero e um desnorte, indisfarçáveis.

Na verdade, Passos Coelho e os seus acólitos estão cansados de esperar pela tragédia europeia. A geringonça funciona; as sanções demoram e provavelmente nem virão a ser bem sanções; a tragédia demora, o desespero torna-se evidente. As autárquicas estão à porta e com elas a porta de saída para Passos Coelho, a par de um futuro que se avizinha sombrio.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Trump nomeado candidato

Agora é a sério. Donald Trump foi nomeado, pelo Partido Republicano, candidato à Casa Branca. E apesar de parte do partido não se rever nesta nomeação, o facto é que Trump conseguiu a nomeação com recurso ao habitual discurso do ódio e do preconceito enquanto a mulher recorreu ao plágio que, de tão patético, não merece sequer duas linhas de comentário.
As sondagens vão dando Hillary Clinton, candidata democrata, como sendo a vencedora das eleições de Novembro. A última sondagem do New York Times chega mesmo a prever que Hillary vença com uns confortáveis 76 por cento, contra 24 conseguidos por Trump. Ainda assim, nunca o discurso do ódio teve um tão forte representante político como é Trump - um discurso que conta com uma vasta legião de apoiantes.

Num contexto de forte instabilidade, com as tensões raciais e não raras vezes religiosas e serem motivo de disputa, os EUA necessitam da antítese de Trump. Os EUA necessitam de tudo menos de um incendiário com um mau penteado.