segunda-feira, 30 de maio de 2016

Um Presidente profuso

Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente profuso nas palavras. Incapaz de se manter quieto e longe dos holofotes da comunicação social, Marcelo diz para depois vir clarificar. Foi assim com a brincadeira com o primeiro-ministro, a tal do optimismo ligeiramente irritante; foi assim com a estabilidade e as autárquicas e terá sido assim com a questão dos contratos de associação que dividem colégios e escolas privadas e Governo.
A profusão de intervenções de Marcelo redunda invariavelmente numa nova profusão de interpretações que o obrigam a vir, amiúde no dia seguinte, clarificar as suas próprias palavras.
Bem sei que existe uma espécie de contentamento generalizado em torno do actual Presidente da República, creio que também por força da actuação do seu antecessor e também não escondo que não escolhi Marcelo para Presidente. Todavia, a presença diária do Presidente, tantas vezes a comentar a actualidade política, transforma-o num comentador que Marcelo Rebelo de Sousa parece não conseguir deixar de ser, quando o que o país necessita é de um Presidente da República.
Tenho uma visão diferente daquilo que deve ser um Presidente da República. Desde logo, a profusão e o excesso contribuem para um desgaste a que Marcelo parece acreditar ser imune. No entanto, ninguém o é, nem mesmo o omnipresente, com pretensões de omnipotência, Marcelo Rebelo de Sousa.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Um hino à estupidez

Não tenho por hábito dedicar o meu tempo à estupidez alheia, mas o mais recente cartaz da JSD permite-me abrir uma excepção. Ora, os meninos da JSD decidiram vestir Mário Nogueira de Estaline e Tiago Brandão Rodrigues de marioneta. No cartaz está também patente uma tentativa pueril de fazer um trocadilho: "isto Stalin(do), está".
É evidente que não passou pela cabeça daqueles meninos que a utilização de figuras déspotas como Estaline para ilustrar uma situação que de estalinista nada tem, ofende as vítimas e os familiares das vítimas do ditador em questão. Já nem falo dos visados que, à semelhança de qualquer pessoa com bom sendo, sabe que dar importância à estupidez é reforçá-la.

A rapaziada da JSD justificou o cartaz com uma "nacionalização do ensino" em Portugal. Embora apenas se trate da correcção de situações de perfeita injustiça, lesivas do Estado, a rapaziada da JSD segue a estratégia de outros proeminentes membros da direita: distorce a verdade. Na falta de argumentos pouco resta para além da mentira, acompanhada, claro está, pela já habitual estupidez.

terça-feira, 24 de maio de 2016

As habituais pressões

O regresso das 35 horas é uma medida da mais elementar justiça. Paralelamente, a velha premissa de quantidade versus qualidade esbarra amiúde na realidade. Não é esse o entendimento de Peter Praet, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, que se manifesta preocupado com a reversão desta medida. Mais um, entre tantos outros, interna como externamente, a procurar exercer pressão sempre no mesmo sentido - no sentido da receita que não produziu nem produzirá os efeitos desejados. Desta feita um que não sabe o que é ser eleito.
Por cá, existem outros que se prestam a tristes figuras, desde pivôs de jornais televisivos, passando por políticos/comentadores e culminando nos conhecidos jornalistas/especialistas. Na esfera política, a tarefa ficou nas mãos de uma figura desgastada, isolada e envelhecida (figuradamente), Pedro Passos Coelho. Todos têm como objectivo fragilizar a actual solução política, enquanto encetam novas tentativas de levar o país de regresso ao caminho do empobrecimento,
Passos Coelho consegue a proeza de se prestar aos exercícios mais humilhantes: desprovido de argumentação, atira números para o ar; esquecido do seu passado recente, mostra-se preocupado com o desemprego e com a situação de professores de colégios e escolas privadas (para estes professores não há lugar a conselhos que redundem na emigração); isolado, fala como se a credibilidade fosse a sua melhor amiga.
As pressões internas e externas não cessarão e acredito que depois das eleições espanholas de 26 de Junho e consoante o resultado desse período eleitoral, as ditas pressões possam recrudescer.
Resta ao Governo português não ceder e aos partidos que suportam o Governo insistirem no apoio a esta solução governativa. Diga-se em abono da verdade que as pressões externas são as mais preocupantes, desde logo porque internamente, Passos Coelho está entregue a sucessivos exercícios de humilhação de si próprio.



segunda-feira, 23 de maio de 2016

Estado Social

É por demais evidente que parte dos contratos de associação celebrados com o Estado desafiam qualquer concepção de Estado Social. Havendo oferta pública, não se verifica a necessidade de contratar serviços privados. Elementar? Sim, mas não para todos, isto porque o Estado Social tem muito que se lhe diga e os negócios são sempre os negócios.
A intenção do Governo apoiar a escola pública, com medidas justas como a reposição de apoio especializado a crianças com incapacidades permanentes, apoio nos livros escolares e mais apoio para alunos com dificuldades de aprendizagem, é absolutamente essencial e enquadra-se no conceito de Estado Social.
Reconheça-se ou não, a sociedade portuguesa apresenta sinais evidentes de egoísmo. Os negócios sobrepõem-se a tudo o resto e um egoísmo mais generalizado ajuda à festa. Talvez por esta razão exista quem não entenda que o Governo está a fazer é da mais elementar justiça.

A instrumentalização de crianças diz muito do carácter daqueles que defendem os seus negócios, mesmo que esses negócios sobrevivam à custa dos parcos recursos do Estado e mesmo que esses negócios retirem capacidade de atender a quem realmente necessita de apoio social.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Jornalismo, ou nem por isso

No país em que se procura avidamente o consenso, há um que já se terá instalado: o jornalismo em Portugal (e não só) anda pelas ruas da amargura. Dir-se-á que  internet estará a dar o seu contributo para a crise do jornalismo, o que poderá ser em parte verdade. Todavia, a existência de uma promiscuidade que já não é latente entre jornalistas e poder político seguramente contribui para o agudizar da crise do sector.
Vem isto a propósito da notícia da revista Sábado, dando conta de um alegado "crime" cometido pelo ministro da Educação, Tiago Brandão  Rodrigues, sim, o mesmo que está debaixo de fogo por ter posto em causa interesses tão queridos da direita portuguesa. Ora, a revista Sábado acusa o ministro de burlas com bolsa de estudo com base no depoimento de um ex-professor do agora ministro.  Pouco parece interessar que o ministro e a academia em peso tenham refutado as acusações, o mal está feito e terá novo impacto num jornalismo sem crédito, rigor ou isenção.
O objectivo da revista Sábado é claro: manchar a imagem de um ministro incomodo, procurando associar Tiago Brandão Rodrigues a outros políticos da direita, como Miguel Relvas.

Enquanto o jornalismo, em Portugal e não só, insistir na defesa de uma agenda que não é consonante com a isenção e com o rigor que lhe devem ser inerentes, a crise do sector aprofundar-se-á. Ninguém gosta de ser manipulado e o jornalismo que procura insidiosamente manipular a opinião pública tem e terá o seu castigo: sem credibilidade não há negócio sustentável.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pedro Passos Coelho cansa

Escrever sobre Pedro Passos Coelho cansa. O próprio Pedro Passos Coelho cansa. Cansa por todas as razões que têm sido explanadas aqui, mas sobretudo pelo desconforto manifestado no papel de líder do maior partido da oposição, e pelo facto de se tratar de alguém que ainda não percebeu que o seu tempo acabou.
Escrever sobre o anterior primeiro-ministro cansa, mas o facto é que Passos Coelho insiste em dar razões para que o teclado continue a debitar palavras sobre uma figura desgastada, em fim de vida política.
Isolado, acossado e desgastado, não atira a toalha ao chão, o que seria um virtude se Passos Coelho ainda tivesse alguma coisa para oferecer ao país. Objectivamente não tem. A sua receita falhou, a forma de estar na política, invariavelmente ocupado na tarefa de fechar portas ao invés de procurar o diálogo, esgotou-se. António Costa está a mostrar que é possível fazer muito diferente daquilo que Passos Coelho fez.

Parte do PSD continua com Passos Coelho e estará até surgir a alternativa que, no fundo é almejada por todos. A pouco mais de um ano das autárquicas, Passos Coelho definha, afundando-se na sua insignificância. Pedro Passos Coelho cansa. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

As causas da direita

Desprovida de ideias que não brotem da cartilha neoliberal ou assim-assim, a direita portuguesa encontrou nos contratos de associação com escolas privadas uma causa. Infelizmente para a dita direita - PSD de Passos Coelho e CDS de Assunção Cristas (faz de conta) - essa é uma causa que não é partilhada pela maioria dos portugueses que simplesmente não compreendem a duplicação de ofertas e os gastos excessivos do Estado com escolas privadas quando existe oferta pública.
Passos Coelho e Cristas poderiam ter escolhido outras causas: a luta contra o desemprego, o combate as desigualdades, por exemplo. Pelo menos podiam fingir que essas eram batalhas a ser travadas. Não, preferiram escolher uma causa que não colhe na opinião da maior parte dos cidadãos.
Contrariamente ao que o bom senso ditaria, Passos Coelho, Cristas e coisas similares insistem nesta batalha. As razões começam também elas a ser evidentes: os interesses são muitos e é por esses interesses que a direita luta - interesses que, mais uma vez, não se coadunam com aqueles da maioria dos portugueses.

O que esta causa da direita vem demonstrar é que PSD e CDS não passam de partidos empenhados em salvaguardar os interesses de uma de casta decrépita. Nem tão-pouco se trata de uma luta ideológica, até porque a referida direita não é propriamente uma direita de ideias, mas antes de negócios. É apenas disso que se trata: negócios. A isto, se quisermos ser mais generosos, podemos acrescentar uma arrogância exasperante que redunda amiúde em exercícios de humilhação dos protagonistas que ainda o são por falta de alternativa. E para a defesa da causa fala tudo, até instrumentalizar crianças dos ditos colégios privados.