sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Maus resultados em plena silly season

A execução orçamental no primeiro semestre não foi famosa. O défice da administração pública subiu mais 140 milhões. A culpa é do Tribunal Constitucional (TC), o bode expiatório do costume e não da insistência por parte do próprio Governo na aplicação de medidas inconstitucionais. Outra notícia relacionada: Portugal foi o terceiro país onde a dívida pública mais aumentou, atingindo os 132,9 por cento do PIB - o terceiro valor mais alto de toda a UE.
Entretanto já estamos todos esquecidos da origem desta crise e
da transferência do ónus da dívida de um sector bancário excessivamente endividado que apostou num sector imobiliário fortemente sobrevalorizado e em tudo o que foram negócios ruinosos para o país. Esse ónus passou para a dívida soberana. O capital moveu-se e nada mais. Trabalhadores e pensionistas ficaram com a fatura.
Em plena silly season o Governo é confrontado com as más notícias que tenta escamotear, responsabilizando o TC. Esquece-se de referir o aumento do pagamento de juros que só no primeiro semestre ronda os 4,5 mil milhões de euros; esquece-se de referir o aumento das benesses concedidas a grandes empresas e à banca, sobretudo de natureza fiscal. E estamos para conhecer a verdadeira situação do BES e as suas consequências.
O Governo insiste e insistirá que este é o caminho certo para o país. Pouco importa o empobrecimento da esmagadora maioria; pouca relevância terá a venda das empresas mais lucrativas; pouco interessa o enfraquecimento do Estado Social.
Em plena silly season, más notícias. Não se faz.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Guiné Equatorial na CPLP

A CPLP conta agora com mais um membro: a Guiné Equatorial. Aquele país corrupto, liderado por um ditador que chegou ao poder através de um golpe de Estado sem misericórdias. A História deste país é conhecida: Teodoro Obiang - é assim que o senhor se chama - chafurda no luxo resultado dos vastos recursos do país, enquanto 80 por cento dos seus cidadãos vivem na mais abjecta miséria. Este é um dos países mais ricos da África subsariana.

A Guiné Equatorial aderiu à CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Na sua maioria não falam português (excepção de algumas regiões onde se falam línguas crioulas e que, com algum esforço, se encontrará algum resíduo da língua portuguesa). Detalhes sem importância. A Guiné Equatorial está nos antípodas do que é a democracia. Não interessa. Detalhes sem importância. A Guiné Equatorial desrespeita visceralmente os direitos humanos. Mais uma vez meros detalhes. Não sejamos picuinhas. Obiang, o líder daquele país, vai investir no Banif com o beneplácito de Luís Amado - agora no Banif, outrora detentor da pasta dos Negócios Estrangeiros. Detalhes sem importância? Coincidências, meras coincidências.
Rui Machete, o actual detentor da pasta dos Negócios Estrangeiros, afirmou que "Portugal se sente à vontade com esta decisão." Pois claro que se sente.

Noutros tempos, as relações com líderes políticos pouco amigos do conceito de democracia fazia a comunicação vibrar. José Sócrates que o diga. Hoje as coisas são substancialmente diferentes. Outros tempos, outras vontades, outras cores políticas, a mesma comunicação social, o mesmo país inerte, alheado de quase tudo que se passa em seu redor.

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Tréguas

A violência que tomou conta de Gaza, nos territórios palestinianos, recrudesceu dramaticamente com a ofensiva terrestre israelita.
O conflito israelo-palestiniano dura há décadas, esta é uma região historicamente instável e depois da torrente de vítimas ao longo dos anos, o conflito perdura. Pelo caminho as resoluções das Nações Unidas são desprezadas. Este mais recente agravamento, depois da morte de três jovens israelitas na Cisjordânia (do lado palestiniano alega-se que dois jovens palestinianos já tinham sido assassinados), Israel respondeu visceralmente.
A comunidade internacional pede tréguas, sem grande ímpeto , como de resto tem sido habitual.
De um lado o anti-semitismo do Hamas e a utilização de rockets, insistindo numa posição contraproducente e que dá força às acções militares israelitas, fornecendo aos israelitas um pretexto, uma razão, uma certa legitimidade; do outro, de forma esmagadora, uma espécie de colonização por parte de Israel, controlo da águas, da eletricidade e até das relações comerciais, a par da implantação de um sistema em tudo semelhante ao apartheid, que, paradoxalmente, fazem lembrar tempos vergonhosos. Acresce a toda esta situação insustentável os constantes bombardeamentos numa faixa em que milhão e meio de pessoas vivem encurraladas. Se esta não é uma forma de tirania, não sei o que se enquadra nessa definição.
Mais de 600 palestinianos pereceram, 75 por cento dos quais civis, dezenas de crianças. Os hospitais não têm resposta para tantos feridos e muitos acabarão por morrer. O ódio medra.
Israel alega o direito a proteger o seu território. A verdade é incomensuravelmente mais complexa. A própria existência legítima de um Estado Palestiniano é posta em causa, deliberadamente. Aliás, não se deve descartar outras intenções que possam subjazer a esta operação militar que, num plano mais abragente, podem passar pela inviabilização absoluta do Estado Palestiniano, inviabilizando também uma solução de futuro que passe pela existência de dois Estados.
Importa que a comunidade internacional intensifique a pressão no sentido de forçar uma trégua. Dos Estados Unidos pouco se espera, sobretudo tendo em consideração o historial com Israel; as Nações Unidas, reféns do conjunto de países habitual, não tem conseguido que as suas resoluções sejam levadas à prática e nada leva a crer que essa situação seja agora invertida; a União Europeia poderia ter aqui uma oportunidade para mediar as partes, procurando a tão almejada trégua, mas esta, como tantas outras, será uma oportunidade perdida. Com efeito, muitas são as empresas americanas e europeias que beneficiam do actual estado de coisas, desde a finança, passando por sistemas informáticos e de transportes, culminando, naturalmente, no fornecimento de armas. Ódio e dinheiro falam sempre mais alto.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Aliança à esquerda

A Associação Fórum Manifesto propõe uma “plataforma política disposta a participar na governação”. Dito por outras palavras, Ana Drago e Daniel Oliveira mostram-se dispostos a encetar uma aproximação ao PS. Segundo os intervenientes, a urgência dos tempos assim o exige.
Recorde-se que Ana Drago constitui a mais recente baixa no Bloco de Esquerda e que Daniel Oliveira já se tinha afastado do partido faz algum tempo. Agora pugnam pela “construção de um programa que impeça o desmantelamento do Estado Social e uma plataforma política disposta a participar na governação”.
Procura-se assim uma plataforma de entendimentos que incluia naturalmente o Partido Socialista. Percebe-se a intenção: exequibilidade. Com efeito, e na perspectiva de quem propõe uma plataforma que é como quem diz uma aliança à esquerda, uma mudança só será possível numa esquerda onde caiba simultaneamente o entendimento e a governação. A ideia faz sentido. 
Todavia, não estou assim tão certa que para os lados do Largo do Rato esse entendimento que Ana Drago e Daniel Oliveira advogam seja sequer remotamente almejado. Desde logo, importa que o PS se defina, no contexto da actual liderança ou no contexto de uma nova liderança; e depois, resta saber se o PS – ideologicamente desvirtuado – não sucumbirá à tentação de se aliar ao PSD, sem Passos Coelho, mas ainda assim ao PSD.

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Contenção a Israel

Foi este o pedido do Secretário-Geral das Nações Unidas – um pedido dirigido a Israel, depois de intensivos ataques à Faixa de Gaza e sobretudo depois de uma incursão terrestre cuja justificação é difícil e cujas consequências para os palestinianos são dramáticas.
O pedido de Ban Ki-moon,Secretário-Geral das Nações Unidas, é insuficiente e será ignorado, como tantos outros pedidos por parte das Nações Unidas.
Depois do assassínio de três jovens israelitas, depois do assassínio de um jovem palestiniano, depois de ataques mútuos e sucessivos, e na sequência ainda da manifestação de força de Israel, claramente desproporcionada, o resultado está à vista: centenas de mortes do lado palestiniano – só no domingo mais de cem -, um terço crianças e mulheres, e pouco mais de uma dezena do lado israelita. Atrocidades atrás de atrocidades.
Recordemos que na faixa de Gaza vivem mais de milhão e meio de palestinianos, encurralados num pedaço de terra exíguo, um verdadeiro beco sem saída. Imagine-se agora esse beco exíguo ser permanentemente bombardeado.
Israel, por sua, vez, justifica os ataques e sobretudo a incursão terrestre com os sucessivos ataques de rockets por parte do Hamas. Todavia, a resposta israelita é claramente desproporcionada e raia o crime humanitário.
Se a vida em Gaza era quase uma impossibilidade, hoje é indubitavelmente um inferno. Urge um cessar fogo imediato e não uma contenção como aquela pedida pelo Ban Ki-moon.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Acólitos

Todos os governos necessitam dos seus acólitos, responsáveis por coadjuvarem na missa. Este Governo de Passos Coelho e de Paulo Portas não é excepção. Importa contudo reconhecer que para ouvir e ler os acólitos que ajudam na missa do Executivo de Passos Coelho é preciso ter estômago.
Reconhecemos com facilidade os ditos acólitos: os mais ou menos especialistas, revestidos de uma presumível sapiência adorada pela comunicação social, dotados de uma moral inexpugnável; os acólitos que fazem parte de um jet set apodrecido; os que nos tempos mais áureos de Miguel Relvas, clamavam por empreendedores de bater punho e actos similares – um fiasco, apesar de tudo e, claro está, banqueiros fingidores: fingem não ser parte interessada e, mais grave, fingem nada ter a ver com a crise que convenientemente deixou de ser uma crise financeira para se tornar numa crise das dívidas soberanas. Os mesmos que vivem de rendas e de negócios ruinosos executados por políticos de pacotilha.
Aqueles que mais visibilidade conseguem são os especialistas assim-assim, graças à paixão que a comunicação social nutre por eles, classificados invariavelmente de especialistas naquela ciência social tão em voga – a economia. Entre estes contam-se inúmeras celebridades: José Gomes Ferreira, Camilo Lourenço e João César das Neves, só para dar alguns exemplos. Apologistas da tese da inevitabilidade procuraram justificar o injustificável. João César das Neves, em entrevista à Rádio Renascença afirmou que “é criminoso subir o salário mínimo” e que esse aumento acabaria por trazer “consequências dramáticas para os pobres”. Importa olhar para o mecanismo económico, diz o putativo economista. É preciso saber viver com uns míseros 485 euros ou, talvez, com uns 500 euros. Ou isso ou o desemprego. A retórica é invariavelmente a mesma.
Curiosamente o putativo economista, na mesma entrevista, criticou a situação no BES, chegando mesmo a afirmar que este caso se pode transformar “no maior escândalo financeiro da História de Portugal”. Ora, esta afirmação pode muito bem incomodar outros acólitos como é o caso evidente dos bancários, mas também dos pertencentes a um jet set apodrecido que gostam de brincar os pobrezinhos na Comporta e no raio que os parta.

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Depois de empobrecer

O que existe depois de empobrecer? O que subsiste depois de um empobrecimento vendido em conjunto com a ausência de alternativas? O que sobrevive a esse empobrecimento fruto do facto de termos vivido acima das nossas possibilidades?
O primeiro-ministro, forte defensor do empobrecimento e exímio executante desse mesmo empobrecimento tem agora uma prioridade: apoio à natalidade. Segundo o primeiro-ministro importa agora “retirar obstáculos à natalidade”.
Assim, o primeiro-ministro e os seus acólitos sugerem trabalho em part-time com vencimento, durante um ano, a 100 por cento, reduções em matéria fiscal e em tarifas municipais, um passe familiar, etc. Sob os escombros Passos Coelho lembra-se que um país é feito de pessoas; isto depois do já referido empobrecimento como panaceia para todos os problemas do país; depois do incentivo directo e inequívoco à saída de jovens do país; depois de mais de um milhão de desempregados (incluindo os que já desistiram de procurar emprego e os muitos milhares que estão envolvido em acções de formação e afins, convenientemente retirados das listas); depois dos cortes em salários e pensões; depois de um aumento “brutal” de impostos; depois de ter despido o país de qualquer estratégia, Passos Coelho, num rasgo de demagogia para a qual nem sequer tem jeito, fala de um país de pessoas.
Aquele que corta, sem apelo nem agravo, em pensões, salários, apoios sociais, saúde e educação, mas não olha a meios para beneficiar aquele um por cento que detém um quarto da riqueza do país, coadjuvado por uma Europa que defende os interesses da mesma casta, vem agora falar na importância da natalidade. Aquele que foi protagonista na destruição do país, fala agora na sua reconstrução. Seria caso para rir...