quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Uma desgraça incompleta

O incêndio de Monchique, apesar de ter causado significativos danos materiais e psicológicos, ficou muito aquém de outras catástrofes do passado recente. Ora aqui está uma desgraça que por não ter sido total e inexorável não encheu as medidas da oposição abutre.
Assim sendo, restaram algumas críticas à forma como o primeiro-ministro mostrou satisfação com o desfecho, não se percebendo muito bem o que é que o PSD, autor das críticas, pretendia. Um primeiro-ministro choroso? Resignado? Melancólico?
Enfim, não sendo esta uma estratégia com pernas para andar, existiu quem tentou cavalgar na onda de insatisfação das populações, não tocando obviamente no centro dessas críticas, mas andando à volta da “desorganização no terreno” e por aí fora.
Ou seja, ainda não foi desta que uma oposição vazia de ideias e de estratégia, com o maior partido da oposição ainda a chorar a perda do Pai Pedro Passos Coelho, conseguiu os colher frutos tão necessários para umas eleições que se avizinham.
É certo que o Verão ainda não acabou e que as alterações climáticas que afinal são bem reais e têm o nosso dedo podem provocar uma nova catástrofe, mas tudo indica que não será da desgraça que PSD e CDS conseguirão colher os tais frutos.
Por outro lado, a aprovação do Orçamento de Estado para 2018 parece bem encaminhada, o que retira margem de manobra aos referidos partidos.
É bem verdade que o sucesso de uns representa amiúde o fracasso de outros, designadamente daqueles cuja saída pode deixar a porta aberta para o regresso de um qualquer apaniguado do desaparecido Pedro Passos Coelho e para um regresso ao neoliberalismo de pacotilha tão caro ao PSD.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

E quando finalmente nos consideramos civilizados, eis que utilizamos dinheiros públicos para promover a barbárie

Sim, este é um artigo sobre touradas. E sim, a tourada é sinónimo de barbárie.

Vivemos num país onde todos nos penitenciamos quando somos acusados de viver e gastar acima das nossas possibilidades, mas há dinheiro para a barbárie. Este é o país em que a direita acusa o Estado de gastar mal o dinheiro dos contribuintes e com razão, mas as touradas são financiadas com dinheiros públicos, com muito dinheiro público. E no entanto, essa mesma direita que acusa o Estado de gastar mal o dinheiro de todos nós, quando chega a altura de corrigir a trajectória, não age em conformidade, como se viu na votação do projecto de lei do PAN para acabar com esse sorvedouro de dinheiros públicos: a tourada. Este é também o país em que se criminalizou os maus-tratos a animais, no que se pode considerar um verdadeiro avanço civilizacional, excepto numa praça de touros, onde um determinado animal, diferente de todos os outros, pode ser esquartejado, desde que não morra na arena, porque admite-se o mais vasto conjunto de sevícias, excepto a morte, pelo menos ao vivo e a cores.
Este é o país em que a televisão pública - a mesma e a tal que também é paga por todos nós - despeja literalmente quilos de porcaria sob a forma de espectáculos ao ar livre, repletos de playback, a que acresce a tourada e o futebol.
Este é o país dos brandos costumes, mas cujos habitantes, parte deles, aprecia ver um animal ser torturado, retirando um inefável prazer do sofrimento de um ser vivo, deixando os psicopatas cheios de inveja e até com dúvidas ontológicas. Para se sentirem melhor convencem-se e tentam convencer-nos de que se trata de uma tradição ou então que aqueles animais são especificamente criados para serem torturados - razão da sua existência -, ou ainda, que todos os que se insurgem contra este retrocesso civilizacional são uma cambada de hipócritas que se deliciam com um bife no prato. Depreende-se, de resto, que esses hipócritas, nos quais me incluo, são os mesmos que antes de terem o tal bife no prato, deslocam-se ao matadouro para assistir à morte do animal. Primeiro pagam bilhete, assistem ao sofrimento, deixando-se invadir por um prazer dos pés à cabeça, e só depois de todo este processo é que o bife pode ser comido.
Vem tudo isto a propósito da requalificação e abertura de uma praça de touros em Paio Pires no concelho do Seixal. E tudo isto se tornou ainda mais inquietante devido, desde logo, à proximidade geográfica e à minha surpresa enquanto cidadã daquele concelho sobretudo pelo desconhecimento da "tradição" tauromáquica que ressurge, espante-se, em pleno século XXI.
Nem vou entrar pela argumentação, ainda assim particularmente assertiva, que sublinha o desprezo que a autarquia tem pelas verdadeiras necessidades do concelho, até porque esse desprezo torna-se por demais evidente a partir do momento em que 200 mil euros são despejados num espectáculo atroz para gáudio de alguns.
Digo apenas que a vergonha se abate sobre todos os que por ali vivem, e para aqueles que conseguem e tentam (como eu) fazer algum humor com esta palhaçada recomenda-se que consultem a vasta lista que vos deixo em baixo e que dá conta dos dinheiros públicos gastos com esta verdadeira atrocidade. São 35 páginas.
Seja como for, espera-se que esta decisão da câmara do Seixal tenha os seus custos sobretudo nas urnas. E que a memória não falhe e que nos corra a todos.
Deixo-vos ainda a petição para quem quiser fazer um pouco mais: http://peticaopublica.com/?pi=PT86673

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Alterações climáticas: e se tivermos já atingido um ponto de não retorno?

Imagine-se Lisboa sem a sua zona ribeirinha, consequência do aumento do nível médio do mar. Consegue-se imaginar? É difícil. O exemplo dado pelo jornal Público serve para ilustrar melhor aos leitores portugueses um cenário que segundo a revista científica PNAS pode muito bem se tornar real.
Recorde-se que a temperatura média da terra tem vindo a aumentar desde, pelo menos os últimos 35 anos, designadamente devido ao já tão conhecido aumento de concentração de dióxido de carbono que resulta da queima de combustíveis fósseis.
No sentido de evitar o pior cenário, praticamente todos os países do mundo chegaram ao Acordo de Paris que determinou que aquecimento global não pode chegar aos dois graus. Porém, o que os cientistas agora preconizam é que essa meta pode muito bem não ser suficiente para travar aquilo que será um verdadeiro cataclismo, uma fatalidade para a Terra: a subida de 5 a 6 graus da temperatura média que transformará o planeta numa estufa "com desertos e savanas em vez de florestas, fenómenos meteorológicos extremos" e a subida do nível médio do mar que "faria desaparecer muitas regiões costeiras incluindo a zona ribeirinha de Lisboa".
Segundo o mesmo artigo, os sistemas naturais que contribuem para travar o aquecimento global podem falhar precisamente com o aumento da temperatura da Terra que resultará na "inversão dessa função".
Da próxima vez que Trump afirmar que as alterações climáticas são uma invenção dos chineses ou que o Tratado de Paris não serve os interesses americanos, imaginem Lisboa sem a sua zona ribeirinha; imaginem a Terra transformada numa savana, com desertos e sem florestas; imaginem os piores fenómenos meteorológicos e lembrem-se que a ignorância aliada ao mais abjecto egoísmo tem um custo incomensurável. E se tivermos atingido já um ponto de não retorno?

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O abandono de Santana Lopes

O que dizer quando parte da mediocridade salta fora do barco? O resto da mediocridade fica mais pobre ou mais rica sem essa parcela de mediocridade que a abandonou? Estas questões retóricas servem para se pensar a saída de Santana Lopes do PSD. Sim, ele por ali ainda andava, apesar de andar a ameaçar a criação de um outro partido liberal há muito tempo, há demasiado tempo.
Assim, o ex-candidato à liderança do PSD, em carta, crítica a aproximação do PSD ao PS e deixa-se de ameaças, saltando fora do partido.
Este abandono terá provavelmente como consequência a tal criação de um novo partido liberal que, segundo algumas sondagens, conta com menos 2 por cento das intenções de voto dos eleitores.
Santana Lopes é um resistente: resiste às derrotas, resiste à mudança dos tempos, mas não resiste à tentação de criar um partido que tenha o seu rosto, apenas o seu rosto,
Em resumo, a notícia não surpreende nem constituí sequer motivo de preocupação na perspectiva da actual liderança do PSD. Ele anda por aí – isso já todos sabemos. Ele é um animador desta silly season – isso ficámos agora a saber.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Depois de Robles podemos todos respirar de alívio

Finalmente podemos respirar de alívio, Ricardo Robles demitiu-se, permitindo desse modo que a política e os políticos possam permanecer limpos e inocentes. Agora sim, podemos dizer que a política é um mundo sadio e justo, sobretudo depois de se ter afastado um elemento conspurcado pelos negócios, pasme-se! - negócios com uma irmã. Que sacrilégio.
Muito devemos agradecer a partidos como o PSD - paladino dos bons costumes - o afastamento de elementos que dão mau nome à política porque a conspurcam; muito devemos a partidos como o PSD que dão um contributo essencial para a limpeza do cenário político. O que seria do país se não fossem estes justiceiros, estes super-heróis sem capa, invariavelmente coadjuvados por uma comunicação social que prefere claramente os casos como aquele de Robles do que os submarinos de Portas?
Muito devemos agradecer a partidos como o PSD que fazem o favor de nos lembrar que para se ser de esquerda importa ser pobre, ou pelo menos parecer. Muito devemos agradecer ao PSD por trazer à luz do dia as suas próprias contradições, reclamando para si o exclusivo dos negócios sombrios, fazendo sempre aquela proeza de estabelecer uma destrinça entre duas éticas, sem alguma vez proferir o termo "ética", como se a mera palavra queimasse. E louvado seja o PSD por explorar tão bem um sentimento que nos é tão familiar: a inveja.

terça-feira, 31 de julho de 2018

O que faz falta é um Alberto João em cada esquina

Rui Rio anda perto da frase em epígrafe quando nos questiona se "já alguma vez imaginámos se em vez de um, houvesse quatro ou cinco Alberto João por esse país fora?".
Os ares da Madeira provocaram uma acentuada excitação em Rui Rio, ao ponto de este não caber em si de felicidade de cada vez que tocava no nome de Alberto João Jardim. Não poupou elogios e foi ainda mais longe, sugerindo o paraíso na terra, ou melhor cinco ou seis Albertos por "esse país fora".
Rui Rio aparece na liderança do PSD rodeado de uma aparente tibieza que esconde a sua veia populista à qual não será estranha um conjunto de  formas endurecidas de actuação, chocando naturalmente com as boas práticas democráticas. De resto, recorde-se a relação pouco democrática de Rio com a comunicação social, enquanto Presidente da Câmara do Porto.
Quem faz a apologia do caudilho multiplicado por cinco ou seis dificilmente terá futuro na democracia. Percebe-se que a vida tem andado difícil para Rio, mas não vale tudo, ou pelo menos não devia.
De qualquer modo, diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és ou diz-me quem elogias profusamente dir-te-ei quem és.

sábado, 28 de julho de 2018

Um conselho à direita: não deixem passar esta oportunidade

Conselho aos dois partidos de direita: não deixem passar esta oportunidade que Ricardo Robles proporciona, desde logo porque são tão parcas as oportunidades que desperdiçar esta, mesmo sendo uma mão cheia de nada, constituiria um erro.
É certo que a história parecia incomensuravelmente melhor do que acaba por ser. Quando a sexta-feira amanheceu com a promessa de finalmente se poder atacar os partidos de esquerda, sobretudo aquele partido porventura mais exasperante, contestatário, sempre a lutar por uma outra sociedade, criou-se um mundo de expectativas.
Depois vieram os desmentidos do próprio Robles: afinal nenhuma injustiça havia sido praticada pelo vereador bloquista, designadamente contra os arrendatários. Sobra a tese da especulação imobiliária e para que essa tese seja de facto consistente, vamos esquecer o facto de se tratar de um imóvel com dois proprietários, o que implica avanços e recuos e tentativas de se chegar aos tão difíceis consensos. Esqueçamos isso, evite-se tocar nesse particular. Acuse-se o Robles de incoerência ideológica, da tal especulação que é tão amada pela direita, mas que agora vamos fingir que é instrumento do Diabo, sobretudo se praticada por alguém de esquerda. Finjamos que o vereador que viabiliza a actual solução camarária cometeu um crime de lesa-pátria, mesmo tendo adquirido o imóvel em 2014 quando o cenário imobiliário era diametralmente oposto ao que se verifica hoje. E se for necessário insinue-se que o Robles têm a capacidade de ver o futuro.
Aproveitem meus amigos, sobretudo os de direita. Esta caiu do céu e embora fraquinha, nós estamos cá para tudo empolar. Afinal de contas mais vale uma mão cheia de nada de um partido de esquerda do que nos obrigarem a exercícios de reflexão sobre os partidos de direita. Aponte-se o dedo aos Robles deste país. Firme e hirto, sem titubear.