quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Transparência

A transparência é um valor basilar da democracia, sem transparência não existe a confiança que é necessário estabelecer entre cidadãos e instituições democráticas. Infelizmente muitos políticos preferem a cosmética à transparência. É o caso de Maria Luís Albuquerque, actual ministra das Finanças, que no seu tempo de secretária de Estado deu ordem para esconder prejuízo do BPN. Segundo o jornal Expresso, Maria Luís Albuquerque "pediu à Parvalorem, empresa pública que gere os activos tóxicos do BPN, para esconder prejuízo de 150 milhões de euros, de forma a não agravar défice de 2012". O ministério das Finanças veio de imediato desmentir a notícia. A julgar pela seriedade da ministra das Finanças na trapalhada dos contratos swap, toda a gente ficou sossegada com o desmentido do ministério por ela tutelado. Um desmentido que ganha força a poucos dias de eleições. Transparência e verdade: palavras desconhecidas para a coligação.
A cosmética das contas pública tem um valor supremo, atropelando a transparência e o rigor que devem ser apanágio de qualquer pessoa que represente os cidadãos. Que este governo não é merecedor da confiança dos portugueses, não constituiu propriamente novidade, mas que vai ao ponto de pedir a uma empresa pública que esconda os prejuízos para não estes não serem contabilizados no défice é ir longe demais.

Infelizmente por muitas razões que justifiquem a não aprovação do ainda governo, parece ainda existir quem, talvez num estranho exercício de masoquismo, insista em duas de uma: ou votar na coligação que suporta o Governo ou no abdicar de um simples gesto que possa contribuir para colocar um ponto final em toda esta imensa tristeza: votar em qualquer uma das alternativas propostas. Com efeito caímos no domínio do surreal e, aparentemente, de lá não sairemos tão cedo.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O "colega" grego

Depois de ter contribuído para o esmagamento do Syrisa e, por inerência, da Grécia, Passos Coelho dá o bom exemplo do "colega" grego que recusou o "radicalismo" do seu próprio partido. Será difícil recordar um período da história da democracia portuguesa em que o primeiro-ministro tivesse uma lata tão incomensurável como Passos Coelho demonstra ter.
Recorde-se que o Syrisa e Alexis Tsipras foram esmagados por uma Europa preocupada com os interesses internos, concretamente com o futuro dos partidos que garantem a manutenção do status quo. Recorde-se que Passos Coelho e seus acólitos só não tiveram um papel maior no esmagamento da Grécia porque a pequenez que lhes é inerente não permitiu. Recorde-se que apesar da austeridade em dose cavalar imposta à Grécia, o "colega" Tsipras não deixou sair da mesa das negociações a questão central da reestruturação da dívida - discussão essa imediatamente rejeitada por essa sumidade do despudor chamado Pedro Passos Coelho.

A vergonha parece não ter limites porque na verdade Passos Coelho e seus acólitos encontram-se desprovidos desse sentimento. Vale tudo agora, como tem valido ao longo destes penosos quatro anos e meio. Não se encontra laivos de substância naqueles que compõem a coligação, apenas o vazio, a ausência de pensamento estruturado e uma pequenez que caracterizam as principais figuras da coligação. Seria interessante saber o que Alexis Tsipras pensa das declarações do "colega" Passos Coelho, mas novamente trata-se de uma impossibilidade resultante da pequenez de Passos Coelho. Simplesmente, vozes como a do ainda primeiro-ministro não chegam longe.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O que sobressai de uma campanha pobre

Desta campanha eleitoral composta, em larga medida, por personagens medíocres, sobressai a lata dos membros da coligação que acusam o PS de tudo e mais alguma coisa como se nos últimos anos o país tivesse sido governado por alguma figura maléfica que eles - coligação - desconhecem. A lata (é mais do que despudor, descaramento, e mesmo lata, acompanhada por uma inexorável falta de vergonha) é tanta que se torna impossível enumerá-la, mas fica, a título de exemplo, a questão das pensões e as acusações ao PS, já não para falar da ideia de que o Governo repôs as pensões, quando foi o Tribunal Constitucional a repor a legalidade e subsequentemente as pensões.
Desta campanha fica a incapacidade do PS. António Costa tem ainda algum tempo para chegar aos indecisos que se estima atinjam os 20 porcento. O raciocínio é simples: se os indecisos (talvez com o peso do voto útil) caírem para o lado socialista - muito mais provável do que caírem para o lado da coligação - então o resultado poderá ser uma verdadeira surpresa. Não aprecio exercícios de futurologia, mas parece-me que esse cenário é plausível e que resultará numa vitória significativa do PS e, eventualmente, em resultados positivos para os partidos mais à esquerda do PS. Com franqueza não me parece que os indecisos votem na coligação, quem vota na coligação já está decidido há muito. Porventura será também sobre eles – indecisos - que recairá a pressão do voto útil. Parece-me plausível que muitos sucumbirão ao peso do voto útil.
Mas o que sobressai mais nesta campanha é a pobreza de ideias. E neste particular temos muito a agradecer aos partidos da coligação sempre interessados em discutir tudo menos ideias. De resto, não podia ser de outra forma: a parcimónia das ideias é evidente e as poucas que restam vão na prossecução do caminho do empobrecimento - facto que não fica bem em plena campanha eleitora.
No cômputo geral, e a uma semana de eleições, resta-me lamentar o que tem sobressaído nesta campanha e esperar pelas surpresas na noite de eleições, em que a maior derrota será a das sondagens.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Afinal... não é bem assim

O défice afinal disparou para os 7,2 por cento para o ano de 2014, um valor a rondar o dobro previsto. A razão? Banco Espírito Santo. A notícia no mínimo embaraçosa, sobretudo em plena campanha eleitoral, acabou por ser desvalorizada pelo ainda primeiro-ministro recordando que a demora na venda do Novo Banco afinal traz vantagens para o Estado português pela razão dos juros que o país arrecada com o empréstimo.Mas à semelhança de tudo o resto, a verdade não é bem aquela proferida pelo ainda primeiro-ministro. Em rigor, Passos Coelho ter-se-á esquecido de referir um pormenor: o fundo de resolução paga juros ao tesouro, o que não representa qualquer ganho para o Estado. Paralelamente o dinheiro em causa corresponde a uma parcela do empréstimo da troika e o que representa pagamento de juros por parte do Estado português, o que significa que os contribuintes ficarão mais de uma década a pagar esse empréstimo. Assim se percebe que o assunto não merece ser desvalorizado pelos membros da coligação, antes pelo contrário seria interessante recordar a forma célere e limpa como se injecta dinheiro em bancos falidos em oposição à ideia de que não há dinheiro para Estado Social e salários, procedendo-se a cortes cegos e profundamente injustos. E se esta não é razão suficiente para colocar a cruzinha noutro sítio que não o da coligação PàF então não sei o que será.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Igualdade e democracia

A igualdade, designadamente a igualdade de oportunidades, é característica central da democracia e um dos caminhos para essa igualdade é a ascensão social. Infelizmente, os últimos quatro anos e meio foram marcados por retrocessos também neste particular. A aposta no ensino privado, enquanto o ensino público é alvo de cortes sem precedentes, é paradigmático do desprezo que este Governo demonstrou ter pela necessidade de se garantir que todos têm as mesmas oportunidades, independentemente do contexto sócio-económico.
Existe uma multiplicidade de razões para não desejar uma reeleição de Passos Coelho de Paulo Portas, a igualdade de oportunidades é apenas mais uma que se insere na degradação da própria democracia.
Numa campanha em que as ideias e as verdadeiras intenções são relegadas para segundo plano, importa ter presente o trabalho que tem sido feito por aqueles que apenas têm inépcia e uma lata incomensurável para mostrar.

Por outro lado, ao invés de se discutir, até à exaustão, o programa do PS, seria importante relembrar este aspecto em particular e colocar a seguinte questão: queremos viver numa sociedade profundamente desigual? E se sim, será possível acreditar que essa mesma sociedade comporta em si mesma qualquer perspectiva de desenvolvimento e futuro?

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Sair das trevas

Há muito a dizer do trabalho da coligação que sustentou o governo: empobrecimento, aumento das desigualdades, enfraquecimento do Estado Social, excitação desmesurada e doentia com a austeridade, mas o regresso do obscurantismo em todo o seu esplendor merece também discussão. De um modo geral, estes últimos quatro anos e meio foram caracterizados por um inaudito retrocesso na cultura, educação, ensino superior, ciência e tecnologia, comprometendo desta forma quaisquer tentativas no sentido do desenvolvimento do país.
Se das eleições que se avizinham sair um governo de esquerda voltaremos seguramente a sair desse obscurantismo que é sobretudo ideológico. Os programas da esquerda e qualquer perspectiva empírico nos revelam que as artes e humanidades, a cultura, a ciência, tecnologia e inovação são sectores que merecem uma incomensurável importância comparativamente com a direita atávica que nos tem governado.
Deslumbrada com indicadores económicos, assentes tantas vezes em números martelados, a direita de Passos Coelho e Paulo Portas levaram-nos para um obscurantismo asfixiante e comprometedor. Essa mesma direita - a tal que se excita com indicadores económicos trabalhados - esqueceu ou nem sequer consegue percepcionar que esses indicadores económicos só serão verdadeiramente consolidados em contextos onde floresce a cultura, a criatividade, a ciência, a investigação e tudo aquilo que eles quiseram liquidar.

É também isto que está em causa no próximo da 4 - a saída do obscurantismo que é essencial para qualquer ideia de desenvolvimento que nos permitirá voltar a sonhar com um futuro e sair desta espécie de trevas.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Eleições na Grécia II

É difícil abordar o tema sem reconhecer a existência de um sentimento de desilusão perante tudo o que aconteceu na Grécia. O partido de esquerda radical Syrisa prometia romper com a austeridade e, depois de um inexorável esmagamento por parte das instituições europeias com a Alemanha à cabeça, o Syrisa acabou ele mesmo esmagado e a braços com mais doses cavalares de austeridade.
Tenho a teoria que Tsipras, reeleito primeiro-ministro grego pelo Syrisa, perante a iminência de ser empurrado para fora do Euro, aceitou o pior plano possível para comprar tempo, mantendo-se no euro. Entretanto, talvez algo mude na configuração política europeia, designadamente com as eleições que se avizinham em Espanha e na Irlanda.
Seja como for, o mesmo Tsipras demitiu-se e recandidatou-se para ganhar e reforçar a sua legitimidade  Alguns questionam-se sobre como é que é possível alguém que defraudou as expectativas de tantos gregos poder ser reeleito. Desde logo porque a alternativa - Nova Democracia - era pior; por outro lado, a corrupção e a existência de partidos que se transformaram em castas levou muitos gregos a escolher quem não está envolvido quer na corrupção, quer na existência dessas mesmas castas. Nova Democracia e Pasok estão, o Syrisa não. Simples.

De resto, Tsipras sai democraticamente reforçado. Não creio que a história da Grécia e do terceiro resgate esteja toda ela contada. E será prematuro contar essa história com um desfecho. Mas o facto é que quem não está preparado para a saída do euro, será obrigado a aceitar tudo possível e imaginável. Agora terá sido a Grécia, amanhã poderá ser qualquer outro Estado, sobretudo aqueles que ousem escolher democraticamente quem não se revê nas políticas de austeridade que fazem escola na Europa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sondagens e voto útil

É preciso, antes de tudo, fazer a seguinte observação: tenho as maiores das dúvidas quanto a uma hipotética consonância entre os resultados das sondagens e a realidade.
Dito isto, torna-se difícil não associar as sondagens que, de um modo geral, apresentam empates técnicos entre a coligação PàF e o PS e a pressão do voto útil.
Na verdade, essas mesmas sondagens agudizam a força do voto útil, a título de exemplo atente-se ao seguinte: um eleitor inclinado para votar num dos partidos que se situa mais à esquerda do PS que, na iminência de uma possível vitória da coligação de direita, vê-se pressionado a mudar o seu sentido de voto precisamente para o PS para que a coligação não seja reeleita. Será este um cenário tão inverosímil quanto isso?
Acresce à pressão das sondagens todo o trabalho realizado pela generalidade da comunicação social, dedicada a tempo inteiro à tarefa proporcionar aos partidos do famigerado arco da governação, com especial destaque para a coligação, todo o tempo do mundo.
O resultado desta equação, à qual se pode ainda acrescentar um vasto conjunto de cidadãos pouco ou nada interessados e pouco ou nada informados, é conhecido: largas décadas de uma alternância de poder que contribuiu de forma indelével para a situação que tão bem conhecemos e vivemos hoje. Existe uma certeza: no dia 5 de Outubro nada de substancial mudará no país.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A vida não lhes tem corrido bem

A vida não tem corrido bem ao PàF, ou coligação PSD/CDS: os debates não foram felizes, nem para Portas nem para Passos - o vazio de ideias tem sido confrangedor - e as saídas à rua muito menos. Entre a retórica assente no Syrisa e na pergunta repetida até à náusea sobre quem chamou a troika, pouco resta à coligação. Sobre o Syrisa, Catarina Martins já prestou os esclarecimentos necessários; quanto à troika Teixeira dos Santos foi taxativo: "a aprovação do PEC IV teria evitado o pedido de resgate..chegámos a um compromisso político com Merkel e teríamos o apoio da Alemanha no quadro Europeu para estancarmos a crise em Portugal". Quem foi com demasiada pressa ao pote é responsável pelo aumento incomensurável da dívida e pelo agravamento das insustentáveis doses de austeridade.
Na rua, o caso ainda piora de figura. Confrontados com cidadãos, Passos Coelho procura responder com a primeira coisa que lhe vem à cabeça, enquanto Portas foge como pode.
Nos comícios, nada é substancialmente diferente: frases infelizes a jorros, como o caso daquela proferida por Portas que, julgando fazer um elogio às mulheres, fez recuar o país em mais de 50 anos ou Passos Coelho quando diz e repete que "as mulheres é que têm filhos", frase muito bem aproveitada por um programa humorístico que tem a sorte de ter pano para mangas no que diz respeito à coligação, embora o PS lhes vá proporcionando também algum material.
Em suma, a vida não lhes corre bem e não podia ser de outra forma. Entre um discurso vazio, repetição até à náusea das mesmas mentiras ou doses cavalares de inépcia, pouco resta à coligação do que esperar por um milagre no dia 4. E nem a pretensa vitória de Passos Coelho no debate na rádio de ontem poderá alterar este estado de coisas. Com efeito, o ridículo e o subsequente descrédito já tomaram conta da coligação.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A política é uma decepção

A frase ganha novo peso se acrescentarmos: em Portugal. Todavia e de um modo geral, a política é amiúde uma desilusão, sobretudo para quem pugna pelos princípios que norteiam a esquerda social-democrata. Com efeito, os verdadeiros sociais-democratas há muito que se sentem órfãos, em Portugal e na Europa. Os ditos partidos sociais-democratas e socialistas renderam-se aos ditames do neoliberalismo, repudiando a sua história e esquecendo invariavelmente o próprio fundamento da política: o bem comum. É uma desilusão porque o que resta da esquerda não tem contado com o apoio dos cidadãos, pelo menos de forma significativa. A Grécia foi a excepção, Espanha poderá ser outra excepção e há sinais animadores no Reino Unido com a escolha de Jeremy Corbyn por parte do Partido Trabalhista.
Por outro lado, os discursos vazios derrubaram a arte da retórica e da dialéctica. Hoje a argumentação de pouco vale, resta uma boa imagem e a proliferação de frases soltas e inconsequentes, isto enquanto a direita se entretém com o mito da inevitabilidade.
A direita por sua vez também relegou muitos dos seus princípios, designadamente a direita ligada aos princípios sociais e cristãos, também ela inexoravelmente rendida ao fascínio pelos negócios. Direita que contou com a ajuda da dita esquerda esquecida do seu passado e dos seus princípios. Essa mesma esquerda terá sido essencial na criação da moeda única e continua a sê-lo na forma como se esmaga países em função de interesses egoístas e da vontade da finança; uma esquerda que ajudou a esvaziar o próprio conceito de democracia - o poder do povo que se transformou no poder das multinacionais e da finança.
A esperança -  porque ainda há esperança, apesar das desilusões - reside no que resta da esquerda: partidos políticos que, como se referiu, não têm contado com o apoio daqueles que passam boa parte de vida a queixar-se das miseráveis condições de vida a que estão sujeitos.

Apesar de tudo, nem o exemplo que se pretendeu fazer da Grécia e do Syrisa liquidará essa esperança, até porque se pode esmagar um país financeiramente, mas não se consegue esmagar a esperança.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Troika, já não gosto de ti

Querida Troika, vejo-me hoje forçado a abrir o coração: apesar dos quatro anos lindíssimos que passámos juntos tenho-te a dizer que já não gosto de ti como gostei no passado. Tudo fiz para ficarmos finalmente juntos e confesso que tantas vezes pensei em superar-te tal era o meu amor por ti - quis ser mais do que tu foste e quis que tu reconhecesses os meus esforços no sentido de ir mais além do que tu alguma vez foste. Nem sempre fizeste esse reconhecimento, facto que amiúde me despedaçou o coração. Mas olhando em retrospectiva, valeu sempre a pena. Tu sabes... eu quis ir mais longe, se calhar numa tentativa frustrada... de puro exibicionismo.
Troika, meu amor, amei-te tanto, mas já não te amo mais, é melhor darmos um tempo... por enquanto não te posso amar como te amei no passado, espero que tu compreendas. A vida é mesmo assim, tantas vezes injusta e neste momento preciso de consolidar o meu compromisso com o meu país. Na realidade, o meu país dificilmente compreenderia a nossa relação tão profunda, talvez seja ciumento, olha nem sei! O facto é que o meu país desconfia... e nunca aceitará este nosso amor e é por isso que me vejo obrigado a repudiar a nossa relação, a fingir que nunca sequer gostei de ti - não digas a ninguém, mas é isso mesmo: tenho de fingir que não gosto de ti e se calhar tenho de me convencer disso mesmo, por essa razão comecei esta carta dizendo estas palavras dolorosas - Troika, já não gosto de ti. Pelo menos durante uns tempos vou fazer de conta que afinal não gosto de ti e mais: que nunca gostei de ti.
Troika, meu amor, imploro-te que me desculpes a sinceridade da carta. Amar-te-ei até ao resto dos meus dias. Esse é o nosso segredo.
P..S . Vamos fingir, os dois, que não nos amamos, talvez seja mais fácil assim.
P.S.. Desculpa não conseguir escrever algo mais poético, mas tenho as minhas limitações que são muitas como bem sabes. Mas vamos fingir que não :)
P.S. - Reli a carta que te envio agora e pareceu-me confusa, uma vez mais desculpa, fazes-me sentir como um adolescente cheio de dúvidas.
Troika, amo-te,

Assinado: O ainda Primeiro-ministro de Portugal

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Livre/Tempo de Avançar fora dos debates

O Livre/Tempo de Avançar fez um trabalho meritório e pouco habitual no contexto político português - um trabalho que culminou com a apresentação do seu programa eleitoral consistente e fundamentado.
Paralelamente, este partido contou com a participação incansável de cidadãos apenas comprometidos com uma ideia de um outro país, uma antítese daquilo que se viu nos últimos quatro anos.
Infelizmente, o Livre/Tempo de Avançar não teve nem terá presença nos debates televisivos, nem tão-pouco poderá contar com a visibilidade que, em larga medida, as televisões podem proporcionar, o que compromete indiscutivelmente os resultados eleitorais.
O Livre/TdA não está sozinho nessa ausência de visibilidade, outros partidos não podem contar com o precioso tempo de antena.
O pluralismo inerente ao conceito democrático morre na prática. Qualquer novo partido, por muito que conte com a participação incansável de vários cidadãos, e por muito que apresente propostas inovadoras e credíveis, esbarra na ausência de tempo de antena guardado no sentido de garantir a manutenção do status quo, com pequenos intervalos em que se finge a existência do dito pluralismo. Isto aliado ao peso do voto útil condiciona o enriquecimento da própria democracia. Paradoxalmente, nos anos subsequentes será profusa a litania em torno da incapacidade de o país mudar, insistindo nas velhas receitas. Mas nós apreciamos paradoxos, não é verdade?


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Catarina Martins

Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, tem sido, de longe, quem melhor tem discutido as questões mais pertinentes ao longos dos debates. Mostrando ser a líder mais bem preparada para discutir com a profundidade que, diga-se em abono da verdade, possível nos actuais formatos televisivos. Primeiro com Paulo Portas e depois com Pedro Passos Coelho. No primeiro, Portas não teve argumentação para fazer face à sua adversária; com Passos Coelho Catarina Martins confrontou o ainda primeiro-ministro com as mentiras em torno do BES, a insustentabilidade da dívida ou a famigerada questão do “plafonamento” na Segurança Social. A propósito de Segurança Social, continua a ser particularmente difícil não rir quando Passos Coelho profere essas palavras: “Segurança Social”. Assim como terá sido difícil controlar esses mesmos risos quando Passos Coelho falou no BPN e Catarina Martins respondeu com Dias Loureiro e os elogios de Passos Coelho a um dos principais responsáveis pelo BPN – o que poderá ser interpretado como uma verdadeira chapada na cara de alguém que já perdeu a vergonha.
Passos Coelho insistiu nas já habituais falácias: falácia n.º 1 – em 2011 não havia dinheiro para pagar salários e pensões; falácia n.º 2 – a recuperação da economia, que é na verdade anódina e longe de chegar às pessoas.
Catarina Martins, por sua vez, salientou, uma vez mais, que o PSD/CDS escamoteiam as contas do seu programa com o objectivo de esconder o jogo. De resto, depois de Passos Coelho vencer umas eleições com base em mentiras, a estratégia passa agora por esconder o jogo. Com efeito, ninguém explica como é que o país vai continuar a pagar a dívida, se já quase tudo foi privatizado e se não existirão cortes em salários, pensões e Estado Social.
A verdade é outra: depois de eleições, sobretudo com uma vitória do PaF, teremos mais austeridade, privatização do resta (CGD e água), a continuação da transformação social do país, continuação também do enfraquecimento da democracia e consolidação do clima de obscurantismo que assolou o país nos últimos quatro anos.
Catarina Martins havia sido considerada por muitos como sendo uma fraca líder e agora parece surpreender muitos que acreditam numa súbita transformação, quando Catarina Martins esbarrou no escrutínio condicionante da comunicação social. Em rigor, a comunicação social, em particular a televisão, selectivamente mostrava uns escassos minutos da porta-voz do Bloco de Esquerda, cuidadosamente escolhidos e editados, com o propósito de alimentar a ideia de que Catarina Martins, à semelhança de outros líderes também de esquerda, não conseguia ir além da “cassete”.

Catarina Martins não se transformou subitamente, a diferença é que agora a comunicação social, muito particularmente a televisão, não consegue esconder esta liderança. E curiosamente passa-se exactamente o contrário com Passos Coelho: as televisões não conseguem dissimular a mediocridade de Pedro Passos Coelho.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Abstenção

Tradicionalmente somos pouco propensos a pensar a política, para além das habituais discussões que redundam na politiquice próxima do formato telenovela. As ideias encontram-se fora dessas discussões – a democracia (que se enriquece com o pluralismo) vive – sobrevive – sem a cidadania. Não pensamos, não discutimos, não participamos, não exigimos, não agimos.
Depois de anos de empobrecimento, do agravamento das desigualdades, do enfraquecimento do Estado Social, parte integrante de um pacto social que resultou da revolução de Abril, e do enfraquecimento da democracia, parece que nos encontramos num beco sem saída, agarrados à ideia de viver um dia de cada vez sem contemplar qualquer ideia de futuro.
Classificamos a classe política, de um modo geral, recorrendo aos adjectivos mais depreciativos que o nosso léxico comporta. Colocamos todos no mesmo saco, recusando ver que nem todos pertencem a esse mesmo saco. É de facto mais fácil simplificar dizendo que são todos iguais, eles são os responsáveis, eu nada tenho a ver com o assunto.
No fim votamos naqueles em recai boa parte das nossas críticas ou escolhemos a abstenção – a não escolha – como forma de nos livrarmos do peso da responsabilidade.
Pelo caminho, o desinteresse medra. A política – fora do contexto de politiquice – é o enfado. A comunicação social, afundada na mais absoluta mediocridade e comprometida com os poderes do costume, vai dando uma preciosa ajuda para manter tudo como está, com ligeiras variações. A bipolaridade (PS/PSD com o apêndice CDS) permite conservar resquícios de uma ilusão de mudança.
As próximas eleições serão seguramente marcadas pela a abstenção. As razões para a não escolha serão variadas, mas a principal degenerará na ideia de que são todos iguais e por conseguinte não vale a pena exercer o direito de voto.

Essa ideia de que são todos iguais e a subsequente elevada taxa de abstenção são benéficas aos famigerados partidos do arco da governação, aqueles a quem, paradoxalmente, colocamos os piores epítetos possíveis. É mais fácil e livra-nos do insuportável peso da responsabilidade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O debate numa noite cómica

O debate – o único que colocou frente a frente Pedro Passos Coelho e António Costa – correu manifestamente mal a Passos Coelho, mesmo que este tenha recorrido ao passado para voltar a assustar os cidadãos. Importa referir que se trata da mesma pessoa que fez toda uma campanha eleitoral precisamente a mentir, alguém que, por conseguinte, tem todo um passado de mentira. E também não será exagero de retórica referir que Passos Coelho é a mesma pessoa que insiste no passado do outros mas que, simultaneamente, aniquilou a ideia de futuro do país, percorrendo um caminho que foi uma verdadeira descida aos infernos.
Ainda relativamente ao passado, o tiro acabou por sair pela culatra. Costa respondeu bem, atacando, lembrando as próprias responsabilidades do PSD e CDS na questão da troika e, sobretudo, relembrando o ensejo de Passos Coelho aquando precisamente da vinda da troika e da possibilidade de ir mais longe do que estava previsto.
Passos Coelho, tal como Portas, sentiu a angústia de ter um debate a fugir-lhe das mão e , tal como o seu parceiro de coligação, ainda procurou chamar à colação o Syrisa, embora em menor dose. O desespero foi francamente confrangedor.
Mas o debate também teve os seus momentos cómicos como aquele em que se refere que o ainda primeiro-ministro promete colocar a economia portuguesa entre as dez mais competitivas do mundo ou sempre que ouvimos Passos Coelho discutir Segurança Social: “A Segurança Social não é para ser alvo de brincadeiras” diz António Costa àquela mesma pessoa que se furtou à responsabilidade de pagar as suas contribuições à aludida Segurança Social. Ou ainda o momento em que Pedro Passos Coelho afirma que “os portugueses têm todas as razões para desconfiar” do PS – isto dito, novamente, por quem fez toda uma campanha eleitoral a mentir, não perdendo esses maus hábitos ao longo destes quatro anos.
António Costa surpreendeu pela positiva: mostrou-se confiante, preparado e tomou desde logo a iniciativa do debate. Paralelamente, conseguiu, de forma simples, proferir algumas frases que deixaram o ainda primeiro-ministro visivelmente incomodado – a analogia que envolveu os lesados do BES e os trabalhadores (no contexto de propostas para a Segurança Social) ambos entregues à especulação, se o PaF vencer as eleições, é um bom exemplo. Recorde-se que a poucos metros do Museu da Eletricidade – palco do debate – estavam precisamente alguns lesados do BES a protestar.
Cereja no topo do bolo, embora fora do já referido Museu da Eletricidade, é ver Miguel Relvas na TVI24 a defender a posição de Passos Coelho.

No cômputo geral, foi uma noite verdadeiramente cómica. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Ainda a Grécia

Na falta de argumentação que defenda o indefensável, Paulo Portas, em debate com a porta-voz do Bloco de Esquerda Catarina Martins, agarrou-se ao que pôde: a Grécia.
Portas preferiu discutir a Grécia e a colagem do BE ao Syrisa do que discutir política interna. Percebe-se porquê. Depois de quatro anos de fustigação do seu próprio eleitorado, o “irrevogável” pensou que deixaria a sua adversária fragilizada se referisse o exemplo Grego. Enganou-se redondamente e foi surpreendido com o à-vontade de Catarina Martins sempre que esse assunto foi chamado à colação. Aliás, Portas mostrou-se surpreendido com uma líder do Bloco de Esquerda que nem sequer titubeou quando o assunto foi a melindrosa Grécia. De resto, Catarina Martins assumiu que o acordo aceite por Tsipras é “mau” e que o BE o rejeitaria. Ou seja, a posição foi clarificada – se é que havia necessidade disso – e não restam margem para dúvidas: ficar na zona euro, mas não a qualquer custo.
Portas viu assim defraudadas as suas expectativas. O líder do CDS e membro da coligação esperaria seguramente derrubar a adversária com o falhanço grego, escamoteando assim os quatro anos de empobrecimento.

Para registo fica o manifesto desconforto de Portas sempre que o tema era pensões. Talvez porque esse mesmo tema lhe recorde uma resposta potencialmente negativa do seu eleitorado já no próximo dia 4 de Outubro.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Quatro anos de mediocridade

Se os protagonistas políticos são medíocres, o que esperar dos meses que antecedem uma eleição? Nada. O vazio. A mais inexorável inanidade. Se dúvidas ainda persistem, atente-se às intervenções sobretudo dos membros da coligação. Mediocridade não chega para descrever essas intervenções. Aparentemente a repetição incessante das mesmas vacuidades pode chegar para colher votos. Entre alguns indicadores forçadamente positivos e as provocações e acusações dirigidas ao Partido Socialista, sendo Sócrates amiúde chamado à colação, mais nada se vislumbra pelos lados da coligação.
Paradoxalmente, o passado que Passos Coelho, Paulo Portas e companhia tanto gostam de evocar, contempla também as mentiras que sempre fizeram parte do cardápio do que agora se designa por PaF - mentiras em relação a promessas eleitorais, mentiras sobre a conduta de membros da coligação, mentiras que esbarram invariavelmente numa inacreditável falta de competência transversal aos dois partidos.
No que diz respeito ao Partido Socialista e, contrariamente a algumas expectativas, não se verificam melhorias significativas, a mediocridade também faz questão de aparecer, embora em doses consideravelmente menores.
Não será por acaso que a palavra "mediocridade" é recorrente neste blogue. Com efeito, é difícil encontrar melhor termo para descrever os últimos quatro anos e, ainda, o tempo presente. 

Espera-se que as eleições que se avizinham contribuíam para mitigar a já referida mediocridade e espera-se também que no pós-eleições não sejamos confrontados com mediocridade em doses cavalares: um bloco central - numa espécie de reedição do que se passou em 1983, mas com contornos de um verdadeiro pesadelo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Sem palavras

A Europa transformou-se numa imensa vergonha, vendida aos interesses financeiros, esqueceu os princípios que a caracterizam, designadamente a solidariedade. A crise financeira desencadeada pela finança e posteriormente transformada em crise das dívidas soberanas mostrou uma Europa dominada por um país e pelos interesses financeiros. A vergonha já estava instalada.
Agora a Europa confronta-se com a crise dos refugiados. Depois de ter um papel importante na instabilidade criada em países como a Síria e Líbia e de ter amiúde desempenhado um papel infeliz noutras regiões do mundo, designadamente, em África, a Europa é confrontada novamente com a sua própria incapacidade. Alguns Estados manifestam a não aceitação desses refugiados, dificultando a sua passagem; outros manifestam confusão, e outros ainda, em menor número, parecem dispostos a aceitar aqueles que procuram salvar as suas vidas e a dos seus, amiúde por motivos que vão para além da dita solidariedade.
Entretanto, muitos refugiados nem chegam à Europa. O drama torna-se atroz quando crianças dão à costa sem vida.
Aqueles que julgam não ter qualquer responsabilidade nesta atrocidade que mais uma vez assola a Europa, desenganem-se. Somos responsáveis, os nossos governos são responsáveis, seja na famigerada cimeira dos Açores, seja onde for.

A desumanização invadiu novamente a Europa, os partidos que defendem a xenofobia têm os seus apoiantes que medram a cada dia que passa e a Europa, ridícula, chafurda na mais gritante ignomínia. Daqui por 15 dias lá se fará uma cimeira para discutir o que fazer com os refugiados. Se se tratasse da dívida de um país, a cimeira seria extraordinária, na hora e com a maior das urgências.