quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A natureza do PS

Ainda não tinha acontecido, verdadeiramente, mas a natureza do PS lá acabou por vir ao de cima, precisamente no dia da votação do Orçamento de Estado para 2018. Os secretários de Estado do Governo negociaram com o Bloco de Esquerda uma taxa que recairia sobre as renováveis. E estava tudo muito bem até os deputados do Bloco serem apanhados de surpresa em plena votação para o OE.
As justificações para esta quebra de confiança já começaram a surgir: uma indica que a medida afastaria investimento internacional - é que aparentemente os que investem nas renováveis também compram dívida portuguesa; outra justificação é de ordem jurídica e defende a tese de que o país acabaria nos tribunais internacionais com poucas hipóteses de vencer. Ou seja, Portugal não pode aplicar medidas justas e que teriam impacto na vida dos seus cidadãos, sob pena de afugentar o dinheiro dos investidores ou de acabar a perder nos tribunais - formas de chantagem profusamente usadas.
Mesmo considerando estes alegados obstáculos, o PS procedeu de forma errada, apalavrando um acordo que depois terá sido retirado à última da hora. Este mau precedente não comprometerá o acordo existente entre Bloco e PS, mas revela que a natureza do PS não pode ser dissociada do mundo dos negócios, talvez menos agora com este Governo, mas o mau princípio está lá e por vezes damos conta de que faz mesmo parte do Partido Socialista.

Espera-se, para bem desta solução política, que o Partido Socialista não repita a façanha e que procure formas de admoestar e controlar a besta do capitalismo selvagem e dos seus lobbys que há muito procuram tomar conta da sua alma.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O PS não sabe comunicar

Para celebrar dois anos de Governo, o PS escolheu as piores opções, todas elas com cheiro a demagogia e a artificialidade, com especial destaque para a sessão de perguntas e respostas, previamente congeminadas e sem um laivo de originalidade.
A forma atabalhoada como o PS escolheu celebrar os dois anos de Governo revela a incapacidade deste partido no que diz respeito à comunicação - facto particularmente penalizador para um partido político.
Este é, aliás, talvez o maior problema do Partido Socialista - não tem uma estratégia de comunicação, nem protagonistas para executarem essa estratégia. A excepção parece ser Pedro Nuno Santos. 
De qualquer modo a comunicação é, amiúde, enviesada, manipulada e mais não é do que pura propaganda, descaradamente. De resto, o facto dos inquiridores terem sido pagos nem é o que ficará na memória das pessoas, mas sim o facto de que, globalmente, o PS é um desastre em matéria de comunicação.
Em contrapartida, o Bloco de Esquerda que faz parte desta solução de Governo que completou agora dois anos, pode dar lições de comunicação ao PS, com protagonistas que sabem comunicar directamente com os cidadãos, sem rodeios e com conteúdo. Aliás e por falar em lições, o Bloco deu outra lição, desta feita no Parlamento e por ocasião da aprovação do Orçamento de Estado,e a propósito da honra associada à palavra dada, coisa que terá sido esquecida pelo Partido Socialista que meteu os pés pelas mãos na votação da sobretaxa nas renováveis. 
O Bloco reforça a ideia de que o PS necessita imperiosamente dos contributos e dos acordos com os partidos mais à esquerda, não apenas para o sucesso da chamada geringonça, mas para menorizar as suas próprias falhas. No entanto, há uma complementaridade que o PS não pode esquecer ou menosprezar, sob pena de comprometer o seu próprio futuro.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Dois anos de "geringonça". E o futuro?

Depois do Diabo ter recusado um pacto com Pedro Passos Coelho - aparentemente até o Diabo terá os seus critérios - a chamada "geringonça" fez os seus dois anos. 
Dois anos passaram e mais do que olhar para o passado, importa olhar para o futuro desta solução política, desde logo porque existem novas variáveis na equação e outras que estão prestes a mudar. A mudança de líder no PSD é uma variável a ter em conta, seja o populismo de direita de Santana Lopes a vencer ou as ideias anacrónicas de reedição de bloco central de interesses de Rui Rio a conseguir a liderança. Seja como for a mudança estará a caminho. De igual modo, essa mudança poderá provocar alterações de comportamento no próprio Presidente da República que terá particular simpatia pela ideia de um bloco central.
Por conseguinte, o futuro terá forçosamente de passar pela manutenção e consolidação da dita geringonça, por mais dois anos. De resto, quer o PS, mas sobretudo os partidos à esquerda do PS terão bem presente as mudanças que acima se refere e os perigos que as mesmas acarretam para o projecto de mitigação da austeridade, designadamente com a reposição de rendimentos. E se por um lado, Passos Coelho funcionou como factor de união das esquerdas, o mesmo deve com as mudanças que se avizinham, desde logo porque a que ocorrerá no seio do PSD poderá significar uma mudança no próprio Presidente da República.
Assim, o futuro passa pela continuação, mantendo e aprofundando a tentativa de não se comprometer as respectivas identidades dos partidos que compõem esta solução política. Tarefa difícil, reconhece-se, mas que na verdade tem sido alcançada com sucesso nos últimos dois anos e importa ao PS cumprir os compromissos assumidos, coisa que não fez neste orçamento de Estado.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Desesperadamente à procura de um líder

Depois de Passos Coelho anunciar que abandonaria a liderança do PSD, o partido procura desesperadamente um pai, perdão, um líder. Duas figuras do partido surgiram como candidatos: Pedro Santana Lopes, candidato da demagogia, com um passado antigo e marcado pela incompetência; e Rui Rio, candidato apologista do velho bloco central de interesses, também com um passado, não tão antigo, mas igualmente pouco recomendável.
Entretanto, e enquanto Passos Coelho ainda anda por aí, os membros do partido, sobretudo aqueles que sentem o peso da orfandade que se abateu sobre o seu partido, procuram disfarçar o já habitual vazio, agora amiúde acompanhado por doses assinaláveis de ansiedade.
Com efeito, os membros do partido, quase todos órfãos de Coelho, atiram-se ao Governo desprovidos de qualquer estratégia, que, por força das circunstâncias, seria sempre a prazo. Chumbam o Orçamento manifestando dificuldades em disfarçar o seu próprio vazio de ideias e propostas que caem amiúde no saco da austeridade; acusam o Governo de insensibilidade social, esquecendo o seu passado ignominioso; ensaiam críticas sobre a forma como Governo geriu as tragédias dos incêndios e da seca, mas deixam o CDS ultrapassá-los na pertinência dessas críticas; distribuem uns apaniguados de Passos Coelho pelos principais meios de comunicação social, mas estes mostram-se incapazes esconder quer a sua inépcia, quer a sua ansiedade.

Em rigor, o estado de espírito daqueles que fazem o PSD andará por baixo enquanto não se escolher um pai, perdão, um líder que, diga-se de passagem, quem quer que seja honrará, seguramente, a longa tradição de mediocridade a que este partido nos tem habituado.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Governar à pressa

A transferência da sede do Infarmed para o Porto, precisamente na ressaca daquela cidade ter perdido a possibilidade de albergar a Agência Europeia do Medicamento dá toda a impressão de ter sido fruto da pressa e do oportunismo.
É evidente que o argumento que postula a necessidade de se combater o centralismo é particularmente difícil de refutar. Haverá mesmo um consenso entre todas as forças políticas quanto precisamente à necessidade de fazer de Portugal um país mais igual.
Todavia, a simplicidade e simultaneamente força do argumento não impede que se avalie a forma como a medida está a ser tomada: à pressa, com um claro sentido de oportunismo e à revelia de quem trabalha no Infarmed.
Governar à pressa e ao sabor dos acontecimentos não pode ser considerado positivo, mesmo que a medida em questão aparentemente possa sê-lo.
Provavelmente, haverá, no Governo, quem também se apresse a alegar que a ideia já estava, há muito, a ser amadurecida e que terá sido convenientemente planeada. O que dificilmente será verdade.
Outros podem dizer que se trata de uma boa medida e que isso, por si só, é tudo quanto importa. O que também não é rigoroso. De resto, é imperativo estudar os meios que culminarão num determinado resultado e não fazer tudo ao sabor dos acontecimentos, optando pelo argumentação mais redutora que parece querer degenerar numa visão maniqueísta de boas e más medidas, sem rigorosamente nada pelo meio.
Será difícil aos governos resistirem a derivas mais ou menos demagógicas, até porque a demagogia, goste-se ou não, faz parte da política. Mas quando o que está em causa é um organismo essencial em matéria de saúde e quando o que também está em causa são as vidas dos trabalhadores, importa ponderar e desenhar um plano que possa ser exequível e vantajoso para o maior número de pessoas. Agora não é sério tentar escamotear um falhanço com o sacrifício quer do próprio organismo, quer dos seus trabalhadores.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PS e austeridade

É uma ilusão pensar-se que o Partido Socialista não foi, nem é apologista da austeridade, e é outra ilusão pensar-se que este Governo socialista estará disposto a repor tudo o que foi perdido ao longo destes anos. Vem isto a propósito da pressão de sindicatos da Administração Pública para que seja reposto o que foi retirado, designadamente em matéria de congelamento nas progressões da carreira. O sucesso dos sindicatos dos professores nesse particular terá dado ânimo a que outros reclamassem as mesmas medidas.
Ora, o primeiro-ministro diz que não e que não é "possível refazer a História", o Presidente afirma que não se pode "desbaratar o que deu tanto trabalho", o Bloco de Esquerda não se mostra disposto a ir excessivamente em sentido contrário ao PS e PCP deixa os sindicatos, designadamente os que lhes são afectos, fazerem o trabalho de oposição.
A reposição do que se perdeu, na Administração Pública e fora dela, é uma exigência legítima, mas em larga medida irrealista. Como já se afirmou o PS é também um partido de austeridade e tem vindo a aplicá-la, em doses mais suaves e procurando não apanhar as franjas mais frágeis da sociedade e, em sentido contrário, até se tem verificado uma reposição de rendimentos. Ir mais longe é irrealista, pelo menos na actual conjuntura de subjugação à moeda única. E é neste particular que tocamos na ferida: no contexto do Euro a austeridade - a passada e a presente - está para ficar. Não é sério pensar-se o contrário. Por conseguinte, trata-se, no fundo, de uma escolha que também ela não estará em cima da mesa: a permanência neste enquadramento da moeda única.
Como se deduz que não existe qualquer espécie de vontade de sair do Euro, sobretudo agora que o pior parece já ter passado no que diz respeito à saúde das economias europeias e que existem demasiados factores de instabilidade (Brexit, Trump, Rússia), a solução, pelo menos para já, passa por redistribuir essa austeridade de forma mais justa. Deste ponto de vista, o actual Executivo tem feito muito mais nesse sentido da justiça do que o anterior Governo. É bom ter isso em mente.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Crise política na Alemanha

Com a cada maior certeza de novas eleições na Alemanha, sobram as incertezas quer para a Alemanha, quer para a própria Europa, impondo-se a questão: até que ponto o falhanço dos principais partidos alemães quer no alcance de um acordo, quer na própria resolução dos problemas mais prementes, não poderá resultar num maior desgaste desses próprios partidos, com benefício da extrema-direita?
A resposta, claro está, só após a realização de novas eleições, mas o risco está lá e o AfD está também presente para aproveitar o que vier e que será bem-vindo. Recorde-se que nas últimas eleições este partido conseguiu um resultado histórico, enquanto a CDU de Merkel teve um resultado abaixo do habitual. E os sociais-democratas do SDP (que se haviam coligado com a CDU) tiveram um dos piores resultados da sua história, seguindo os passos de outros partidos socialistas e sociais-democratas, num processo iniciado pelo PASOK grego cujo destino, ironicamente, não pode ser dissociado da própria Alemanha.
Merkel paga a factura da má gestão que fez da questão dos refugiados e a Europa colhe aquilo que a Alemanha ajudou a semear, sobretudo durante o processo de gestão da crise financeira transformada em crise das dívidas soberanas, num processo também iniciado com a Grécia. A Europa saiu mais fragilizada, menos coesa, longe, muito longe, do projecto europeu, tudo para que a Alemanha pudesse disfarçar o desregramento do seu próprio sistema bancário.
O resultado está à vista: apesar das aparentes melhorias, os países debatem-se com elevadas taxas de desemprego, maior precariedade, menos futuro. Esta é uma factura que se paga. Paga-se com deslocamento de votos do convencional para os extremos; paga-se com o aumento do ódio; paga-se sobretudo com a desunião - a antítese do projecto europeu. As responsabilidades da Alemanha em tudo isto ainda estão por se contabilizar.
Por outro lado, a Europa fica mais fragilizada se a crise política na Alemanha se complicar, sobretudo num contexto em que existem variáveis como o Brexit, Trump e Rússia. É que se Alemanha fez mal ao projecto europeu, este terá poucas hipóteses de sobrevivência sem a Alemanha.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

4 partidos, 4 semanas. Resultado: novas eleições

4 partidos (CSU, conservadores sociais cristãos, CDU, partido conservador liderado por Angela Merkel, os liberais do FDP e Verdes), 4 semanas de negociações. Resultado: zero. Não há acordo e muito provavelmente a realização de novas eleições.
Terá sido o FDP a fragilizar e inviabilizar o acordo conhecido por Jamaika (correspondência das cores dos partidos com a da bandeira daquele país). Contrariamente ao que se poderia esperar, as dificuldades não vieram dos Verdes, partido que tem vindo a virar à direita, rendendo-se aos encantos do neoliberalismo. Foi mesmo o FDP a colocar um ponto final na questão.
Segundo a imprensa, existiram dois temas quentes na agenda de negociações: refugiados e clima, sendo que era neste último tema que os Verdes procuraram reclamar a sua agenda ecológica. Mas terá sido sobretudo a questão dos refugiados a colocar pressão numa ferida que parece cada vez mais aberta e cujas receitas para que se verifiquem melhorias não parece estarem ao alcance dos principais partidos. À espreita está o AfD, partido de extrema-direita, que conseguiu mais de 12 % dos votos e representação parlamentar, pela primeira vez. O falhanço das negociações entre os principais partidos pode efectivamente contribuir para um aumento da erosão dos mesmos, facto que já se verificou nas últimas eleições, com a CDU e o SDP a perderem eleitorado.
Será na realização de novas eleições que reside esse perigo. Não sendo possível a coligação entre os quatro partidos, a possibilidade de Merkel solicitar ao Presidente novas eleições volta a estar em cima da mesa. 

Na verdade a realização de novas eleições parece a hipótese mais plausível. Não parece realista que Merkel governe em minoria, nem tão-pouco existe essa tradição na Alemanha; nem parece provável que o SDP volte atrás na palavra e aceite coligar-se com a CDU. Restam, por conseguinte, novas eleições, nas quais não é de excluir nova penalização dos partidos de governação, com benefício para partidos como o AfD. Afinal de contas, sobra também a ideia de que esses partidos não são capazes de se entender ou de resolver problemas prementes e que promovem a divisão como é o caso dos refugiados. O AfD está à espreita ansioso por uma nova oportunidade.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Angola: sinais promissores?

O afastamento dos filhos do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos das principais empresas do Estado, sobretudo da filha Isabel dos Santos da Sonagol, são, aparentemente, sinais promissores. Sinais de que João Lourenço, apontado como sucessor de Eduardo dos Santos no MPLA e dos destinos do país, quer mudar Angola. Se esses sinais podem significar uma verdadeira mudança já é, naturalmente, e para já, uma incógnita. O que é certo é que até ao momento João Lourenço fez mais de 60 exonerações, apelidado já de "exonerador implacável".
Depois de 38 anos de poder e de uma guerra civil, José Eduardo dos Santos afastou-se da presidência, deixando os filhos em locais estratégicos dos negócios angolanos. Até às últimas semanas imperou a ideia de que João Lourenço mais não era do que a continuidade de Eduardo dos Santos e nem se sonharia com os afastamentos agora verificados. Porém, o novo Presidente angolano parece disposto a encetar verdadeiras mudanças, começando exactamente pela prole de Eduardo dos Santos. De resto, esses afastamentos emitem não só sinais políticos, mas também económicos, com uma tentativa de estabilizar a difícil economia angolana. E a julgar pela reacção de Isabel dos Santos, o seu afastamento não terá sido minimamente esperado, o que afasta teorias que apontam para um jogo combinado entre o actual Presidente e o ex.
Por outro lado, existe a questão militar, designadamente as cúpulas afectas ao ex-Presidente. Esta é uma questão central se a ideia de João Lourenço será mesmo a de mudança, o que fazer com essas cúpulas? A transição será suave? Natural? A ver vamos.
Seja como for, os sinais emitidos pelo Presidente João Lourenço nos últimos dias são claramente positivos, agora se os mesmos se ficarão apenas por algumas mudanças na prole de Eduardo dos Santos ou irão mais longe é outra questão. Ainda assim e a julgar pela rapidez com que João Lourenço encetou estas profundas mudanças, mais poderão estar na calha. E já vai sendo tempo.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A vontade política e os compromissos

A greve dos professores trouxe, uma vez mais, ao de cima as dificuldades que este ou qualquer outro Governo encontraria para corrigir esta e outras tantas injustiças. Todavia e contrariamente ao anterior Executivo, este tem na sua cartilha ideológica a vontade política de corrigir injustiças, pelo menos a vontade está lá, e a prova disso mesmo prende-se com a reposição de rendimentos que são apanágio do Governo de Costa, coadjuvado pelos partidos mais à esquerda. Esta é uma diferença fundamental: os recursos são parcos, os constrangimentos externos incomensuráveis, mas ideologicamente este Governo procura uma justa redistribuição de rendimentos, totalmente o contrário do que fazia o anterior governo. 
Com efeito, o Governo de Passos e Portas deram um forte contributo para o alargamento do fosso entre quem mais tem e quem pouco ou nada tem, fomentando desigualdades e injustiças que fazem parte da cartilha que seguem, nunca se coibindo de promover divisões entre os cidadãos, com especial relevo para funcionários públicos versus trabalhadores do sector privado. E este é todo um mundo de diferença.

O actual Governo tem procurado fazer o contrário e com resultados melhores, mesmo contando com a relutância e cepticismo da Europa. Todavia, é difícil ir mais longe na eliminação das injustiças sem exaltar os ânimos europeus - coisa que nem PS, nem o Presidente da República admitem como possibilidade. Deste modo, as ditas injustiças, muitas delas aprofundadas nos anos em que a troika excitava as hostes laranjas, continuarão a existir e o melhor dos cenários parece ser a possibilidade de não se verificar um aprofundamento dessas mesmas injustiças. Pelo menos para já torna-se intrincado traçar outro cenário.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Um descaramento sem fim

Os partidos da direita, os que há muito perderam o rumo, procuram alcançar ganhos políticos com tudo o que cheire a tragédia. Foi assim com os incêndios e tem sido assim com os casos de legionella. A conversa assenta invariavelmente no mesmo pressuposto: o Governo PS, coadjuvado pelos partidos da "esquerda radical", não conseguem garantir as principais funções do Estado relacionadas com a segurança dos cidadãos. 
Assim, e tendo em conta que não existe outra estratégia que não passe pelo aproveitamento da desgraça, PSD e CDS unem esforços e atiram na mesma direcção. Tudo isto seria muito bonito não fosse o caso destes partidos que agora estão na oposição terem levado um elevado número de cortes nas funções do Estado. Ora, ainda assim tanto um partido como o outro não se coíbem de apontar o dedo a este Governo como se a austeridade até à morte não estivesse ainda a colher vítimas, como continuará a fazê-lo, sobretudo em áreas como a saúde.
Por outro lado, ao PS pode-se apontar o dedo sim, mas com outro fundamento: não estará a repor atempadamente o que foi retirado, sobretudo no que diz respeito à salvaguarda de áreas relacionadas com as funções do Estado. Mas como fazê-lo? Se sobre a cabeça pende a espada de Bruxelas? A margem não será muita e a Europa torcerá sempre o nariz a reposições, como já o faz no que diz respeito a reposições de rendimentos. Ou se continua a cumprir as regras draconianas europeias e haverá falhas no funcionamento do Estado, ou deixa de se cumprir com as consequências que se podem antever: olhe-se para a Grécia e ter-se-á um vislumbre do que nos espera.
Entretanto, fica o tal descaramento incomensurável de partidos que foram responsáveis por cortes sem precedentes no funcionamento do Estado e que agora vêm pedir responsabilidades a terceiros. 


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

As contradições de um partido sem rumo

Já com o sentimento de orfandade a perpassar o partido, o líder da bancada parlamentar do PSD acusa o Governo de estar a falhar onde o Estado não pode falhar. Vem agora isto a propósito do surto de "legionella" no Hospital São Francisco Xavier. Esta acusação não é inédita e foi exaustivamente repetida aquando da questão dos incêndios, sobretudo depois do pai Passos Coelho ter cometido um monumental erro ao ter procurado aproveitar-se de suicídios que nunca existiram no rescaldo de Pedrogão Grande. 
O argumento único repete-se assim e repetir-se-á sempre que for possível, até porque não há mais nenhum. No entanto, tudo se desmorona quando procuramos aprofundar o tema, designadamente os porquês. As respostas acabam invariavelmente por fazer ricochete. No caso dos incêndios e para além da questão dos eucaliptos fortemente promovidos pela ex-ministra da Agricultura, Assunção Cristas, fica também no ar o enorme desinvestimento na floresta, mais um que se inseria no contexto da austeridade em doses cavalares tão defendida e aplicada pelo Governo PSD/CDS. 
Agora no caso do surto da doença, e depois de se indagar um pouco pelos porquês, somos novamente confrontados com o dedo do PSD/CDS, desta feita em matéria legislativa que, segundo alguns especialistas, esvaziou a fiscalização tão necessária. É evidente que nada disto inviabiliza ou enfraquece a necessidade de se apurar cabalmente o que falhou no Hospital. Porém, as acusações proferidas pelos órfãos de Passos Coelho têm tido o condão de fazerem ricochete, chamando deste modo a atenção para a própria actuação do Governo do qual o PSD fazia parte.
Em suma, assistimos às contradições de um partido sem rumo, cuja orfandade chora a perda do pai, murmurando, esporadicamente, uma contradição ou outra.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Trump: um ano

Com a mais baixa taxa de aprovação dos últimos 70 anos, a rondar os 37 %, Donald Trump cumpre o seu primeiro ano de mandato. Um ano que, a julgar pelos aspectos negativos, é sentido como uma década de provação.
Um ano marcado por gaffes, fait-divers, palhaçadas e uma enorme prepotência conjugada por uma igual boçalidade; um ano marcado pela incapacidade em cumprir as mais emblemáticas promessas, designadamente o fim do Obamacare e o famigerado muro a separar os EUA do México; um ano marcado pelas estranhas relações entre a campanha de Trump e a Rússia, com graves suspeita de influência russa nas eleições americanas; um ano marcado pelo agravamento das divisões no seio da sociedade americana, com especial enfoque nas divisões raciais, e com o Presidente a fomentar essas mesmas divisões. Em suma, um ano em que não é possível destacar-se quaisquer aspectos positivos numa presidência que corre o sério risco de vir a ser considerada a pior de todos os tempos. Mas nada disto parece afectar o Presidente, cheio de si próprio, incapaz de sair de um registo de conflitualidade, coadjuvado por quem partilha consigo todo um mundo de mediocridade.

Um ano em que os EUA e o mundo saíram a perder. A democracia americana, desde logo, passou 12 meses terríveis e prepara-se para mais do mesmo ou ainda pior. Muitos caem na esparrela das divisões e das distracções, descurando o essencial: a América está perto do irreconhecível e as perspectivas não são animadoras, bem pelo contrário.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A política transformada em paródia

Páginas de jornais, tempo de antena em abundância cuja finalidade é retratar ou criticar a paródia em que se transformou a presidência americana. Trump em visita oficial ao Japão transforma-se em mais uma oportunidade de descrever as verdadeiras palhaçadas protagonizadas por aquele que é incrivelmente o Presidente americano.
Todavia, essas páginas de jornais e tempo de antena e, claro está, críticas, vídeos, fotos, etc na internet, constituem uma monumental perda de tempo e, mais grave, acabam por dar um contributo decisivo para que se desviem as atenções do essencial - a política. 
Reconheço que se torna irresistível não tecer uma crítica, não escrever umas frases ou publicar uns vídeos ou fotografias das peripécias de um Presidente que pensa poder dizer e fazer o que bem entende, tudo num contexto da mais abominável mediocridade. Ainda assim, a nossa incapacidade colectiva de não resistir a essa compreensível tentação, reduz consideravelmente o espaço para que se discutam as políticas desta Administração. Um bom exemplo foram os acontecimentos dos últimos dias, designadamente um tiroteio numa igreja no Texas e a viagem de Trump ao Japão. E o que é que um acontecimento tem a ver com o outro? Tudo. O assassinato de quase três dezenas de pessoas na igreja poderia representar mais uma oportunidade para se debater e escrutinar as posições desta Administração no que toca à questão das armas -  e terá sido, durante um curto espaço de tempo. No entanto, a viagem de Trump ao Japão e o seu comportamento pueril vieram direccionar as atenções para o que aconteceu no país do sol nascente. E novamente páginas de jornais, tempo de antena e toda a internet se entretêm e nos entretêm com o modo displicente como Trump alimentou peixes, deixando a descoberta, uma vez mais, a paciência do primeiro-ministro japonês.

E desta forma continuamos a dedicar toda a nossa atenção, quase de forma exclusiva, à parodia, descurando o essencial, o que serve o próprio Trump e solidifica a sua base de apoio que recusa qualquer espécie de reconhecimento de que talvez se tenha enganado e, essencialmente, olha para Trump e vê o Presidente como sendo uma vítima da comunicação social.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O paraíso de uns e o inferno de outros

A existência de paraísos fiscais implica como o próprio nome indica o paraíso para uns, mas pressupõe também o pesadelo de outros que têm de compensar a fuga de impostos, assistindo ao excesso de impostos que atinge sobretudo as classes trabalhadoras. Só deste modo poderá ainda existir resquícios das funções do Estado que são depois benefício de todos, mesmo daqueles que tudo fazem para fugir aos impostos.
Recapitulando o que o Consórcio de Jornalistas de Investigação conseguiu apurar nos chamados "Paradise Papers": existem ligações de elementos próximos de Trump pagos por uma empresa russa a operações off-shore; a Rainha de Inglaterra tem de milhões nas ilhas Caimão em operações que envolvem uma empresa sem escrúpulos e sem vergonha que cobra juros altos aos mais pobres; membros próximos do primeiro-ministro canadiano também aparecem nos "Paradise Papers"; outras personalidades do mundo da política e do espectáculo idem idem, aspas aspas.
E qual o impacto de mais este escândalo na comunicação social? Para além de mais uma prova que o paraíso de uns - os mais ricos e poderesos - é o inferno de outros - uma maioria que cada vez de forma mais unilateral tem vindo a sustentar as funções do Estado? Escasso. Depois da desilusão que foram os "Panamá Papers", pelo menos no que diz respeito ao aprofundamento dos temas e consequências para os envolvidos, talvez a própria opinião pública deposite poucas esperanças nesta novidade apelidada "Paradise Papers". Talvez a própria comunicação social faça pouco caso de assuntos que podem envolver protagonistas dos grupos económicos que a dominam ou seus associados. Talvez.

Certezas apenas as do costume: o sentimento de impunidade dos mais ricos e poderosos mais não é uma verdadeira carta branca para que tudo seja possível, ficando a sua defesa resumida à complexidade "e incompreensão da estrutura legal em que se baseia o negócio dos off-shores" (citação atribuída a advogados das off-shores envolvidas). Por outras palavras, vós sois todos demasiado ineptos para compreender a complexidade de um paraíso que é mesmo só para alguns.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Estes criminosos tão ameaçadores

Carles Puigdemont fica, para já, em liberdade condicional, isto também para já, é responsabilidade da justiça belga . Todavia, a julgar pelo aparato mediático e sobretudo pela ânsia espanhola em detê-lo, estamos perante um dos mais perigosos criminosos na Europa. Muito mais perigoso, por exemplo, do que os corruptos que pululam pelo PP espanhol.
Puigdemont não tardará a ser m preso político na precisamente medida em que procurou implementar as medidas que foram sufragadas em eleições democráticas e que resultaram numa vitória dos partidos independentistas. E tanto mais terá sido assim que esses partidos, cujas ideologias vão desde a esquerda mais à esquerda até ao centro direita, entenderam-se em torno da questão da independência. Não seria mais fácil proibir partidos com tendências separatistas do que assistir a esta farsa? Prender por razões políticas, por muito que se alegue o contrário, Puigdemont e outros que estão presos por razões políticas – por terem respeitado a vontade do povo que os elegeu – ou proibir partidos pela sua natureza independentista são actos à margem da democracia.
Paralelamente, perante a existência de presos políticos e de outros que para lá caminham, cresce o sentimento de revolta, e Rajoy sabe tanto disso como saberá que nada se construirá em cima dessa revolta.

Puigdemont, em entrevista concedida a uma televisão belga, deixa no ar uma das questões cuja resposta será mais premente: e se os partidos pró-independência vencerem as próximas eleições marcadas pelo Estado espanhol, como se comportará o Governo central? Vai respeitar esses resultados? Creio que não respeitará, preferindo alimentar a farsa e o sentimento crescente de revolta. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Uma Europa sem saber o que fazer com os anseios independentistas

Independentemente de como será o futuro próximo da Catalunha, a vontade de parte dos catalães - resta quantificá-la - não esmorecerá, bem pelo contrário. Paralelamente, a questão da Catalunha pode contribuir  para o reacendimento da luz independentista em vários países europeus, com maior ou menor intensidade. E apesar do processo falhar, aparentemente.
Não levará muito tempo até se começar a trazer à colação a vontade dos povos, colocando-se em causa o próprio conceito de Estado-nação. E quem pensa que o afastamento de Puigdemont ou eventualmente a sua prisão e o esmagamento de qualquer tendência independentista resolve o assunto, estará muito enganado. Rajoy engana-se a si próprio e aos espanhóis quando julga que é através da intransigência e da recusa de qualquer espécie de diálogo que colocará um ponto final na questão da Catalunha independente. Depois de cortar as aspirações de maior autonomia - que provavelmente resolveria o assunto - escolhe agora desferir golpes derradeiros nas intenções independentistas, com repressão e prisões.
Por outro lado, a UE que finge não sair beliscada com o Brexit, que finge que o pior da crise, erradamente atribuída a alguns Estados-membros, bodes expiatórios de excelência, já passou e que finge ainda alguma espécie de coesão, não sabe o que fazer com o levantamento de questões independentistas. Entre dentes vai-se manifestando próxima da Espanha e oficialmente procura não se imiscuir. Nem uma posição, nem a outra contribuem para qualquer solução. A Europa também neste particular comporta-se como uma barata tonta que não sabe muito bem para onde ir. Sente que uma Catalunha independente e eventualmente outras regiões independentes vão contra o espírito europeu de união e coesão, mas não sabe como agir, desde logo porque essa união e coesão são meras ilusões que alimentam uma elite que não quer perceber o que está errado com a UE. Em suma, trata-se de uma Europa que esqueceu há muito da necessidade de ouvir os cidadãos.