sexta-feira, 29 de julho de 2016

Patética mudança de discurso

Primeiro as sanções, na óptica do PSD e de comentadores de pacotilha ao seu serviço, mais não eram do que uma forma de punir o actual Governo pela trajectória escolhida, embora esta ainda esteja a dar os primeiros frutos. Assim sendo, as punições recairiam sobre o que ainda não aconteceu, sobre o futuro - um futuro pejado de conceitos mediavais como o Diabo que, alegadamente, chega em Setembro. Depois, quando a sanção virou zero, o mesmo PSD e comentadores seus acólitos, mudaram radicalmente o discurso - afinal, a ausência de punição é paradigmática do bom trabalho desempenhado pelo anterior Governo, numa súbita viragem e regresso ao passado. É claro que nada disto tem sentido.
Por um lado terá existido uma conjuntura de factores que inviabilizaram a abertura de precedente com a aplicação de sanções aos Estados "incumpridores". Desde logo, Shaüble terá intercedido a favor da sanção zero. Porquê? Por causa de Espanha: um castigo infligido ao Estado espanhol seria um castigo a Rajoy, num contexto onde não existe verdadeiramente qualquer solução política saída das últimas eleições. Ou seja, um castigo seria um forte contributo para as críticas que recaem sobre a Europa, críticas proferidas por partidos mais à esquerda do PP de Rajoy. 
Por outro lado, factores como o Brexit, o crescimento exponencial de sentimentos anti-Europa que se consubstanciam em escolhas políticas consonantes e o facto da Europa estar a ser confrontada com problemas incomensuravelmente mais graves do que umas décimas de um qualquer défice, transformou toda esta questão num enorme exercício desnecessário e contraproducente.
Nada disto viabiliza a tese de que o trabalho de Passos e apaniguados foi meritório aos olhos das instituições europeias; assim como nada disto tem a ver com o que ainda não aconteceu. Simplesmente existem interesses muito superiores à acção dos principais intervenientes nacionais.  


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Sanção zero. E agora?

Preocupados com a aplicação de castigos a países mais ou menos periféricos e apesar da Europa se confrontar com problemas de dimensão incomensurável, comparativamente, os líderes das instituições europeias ameaçaram e ameaçaram e voltaram a ameaçar Portugal e Espanha. Mas afinal não há multa. E não deverá existir cortes nos fundos estruturais, pelo menos por uma questão de coerência.
Já no passado recente assistimos a exercícios de perfeita humilhação da Grécia - transformada num problema de grandes dimensões -, ao mesmo tempo que se minimizava as verdadeiras ameaças à estabilidade da Europa. Depois do Brexit, algo pode ter mudado. Repito: pode.
No caso das sanções aplicadas a Portugal, escusado será argumentar o que quer que seja. O caso era simplesmente ridículo, para além de injusto. Por mais de cem vezes não se cumpriram as regras, sem que com isso recaíssem sobre os "incumpridores" qualquer punição. 

Esta é sobretudo uma má notícia para Passos Coelho: primeiro por ter acusado o actual Governo de seguir o caminho errado, justificando assim as sanções, pelos vistos é precisamente o contrário. Depois porque no seu íntimo Coelho tinha esperança de que as sanções fossem o prelúdio da hecatombe provocada pela Europa que redundaria na convocação de eleições antecipadas e no seu regresso. E, finalmente, por ficar ainda mais isolado, nem os amigos europeus lhe estendem a mão. E agora? Talvez ir beber um copo com Dombrovskis e com Dijsselbloem para afogarem as mágoas.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Afinal...

O défice foi reduzido em 971 milhões de euros no primeiro semestre, ou seja a execução orçamental está a correr manifestamente bem. Contrariamente a outros tempos, a notícia não teve o destaque que seguramente merecia e quando se abordou a questão na comunicação social das duas uma: ou se desvia a atenção para outras questões, tantas vezes sem qualquer ligação directa, ou se procurou desvalorizar o feito recorrendo a conjecturas que redundam invariavelmente numa maquilhagem das contas. Provas disso? Nenhumas. Todavia, vivemos tempos em que a retórica anda sozinha depois de ter abandonado a dialéctica. Basta dizer, não é necessário fundamentar.
É evidente que a boa execução orçamental torna a questão das sanções ainda mais ridícula; é evidente que a boa execução orçamental deixa Passos Coelho ainda mais isolado; é evidente que a comunicação social preferia notícias de pendor mais apocalíptico. 

A realidade por vezes é uma chatice. Afinal, contra tudo e contra todos, a "geringonça" não só funciona, como é bem sucedida, em oposição aos anos de Passos Coelho. Afinal a união das esquerdas, apesar das pressões internas e externas, vai colhendo os seus frutos e até as sondagens reflectem o sucesso desta solução política. Não admira pois que Passos Coelho manifeste despudoradamente o seu desespero.

terça-feira, 26 de julho de 2016

A vez de Hillary Clinton

Arrancou ontem a Convenção do Partido Democrata que consagra Hillary Clinton como a candidata democrata e depois do triste espectáculo oferecido por Trump e pelos seus apaniguados, espera-se um regresso à normalidade.
É evidente que Hillary Clinton não será a candidata desejada por muitos democratas. Demasiado comprometida com o "establishment", pouco carismática e sem ideias que levem às mudanças almejadas por muitos, Hillary tentará não comprometer, tendo a seu favor, paradoxalmente, estar a combater politicamente um dos maiores desastres na prossecução da presidência americana: Donald Trump.
 O Partido Democrata procurará passar a ideia de união, embora os documentos revelados na semana passada e que dão conta de um esforço hercúleo por parte do partido com o objectivo de minar a campanha de Bernie Sanders possa ser um motivo de desunião. Ainda assim, Trump tem o condão de aproximar todos de Hillary que contará, creio eu, com o apoio das grandes comunidades nos EUA - todos excepto parte da comunidade branca, o que não chegará para eleger um Presidente, apesar das peculiaridades do sistema eleitoral americano.

É precisamente essa a grande vantagem de Clinton: Trump espalha o ódio, afasta os moderados, nada faz para combater as tensões sociais, bem pelo contrário, o que pode resultar numa base de apoio e de votação sem margem para crescimento. Espero vir a ter razão, afinal de contas, o EUA e o mundo não precisam de um Trump.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Pedro e o Diabo – uma pequena história

 Pedro estava disposto a vender a alma ao Diabo, ou melhor, o Pedro pretendia trocá-la por um regresso ao poder, afinal de contas, até há bem pouco tempo, o Pedro fora um homem poderoso. Porém, a vida dá muitas voltas e o Pedro ficou órfão de poder, mostrando-se, por isso, disposto a tudo para recuperá-lo, incluindo vender a alma ao Diabo.
O Diabo, esse, sabe muito e sabe muito porque é velho, não viu mais na proposta de Pedro do que um mau negócio. Desde logo, a alma de Pedro tinha pouco ou nenhum valor e nem tão-pouco o inferno estava disposto a albergar mais almas medíocres. Dizia-se por ali que deixara de haver mercado, logo não havia interesse.
O Diabo entendeu por bem responder aos apelos de Pedro:
- Nem o Diabo te quer; não interessas nem ao Diabo. Não és nenhum Fausto, Pedro. Nem tão-pouco anda por aí um Mefistófeles interessado em ti.
Pedro, confuso, respondia: Um quê?
O Diabo, deitando as mãos aos cornos, dizia: Esquece, Pedro. Esquece. A felicidade absoluta não chegará, nem a tua alma despertou sequer curiosidade. Mas mesmo que esse interesse existisse, não creio que todo um povo cometa novamente o erro de te escolher, os meus poderes de influência também têm os seus limites. Por conseguinte, o que me pedes, mesmo que eu anuísse, não to posso oferecer.
Acabrunhado, o Pedro voltou a questionar o Diabo: O que fazer então?
- Sou o Diabo, mas não tenho respostas para tudo. Não sei. Já pensaste em experimentar filatelia?
Pedro mostrou-se novamente confuso: Fila…? Telia?
O Diabo, novamente deitando as mãos ao par de cornos, respirou fundo e calmamente respondeu: Tenta qualquer coisa. Olha dedica-te à pesca pode ser que o peixe… mas agora desampara-me a loja e quando estiveres com o teu bom amigo Aníbal diz-lhe que por aqui também não há grande interesse nele.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Um exercício desnecessário

Bem sei que falar ou escrever sobre Passos Coelho é um exercício desnecessário, tal como dedicarmos o nosso tempo a qualquer outra insignificância. Para além de desnecessário, perder tempo com Passos Coelho é igualmente penoso, mas enquanto o dito por aí deambular...
Vem isto a propósito da última baboseira de Passos Coelho, classificando a governação de António Costa como "quase criminosa", que é o equivalente a dizer que a observação de Passos Coelho é "quase estúpida", quando na verdade é um verdadeiro hino à estupidez. Há escassos dias o antigo primeiro-ministro acusava o actual Governo de ter "roubado a legislatura".
Para além da falta de nível que se exigiria sobretudo a alguém que até ao ano passado desempenhava as funções de primeiro-ministro, existe um desespero e um desnorte, indisfarçáveis.

Na verdade, Passos Coelho e os seus acólitos estão cansados de esperar pela tragédia europeia. A geringonça funciona; as sanções demoram e provavelmente nem virão a ser bem sanções; a tragédia demora, o desespero torna-se evidente. As autárquicas estão à porta e com elas a porta de saída para Passos Coelho, a par de um futuro que se avizinha sombrio.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Trump nomeado candidato

Agora é a sério. Donald Trump foi nomeado, pelo Partido Republicano, candidato à Casa Branca. E apesar de parte do partido não se rever nesta nomeação, o facto é que Trump conseguiu a nomeação com recurso ao habitual discurso do ódio e do preconceito enquanto a mulher recorreu ao plágio que, de tão patético, não merece sequer duas linhas de comentário.
As sondagens vão dando Hillary Clinton, candidata democrata, como sendo a vencedora das eleições de Novembro. A última sondagem do New York Times chega mesmo a prever que Hillary vença com uns confortáveis 76 por cento, contra 24 conseguidos por Trump. Ainda assim, nunca o discurso do ódio teve um tão forte representante político como é Trump - um discurso que conta com uma vasta legião de apoiantes.

Num contexto de forte instabilidade, com as tensões raciais e não raras vezes religiosas e serem motivo de disputa, os EUA necessitam da antítese de Trump. Os EUA necessitam de tudo menos de um incendiário com um mau penteado.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Legislatura roubada

Sabemos que Passos Coelho lida mal com a sua insignificância, sobretudo quando a mesma é mais e mais evidente. Mas daí a referir-se à actual legislatura como sendo "roubada" é, para além de excessivo, de mau-gosto, sobretudo para um ex-primeiro ministro e líder do maior partido da oposição.
Passos Coelho não terá a capacidade de perceber que frases como "o Governo tem o dever de cumprir a legislatura que roubou" são sobretudo contraproducentes. Com efeito, o antigo primeiro-ministro nada ganha com isso, ficando apenas a imagem de quem tem uma visão particularmente exígua da democracia, manifestando um acentuado desconforto na oposição.
Ansioso por uma hecatombe que lhe permita um regresso ao poder, debaixo de aplausos empolados por uma comunicação social rendida aos interesses económicos, e para gáudio do séquito que ainda o acompanha, Passos Coelho nem sequer chega a ser provocador, deixando antes ficar a imagem de quem é incapaz de contrariar a sua pequenez. Ninguém roubou a legislatura - Passos Coelho não foi capaz de formar uma maioria no Parlamento por ter passado quatro anos a fechar toda e qualquer porta, enquanto sacrificava o povo português. O resultado foi a união histórica das esquerdas.
As palavras também contam, mesmo que aqueles que ainda estão atentos às mesmas sejam em número consideravelmente inferior. Resta a Passos Coelho contar com uma comunicação social conivente com os seus disparates e com instituições europeias acéfalas.


terça-feira, 19 de julho de 2016

Golpe de Estado: a democracia saiu a perder

O golpe de Estado na Turquia redundou num falhanço, num fortalecimento do Presidente Erdogan e num claro enfraquecimento da democracia. De resto, é precisamente a democracia a maior derrotada do golpe de Estado falhado.
A democracia, diga-se em abono da verdade, já saíra enfraquecida com a governação (mesmo enquanto Presidente) de Erdogan: condicionantes às várias formas de liberdade, incluindo à liberdade de impressa e de expressão; afastamento ou saneamento de hipotéticos opositores; enfraquecimento das instituições judiciárias a par de uma tentativa, que se concretizará, de transformar o regime parlamentar num regime presidencialista de forma a que Erdogan se possa perpetuar no poder.
Todos concordamos com a importância estratégica da Turquia, o que permitirá explicar, até certo ponto, a tolerância dos líderes mundiais face a um líder mais próximo da islamização da sociedade turca do que do laicismo e secularismo - herança de Ataturk. Contudo essa tolerância tem-se transformado em complacência e no despejar de dinheiro para que a Turquia fique com os problemas dos refugiados.

Agora que Erdogan vê os seus poderes reforçados; agora que a democracia sai enfraquecida; agora que o secularismo parece próximo da extinção, como será a postura das lideranças mundiais, sobretudo das europeias? Mais do mesmo, seguramente.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Golpe de Estado na Turquia

Militares turcos encetaram na passada sexta-feira uma tentativa de golpe de Estado. Falharam, mas sobretudo surpreenderam. Um país que, no passado, já passou por outros golpes de Estado.
Este foi um golpe de Estado carregado de situações inusitadas. Militares que tinham como palavra de ordem a democracia foram rapidamente debelados por uma acção conjunta que contou também com a participação de populares, depois do primeiro-ministro ter incentivado a população civil no sentido de combaterem os “golpistas”.
Sabe-se também que os militares têm sido historicamente guardiões do laicismo indissociável do legado de Ataturk, “pai da turcos” e que Erdogan tem posto em causa esse mesmo laicismo. Esta é a questão mais inquietante. Com o fracasso deste golpe de Estado, o referido laicismo do Estado turco saiu também enfraquecido, e embora Ataturk continue a ser uma referência incontornável para os turcos é também verdade que o islamismo tem vindo a ganhar terreno, sobretudo com o AKP partido do Presidente Recep Erdogan
É indubitável que este alegado golpe de Estado falhado (ninguém sabe quem está por detrás do mesmo) resulta num fortalecimento do Governo e sobretudo do Presidente Erdogan. Deste modo, Erdogan tem agora uma maior margem de manobra para o endurecimento de medidas, cada vez mas autocráticas, e tem igualmente a oportunidade de ouro de alterar a Constituição de forma a transformar uma democracia parlamentar num regime presidencialista, perpetuando-se no poder.

O certo é que a Turquia que vivia já um período de acentuada instabilidade, com o atentado perpetrado pelo Daesh, depois de uma inversão da forma como o Presidente turco lidava com o problema, mas também com a guerra com os curdos do PKK e com a contestação ao próprio Presidente Erdogan. Tempos difíceis num país cuja importância estratégica, designadamente para a Europa, é indiscutível.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Será masoquismo?

O que dizer de políticos que, apesar das injustiças gritantes, pugnam por castigos aos seus próprios países. Será masoquismo. Não exactamente. Esses castigos traduzem-se invariavelmente por mais austeridade sobre os do costume. Não recaem sobre Cavaco Silva e companhia. Não recaem sobre aqueles que, no desempenho de funções públicas, só conseguem viajar em automóveis de 150 mil euros. 
Por conseguinte, é difícil associar este género de fenómenos a exercícios de masoquismo. Então, serão sadismo? Talvez. De resto, Cavaco deu largos contributos para o sofrimento do povo, restará apenas saber qual o prazer associado a esse sofrimento.
No entanto, trata-se sobretudo de pequenez própria da natureza de quem pouco ou nada tem para oferecer, para além de uma maldade indisfarçável. 
A grande questão é, porém, outra: como é que personagens saídas de um filme de má qualidade, homens sem quaisquer qualidades, reminiscências de um tempo passado, criaturas ultrapassadas em todos os sentidos, acabam por ser escolhidas em sufrágio universal.
Há ainda assim um reparo menos negativo a fazer: Cavaco Silva continua igual a si próprio - a pior versão de político da história da democracia. Surpreendente é o facto de existir quem perfilha a mesma opinião do antigo Presidente da República, faltando-lhes contudo a coragem de o assumir. 


quinta-feira, 14 de julho de 2016

O gozo que isto lhes dá

A aplicação de sanções, por muito desprovida de sentido, por muito injusta que seja e por toda a falta de coerência, dá gozo a algumas criaturas que continuam, inexplicavelmente a deambular pela política. O que torna tudo ainda mais curioso é que essas sanções recaem sobre anos em que foram os mesmos que agora rejubilam (o mais discretamente possível) a estar à frente dos destinos do país.
Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque rejeitam as suas responsabilidades, acusando o actual Governo de não ter feito o suficiente para evitar a aplicação de sanções. Risível, patético e até triste são adjectivos apropriados. Passos Coelho e Maria Luís ainda alimentam a esperança de voltar ao poder, com uma ajudinha da Europa, se possível.
Cavaco Silva, por sua vez, dá uma prova de vida no Conselho de Estado, manifestando a sua compreensão pelas ditas sanções. Afinal de contas, é importante cumprir as regras europeias. Não se ouviu uma palavra do antigo Presidente quando as mesmas regras foram desrespeitadas em mais de cem vezes. O ex-Presidente não se deve ter apercebido. Risível, patético, decrépito são adjectivos manifestamente insuficientes para descrever a atitude de Cavaco Silva. Só nos pode ocorrer o seguinte desabafo: do que nos livrámos...

De resto, podia passar toda uma vida a escrever sobre seres rastejantes, tal a quantidade e a incompreensível preponderância que essas criaturas têm em Portugal e na Europa.



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ainda sobre os seres rastejantes

O projecto europeu, embelezado ao longo dos anos, reconheço, tem ainda assim sido crucial para garantir paz e coesão social na Europa. Todavia, o mesmo projecto europeu está nas mãos de seres rastejantes, de carácter unidimensional e cinzentos, todos ao serviço de uma Alemanha que procura garantir a sua hegemonia ao mesmo tempo que salva a sua banca.
A Europa está condenada, mostra-se decadente, mas os ditos seres rastejantes, néscios munidos de diplomas iguais a tantos outros, não dão importância aos sinais de decadência. Importa agradar a dois senhores: A Alemanha e a alta finança que tem sobrevivido, sem no entanto aprender com os seus erros, graças precisamente a seres rastejantes. 
È evidente que o resultado não podia ser pior: descrédito dos eleitos que sucumbiram aos encantos dos mercados; desconfiança generalizada em relação aos não-eleitos que deturpam o quanto podem o próprio conceito de democracia e enfraquecimento do projecto europeu, naturalmente indissociável da democracia.

Os seres rastejantes da Comissão e do Eurogrupo deliciam-se com a aplicação de castigos; aos seres rastejantes pouco lhes importa que a receita tenha falhado ou que as injustiças sejam gritantes (a regra dos três por cento já foi violada mais de cem vezes, segundo o estudo recentemente divulgado pelo Instituto de Investigação Económica alemão Ifo, mas Portugal e Espanha serão os primeiros a receber o castigo). Na verdade, o que realmente interessa é que servindo os dois senhores comprarão um pedacinho de céu numa Goldman Sachs ou coisa que o valha. São assim os seres rastejantes. E nós deixamos que as nossas vidas sejam condicionadas por estas criaturas sem qualquer coluna vertebral.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A hora das sanções

Com o fogo no rabo, Alemanha e responsáveis pelas decadentes instituições europeias preparam-se para aplicar sanções, ou pelo menos perpetuarem a possibilidade de castigos. Hoje, aparentemente, é mais um dia de ameaças, a ver vamos se essas ameaças, raspanetes e fins se transformam em qualquer coisa mais substancial.
Mesmo que, por hipótese, Alemanha e decadentes instituições europeias se fiquem pelas ameaças, pelo costumeiro tom de superioridade e por aquela espécie de sadismo de que se revestem as almas mais medíocres, restará apenas mais um sinal de uma Europa sem rumo.
Nem com o terramoto causado pelo Brexit os medíocres tiveram o bom senso de agir em conformidade, ou seja, actuar de acordo com a rebelião das águas, procurando não fazer mais ondas. Não. Pelo contrário, entre ameaças de um segundo resgate proferidas pelo ministro das Finanças alemão, e a possibilidade de sanções, a UE caminha alegremente para o precipício. Sendo certo que até lá chegar o governo alemão já ajudou, e muito, o Deutsch Bank a limpar a sua toxicidade conseguida nos bons anos em que a pornografia financeira foi prolifera, com maior ou menor sofisticação,
Por cá, as alminhas de uma certa direita, tudo fazem para disfarçar o seu gozo com a possibilidade de aplicação de sanções. De resto, seria pouco patriota pedir sanções para o seu próprio país. 

A hora dos castigos aproxima-se e com ela permanecerá mais um indicador de que esta Europa tudo quer fazer para demonstrar que não vale a pena lutar por ela. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sobre os seres rastejantes

Não há muito a dizer sobre seres rastejantes. Afinal de contas são seres que rastejam pela vida. Uns vingam na política, outros no "mundo dos negócios", outros ainda transitam, com particular sucesso, entre um mundo e outro. Mas são apenas seres que rastejam pela vida.
Estranhamente e apesar das óbvias limitações destas criaturas, existe quem lhes conceda uma importância que eles naturalmente não deveriam possuir. E tudo se torna ainda mais estranho quando um destes seres é escolhido para representar outros seres que, aparentemente, possuem coluna vertebral.
Compreende-se que as ditas criaturas rastejantess tenham importância para o cinema, designadamente para a ficção-científica de série B, em que se tornaram particularmente famosos depois de atacarem seres humanos indefesos em casas-de-banho; porém, torna-se mais difícil compreender o sucesso destas criaturas na vida real. Compreende-se que as ditas criaturas viscosas sejam retratadas no cinema, sobretudo em filmes de série B. Afinal de contas, provocam-nos asco, repulsa, havendo ainda o perigo de se enfiarem em orifícios constrangedores. Sendo certo que os referidos seres provocam, também na vida real, uma espécie de repulsa, torna-se difícil aceitar como é que alguns transitam com sucesso da política para a Goldman Sachs, embora o referido banco seja um verdadeiro antro de seres rastejantes.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Aplicação de sanções

A Alemanha parece querer liderar um grupo de países que defende a aplicação draconiana das regras comunitárias, sobretudo no que diz respeito ao cumprimento das metas do défice. Juntamente com Holanda e Finlândia, a Alemanha defende que não deve existir qualquer excepção, contrariamente a países como a França e a Itália que defendem precisamente o contrário. A Comissão manifesta o seu acordo com a Alemanha.
"As regras são para cumprir" parecem ser as palavras que soam bem às opiniões públicas dos países acima referidos, a começar precisamente pela Alemanha. Paralelamente, existe uma certa tendência para se misturar o que não tem qualquer relação: crise dos refugiados com metas de défice. Sinais de uma Europa claramente à deriva.
É também claro que os problemas do Deutsche Bank, postos a nu pelo FMI que considera que os mesmos constituem o maior risco à estabilidade mundial, não podem ser dissociados da inflexibilidade alemã. Não será por mero acaso que de cada vez que o ministro Schaüble é questionado sobre o Deutsche, a resposta acaba invariavelmente por ser sobre Portugal. De resto, enquanto existir quem pague os buracos da banca alemã, designadamente os países periféricos, criaturas como Schaüble continuarão a ter existência política. Assim, a austeridade não pode abrandar e muito menos parar. E é também desta forma que se garante a hegemonia da Alemanha no contexto europeu. 

A única certeza que parece subsistir é que uma Europa em que os países se digladiam é precisamente o oposto daquilo que é apregoado pelo projecto europeu.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Uma estratégia

As instituições europeias, fortemente germanizadas, insistem na questão das sanções, que serão aplicadas aos países "incumpridores", mais concretamente a Portugal e Espanha. A postura das instituições torna-se particularmente chocante depois das convulsões na Europa, sobretudo depois do Brexit. De resto, questiona-se como existe tanta preocupação com umas décimas de défice e tanta complacência com tudo o que enfraquece a própria UE.
Todavia e apesar da estranheza que tudo isto nos causa, creio existir uma estratégia bem pensada. Com efeito, não há muito a perder, sobretudo no que toca aos Estados-membros mais relevantes, e se, em última instância, alguns Estados-membros saírem da UE, deixam espaço para os mais ricos poderem fazer um clube mais restrito. De resto, os mercados periféricos já foram mais apetecíveis. Por conseguinte, o enfraquecimento e subsequente saída de alguns Estados-membros poderá ser um mal que até vem por bem. E pelo caminho os países resgatados continuarão a ser forçados a pagar as dívidas à banca alemã que, tudo indica, também se encontra num estado preocupante. Países como Portugal, Espanha ou Grécia só têm utilidade enquanto pagarem as dívidas à banca alemã, sobretudo depois de esta ter sofrido um forte abalo com a crise do subprime. Depois disso tornar-se-ão inúteis.
A estratégia poderá muito bem ser esta, o que explica a aparente obsessão com décimas, com défices, com quem pouco conta no conjunto da UE.
E Espanha, dir-se-á? Como se aplica a mesma teoria a um Estado-membro que tem peso na UE? Apesar de Espanha ter a sua relevância no conjunto da UE, é um país do Sul, difícil de governar, pouco coeso e futuramente poderá representar um problema que os mais ricos da UE dispensam.

É claro que esta estratégia - a ter algum fundo de verdade - não acarreta em si mesma um futuro promissor. A ideia de se ter uma UE mais pequena, excluindo os problemáticos, reunindo os mais ricos, tem um problema: sem o Reino Unido, com a França enfraquecida, sob todos os pontos de vista, e com outros Estados-membros, outrora considerados exemplares, como a Finlândia ou a Holanda, também eles enfraquecidos, pouco restará para fazer um clube de ricos. Não será esta a opinião de Schaüble. Para já as coisa correm-lhe bem: os países periféricos, inexoravelmente subjugados e entregues à austeridade, canalizam o seu dinheiro para salvar a banca alemã.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os ingleses devem estar loucos

Sem a mítica garrafa de coca-cola que caíra misteriosamente dos céus e que dá o mote ao filme "Os Deuses devem estar loucos", os ingleses mostram que a incredulidade nunca se esgota, nem quando nos parece que já vimos um pouco de tudo.
Existiram duas figuras no Reino Unido que lutaram pela vitória do Brexit: Nigel Farage do partido nacionalista UKIP e Boris Johnson do partido Conservador, ambos fizeram de tudo - menos delinear uma estratégia para o caso do Brexit ganhar - para que o Reino Unido deixasse definitivamente a União  Europeia. E agora que esse objectivo se concretizou, ambos afastam-se: um, Boris Johnson, desistindo de se candidatar à liderança do partido conservador; o outro, Farage, deixando a liderança do UKIP. Assim, torna-se difícil acreditar que existe um clima de normalidade na política britânica. Pelo contrário, e a julgar pelos últimos acontecimentos, a cobardia e a irresponsabilidade vão fazendo escola no Reino Unido. Farage, por exemplo, alega querer voltar a ter vida própria - razão pela qual escolheu a demissão e que, desta feita, é mesmo uma demissão, irrevogável, talvez.
Tudo se tornara pouco promissor no dia subsequente à vitória do Brexit e todo se torna ainda menos promissor quando os protagonistas da saída também eles saem de cena, deixando para o Reino Unido o difícil processo de saída. Há muito tempo que não se via tamanha irresponsabilidade. O aspecto positivo é que com estas situações ficará a ideia de que nacionalistas como Farage e populistas como Johnson não serão propriamente de confiança e que isto sirva de exemplo para quem vê futuro nas Le Pens da Europa.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Atirar a confiança pela janela

Passos Coelho - sim, ainda, incrivelmente, Passos Coelho - teve direito a grande destaque mediático, tudo a propósito de sanções que ninguém sabe se serão, de facto, aplicadas. Depois de, no dia anterior, a ex-ministra das Finanças ter garantido aos portugueses que não haveria lugar a sanções se fosse ela a ministra das Finanças. Concertadamente, Passos Coelho, no alto da sua eloquência, proferiu a seguinte frase lapidar: "O Governo virou a página da credibilidade e atirou a confiança pela janela".
É claro que a ironia de tudo isto deve escapar ao anterior primeiro-ministro e ex-ministra das Finanças, até porque a mediocridade é o que é, dá para o que dá: as eventuais sanções referem-se a um período em que ambos estavam em funções. Isto apesar dos jornais avançarem que as hipotéticas sanções serão justificadas com o que poderá vir a acontecer e não exactamente com o aconteceu. Confuso? Patético? Inacreditável? Sim a tudo, porque no actual contexto, tudo é mesmo possível, incluindo castigar um Governo por aquilo que ainda nem se concretizou.

Seja como for, Passos acusa o Executivo de António Costa de atirar a confiança pela janela. Logo ele que atirou pela janela o emprego, os jovens, os pensionistas, os funcionários públicos, e tantos outros portugueses. Precisamente ele que atirou pela janela o futuro do país, sem hesitações, nem remorsos. Ele, Passos Coelho, que nunca cumpriu as metas impostas, que fingiu uma saída limpa que afinal estava toda ela conspurcada pela situação do sistema financeiro, diz agora que a confiança foi pela janela. Haverá melhor exemplo de ausência de noção de ridículo?

sexta-feira, 1 de julho de 2016

E se o Brexit significar um reforço da Alemanha?

O jornal alemão Handelsblatt revela um documento interno do ministério das Finanças alemão, alegadamente secreto. Nesse documento fica clara a intenção da Alemanha conceber uma "Nova Unuão Europeia" com um aprofundamento da austeridade, do controlo sobre orçamentos nacionais e com o fim do resta da solidariedade entre Estados-membros, designadamente com os Estados endividados.
Segundo o mesmo documento, a opinião pública do norte da Europa não compreenderia nem aceitaria mais solidariedade com os Estados do sul da Europa.
A saída do Reino Unido e o constante enfraquecimento da França, pode conceder mais espaço de manobra a uma Alemanha que já domina a tomada de decisão na Europa, por muito que nos tentem convencer que instituições como a Comissão Europeia e o Parlamento são efectivamente órgãos com peso na Europa. 
De resto, o facto do Reino Unido se ter vindo a colocar, voluntariamente, à parte da UE e o sucessivo desvanecimento da importância francesa, sobretudo com Sarkozy e agora com Hollande, já tinha permitido que a Alemanha conquistasse, sem grande dificuldade, a hegemonia europeia. De resto, a expressão eixo franco-alemão há anos que deixou de fazer sentido.

Agora esse domínio alemão pode de facto consolidar-se e com o mesmo virá, indubitavelmente, mais inflexibilidade, maiores restrições orçamentais, mais neoliberalismo para os países do Sul, quando internamente se pratica o ordoliberalismo. Com a consolidação da posição alemã de hegemonia, o projecto europeu terá menos hipóteses de sobreviver.