quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Desprezo pelo Ambiente

Agora são notícias de que a Celtejo, empresa de fabrico de papel em Vila Velha de Ródão, teve várias avarias, o que terá resultado em descargas sem tratamento. Aponta-se o dedo a esta e a outras empresas de celulose, afirma-se que este é um dos mais graves crimes ambientais dos últimos anos, mas a vontade em efectivamente promover mudanças parece não chegar.
Na verdade até somos um país com sorte. E porquê? Pela nossa dimensão, pela dimensão do nosso sector industrial, pela própria dimensão da nossa economia. Em suma, somos pequenos, essa é a nossa sorte, porque se tivéssemos outra dimensão, sobretudo no que diz respeito ao sector industrial, os problemas ambientais seriam incomensuravelmente maiores. Existem poucas empresas de grande dimensão que podem causar desastres ambientais como aqueles que agora é notícia, mas apesar de serem poucos os suspeitos e muitas as certezas, nada se faz e quando se faz é fora de tempo e sem consequências de maior para os poluidores. 
Todavia a nossa pequenez não está totalmente isenta de problemas, sobretudo quando se trata de agir. Havendo poucas empresas num determinado sector, existindo a já habitual promiscuidade entre poder político (central ou local) e poder económico, a par de pouca ou nenhuma vontade política de punir empresas que, embora parcas, representam milhões de lucros, os problemas persistem.
O actual governo e o ministro do Ambiente representam exemplos concretos da tal incapacidade ou ausência de vontade política. Resta aos partidos mais à esquerda, designadamente os Verde e Bloco de Esquerda pressionarem no sentido de se encontrar soluções; resta aos tribunais, quando forem chamados a responder a este e a outros problemas ambientais, darem o seu contributo exemplar - o que está muito longe de ter acontecido até agora. Pode ser que o espanto e a vergonha provocadas pelas imagens do maior rio português coberto por uma espuma tóxica surtam algum efeito.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

CDS: Na ausência de soluções, vamos imitar aquilo que passámos anos a criticar

Foi precisamente isso que a líder do CDS, Assunção Cristas, instou os membros do partido a fazer. Não encontrando soluções, procura-se imitar aquilo que foi o alvo de todas as críticas durante toda a vigência da actual solução política. Não é preciso puxar muito pela memória para recordar que PSD e CDS tudo fizeram para enfraquecer o Governo PS apoiado pelos partidos mais à esquerda, esforços que incluíam insinuações de ilegitimidade democrática. Na verdade o PSD, designadamente Pedro Passos Coelho, nunca engoliu o facto de não ter conseguido ser Governo e, por arrasto, o mesmo aconteceu com o CDS sempre à espera das sobras.

Acompanhada pelo inefável Nuno Melo, Cristas quer usar a mesma receita de Costa. Falta-lhe, porém, praticamente tudo: as características de Costa e de Pedro Nuno Santos; parceiros dispostos a fazer parte dessa solução, Rui Rio que parece mais interessado num Bloco Central do que propriamente em alianças com um partido cuja relevância é pequena; resultados eleitorais que permitam concretizar esta solução agora preconizada pela líder do CDS - as sondagens indicam resultados que não permitem a referida solução.

Depois de inchada pela vitória (de Pirro) em Lisboa, Cristas continuará a fazer o caminho do costume, até por não conhecer qualquer outro: lançar anátemas sobre as esquerdas radicais, defendendo até o impensável: uma solução à Costa, a mesma que tanto foi criticada pela líder do CDS. É por demais evidente que Cristas não é capaz de apreender conceitos como "ironia", "hipocrisia" e "ridículo".

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Às vezes lá nos lembramos do Ambiente

Às vezes e sobretudo quando alguma tragédia ambiental nos bate à porta ou esfrega as suas feias e inquietantes consequências na cara; às vezes lá nos lembramos do Ambiente. Foi exactamente o que aconteceu em Abrantes, quando as imagens de um Tejo espumoso e negro invadiram as nossas casas. Agora até deputados se mostram preocupados com o Ambiente, pedindo junto do Governo não só uma solução para o problema premente, mas também mais atenção para o ambiente.
Discutimos tudo: défice, dívida, Saúde, Educação, Justiça, politiquices, Europa (invariavelmente na perspectiva económica), tudo menos Ambiente e políticas ambientais. 
Os responsáveis políticos são os primeiros a não iniciar essa discussão, até porque quando mais se falar de Ambiente, mais se terá de abordar as mudanças necessárias e respectivos custos económicos - mudanças estruturais em que ninguém quer verdadeiramente pensar. Empurra-se com a barriga e espera-se por imposições de metas e mudanças vindas da Europa.
Por outro lado, está a justiça: morosa e tantas vezes agarrada ao passado em geral, intensifica essas características quando se trata de crimes ambientais. De vez em quando lá vem uma multa ou outra, mas invariavelmente reduzidas e sem nada uma para mudança de mentalidades. 
E é neste contexto de desinteresse e impunidade que se vão cometendo crimes graves contra o Ambiente, muitos deles com consequências de difícil reversão. Hoje, acordámos e falámos zangados do que se está a fazer ao Ambiente. Amanhã o Ambiente que tanto nos preocupa hoje já terá sido esquecido. Outra vez.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O drama das televisões

Não é surpresa afirmar que a comunicação social atravessa a sua pior crise. A informação tornou-se acessível a todos, de forma gratuita, e a comunicação social não foi capaz de pugnar pela qualidade e pela isenção, estabelecendo dessa forma uma diferença incontornável com a profusão de informação e opinião que encontramos online. O que resta, sobretudo em Portugal, é uma comunicação social refém de grandes grupos económicos, e por inerência dotadas  de uma agenda própria.
A televisão, designadamente o sector do entretenimento, não escapa à celeridade das mudanças tecnológicas. A forma de se ver televisão está a mudar inexoravelmente com clara vantagem para os serviços de streaming. Este contexto não pode ser dissociado do lixo que abunda nas televisões. A SIC propõe ir ainda mais longe, recorrendo a um programa de televisão ((Super Nanny) em que as crianças, com a autorização dos pais, são usadas para se atingir um determinado patamar nas audiências. E mais, depois da polémica e após ainda a intervenção de várias instituições que visam a protecção dos direitos das crianças, a SIC insiste e recorre a uma argumentação que passa invariavelmente ao lado do essencial: as crianças e o direito à sua dignidade que passa também pela não exposição gratuita de imagens suas (amiúde as piores por se inserirem em contextos particularmente difíceis). Insiste-se não só no carácter alegadamente inócuo, como por vezes se tenta até chamar à colação aspectos alegadamente positivos do programa, como se se tratasse de um instrumento para as melhores práticas de parentalidade. E mesmo que tudo isso seja verdade, o essencial mantém-se: é tudo à custa da dignidade de crianças que, naturalmente, ainda não podem fazer escolhas conscientes. 
O drama das televisões, do seu modelo anacrónico e da impossibilidade de se manter como sector rentável, dá origem a más decisões, fundamentadas com outras más decisões, designadamente aquelas que encontramos online. 
Paralelamente, se o programa é transmitido em mais de 20 países - argumento de peso da SIC - então qual é problema? Por aqui também se depreende a qualidade da argumentação da SIC.
Em suma, o programa da SIC "Super Nanny" é o resultado do drama vivido pelas televisões. O drama daqueles que vislumbram o seu fim e perdem o que lhes resta de discernimento. E todo este esforço pode ser contraproducente, sobretudo se os principais patrocinadores abandonarem o barco, como parece já estar a acontecer.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Bloco central

Só a ideia faz muitos salivar. Bloco central é o principal palco para a promiscuidade entre poder político e económico, como os últimos quarenta anos demonstram. Bloco central é o contexto ideal para que muitos negócios venham a conhecer a luz do dia, sobretudo com o enfraquecimento dos serviços públicos que abrem as portas aos conhecidos negócios.
Rui Rio, novo líder do PSD, mostra-se adepto da ideia, como se estivesse já convencido da derrota do seu partido nas próximas eleições, manifestando uma indisfarçável vontade de estar no poder,  mesmo sendo forçado a dividi-lo com o PS. Resta saber como se comportará a orfandade de Passos Coelho, a mesma que depositou tantas esperanças na eleição de Santana Lopes, e que vê agora um arauto do bloco central à frente dos destinos do partido. De resto, se pretenderem honrar o pai Passos Coelho, essa orfandade lutará contra o bloco central e, por consequência, contra a nova liderança.
Paralelamente, António Costa proferiu declarações que mostram a sua intenção de continuar a dar preferência à actual solução política, mantendo-se "no mesmo caminho e com a mesma companhia". Para já é esta a posição de Costa.
Seja como for, a ideia do bloco central é demasiado apelativa para que os sectores mais poderosos da sociedade portuguesa abandonem a mesma. Aliás, é indiscutível que a eleição de Rio já nos pôs a todos a falar em bloco central - facto particularmente inquietante. 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Trump: vitória do egoísmo

Trump diz mais de nós do que gostaríamos de admitir. E, evidentemente, diz ainda mais dos americanos, desde logo porque factores culturais não podem ser dissociados desta e de outras escolhas.
Mas e o que é que diz de alguns de nós, concretamente? Diz que somos profundamente egoístas e que fizemos a escolha que reflecte esse egoísmo: um ser egocêntrico, medíocre (apesar da aura se super-empresário que tanto lhe tem favorecido), ordinário, avesso à cultura e que prometeu, dito de um modo pueril, fazer mal a determinados conjuntos de pessoas, designadamente a imigrantes, mas também a americanos - os que beneficiam do Obamacare, por exemplo.
Vem tudo isto a propósito da "celebração" do primeiro ano da presidência Trump. Primeiro e, esperam muitos, último, sobretudo tendo em consideração a instabilidade que é inerente a esta Administração, com o afastamento dos mais próximos de Trump e com a investigação sobre a influência russa.
Trump pode ter a mais baixa taxa de popularidade, pode ter sido eleito com uma percentagem baixa, mas existiu e existe quem se encontre do seu lado, gente que, por muito que se tente dourar a pílula, votou e continua a apoiá-lo por motivos profundamente egoístas. Trump Presidente diz mais sobre esses americanos do que eles próprios julgariam possível.
Donald Trump vinga em tempos em que a tecnologia, num curioso paradoxo, promete-nos um mundo novo caracterizado por mais comunicação entre seres humanos ao mesmo tempo promove novas formas de individualismo exacerbado que se traduz amiúde na passagem pela vida com os rostos enterrados num qualquer ecrã, incapazes de levantar a cabeça e olhar para o outro. E isto é particularmente verdade numa sociedade que tem na matriz existencial um egoísmo que ninguém tenta sequer disfarçar.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Publicidade enganosa

O CDS acusou o Governo de publicidade enganosa. Trata-se de mais um caso em que os centristas acusam os outros de características que, afinal, lhes pertencem. E veio isto a propósito da discussão no Parlamento sobre Educação.
Assim, Cristas e seus apaniguados passaram o tempo a acusar o Governo de desinvestir na Educação, culminando aqueles discursos brilhantes com a frase "publicidade enganosa". À esquerda muitos mostraram-se incapazes de conter os risos.
Publicidade enganosa. Falou quem pertenceu a um Governo de irrevogáveis e medíocres que diziam estar a tapar o buraco aberto por José Sócrates, procurando sempre ir mais longe do que era imposto e, ainda assim, garantindo, com aquele ar sério, que estavam a salvaguardar os serviços públicos. Pelo caminho aproveitaram o contexto para proceder a privatizações e outras negociatas.
Mais uma vez Cristas e os seus apaniguados escorregam nas suas próprias contradições e fazem-no como se estivesse a dançar artisticamente. A publicidade enganosa de que o CDS fala mais não foi do que a estratégia do partido, cujo cariz populista é indisfarçável, durante toda a anterior legislatura. E quando tudo se complicou o irrevogável revogou-se daqui para fora.
Quanto ao verdadeiro estado da Educação não se pode, honestamente, recusar a existência de falhas graves, assim como se verificam falhas graves noutros serviços públicos, designadamente na Saúde. Essas falhas resultam de anos de mau investimento, anos de desinvestimento, com o cunho também de Cristas, e uma recuperação que tarda ou que não chega em virtude do peso do serviço da dívida. Agora publicidade enganosa, isso é com o CDS que sabe bem do que fala.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Vender a alma ao Diabo

Manuela Ferreira Leite,  incapaz de esconder a excitação pela eleição de Rui Rio, sublinhou a possibilidade do seu partido poder "vender a alma ao Diabo" com o intuito de afastar o PS e a esquerda do poder. "Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao Diabo, exclusivamente com o objectivo de pôr a direita na rua, acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao Diabo para pôr a esquerda na rua". Ora, depois de tanta sapiência aliada a uma loquacidade inaudita, coloca-se a seguinte questão: como é que Manuela Ferreira Leite vê o Diabo vender a alma (se é que a tem) a outro Diabo? Será esta uma nova versão da lenda de Fausto, uma versão desencantada lá para os lados da São Caetano?
Compreende-se o entusiasmo de todos aqueles que abominaram os anos de Pedro Passos Coelho, precisamente agora que ainda líder do PSD se prepara para fazer parte do passado e depois do seu séquito apoiar o candidato derrotado, Pedro Santana Lopes. Compreende-se o entusiasmo dos arautos do bloco central, seja pelo acesso ao poder, seja pelos singelos negócios. Mas ainda assim espera-se alguma calma e sobretudo racionalidade. É que pedir impossibilidades como esta apregoada por Ferreira Leite do Diabo vender a sua alma (?) ao Diabo, talvez a outro Diabo é simplesmente ridículo.
Por outro lado, resta saber se haverá vontade, por parte deste PS liderado por Costa, de se unir com o PSD, sobretudo tendo em conta que esse género de união tem sido uma verdadeira sentença de morte para quase todos os partidos socialistas e sociais democratas da Europa. Mas isso pouco interessa a Manuela Ferreira Leite e a outros entusiastas pela nova situação do PSD, de resto vale tudo, até pugnar para que o Diabo (PSD) venda a sua alma (?) a outro Diabo (PS), seja lá isso o que for. Vale tudo para regressar ao poder e aos negócios.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Alguém está a preparar a despedida?

Pedro Passos Coelho que já tinha avançado que sairia da liderança do PSD, volta a partir corações, desta feita com o anúncio de que abandonará também o Parlamento. Resta saber se já haverá quem esteja a preparar a despedida.
Pesaroso com o facto de não ter chegado a um segundo mandato, isto porque a democracia funciona, o ainda líder do PSD mostrou-se invariavelmente incapaz de ultrapassar a sua condição: líder do PSD e deputado.
Depois de ter contribuído decisivamente para a vinda da troika - facto convenientemente esquecido -, Passos Coelho escolheu o pior dos caminhos: uma austeridade que postulou sacrifícios incomensuráveis para trabalhadores e pensionistas e o recrudescimento de potenciais negócios, numa espécie de eldorado para as empresas e suspeitos do costume.
Agora confrontado com a dura realidade (fora do Governo e na sombra dos sucessos do actual Executivo) Passos Coelho sai de cena, uma verdadeira inevitabilidade, sem no entanto fechar definitivamente a porta da política, infelizmente.
Dir-se-á que, à semelhança de outros que também passaram pela política, rapidamente esqueceremos Passos Coelho. Talvez não. Na verdade o país ainda hoje está a pagar a factura das suas políticas, seja com a destruição dos serviços públicos, seja com as privatizações. Passos Coelho partilha com José Sócrates uma característica: ambos são difíceis de esquecer porque as suas acções ainda habitam o presente.
Seja como for, a questão mais premente permanece: estará alguém a preparar a despedida de Passos Coelho? Existem razões que justificam a uma festa... de despedida, mas ainda assim uma festa.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Eleições no PSD

As eleições no PSD, tendo em conta os candidatos, resultam em muito pouco, ou seja quase nada. Rui Rio venceu sem surpresa as eleições. De resto, as sondagens indicavam invariavelmente a vitória do ex-Presidente da Câmara do Porto. E o que é que Rui Rio trará de novo ao partido? A ideia de um bloco central volta a ganhar força, dando particular ânimo aos negócios, ficando no entanto por se saber se a outra parte alguma vez estará disponível para voltar a dançar o tango com o PSD. Esta é a grande diferença que Rui Rio acarreta, sobretudo quando Passos Coelho e Santana Lopes recusaram essa possibilidade.
Internamente, a vida dos órfãos de Passos Coelho complica-se. Contrariamente a Santana Lopes, Rio começou, ainda antes de se saber o resultado das eleições, a enviar recados para o partido, designadamente depois de Relvas ter falado. Recorde-se que Passos Coelho era pai e Relvas mãe – ultimamente ausente, mas ainda assim mãe.
No cômputo geral, estas são as novidades que Rio traz. Porém, a mediocridade, a ausência de ideias e um vazio incomensurável, o que também ajuda e promove a ideia de um bloco central, estão lá, a par da insídia, da imagem austera que ainda tanto agrada a um certo Portugal e de um novo potencial para os negócios que vivem do Estado, deixando as migalhas do costume para quem se aproxima.
Mas nem tudo é pouco ou má notícia. Agora inicia-se um novo ciclo sem Passos Coelho. E essa é indiscutivelmente a melhor notícia dos últimos tempos.





sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Trump - o rei que transforma tudo em merda

Quem esperava o Rei Midas desengane-se, aparentemente o melhor que os americanos conseguiram arranjar foi alguém que orgulhosamente transforma tudo o que toca em merda - o Rei Trump, não num contexto mitológico, mas num pesadelo sem precedentes. 
Vem isto a propósito de mais um exemplo do que acima foi explanado e desta vez num episódio que inclui a palavra "merda", ou melhor "países de merda" (shitholes), mais concretamente: "Porque razão temos todos estas pessoas de países de merda a virem para aqui?". O Presidente americano referia-se a países como o Haiti, Salvador e países africanos, dando igualmente conta da sua preferência por noruegueses. A frase, acompanhada por outras pérolas como "para que é que queremos haitianos aqui?" ou "Para que é que queremos estas pessoas de África aqui?", foi proferida numa reunião na Casa Branca, na qual dois senadores apresentaram ao Presidente um projecto de lei migratório para a concessão de vistos a alguns cidadãos oriundos de países retirados do Estatuto de Protecção Temporária.
Curiosamente, discute-se por estes dias o estado da saúde mental do Presidente americano. Não sei se Trump está senil ou se se trata apenas de alguém com especial atracção pela idiotia, mas o facto é que, contrariamente a Midas que transformava em ouro tudo o que tocava, Trump transforma orgulhosamente em merda tudo o que toca e, se lhe for permitido, acabará o seu mandato deixando todo um país atolado em merda.

PSD: um debate decisivo

Seria suposto tratar-se de um debate decisivo aquele que teve lugar nos estúdios da TVI, no dia 10. Não terá sido o caso, tratou-se, ao invés, de um debate que nada acrescentou porque nada existe a acrescentar, existe apenas vazio de conteúdo, de ideias, de projectos, de futuro com ambos candidatos presos ao passado por não terem qualquer espécie de futuro para oferecer.
Santana Lopes cola-se o mais que pode a Passos Coelho (está a contar com a orfandade do ainda Presidente do partido para ganhar as eleições) procurando escamotear um passado pejado de falhanços, não se livrando, por muito que tente, de uma certa aura de chico-espertismo. 
Rui Rio quer parecer sério, credível, em inexorável oposição ao seu adversário, posicionado menos à direita, mas resta também o vazio que partilha com Santana, a par de uma certa artificialidade. Rio tenta sobretudo parecer mais sério do que Santana, o que, sejamos realistas, não é particularmente difícil.
Ambos querem ter a orfandade de Passos Coelho do seu lado; ambos sabem que os órfãos daquela espécie de neoliberal pode ser decisiva; ambos chegaram ao ponto de tratar Passos Coelho, o tal neoliberal de pacotilha, como uma espécie de herói nacional - isto para se ter ideia do quão a orfandade do ainda líder do partido é apetecível.
Mas e um projecto alternativo? Falou-se de reorganização administrativa do território, saúde e segurança (sem quaisquer propostas), crescimento económico (discussão meramente semântica), políticas sociais (concretamente? nenhuma). Em resumo, uma manifesta pobreza de conteúdo.
De um modo geral não existem muitas diferenças entre os candidatos, embora exista uma que salta à vista: com Rui Rio vencedor manter-se-á a sigla PSD; com Santana Lopes teremos que nos habituar à exasperante sigla PPD/PSD. E quanto a diferenças dignas de registo, estamos verdadeiramente conversados.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Desinvestimento na Saúde

Depois de anos de desinvestimento no Sistema Nacional de Saúde, por imposição externa e por se tratar de uma área particularmente apetecível para os negócios, o actual governo socialista, apoiado pelos partidos à sua esquerda, não tem vindo a repor o que foi retirado. O resultado não pode propriamente surpreender: listas de espera que continuam a ser um problema, quer para consultas, quer para intervenções cirúrgicas; serviços de urgência atolados, mais ainda no pico da gripe; displicência no que diz respeito a determinadas áreas da saúde, designadamente na saúde mental; incapacidade de resposta a doenças prolongadas e cuidados paliativos. É também neste contexto que surgem imagens de serviços de urgência repletos de gente em agonia ou até de recepções de hospitais onde são despejados doentes. 
No entanto, e apesar de importância das imagens sobretudo para um debate que já deveria ter acontecido, desenganem-se aqueles que consideram serem estes actos louváveis, sem quaisquer objectivo político, concretamente de quem promove as denúncias. Ainda assim, as imagens não deixam de tocar no essencial: quem entra num hospital corre o risco de deixar a sua dignidade à porta.
O Partido Socialista está por detrás da criação do Sistema Nacional de Saúde, ou seja tem responsabilidade acrescida e o dever moral de zelar pelo SNS e pela dignidade dos utentes. Os partidos à sua esquerda, desde logo por imperativos ideológicos, não podem baixar os braços neste particular.
Existe, porém, questões que são indissociáveis do investimento necessário no SNS: a dívida pública, os juros, as imposições externas, restando saber até que ponto será possível cumprir as imposições externas e repor o investimento no SNS, retirando, claro está, margem de lucro a quem ganha com a degradação dos serviços de saúde pública.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

PSD e o fetiche Bloco Central

A escassos dias das eleições para a liderança, o PSD é um partido à procura do seu lugar, num contexto onde o espaço já foi consideravelmente mais relevante. É também nesse sentido que se discute acordos com o PS, numa espécie de fetichismo difícil de disfarçar. Rui Rio mostra-se aberto a essa possibilidade; Santana Lopes não, afiançando não se tratar de uma "embirração pessoal", e avançando mesmo uma teoria para dar consistência à sua posição: trata-se afinal de um erro, "se os dois principais partidos vão para o governo quem é que fica de fora? Os extremos do sistema". São frases como esta que dão origem a anos de descodificação e eventualmente a novas teorias no âmbito da ciência política.
Agora um pouco mais a sério, os candidatos que concorrem pela liderança do PSD adoptam posições diferentes, pelo menos no que diz respeito a uma eventual reedição do Bloco Central. Na prática Santana Lopes procura apenas agradar à orfandade de Passos Coelho, situada à direita e com manifestas alergias a tudo o que cheire a esquerda.
É claro que fora desta equação ficam de fora os interessados sem os quais não haverá sequer uma ínfima possibilidade de reedição do tal Bloco Central, concretamente o PS que encontrou uma solução governativa que deixou de fora o PSD, com os bons resultados conhecidos. O que levaria o PS a entender-se com o PSD? O falhanço de entendimentos à esquerda? A pressão dos negócios? O Presidente da República? São todas possibilidades que só se concretizarão, alegadamente, se Rio vencer as eleições internas. Ou se Santana Lopes mudar de ideias e de teoria, coisa que não seria propriamente inédita.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

PSD: o primeiro debate

O primeiro debate entre os dois candidatos à presidência do PSD não entusiasmou nem o mais acérrimo adepto do partido. Na verdade, o debate morno, intercalado por alguns momentos quase dramáticos sem nunca o serem, contribui para a ideia de que o sucessor de Passos Coelho dificilmente será particularmente melhor do que o próprio Passos Coelho, facto que seria dramático se a mediocridade assustasse alguém no partido, coisa que não parece acontecer.
Depois de largos minutos marcados pela insipiência, Rio decidiu atacar o adversário recorrendo ao passado repleto de falhanços; o seu adversário, Santana Lopes, retorquiu recorrendo a frases melodramáticas começadas por "tu", não esquecendo porém de acusar Rio de trair o partido, vezes sem conta. E terá sido este o momento alto do debate.
Quanto ao conteúdo, alternativas, ideias, não há muito a dizer e menos a escrever pela simples e prática razão que conteúdo, alternativas e ideias andaram ausentes pelo debate, tal como andam ausentes do partido.
Em consequência, o PSD prepara o caminho da continuidade, independentemente de quem será o seu líder. A mediocridade, essa, marcará presença, resta apenas saber se acompanhada por umas frases vazias, mas aparentemente sérias de Rui Rio, ou pelo tom melodramático de Santana Lopes. 


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Emendar a mão

Tal como esperado, o Presidente da República vetou a famigerada lei do financiamento dos partidos políticos. Assim, Marcelo Rebelo de Sousa devolve ao Parlamento aquilo que havia sido cozinhado na penumbra. De resto, o Presidente justifica a sua decisão com o facto de estar em causa a "ausência de fundamentação publicamente escrutinável quanto à mudança introduzida".
O Parlamento, designadamente os partidos que estão por detrás destas mudanças têm agora a oportunidade de emendar a mão, melhorando substancialmente a lei - o que existe agora acabou por morrer. Na verdade, e mesmo que as hipotéticas alterações fossem genericamente positivas - para além do espectro político-partidário -, o secretismo e agora a ausência de explicações e a fuga para a frente de quem  à revelia dos cidadãos tomou decisões resultam numa ideia indelével: a de que os partidos políticos envolvidos procuraram legislar longe do escrutínio dos cidadãos e em benefício próprio.
Partidos como o PSD, à espera de um líder que seja qual for é contra estas alterações à lei, e Bloco de Esquerda, pouco claro neste particular, dificilmente se manterão próximos da lei que é agora devolvida.
O CDS aparece agora como o partido impoluto, longe de submarinos e figuras proeminentes como Jacinto Leito Capelo Rego - famoso por ser tão generoso com o partido - e que agora, se existisse, estaria a dar uma forte gargalhada.
A lei morreu. Seja como for, os custos de se cozinhar repastos (mesmo que não o fosse, é o que parece) para proveito próprio e às escondidas dos cidadãos tem custos: a imagem dos partidos, a sua credibilidade e, por inerência, a própria democracia,

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Se 2017 tivesse terminado a 16 de Junho e se o desinvestimento no Estado não tivesse sido tão apregoado

O Presidente da República, na sua mensagem de Ano Novo, voltou a referir, enfaticamente, a necessidade do Estado cumprir as suas funções essenciais, designadamente nas áreas da segurança e na defesa. Aliás, se o ano tivesse terminado a 16 de Junho, tudo teria sido perfeito: consolidação das contas públicas, saída do procedimento por défice excessivo; redução da taxa de desemprego, redução dos juros e da dívida, etc.
Certo. Mas impõe-se um acrescento: se o desinvestimento em áreas essenciais do Estado não tivesse sido a panaceia para todos os nossos problemas, talvez a dimensão das tragédias fosse outra. Desinvestimento e cedência de competências do Estado ao sector privado não podem ficar de fora da discussão, precisamente o que o Presidente tem feito.. A responsabilidade é do Governo por não ter desfeito o que tem vindo a ser feito ao longo de décadas, mas a responsabilidade não se pode ficar pelos lados do Executivo de António Costa. Há mais, muito mais, como é fácil depreender.
De igual modo, não deixa de ser curioso ver tanta gente que, noutros tempos apregoava a redução do Estado e naturalmente das suas funções, vir agora a terreiro fazer a defesa do contrário, sublinhando a necessidade de reforçar essas funções do Estado. E esta trágico-comédia mantém-se e está para durar, como se vê quer na direita, quer na sua criadagem presente na comunicação social.
Marcelo Rebelo de Sousa, um populista aparentemente afectuoso, continuará a bater na mesma tecla, com pequenas nuances apelidadas de reinvenções, e fará das tragédias o centro da sua presidência, sem nunca, contudo, abordar convenientemente o desinvestimento que tem vindo a ser feito no Estado e que não pode ser dissociado das tragédias.