sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Abstenção

Tradicionalmente somos pouco propensos a pensar a política, para além das habituais discussões que redundam na politiquice próxima do formato telenovela. As ideias encontram-se fora dessas discussões – a democracia (que se enriquece com o pluralismo) vive – sobrevive – sem a cidadania. Não pensamos, não discutimos, não participamos, não exigimos, não agimos.
Depois de anos de empobrecimento, do agravamento das desigualdades, do enfraquecimento do Estado Social, parte integrante de um pacto social que resultou da revolução de Abril, e do enfraquecimento da democracia, parece que nos encontramos num beco sem saída, agarrados à ideia de viver um dia de cada vez sem contemplar qualquer ideia de futuro.
Classificamos a classe política, de um modo geral, recorrendo aos adjectivos mais depreciativos que o nosso léxico comporta. Colocamos todos no mesmo saco, recusando ver que nem todos pertencem a esse mesmo saco. É de facto mais fácil simplificar dizendo que são todos iguais, eles são os responsáveis, eu nada tenho a ver com o assunto.
No fim votamos naqueles em recai boa parte das nossas críticas ou escolhemos a abstenção – a não escolha – como forma de nos livrarmos do peso da responsabilidade.
Pelo caminho, o desinteresse medra. A política – fora do contexto de politiquice – é o enfado. A comunicação social, afundada na mais absoluta mediocridade e comprometida com os poderes do costume, vai dando uma preciosa ajuda para manter tudo como está, com ligeiras variações. A bipolaridade (PS/PSD com o apêndice CDS) permite conservar resquícios de uma ilusão de mudança.
As próximas eleições serão seguramente marcadas pela a abstenção. As razões para a não escolha serão variadas, mas a principal degenerará na ideia de que são todos iguais e por conseguinte não vale a pena exercer o direito de voto.

Essa ideia de que são todos iguais e a subsequente elevada taxa de abstenção são benéficas aos famigerados partidos do arco da governação, aqueles a quem, paradoxalmente, colocamos os piores epítetos possíveis. É mais fácil e livra-nos do insuportável peso da responsabilidade.

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