segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A apatia intrínseca ao “está tudo bem”

É consensual que estamos muito longe de estar bem; sabemos que está tudo, mas agimos como se estivesse tudo bem; agimos como se tudo fosse suportável; sucumbimos à apatia do está tudo bem.
De um modo geral, vivemos bem com os atropelos à democracia e a todo o género de injustiça.
As dificuldades financeiras, o sufoco causado pelos créditos só vieram agravar um estado generalizado de apatia, de sofrimento escamoteado.
De resto, essa apatia apenas encontrou o contexto ideal: uma educação que promove a passividade, desprezando a diversidade própria da democracia; uma educação e uma sociedade que promovem o individualismo, ignorando em absoluto o motor da evolução da espécie humana: a cooperação. Por outro lado, e ainda enquadrado no já referido contexto, verifica-se um desânimo que assola sobretudo aqueles que não têm ocupação e que sentem que não têm um lugar na sociedade – a vergonha de não trabalhar, de não estudar, vergonha essa que redunda amiúde na mais inexorável ausência de participação na vida colectiva. “Colectivo”: palavra conspurcada por ideologias nefastas, esquecida, ignorada, desprezada.
A televisão – peça central no mencionado contexto – nas mãos de quem pugna pela passividade, pela apatia; televisão nas mãos de quem teme que a falsa normalidade seja colocada em causa; nas mãos dos defensores indefetíveis do status quo. Com a televisão não há lugar ao pensamento crítico; tem sido como alguns já referiram um “agente pacificador” que alimenta o medo, sobretudo o medo do outro.
E finalmente, o contexto não seria bem um contexto sem o consumismo excessivo. A publicidade nefasta, defensora da uniformização e da manipulação – mentiras para alimentar a apatia reinante, arauta do individualismo que invalida o colectivo e sentimentos associados ao colectivo como o caso da solidariedade e do bem comum.
No actual estado de apatia generalizada que tomou conta das sociedades ocidentais verifica-se que a mudança tarda de facto a chegar. Ainda assim e apesar do contexto acima descrito, acredito que a mudança chegará. Um dia. No dia em que a apatia do está tudo bem for obnubilada pelo peso da realidade.

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