Avançar para o conteúdo principal

Violência na Birmânia


Depois da morte de Aung San, que encabeçou a luta pela independência, a Birmânia vive desde então (1962) sob o jugo de uma ditadura militar. O lema do general Ne Win e posteriormente da junta militar é de uma “via birmanesa para o socialismo”. As consequências desta via para o socialismo são o colapso económico, a destruição da economia de um país rico em recursos mas cuja população vive na pobreza e o hermetismo que convém à junta militar e que condena o país ao mais completo isolacionismo. O desrespeito pelos direitos humanos completa o triste quadro da vida dos birmaneses.

Nestes últimos dias tem-se assistido a manifestações, com especial destaque para a presença de milhares de monges budistas, contra a junta militar e a favor da democracia. Sabe-se agora que essas manifestações estão a serem reprimidas com o recurso à violência, havendo já algumas mortes confirmadas. Já em 1988 a junta militar reprimiu violentamente manifestações que pugnavam pela democracia, e hoje parece que a história se repete, mas desta vez com uma visibilidade sem precedentes. Pode esta visibilidade de um problema que persiste há demasiado tempo que possa dar algum resquício de esperança a um povo que, não obstante a repressão, continua corajosamente a lutar pela democracia.

É neste contexto, que a comunidade internacional se manifesta veementemente contra a violência que recai sobre o povo birmanês. A ONU, os EUA e a UE têm reiterado a sua condenação à violência da junta militar sobre os manifestantes. Contudo, existem sempre forças de bloqueio, que se recusam em adoptar uma posição mais intransigente em relação a esta ditadura – a China (pouco apologista dos direitos humanos) e a Rússia não se juntam ao coro de vozes contra o que se está a passar na Birmânia (ou Myanmar), muito pelo contrário, a UE equaciona a hipótese de sanções, opção liminarmente rejeitada pela Rússia.

A Birmânia, apesar de décadas de repressão, de violência e de desrespeito pelos direitos humanos, não tem feito as primeiras páginas dos jornais, nem tem ocupado tempo significativo nos órgãos de comunicação social de todo o mundo, mas, parece que isso está a começar a mudar. A visibilidade que possa ser dada a esta problemática é de extrema importância para povo birmanês.

O rosto mais visível da oposição ao regime facínora da Birmânia, Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, continua a estar sob uma espécie de prisão domiciliária, e apesar de décadas de repressão, a coragem desta mulher, reconhecida internacionalmente, continua a dar esperança a um povo de que não desiste. Espera-se que a comunidade internacional faça o mesmo, não desista e que não deixe a abjecta situação da Birmânia cair no esquecimento. A presença do enviado especial da ONU na região (provavelmente no sábado) e a cedência da junta militar nesse sentido, são, apesar de tudo, um sinal positivo.

Comentários

Carreira disse…
Penso que se a comunidade internacional se mantiver de braços cruzados, o banho de sangue será inevitável.

Mensagens populares deste blogue

Fascismo

A palavra, o conceito, a ideia, são considerados por muitos coisa de um passado que já não regressa. Tudo terá morrido na primeira metade do século passado. E apesar de alguns governos, sobretudo na Europa, adoptarem o fascismo como base de governação, a UE continua existindo como se nada fosse, como se nada fosse consigo. Viktor Órban, primeiro-ministro da Hungria, e o seu partido Fidesz, aprovaram uma medida que visa criminalizar quem preste auxílio a imigrantes sem documentos e assim acabar com o trabalho das ONG. Se isto não é fascismo não sei o que será. Recorde-se que este é apenas um dos muitos atropelos do Governo de Órban aos Direitos Humanos e que a família europeia a que Órban pertence remete-se, uma vez mais, ao silêncio. Essa família é o Partido Popular Europeu. Em Itália, o ministro do Interior, o execrável Matteo Salvini, quer recensear os ciganos para expulsar os estrangeiros, mais uma lista, adiantando ainda que "quanto aos ciganos italianos, talvez t…

O maior desafio da Europa

Há uns escassos quatro anos atrás dir-se-ia que o maior desafio da União Europeia seria a crise económica. Hoje dir-se-á que o maior desafio da Europa é a questão das migrações.
É evidente que o problema económico não desapareceu, encontrando-se apenas adormecido, à espera que uma nova crise financeira o acorde. Quanto à problemática das migrações, a UE está apenas a pagar a factura de ter contribuído para a instabilidade de Estados como a Síria e a Líbia, assim como paga também a factura de ter apostado durante décadas numa política de integração acéfala e desregulada, tratando os imigrantes com um misto de paternalismo e permissividade, criando amiúde desigualdades na forma de tratamento entre cidadãos. O resultado, como não podia deixar de ser, está à vista: endurecimento das políticas migratórias, a criação e leis cujo o alvo é especifica e unicamente os imigrantes e toda uma deriva xenófoba.
Nem a propósito, o New York Times (NYT) ofereceu aos seus leitores uma report…

Incêndios e a reportagem da TVI

A TVI, num exemplo perfeito do que deve ser o jornalismo de investigação, mostrou ao país os responsáveis pelo incomensurável incêndio que devorou o Pinhal de Leiria e como esse incêndio foi premeditado. A reportagem da TVI mostra uma multiplicidade de madeireiros reunidos numa cave de um restaurante a congeminarem o incêndio que devastou o Pinhal de Leiria, num registo próprio de uma qualquer máfia. Por um lado, o Ministério Público parece mais interessado em despejar na comunicação social vídeos dos interrogatórios de José Sócrates do que em investigar e levar à justiça os verdadeiros responsáveis pelos incêndios que assolaram o país no ano de 2017. Por outro lado, não se encontra justificação para que esta reportagem tenha feito tão pouco eco nos restantes órgãos de comunicação social. Fica a ideia de que é mais agradável apontar o Governo como grande responsável pelos incêndios do que trazer à luz do dia os verdadeiros criminosos. Vale mais explorar a tese que postula a ideia de q…