quinta-feira, 22 de junho de 2017

Viver a ilusão de que o neoliberalismo é o futuro

O neoliberalismo que marca o capitalismo das últimas décadas baseou-se numa grande ilusão: o bem-estar social aliado ao crédito. Ou seja, embora os rendimentos do trabalho tenham vindo a ser consideravelmente reduzidos, o crédito permitia a manutenção quer da ilusão de bem-estar, quer do próprio funcionamento do capitalismo. 
No entanto, 2008 deu mais um contributo para que o corredor das ilusões se tornasse progressivamente mais exíguo.
Paul Mason, no seu livro "Pós-Capitalismo" faz o diagnóstico com base nas três rupturas sistémicas: climática, demográfica e, evidentemente, financeira. Segundo o autor, uma voz cada vez menos isolada, o capitalismo neoliberal ou moderno aproxima-se do seu fim. Mas a ilusão permanece; a ilusão que permite esquecer que vivemos o pior dos momentos - o de transição que vem invariavelmente acompanhada de confusão. E subjacente a essa ilusão está a ideia de que o capitalismo, apesar desta deriva neoliberal, tem pernas para andar e que a crise de 2008 foi só mais uma, fazendo parte da natureza do sistema - uma crise que já terá passado.
É neste contexto que consideramos as desigualdades e a precariedade laboral males necessários ou que a crise climática só terá, se tiver, verdadeiras implicações depois do nosso tempo de vida e que o sistema, apesar de todas as evidências, não só é sólido, como continuará a conceder-nos os níveis de conforto a que estamos habituados. Aceitamos a mercantilização e privatizações desenfreadas, ignorando o grave problema da dívida.
Os partidos de direita defendem com unhas e dentes o sistema enquanto a esquerda adapta-se, contestando o capitalismo ou fingindo contestá-lo.
Paul Mason cita o filósofo Frederic Jameson: "É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo".
Continuaremos a viver a ilusão, acreditando não existir qualquer espécie de alternativa. Vinga a ideia de que o crescimento anódino e crónico não é razão para inquietações, ignorando mesmo que quando os novos mercados secarem tudo será ainda pior.
Paralelamente, equacionar um futuro em que metade da mão-de-obra não terá trabalho é uma impossibilidade, compreensível até certo ponto.   E, sobretudo, olhamos para o outro lado quando alguém tenta demonstrar o esgotamento do capitalismo neoliberal. As alternativas? Elas virão, se o planeta o permitir.
Voltando a Mason, este avança uma ideia de pós-capitalismo com base em informação e redes (apoiando-se em exemplos como o código aberto ou a Wikipédia), com novas formas de olhar para o trabalho e para o valor, indissociável do enfraquecimento das hierarquias e dos monopólios. Um novo sistema à margem do mercado. Não esquecendo a compreensão dos "limites da força de vontade humana" nem a "sustentabilidade ecológica". Um pós-capitalismo que contará, concretamente, com a "redução das emissões de dióxido de carbono, tentativa de evitar uma crise energética e minimização do caos provocado pelos acontecimentos de natureza climática; estabilização do sistema financeiro, socializando-o, de maneira a que o envelhecimento das populações, as alterações climáticas e o excesso de dívida não se combinem para detonar um novo ciclo de expansão-recessão e provocar a destruição da economia mundial; dar prioridade às tecnologias ricas em informação no sentido de resolver os principais desafios sociais, como as doenças, a dependência da segurança social, a exploração sexual e as carências do ensino". E a tal nova visão do trabalho: "...um trabalho voluntário, os produtos de primeira necessidade e os serviços públicos serão gratuitos e a gestão económica tornar-se-á, fundamentalmente, uma questão de energia e de recursos, e não de capital e de trabalho".
Até lá, se esse dia chegar, ou qualquer coisa remotamente semelhante ou até diametralmente oposta, vamos continuando o caminho do definhamento agarrados à ilusão de que o pouco conforto que temos se poderá perpetuar no tempo. Mason pode muito bem ter desenhado uma utopia, mas é precisamente como utopia que muitas transformações começam.

Hoje em dia, a principal contradição do capitalismo moderno é entre a possibilidade da existência de bens gratuitos e produzidos socialmente em abundância, e um sistema de monopólios, bancos e governos, que lutam por manter o controlo do poder e da informação. Ou seja, está tudo impregnado por uma luta entre a rede e a hierarquia. Pós-capitalismo, 
Paul Mason, editora Objectiva.


Sem comentários: