segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Proteccionismo americano

Sem entrar em discussões sobre as vantagens ou desvantagens do proteccionismo, diga-se que foi por aqui que Trump venceu as eleições. Dito por outras palavras: Trump fez a mensagem chegar a todos os que perderam os seus empregos ou que viram os seus salários serem drasticamente reduzidos ou ainda todos aqueles que receiam, mais dia menos dia, chegar a essa situação. Tudo em consequência da deslocalização de postos de trabalho, da emergência de economias como a chinesa e sobretudo da postura das maiores empresas americanas que, com toda a desfaçatez, pagam salários miseráveis fora dos EUA e recorrem a todos os artifícios para não pagar os impostos nos EUA.
Bem vistas as coisas até não seria difícil adivinhar este desfecho: bastava olhar para o Midwest americano. Exceptuando Bernie Sanders que tinha um plano para as dificuldades crescentes de muitos americanos, mas que não chegou a vencer as primárias do Partido Democrata, restava Trump que entre uma javardice ou outra lá falava nos acordos comerciais desastrosos, prometendo trazer os postos de trabalho de regresso aos EUA. Hillary Clinton foi incapaz de balbuciar o que quer que fosse sobre um dos assuntos mais prementes da sociedade americana. O resultado: um desastre de proporções inimagináveis chamado Donald Trump, coadjuvado por um Partido Republicano maioritário que perfilhará as suas posições e políticas e ainda por um Supremo Tribunal escolhido por esse mesmo Partido Republicano. A tempestade perfeita cujos primeiros sinais de desastre já nos entram pelas casas adentro.
Trump, pouco legitimado e com uma América obviamente dividida, toma decisões estruturais a toda a hora, desdobra-se em entrevistas e tweets. O proteccionismo regressará como se viu por aquilo que foi feito com o NAFTA (que é, diga-se em bom rigor, um desastre para os trabalhadores e, à semelhança de outros acordos, nefasto para o ambiente).
Trump explorou este caminho em campanha eleitoral e cumprirá, como se vê. Resta saber como reagirão as empresas americanas que até agora esperam para ver, até porque precipitado só mesmo Trump.

Mas será também pelo lado da economia que Trump poderá comprometer o seu futuro político, designadamente o seu eventual desejo de ser reeleito. Será pela economia, designadamente através do desemprego que Trump poderá cavar a sua sepultura. Senão vejamos: nem toda a propaganda do mundo transforma o fardo do desemprego em algo promissor. Mas do que qualquer outro factor, escândalo ou política, será o desemprego a condenar Trump e a inviabilizar a sua continuação num eventual segundo mandato. Paul Krugman estima que será impossível que a criação de emprego se mantenha aos níveis do anos de Obama e que o emprego possa estar mais alto do que agora. Com o aumento do desemprego, com o falhanço do proteccionismo à moda de Trump - à bruta e sem diálogo - e com mais americanos sem assistência médica, custa a querer que este Presidente possa ser reeleito. Infelizmente, falta ainda muito tempo para essas novas eleições. Até lá assistiremos a cenas deploráveis de pessoas desesperadas nos aeroportos americanos que são impedidas de entrar no país, em função da sua origem. Cenas que nos remetem para o pior da espécie humana de que Trump é um excelente representante.

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