sexta-feira, 3 de junho de 2016

Filhos e enteados

Já se sabia que a União Europeia era desigual; já se sabia que essas desigualdades verificavam-se sobretudo na forma como os Estados-membros eram tratados; já se sabia que as referidas desigualdades estavam a acentuar-se. O que eventualmente seria menos conhecida era a desfaçatez dos mais proeminentes líderes europeus no reconhecimento da desigualdade entre Estados-membros.
Junker, Presidente da Comissão Europeia, em entrevista a um canal francês, admitiu que a França não estará sujeita a sanções, apesar de o seu défice ultrapassar os 3 por cento, simplesmente porque se trata da França. Dito por outras palavras, a França porque é a França não está sujeita às mesmas regras, como já aconteceu com a impoluta Alemanha, precisamente por não ter cumprido os três por cento.
Entre filhos e enteados, percebe-se que é quem.
Nós por cá continuaremos alegremente a fingir que fazemos parte da família, quando na verdade não fazemos. Já fomos relativamente interessantes, mas hoje somos olhados apenas como um problema - somos enteados ainda para mais problemáticos. O nosso tempo passou; o nosso mercado interno (avidamente consumista de bens produzidos e financiados pelos filhos da Europa) esgotou-se. Hoje somos uma fonte seca, um problema. 

Por cá, não discutimos a família que não nos quer. Não a discutimos quando chegámos a ser bem-vindos, não a discutimos agora que deixámos de o ser. Por cá não queremos sequer pensar no nosso lugar na família. Somos enteados, vivemos numa Europa que já nem esconde as desigualdades que ela própria promove. Não queremos saber qual o nosso lugar na Europa e no mundo, mas não faz mal, está quase a começar o Europeu de futebol onde talvez possamos despir a roupa andrajosa de enteado mal-amado.

1 comentário:

José R. B.Lopes disse...

Caríssima,
Estou totalmente de acordo com a sua constatação do triste papel que desempenhamos nesta (des)União sem qualquer tipo de rumo nem travão que acelera alegremente para o abismo. Desde o famigerado programa de "assistência", já nem devemos estranhar o desprezo e a arrogância com que somos tratados pelos putativos "lideres" europeus. Para agravar a situação só temos mandado para nos representar uma série de imbecis que mais não fazem do que se curvar vergonhosamente aos desaforos e constantes intromissões na condução do nosso destino. Não acredito que não tenhamos para nos representar, afrontando de uma forma enérgica e decisiva os "esquentadores"(junkers), os "electrodomésticos" (Schaub Lorenz) e aquela espécie de "xarope" para a tosse (Bissolvon)e mandando-os dar banho ao cão.... Como deve concordar o Directório não se pode dar ao luxo (muito menos agora) de expulsar nenhum país da zona euro, sob pena de se desmoronar como um baralho de cartas.
Desculpe-me o desabafo, mas estou cansado de ver a maneira como nos tratam.