segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Europa da vergonha

Negociações duras e uma proposta grega que surpreendeu por retomar a austeridade, depois do povo grego ter dito “não” ao acordo proposto pela Europa marcaram os últimos dias.
Vamos assistindo à constante diabolização da Grécia, forçando-se ideias derrotistas e esquecendo o papel da Alemanha, coadjuvada por países como a Finlândia, que nestes passarão a fazer parte das páginas mais negras do que resta do projecto europeu. Entre propostas vergonhosas de venda por parte dos gregos de 50 mil milhões euros em activos – e novas propostas, ou seja com mais austeridade – ou teriam que sair temporariamente (?) do euro, durante um período de 5 anos, assim se vai destruindo o que resta de uma ideia de Europa.
A comunicação social insiste em simplificar o que exige tempo para ser analisado. Segundo os principais meios de comunicação social, o plano de Tsipras ainda era pior do que o de Junker, embora o plano de Juncker fosse para 5 meses contendo 8 mil milhões de euros de austeridade e o de Tsipras englobasse 3 anos, com medidas que representam 13 mil milhões de euros de austeridade.
De fora do discurso partilhado por comunicação social e responsáveis europeus, ficaram as reformas propostas pelo Governo de Tsipras com a finalidade de combater a fraude e evasão fiscal (invariavelmente mal vistas pela troika); fora do discurso ficou a utilização de 35 mil milhões de euros de fundos estruturais que os governos anteriores não aplicaram, a par de uma proposta de acesso ao novo plano europeu de investimentos que, por ora, exclui a Grécia; igualmente de fora ficou a tão necessária reestruturação da divida ou a existência de um plano de cobertura das necessidades de financiamento da Grécia para 3 anos ao invés do plano anterior que previa dinheiro apenas para pagamento de dívida; de fora ainda ficaram o aumento de impostos sobre bens de luxo, aumento do IRS e a existência de uma cláusula de revisão de aumento do IVA para 2016 relativamente a bens que afectam os sectores mais fragilizados da sociedade; bem assim a comunicação social esqueceu a reintrodução da negociação colectiva, a recusa de privatizar o sector da electricidade, a recusa do défice zero, a redução do IVA nos medicamentos, livros e peças de teatro ou o aumento de impostos sobre o armadores gregos a par da eliminação de benefícios fiscais. Importa referir que o plano de Tsipras implicaria a saída do FMI da equação, o regresso aos mercados e a troca de dívida de curto prazo por dívida de longo prazo.
Paralelamente, o plano previa ainda a privatização (não total) dos portos e das telecomunicações, o aumento de impostos sobre a restauração e electricidade e o corte do famoso EKAS (complemento solidário de idosos), apesar da promessa de ser eliminado até 2020 (o programa começaria em 2015 e terminaria em 2018), sendo que este corte incidiria sobre pensões mais elevadas, foi sobre estes últimos aspectos do plano que comunicação social, genericamente, se debruçou.
O programa proposto por Tsipras contém austeridade e é o possível no contexto da zona euro. A Grécia precisa de tempo e estabilidade e o que recebe da Europa é pressão, intransigência e humilhação.
Depois do que se passou durante o fim-de-semana é difícil vislumbrar alguma espécie de futuro na Zona Euro. Se já se tinha percebido que a moeda única funcionava de forma deficiente e esmagava os países mais pobres enquanto o mais ricos agem como necrófagos até do ponto de vista fiscal, hoje é claro que politicamente não existe esperança para a Zona Euro e por inerência para a própria UE.

A Grécia foi só o princípio, outros se seguirão até à derrocada final. Para já a Europa humilha-se a si própria.

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