sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ela chegou

O diálogo, num futuro improvável.

Num dia como outro qualquer e, apesar da idade avançada, a chegada da morte é sempre uma surpresa.
O Político repousava no seu cadeirão depois de um almoço faustoso. As dores no braço, a dificuldade em respirar e a dor pungente no peito eram atribuídas à idade avançada. A morte, figura estereotipada e por isso livre de mais descrições, aproxima-se vagarosamente.
Morte: Estou aqui para reclamar a sua vida.
Político: Já, tão cedo? Só pode estar a brincar comigo.
Morte: Tão cedo. 86 anos já é qualquer coisa. Acredite tenho reclamado vidas consideravelmente mais precoces.
Político: Não estava à espera, só isso.
Morte: O que tem de ser, tem muita força. Vamos?
Político: Espere lá, tanta pressa para quê? Com certeza podemos encontrar aqui um entendimento.
Morte: Qual entendimento?
Político: Um entendimento no sentido de protelar a sua decisão de me levar...
Morte: Desde logo, a decisão não é minha. E depois isto não é propriamente negociável.
Político: Mas eu não estava à espera... E se nos sentarmos uns minutos, talvez seja possível chegar a um consenso...
Morte: O que é que o sr. fazia em vida? Qual era a sua profissão?
Político: Então a morte não sabe? Bem me pareceu que não sabia com quem estava a falar.
Morte: Nem tenho que saber. A minha função é apenas a de reclamar vidas. O que vocês fizeram em vida não me diz respeito, nem me interessa.
Político: Então porque perguntou?
Morte: Fiquei curioso.
Político: Com que então a morte é curiosa?
Morte: Acontece. Mas vai responder à minha pergunta ou fica para a próxima?
Político: Há uma próxima?
Morte: Nunca se sabe. Mas é só uma expressão, não comece a alimentar esperanças.
Político: Fui toda a minha vida político.
Morte: Isso explica muita coisa.
Político: Explica?
Morte: A sua conversa...
Político: Tenho conversa de político?
Morte: Não tarda muito vai começar a aldrabar-me...
Político: É essa a imagem que tem dos políticos?
Morte: Até certo ponto. E de quem é a culpa? Já levei muitos e, salvo honrosas excepções, tentam todos dar-me a volta. E os piores são aqueles políticos que também são advogados! Um inferno. Enfim, ossos do ofício.
Político: A manipulação faz parte do jogo político. Sempre foi assim.
Morte: E a mentira?
Político: Também. Mas podíamos chegar a um acordo, agindo de boa-fé e com transparência.
Morte: Meu caro amigo, chegou a uma fase do que resta da sua vida em que nenhum acordo o poderá salvar. Não há acordos, consensos e afins. Nunca ouviu dizer que na vida restam apenas duas certezas: impostos e a morte.
Político: Por falar em impostos... durante os meus mandatos procedi a reduções substanciais da carga fiscal. E se me deixar cá ficar, seguramente ainda poderei contribuir positivamente para o meu país.
Morte: Posso ser apenas a morte, mas não comece a subestimar-me. Aposto que sempre aumentou impostos, apesar das promessas...
Político: Os tempos eram difíceis, tempos de excepção. Tinhamos de salvar a nação, o senhor que lá esteve antes de mim deixou as contas públicas num pandemónio. Fizemos o que tinhamos de fazer.
Morte: Continua a querer aldrabar-me. Fizeram o que tinham de fazer? Pense melhor. À morte não se passam rasteiras.
Político: Voltando à questão que o trouxe aqui: quando é que tenho de o acompanhar?
Morte: Não me vai acompanhar. Não vamos fazer turismo. Eu vim buscá-lo e é já.
Político: Devo fazer as malas?
Morte: Como?
Político: Se devo fazer as malas.
Morte: Desista de tentar comprar tempo. Na vida muito se compra, na morte nada.
Político: Mas talvez não fosse má ideia levar um agasalho...
Morte: Não se preocupe com isso. No sítio para onde vai não faz frio.
Político: Curioso, quando passei férias em Punta Cana também julguei que não fazia frio e não se sei se tive azar, mas o facto é que apanhei duas ou três noites fresquinhas.
Morte: O sítio para onde vai nada tem a ver com Punta Cana.
Político: Posso ao menos despedir-me dos meus entes queridos?
Morte: Chega! Vamos.
Político: Para onde vamos? Espero que levem em linha de conta o serviço público que prestei ao meu país.
Morte: Leva-se muita coisa em linha de conta, mas não espere que a nossa noção de serviço público seja a mesma do que a sua: negociatas, corrupção, compadrio, favorecimentos, enriquecimento à custa dos outros e mais algumas promiscuidades não contam como serviço público.
Político: Estão a ver mal a coisa. Diga-me: aonde vamos!
Morte: Já vai perceber. E ainda lhe vou dar uma ajuda, autorizo que leve consigo um único objecto.
Político: Sim? Qual?
Morte: Uma mola.
Político: Uma mola? Que género de mola? Para quê?
Morte: Uma daquelas molas para estender a roupa, uma dessas serve perfeitamente.
Político: Não estou a perceber nada disto! Uma mola para quê? Que absurdo, que maçada!  Explique-se homem... morte...
Morte: É simples: vai perceber a necessidade da mola quando chegar ao seu destino. A mola serve para o nariz. É que por aqueles lados não se pode com o cheiro a enxofre.
Político: Pensava que o enxofre era inodoro.
Morte: A pensar morreu um burro! Experimente juntar enxofre ao fogo. Vamos?
Político: Que absurdo! Isto é um engano!
Morte: Vamos?

Morte e Político acabam por caminhar lado a lado, em silêncio. Finalmente.

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