Avançar para o conteúdo principal

Imaginemos

Façamos o seguinte exercício: acordamos uma manhã com a notícia que o país deixou de ter défice e dívida. Imaginamos logo a reacção de políticos a chamar para si a responsabilidade por essa espécie de milagre e a reacção de um país que respira de alívio.
Neste cenário hipotético, pensar-se-ia que uma parte significativa dos nossos problemas estariam resolvidos. Porém, mesmo que esse cenário viesse, miraculosamente, a concretizar-se, o país continuaria a deparar-se com dificuldades de relevo, impeditivas do tão almejado desenvolvimento. É precisamente deste ponto de vista que se percebe a total ausência de um projecto, de um desígnio, num contexto de uma inexorável inexistência de visão estratégica.
O dinheiro ou a ausência dele não justifica tudo, no caso em apreço essa premissa consegue ser ainda mais verdadeira. Senão vejamos: a Justiça afundada numa mais do que evidente ineficácia; a complexidade e permanente mutabilidade do contexto fiscal; o menosprezo e pequenez com que se olha para a importância da cultura; as constantes alterações no sistema educativo; a organização e funcionalidade da Administração Pública; a corrupção e a incapacidade da justiça a fazer o seu combate; o compadrio tão característico; a promiscuidade entre poder político e poder económico; a tibieza do sector empresarial português; a inexistência de tecido produtivo. Só para citar alguns exemplos de verdadeiros óbices ao desenvolvimento do país que permaneceriam, com ou sem défice; com ou sem dívida.
De um modo geral, trata-se de um conjunto de opções, escolhas, estratégia. Estratégia essa que este Governo está longe de possuir. Imaginemos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...