terça-feira, 19 de abril de 2011

Sentido de responsabilidade e coerência

A intervenção do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e do FMI em Portugal não pode ser do agrado de ninguém. Na verdade, esta intervenção apelidada por alguns de "ajuda" dificilmente terá em conta o tão necessário crescimento económico, pugnando antes pelo pagamento aos credores e abrindo o que resta de vários sectores portugueses ao capital. De facto, tenta-se corrigir erros e excessos recorrendo a receitas antigas e pouco eficazes, ironicamente as mesmas que fazem parte da cartilha neoliberal que nos trouxe até esta dificil situação.
O sentido de responsabilidade e a coerência podem não andar forçosamente de mãos dadas. PCP e Bloco de Esquerda preferiram não integrar reuniões com as ditas entidades externas, num claro exercício de coerência. Resta saber se do ponto de vista mais prático, não seria de uma enorme proficuidade que esses partidos integrassem as negociações. De facto, percebe-se a coerência dos partidos em questão, mas é igualmente verdade que a Comissão Europeia, BCE e FMI já estão em Lisboa e seria importante que as negociações contassem com os partidos. De resto, não seria útil que esses partidos integrassem as negociações para lutar no sentido que as políticas que advogam fossem levadas em conta? Ficar de fora traz que benefícios? Para além da coerência.
Sentido de responsabilidade tem faltado aos dois maiores partidos em Portugal que se entregaram à tentação de fazer estragos um no outro para receberem benefícios nas próximas eleições. Erro crasso. Hoje, mais do que nunca seria importante prestarem-se ao sentido de responsabilidade ao invés de se prestarem a tristes figuras com o objectivo de governar sabe Deus o quê, quando as políticas, uma grande parte delas será determinada por entidades externas.
O sentido de responsabilidade nunca foi apanágio do actual Governo, agora em gestão. Por muito que as escolhas para o próximo dia 5 de Junho sejam diminutas, a verdade é que não se compreenderá uma hipotética reeleição de José Sócrates. Para além dos exasperantes exercícios de arrogância e de pouco à-vontade com a própria democracia, quem nos governou ao longo destes últimos seis anos é responsável directo pelo actual Estado do país. É responsável pela ausência de crescimento económico, é responsável pela megalomania que tanto custou ao país, é responsável pela criação de ilusões que de um dia para o outro se desvanecessem para dar lugar a uma dura realidade. Se quisermos olhar para o concreto, importa olhar para o Estado miserável da Justiça, para a complexidade kafkiana da Administração Pública ainda e sempre dependente da burocracia. Além do compadrio, da corrupção e das relações sempre promiscuas e nojentas entre poder político e poder económico. Pelo caminho a tão necessária transparência foi sempre ignorada.
É evidente que José Sócrates não é o único responsável pela situação do país. Quem governou o país antes de José Sócrates não fez o trabalho que deveria, entregando-se a políticas fáceis, do imediato e sem retorno. Por outro lado. não podemos esquecer a voracidade e as vistas curtas de uma União Europeia cujos líderes se venderam às maravilhas dos mercados, não percebendo que o alvo desses mesmos mercados é o próprio Euro e que se não se lutar contra os mesmos, a moeda única terá os seus dias contados ou passará a contar com meia-dúzia de países. Num mundo em que se fragiliza as democracias em troca da soberania de mercados sem rosto e sem um pingo de ética.
Todavia, José Sócrates tem a sua quota-parte de responsabilidade. Não queria governar com o FMI, mas recandidata-se para governar precisamente com o FMI. Nem coerência, nem sentido de responsabilidade. Não merece mais confiança, quando em 2009 já se tinha percebido isso mesmo.

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