Avançar para o conteúdo principal

Flexibilização, desígnio nacional

A difícil situação da economia portuguesa poderia ser atenuada através da redução da despesa, mas também através do crescimento económico. A despesa sai praticamente incólume e o crescimento é ameaçado pela ausência das reformas estruturais.
É no contexto das reformas estruturais que se insere a urgência de se flexibilizar a legislação laboral em prol da produtividade e da melhoria da nossa competitividade. Acredita-se que se fragilizar ainda mais a posição dos trabalhadores – num país que conta com quase dois milhões de precários – o país crescerá economicamente. Este discurso torna-se ainda mais intragável num país que assentou a sua economia em baixos salários, que faz da precariedade uma inevitabilidade, num país que a legislação laboral nem sequer é cumprida, até pelo próprio Estado, como era o caso do recurso aos falsos recibos verdes.
É indubitável que são necessárias reformas estruturais, designadamente no âmbito da Justiça, da Educação e da Administração Pública. Seria mais importante que se sublinhasse os óbices da Justiça ao desenvolvimento do país, seria determinante que se discutisse as incongruências do sistema fiscal que retiram credibilidade à nossa economia. Por que não discutir-se o sistema burocrático que inviabiliza o crescimento económico? Ou o mau funcionamento da Administração Pública?
Por outro lado, sabe-se que baixa formação dos recursos humanos retira competitividade à nossa economia, mas importa não esquecer as carências de formação dos próprios empresários, designadamente nas PME’s. De resto, foram dadas tantas oportunidades para as empresas se modernizarem, e quantas é que efectivamente se modernizaram? Existindo ainda outros factores a levar em conta quando se fala da competitividade da economia: a organização das cidade e periferias que roubam horas diárias dos trabalhadores em deslocações; má gestão de tantas empresas; e, amiúde, a baixa produtividade verificada em empresas que é fruto do tratamento pouco condigno dado aos trabalhadores, fruto da instabilidade permanente, fruto da chantagem com o desemprego. Quem é que nestas condições consegue ser produtivo? Não seria mais inteligente apostar no bem-estar dos trabalhadores de modo a conseguir incrementos de produtividade? A resposta ainda é mais negativa num país de vistas curtas, que pensa no lucro mais imediato, sem visão estratégica e sem um conceito de futuro. Vale apenas o dia de hoje.
Num país em que os partidos com assento parlamentar mostram uma ausência confrangedora de ideias para solucionar os problemas do país, já se vislumbra quem vai aparecer como salvador da Pátria, mostrando a falsa inevitabilidade de ser necessário reduzir o Estado Social, enquanto se operam mudanças profundas na Constituição da República Portuguesa e mostrando também que uma maior flexibilidade do trabalho é um desígnio nacional que nos permitirá crescer e ultrapassar os problemas. E se for necessário, invocar-se-ão estudos da OCDE que apontam nesse sentido. Pelo caminho vai deitar-se por terra décadas de conquistas sociais e assistir-se-á a um assustador retrocesso social.
Por todas estas razões importa estar atento e não comprar o velho discurso da inevitabilidade. É possível o país sair dos problemas sem se comprometer o Estado Social, sem se deixar os trabalhadores ainda mais desprotegidos, sem por em causa a Constituição.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...