
As expectativas que se cria em torno das eleições que decorrem num país sob o jugo de um autocrata, podem sair totalmente goradas. A ideia de que as eleições angolanas poderem ser um exemplo para todo o continente africano só é viável se as mesmas tiverem lugar dentro da normalidade democrática de qualquer processo legislativo. Essa normalidade pressupõe a transparência do acto eleitoral. Ora, estas serão as primeiras eleições desde 1992, altura em que o processo eleitoral falhou. Mesmo tendo em consideração uma mudança no contexto político angolano – o fim da guerra civil –, dificilmente se poderá considerar que as eleições em Angola poderão ser um exemplo para toda a África.
De um modo geral, seria profícuo se a mudança que poderia advir das eleições favorecessem o povo angolano que, na sua maioria, se vê privado de ter uma vida condigna. Nestas circunstâncias, a alternância de poder é condição decisiva para acalentar as esperanças do povo angolano. Honestamente, não se pode estar à espera que o regime encabeçado por José Eduardo dos Santos venha a proceder de forma diferente daquela que tem adoptado, resvalando para a cleptocracia.
É evidente que o passado de Angola, repleto de divisões, não é o melhor contexto para que ecluda uma reaproximação. Recorde-se, a propósito, o passado do partido do Presidente Eduardo dos Santos, o MPLA apoiado pela URSS, detentor das riquezas petrolíferas, e apoiado militarmente por Cuba; enquanto a UNITA, de inspiração maoísta, procurou apoios no Ocidente e na África do Sul, enquanto dominava o negócio dos diamantes.
Mas o fim da guerra proporciona o palco ideal para a reconciliação e para a construção de um país mais igual, embora a guerra já tenha conhecido um fim há mais de cinco anos. Resta saber se isso se coaduna com a existência de um regime cleptocráta, e se esse regime vai permitir que as eleições decorram dentro da normalidade.
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