Avançar para o conteúdo principal

Eleições no Paquistão


Os resultados das eleições no Paquistão mostraram claramente que os paquistaneses não estão com o Presidente Musharraf. Aliás, as exigências para que o Presidente renuncie ao cargo têm subido de tom. O PPP (Partido do Povo do Paquistão) de Benazir Bhutto e o Partido da Liga Muçulmana de Sharif, também ex-primeiro-ministro, foram os grandes vencedores destas eleições. A possibilidade de coligação dos dois partidos, não obstante as nítidas divergências, parece ser muito provável. Até porque essa é uma das ilações a retirar dos resultados eleitorais – o povo paquistanês quer uma governação destes partidos contra Musharraf.
O Presidente Musharraf tem estado debaixo de fogo por várias razões: por um lado, a estreita relação com EUA na luta contra o terrorismo desagradou a muitos paquistaneses; por outro lado, as questões internas, designadamente a imposição de um estado de emergência, a prisão domiciliária de juízes do supremo tribunal, as alterações na Constituição levadas a cabo por Musharraf, e as questões económicas, em particular a generalizada de preços enfraqueceram o Presidente Musharraf. Os paquistaneses, com estas eleições, deram um sinal claro de que querem o afastamento do general Musharraf.
Mas estas eleições tiveram um resultado muito positivo. Os partidos extremistas sofreram um duro revés. Os paquistaneses demonstraram que não estão do lado de partidos islamistas que apregoam o radicalismo. Este é, seguramente, o sinal mais positivo que advém dos resultados eleitorais. Um sinal de esperança para o Paquistão, para a região, e naturalmente, para o mundo.
Em bom rigor, o cenário político paquistanês ainda está longe de estar consolidado. Em primeiro lugar, importa perceber se Musharraf fica ou sai, e se fica, se é possível exercer o cargo de Presidente com um parlamento hostil. Mas ainda antes disso, os partidos vencedores das eleições terão de afastar as divergências ou pelo menos encontrar uma plataforma comum para poderem governar o país. A pobreza, a corrupção, e o radicalismo islâmico – com a ainda forte influência talibã – são temas que fazem do entendimento entre os dois partidos uma necessidade premente. Além do mais, resta saber se ambos os partidos convergem no sentido de pugnar pelo afastamento de Musharraf – o partido do ex-primeiro-ministro Sharif, tem advogado o afastamento do Presidente como sendo imprescindível.
De qualquer forma, espera-se que as eleições possam resultar na governabilidade efectiva do Paquistão, com ou sem Musharraf. Uma coisa é certa: Benazir Bhutto foi seguramente a grande vencedora destas eleições; os paquistaneses prestaram-lhe a melhor homenagem possível – através da democracia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Fim do sigilo bancário

Tudo indica que o sigilo bancário vai ter um fim. O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda chegaram a um entendimento sobre a matéria em causa - o Bloco de Esquerda faz a proposta e o PS dá a sua aprovação para o levantamento do sigilo bancário. A iniciativa é louvável e coaduna-se com aquilo que o Bloco de Esquerda tem vindo a propor com o objectivo de se agilizar os mecanismos para um combate eficaz ao crime económico e ao crime de evasão fiscal. Este entendimento entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista também serve na perfeição os intentos do partido do Governo. Assim, o PS mostra a sua determinação no combate à corrupção e ao crime económico e, por outro lado, aproxima-se novamente do Bloco de Esquerda. Com efeito, a medida, apesar de ser tardia, é amplamente aplaudida e é vista como um passo certo no combate à corrupção, em particular quando a actualidade é fortemente marcada por suspeições e por casos de corrupção. De igual forma, as perspectivas do PS conseguir uma ma...

Mais uma indecência a somar-se a tantas outras

 O New York Times revelou (parte) o que Donald Trump havia escondido: o seu registo fiscal. E as revelações apenas surpreendem pelas quantias irrisórias de impostos que Trump pagou e os anos, longos anos, em que não pagou um dólar que fosse. Recorde-se que todos os presidentes americanos haviam revelado as suas declarações, apenas Trump tudo fizera para as manter sem segredo. Agora percebe-se porquê. Em 2016, ano da sua eleição, o ainda Presidente americano pagou 750 dólares em impostos, depois de declarar um manancial de prejuízos, estratégia adoptada nos tais dez anos, em quinze, em que nem sequer pagou impostos.  Ora, o homem que sempre se vangloriou do seu sucesso como empresário das duas, uma: ou não teve qualquer espécie de sucesso, apesar do estilo de vida luxuoso; ou simplesmente esta foi mais uma mentira indecente, ou um conjunto de mentiras indecentes. Seja como for, cai mais uma mancha na presidência de Donald Trump que, mesmo somando indecências atrás de indecência...