Avançar para o conteúdo principal

A importância de se discutir a Europa

Muito se tem discutido a pertinência de um referendo sobre o Tratado Reformador, ou para muitos sobre o irmão gémeo do defunto Tratado Constitucional. Já aqui se disse que o referendo serviria para aproximar os cidadãos da União Europeia e que a inexistência desse referendo poderá lançar uma maior desconfiança e um maior desinteresse sobre a UE. O argumento que veicula a ideia de que o referendo é uma inutilidade e mais a mais quando existe um profundo desconhecimento e desinteresse sobre a UE só perpetua o desfasamento entre as instituições europeias e os cidadãos.
Discutir a Europa, e no caso concreto a União Europeia tem toda a importância na medida em que permite aos cidadãos se sentirem mais próximos de um conceito que para muitos é demasiado vago. A UE só pode ser construída a partir de um sentimento de pertença dos seus cidadãos, não querendo com isto diminuir as várias nacionalidades que fazem parte da UE. E esse sentimento de pertença é indissociável do conhecimento mais aprofundado da União Europeia. Incorre-se no erro de pensar uma Europa sem a participação e interesse dos seus cidadãos.
É também por esta razão que se tem defendido a possibilidade de um referendo que seria naturalmente acompanhado por um debate mais alargado sobre o Tratado de Lisboa e, claro está, sobre a União Europeia. Infelizmente, essa possibilidade esgotou-se, mas ainda mais grave do que isso é assistir à indiferença ou até mesmo a algum regozijo de quem acha que o país tem mais do que fazer do que perder tempo com referendos. Em primeiro lugar, toma-se os referendos por iguais, independentemente do assunto que seria alvo de consulta popular; em segundo lugar, quem é apologista da ratificação por via parlamentar não defende qualquer discussão sobre esta matéria; e por último, é curioso verificar o menosprezo que alguns sentem relativamente aos cidadãos deste país quando afirmam que o povo está mal preparado, desconhece, não tem interesse, nem tão-pouco sentirá a necessidade de conhecer esta matéria ou até mesmo existe uma incapacidade generalizada em perceber assuntos tão complexos. Têm sido passados inúmeros atestados de ignorância justificando-se deste modo a improficuidade do referendo.
Por outro lado, também é extemporâneo achar-se que só os que são contra o Tratado é que defendem a possibilidade do referendo. É perfeitamente possível não se ser contra o Tratado de Lisboa, e simultaneamente pugnar-se pela clarificação do mesmo e pela participação dos cidadãos na construção da Europa.
Enfim, espera-se apesar de tudo que o assunto mereça uma discussão alargada, até porque estamos a falar de um Tratado que vai ter claras implicações na vida de todos nós. Assim, importa discutir o seguinte:

a) De que forma é que a criação de um Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Segurança poderá contribuir para a uniformização da política externa da UE, ou pelo contrário é mais um cargo carregado de simbolismo e desprovido de utilidade;
b) As decisões por maioria qualificada, ou seja 55 por cento dos Estados (15) ou 65 por cento da população poderá ou não reforçar a posição dos Estados mais poderosos;
c) O Conselho Europeu, agora com a decisão de eleger um Presidente, por dois anos e meio, sai reforçado com este Tratado, e de que modo é que esse Presidente vai conciliar as suas funções com o Alto Representante;
d) A comissão sai a perder com o Tratado, o mesmo não acontecendo com o Parlamente e com o Conselho, isto é ou não prejudicial para o nosso país, sê-lo-á no processo de negociação?
e) Quais as competências exclusivas da União Europeia e em que medida isso afectará as competências nacionais;
f) Quais as competências partilhadas da UE e como se vai processar essa partilha de competências;
g) O Tribunal de Justiça sai deste Tratado com mais poderes, impactos na justiça dos vários Estados-membros;
h) O conceito de cidadania na União Europeia sofre alterações?
i) Este Tratado significa um passo em frente no sentido do federalismo?
j) Este Tratado acentua a matriz neoliberal da UE? As preocupações com o emprego, a protecção social, a educação e a saúde (expressas no artigo 7º.) são letra morta ou vão consubstanciar-se em medidas concretas? O Tratado de Lisboa não poderia ter ido mais longe em matéria de coesão social?

Estas são apenas algumas questões possíveis numa discussão sobre o Tratado Reformador e naturalmente sobre a Europa. Dir-se-á que o esclarecimento é possível depois de uma leitura do Tratado, mas esse argumento é falacioso porque se há um factor que já todos percebemos é a complexidade do próprio Tratado. Mais uma razão para haja lugar a esclarecimentos. Não havendo a possibilidade dos cidadãos se pronunciarem sobre o Tratado, que pelo menos se promova uma discussão sobre o mesmo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...