Avançar para o conteúdo principal

Greve Geral da função pública

Hoje, sexta-feira, é dia de greve da função pública. Não se pretende aqui alinhar na discussão comprometida dos números, até porque essa é uma discussão que não é nova e cujo objectivo é mostrar quem ganhou a batalha, nem que para isso se recorra à batota.

Porém, a questão essencial desta greve nem é tanto saber se o aumento de 2,1 proposto pelo Governo tenha sido a razão que esteve subjacente à união dos sindicatos e à convocação desta greve. A questão essencial é que nem o Governo empreendeu as reformas que tanto enalteceu como necessárias, nem os funcionários públicos – devido à inexistência dessas reformas – saíram incólumes da crise que se instalou, com consequências ao nível do poder de compra, da precariedade do trabalho, do retrocesso do bem-estar.

É este pano de fundo que torna esta greve caricata, não no sentido dos trabalhadores, mas no falhanço das reformas do Governo. Com efeito, o actual Executivo conseguiu a proeza de falhar as reformas essenciais na Administração Pública, mas não foi capaz de impedir que os funcionários públicos sentissem um crescente descontentamento. Em última análise, poder-se-á afirmar que o descontentamento dos funcionários públicos é consequência das medidas avulsas do Governo, mas então pergunta-se: e quando vier a tão necessária reforma da Administração Pública, como vai ser? Ninguém pode honestamente afirmar que tudo está bem como está.

Por ocasião da greve geral da função pública, o líder da CGTP, Carvalho da Silva, insurge-se, numa entrevista no jornal Público, contra aqueles que acusam os sindicatos serem anacrónicos. Mas como pode o líder do sindicato que anda a reboque do partido mais anacrónico do sistema político-partidário português – o PCP – dizer isso? O líder da CGTP esquece-se da defesa que o sindicato que representa faz dos interesses instalados, mesmo sendo dos trabalhadores; esquece-se que em muitas matérias internacionais a CGTP nem sequer alinha com as confederações internacionais de sindicatos – a isso chama-se o quê? Anacronismo, intransigência desmesurada e cegueira ideológica que impede a CGTP de perceber que o mundo está em constante mutação, e que os sindicatos não podem fugir a essas mudanças. E talvez se devesse pensar se não se estará errado, quando se verifica incessantemente que se está sozinho e longe de todos os outros. Possivelmente o próprio Carvalho da Silva, embora tenha vindo a público mostrar a seu repúdio por quem considera os sindicatos anacrónicos, partilhe essa mesma opinião quando olha atentamente para o seu sindicato. É preciso assimilar a ideia de que para se combater as injustiças que advêm do neoliberalismo, é preciso fortalecer os sindicatos, com novas ideias, com abertura, com rejuvenescimento na forma de olhar para o mundo; só deste modo se pode encontrar um equilíbrio profícuo. Não é seguramente com o anacronismo – palavra tão incómoda para o líder da CGTP.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...