Avançar para o conteúdo principal

A grande escola

É sobejamente reconhecido que o maior fracasso, em Portugal, dos últimos trinta anos é a educação. E mais, já foram feitas todas as análises que indicam o porquê desse fracasso. Hoje é comummente aceite (exceptuando nos gabinetes ministeriais) que o facilitismo, a indisciplina, os programas desajustados, a promoção da irresponsabilidade, a hostilização dos professores são factores associados a esse enorme fracasso chamado educação. Ora, o falhanço da educação não é, de modo algum, indissociável do falhanço do país. A escola tradicional não produz os resultados vaticinados pelo Governo que acredita convictamente estar a dar o melhor rumo à educação.
Mas existe uma outra escola que é amiúde menosprezada, pelo menos nestes precisos termos. Essa escola é a televisão. De um modo geral, a ideia até nem negativa só por si, porém, as disciplinas que são leccionadas nessa escola é que causam alguma preocupação pelos resultados que daí advêm – os concursos, as telenovelas, os reality shows, etc. são o cerne do que é leccionado pela grande escola. Infelizmente é esta escola que se substitui não só à escola tradicional, mas também a outras actividades que também podem ter a si associado o prazer, mas que têm o grave inconveniente de nos fazer pensar.
O país vive dependente do Estado e parece ter dificuldades em existir à margem dele – neste contexto, a cultura, o conhecimento, a informação, apesar de existirem separadamente do Estado, são demasiadas as conexões.
A consequência mais notória da transversalidade da grande escola é o seu contributo, que deriva da natureza do que é leccionado, para o estado de inércia que assola um país que vive com pena de si próprio. Não raras vezes ouvimos que tudo está errado, que o Governo não é incapaz de mudar o país, que Espanha é o novo oásis, sem que nada disto seja fundamentado. Aliás, os queixumes são generalizados, mas a incapacidade em mudar a situação é por demais evidente. Com efeito, a grande escola dá um péssimo contributo para que o acto de pensar, e sem esse acto não há ideias, não há lugar a possíveis soluções, mas tão-só há lugar à inércia e à resignação.
Por outro lado, a grande escola dá um enorme contributo para a estreiteza dos horizontes de quem a frequenta. E deste modo, até é mais fácil governar um povo cujos horizontes sejam limitados, cuja ambição seja diminuta. Não se duvide que a grande escola vem preencher um vazio que poderia ser preenchido de muitas outras formas, mas talvez o esforço necessário para empreender essa tarefa não valha a pena.
A televisão é essencialmente entretenimento, não será tanto no caso em questão: esta é a plataforma por excelência da informação, das opiniões e até da propaganda política. Não é por acaso que os leitores de jornais de referência têm vindo a diminuir assustadoramente. Tudo é substituído pela instantaneidade, pela ausência de esforço, pelo voyeurismo, pela inanidade. E se na escola tradicional estes elementos já conquistaram o seu espaço, por que haveria de ser diferente na grande escola que se apresenta como veiculo de entretenimento e alguma informação, sempre recusando a sua natureza pedagógica? A televisão encontrou em Portugal as condições para crescer e ser influente – o desprezo pela cultura, a fraca qualificação dos recursos humanos, a subserviência mental que insiste em não abandonar um país que rejubila com a sua dependência do Estado todo-poderoso.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...