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Reminiscências da guerra-fria

O Presidente Russo, Vladimir Putin, fez declarações inquietantes por altura da cimeira Europa-Rússia. Nessas declarações Putin faz uma comparação entre a intenção americana de instalar um escudo antimíssel na Europa e a crise de 1962 em Cuba que quase culminou com uma guerra nuclear. A comparação entre uma situação e outra é estapafúrdia, para não ir mais longe. Ora, tanto mais é assim que a intenção americana prende-se com objectivos de protecção e não objectivos bélicos; além disso, a Europa beneficiaria com a instalação de um escudo antimíssel. A crise em Cuba no principio dos anos 60 tinha uma natureza bélica e de provocação.

Por um lado, podemos encarar estas declarações de Putin como sendo apenas uma manobra de retórica com o intuito de assumir uma posição prevalecente. Mas por outro lado, estas observações inserem-se num contexto de hegemonia russa e de provocações deste Presidente com tiques czaristas.

Não são apenas as perseguições internas, com manifesto desrespeito pelos direitos humanos, que nos devem inquietar; a atitude provocatória e sobranceira de uma Rússia que ainda se julga imperial, não é um bom augúrio para as relações internacionais.

Na verdade, a Rússia procura a todo o custo recuperar a dimensão e peso político do passado. Mesmo que ainda possua um território vasto, procura ainda assim, de forma incessante, alargar a sua esfera de influência a outros países que outrora fizeram parte da União Soviética. E mais: não se trata apenas de uma questão de influência, por vezes a ingerência em assuntos internos de outros países (na Ucrânia, ou nos países da Ásia Central) é visível e preocupante.

O objectivo de Putin é recuperar o estatuto perdido da Rússia imperial. E num quadro de emergência de novas potências quase com dimensão mundial, a Rússia procura a todo o custo um espaço nesta nova dinâmica geo-política.

Por fim, as reminiscências da guerra-fria (pesada e recente derrota na mente dos russos) inserem-se num contexto de procura da hegemonia russa. Esta procura não vai parar, e agravar-se-á num futuro em que a dependência energética não parece sofrer qualquer abrandamento, pelo contrário. A Rússia adopta esta postura de alguma intransigência e irascibilidade – muito senhora do seu nariz – porque prepara terreno para ocupar um lugar de destaque nas relações geo-políticas. A questão energética e a questão nuclear são trunfos de peso. A incógnita reside em saber até onde vai a vontade hegemónica da Rússia. Manter-se-á contida nas suas fronteiras ou não?

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