
A pequenez das ideias é um facto recorrente no nosso país, por conseguinte, não se está propriamente a dar uma novidade. Mas esta semana voltamos a assistir a um débil exercício intelectual com declarações que indicam a “necessidade” de se conter aumentos salariais – designadamente no que diz respeito ao aumento do vergonhoso salário mínimo nacional –, e à possibilidade de ser acabar com alguns dos feriados que fazem parte do calendário. Um putativo representante máximo do sector têxtil presenteou o ministro Manuel Pinho com estas ideias para aumentar a competitividade do sector.
Assiste-se novamente à pequenez das ideias de que padece alguma classe empresarial (havendo, felizmente, notáveis excepções), mas fica novamente em evidência a quase total ausência de visão estratégica de alguns empresários. É curioso verificar que o que sobressai deste inúteis encontros entre ministros incipientes e empresários desprovidos de ideias é invariavelmente a ideia de que é necessário aumentar a competitividade do sector, mas à custa dos trabalhadores.
A história é sempre a mesma: Portugal não é competitivo devido ao baixo índice de produtividade, e a culpa é quase exclusivamente dos trabalhadores. Ou porque trabalham pouco (quando na verdade muitos cumprem horários desumanos), ou porque o nível salarial comporta um custo elevado para as empresas (quando os salários são, na maior parte dos casos, embaraçosos), ou porque os trabalhadores têm férias e feriados a mais (mas na verdade, os trabalhadores não são mais produtivos devido a outras razões, e utilizar este subterfúgio dos feriados é mais uma vez insistir na velha obtusidade da quantidade em detrimento da qualidade).
Ao invés de se perder tempo com estas incongruências, seria mais profícuo que se procurasse determinar quais são exactamente as causas da baixa produtividade e encontrar soluções a curto e médio prazo para esse cenário negativo para a economia portuguesa. Procurar saber qual é a influência da deficiente formação de alguns empresários que estão à frente de muitas empresas portuguesas, ou procurar formas de apostar efectivamente na qualidade da formação dos trabalhadores, saber retirar ilações do tempo que se perde, nas grandes cidades, até chegar ao trabalho (uma melhor rede de transportes públicos e melhor organização das cidades poderiam ser um bom princípio). Da mesma forma, a modernização das empresas, a aposta na inovação aliada à qualidade, a aposta no marketing, o estudo dos mercados, o empreendedorismo são também factores que determinam a competitividade.
Mas como sempre, em Portugal, não se procura desenvolver um trabalho de fundo que permita um aumento da competitividade. Prefere-se insistir na culpabilização dos trabalhadores por todos os males das empresas. Quando se continua a insistir em métodos de gestão obsoletos, não percebendo que isso é determinante para o fracasso das empresas. Por outro lado, uma maior flexibilidade das leis laborais não pode ser logo rejeitada por alguns sindicatos. A procura de um equilíbrio nesta matéria é essencial para a sustentabilidade das empresas, e subsquentemente dos postos de trabalho.
Reconhece-se, no entanto, que a deficiente qualificação dos portugueses e a elevada carga fiscal para as empresas são óbices claros à competitividade. Mas, de um modo geral, é possível atacar-se os problemas centrais, sem se atacar invariavelmente os trabalhadores portugueses. Mas para isso, é preciso primeiro saber identificar e reconhecer esses problemas – demonstrando alguma honestidade intelectual. O que é raro acontecer.
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