sábado, 13 de outubro de 2007

A crise real

Não obstante a boa notícia que se prende com as contas do défice, a crise real persiste e não dá sinais evidentes de vir a desaparecer nos próximos tempos. Se por um lado, a existência de um défice de 3 porcento dá um forte contributo à credibilidade da economia portuguesa e está em consonância com o exigido por Bruxelas, por outro lado, não se pode escamotear a sufocante crise que se entranhou na vida da esmagadora maioria dos portugueses. A boa notícia do cumprimento desta meta orçamental é, pois, indissociável do contexto em que ela surge. Congratulamo-nos com a boa notícia, mas isso não quer dizer que se possa ignorar a realidade difícil da vida dos portugueses – a crise real com que todos nós, uns mais do que outros, nos confrontamos diariamente. E é com este pano de fundo que importa relembrar e sublinhar essas dificuldades.
Por onde quer que os cidadãos deste país se virem não vêem sinais de outra coisa que não seja de uma crise que se instalou em Portugal. Há demasiados portugueses a viverem na primeira pessoa o drama do desemprego e da ausência de esperanças. Por outro lado, a perda de poder de compra é um facto, também ele, incontornável. Além disso, o país vive num impasse em matéria salarial que tem consequências óbvias ao nível do endividamento das famílias, facto que as torna vulneráveis às crises.
Mais ainda, convém não esquecer a insipiência das reformas levadas a cabo pelo Governo, pelo menos no que diz respeito às reformas essenciais ao desenvolvimento sustentável do país. A Administração Pública continua, e parece que vai continuar indefinidamente, a marcar passo – a ineficiência e o peso da mesma representam um óbice consensual no que diz respeito ao tão almejado e prometido desenvolvimento.
Do mesmo modo, na área da Saúde, a preocupação do Governo tem sido apenas a parcimónia orçamental. E se esta já era uma área débil, é cada vez mais evidente que o caminho será invariavelmente angustiante para quem tiver a necessidade de recorrer aos Serviço Nacional de Saúde. A perda clara de qualidade de vida de muitas populações é um argumento oneroso e irrefutável que sustenta esta tese.
A Justiça quase dispensaria qualquer comentário, mas torna-se impossível não referir a sua morosidade e ineficácia. Se uns advogam a existência de corrupção mais ou menos dissimulada, outros relembram-nos processos infindáveis e intrincados. No meio ficam as vítimas de crimes abjectos que parece viverem num país que se dá relativamente bem com a impunidade. E em matéria de segurança, não haverá muitos portugueses a considerarem normal a torrente de crimes que invadem diariamente a comunicação social. Já para não falar daqueles que são vítimas dessa criminalidade. E se nos quisermos aventurar pelos meandros da educação teríamos matéria para continuarmos a referir incongruências e falhanços sem fim à vista.
Apesar de algumas boas notícias no plano económico, acompanhadas, é certo, por muitas dúvidas e incertezas, não é possível ignorar o facto de haver ainda muito por fazer. Nem tão-pouco podemos esquecer a crise real que afecta a vida de muitos portugueses que vivem na primeira pessoa uma crise que parece interminável. Por conseguinte, espera-se que as boas notícias que surgiram por estes dias representem o princípio de mudanças pelas quais todos ansiamos. Fazer bem, fazer melhor não é apenas uma questão que anda ao sabor ou dissabor da economia.

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