
O Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) está a levar a cabo uma campanha antidroga que consiste na distribuição, em escolas, de postais cuja informação é, no mínimo, duvidosa. Os ditos postais parecem mais uma forma de publicitar determinadas informações, com uma displicência assustadora, do que propriamente desincentivarem o consumo de drogas. Segundo o jornal Público a campanha “Energia usa só a tua”, além de outras informações dá conselhos para reduzir os riscos inerentes à utilização de drogas. O mesmo jornal cita alguns exemplos de informação contida nos postais: “Não partilhes tubos ou outro material usado para snifar”, “ alterna a narina que utilizas” ou “É bom que esteja presente alguém com experiência de consumo, pode ajudar em caso de bad trip”. É esta a mensagem que se quer passar a milhares de alunos em idade escolar? Mas quem é que endoideceu no dito instituto?
É comummente aceite a ideia de que o combate contra a droga é uma espécie de batalha perdida, e é essa filosofia que subjaz ao IDT, com a clara conivência do Governo. Mas depois desta campanha antidroga (?) parece que se quer ir mais longe, chegando ao ponto de aconselhar jovens em idade escolar sobre a melhor forma de se utilizar determinadas substâncias. Não será seguramente este o modo de se fazer a prevenção que é, alegadamente, o objectivo deste instituto. Além do mais, chegamos à conclusão de que é também nisto que os impostos pagos pelos contribuintes são levianamente utilizados. Se já se tinha alguma noção do desperdício na utilização desses impostos, agora começamos a ver a real dimensão do desperdício!
Com efeito, a gravidade desta campanha néscia e irresponsável não pode ser encarada, como habitualmente, como mais um fait divers. A prevenção contra a droga não pode incorporar este tipo de excessos, sem que alguém seja responsabilizado. Mas há mais: o presidente do IDT asseverou que esta campanha enquadra-se num contexto de “redução de danos”, ou dito de outro modo, a campanha é mais uma prova de que a filosofia “baixar os braços” impera nas mentes sapientes de quem tem a responsabilidade de pensar e fazer a prevenção contra a utilização de drogas.
Dir-se-á que noutros países se utilizam campanhas similares ou que o IDT está na vanguarda da prevenção e que utiliza os métodos mais profícuos para alcançar o seu objectivo. Pode-se recorrer aos subterfúgios que se quiser, mas de uma coisa podemos estar certos: nada justifica a utilização de panfletos cuja informação é desta natureza e que ainda presta aconselhamento sobre o consumo de drogas a jovens em idade escolar. Como é que é possível fazer-se distribuição desses panfletos nas escolas e ainda assistirmos ao triste espectáculo de se defender, com naturalidade, a dita campanha de prevenção. Mas qual prevenção?
A campanha tem o singelo nome de “Energia usa a tua”, mas parece que o IDT não aconselha apenas a utilizar a energia de cada um, presta informações preciosas para a utilização de outras coisas (leia-se drogas) que não apenas a já referida energia. Toda a política de prevenção e combate à toxicodependência está encapotada por uma filosofia da mais grave irresponsabilidade. Pode-se recorrer à suposta erudição dos especialistas nesta matéria ou às experiências levadas a cabo noutros países para justificar estas campanhas, mas ao invés do que se possa pensar, nem todos sucumbiram ao estado de adormecimento mais ou menos colectivo que assola o país. Ou pelo menos alguns de nós acordam perante estas irresponsabilidades. Nos próximos dias vamos assistir a justificações de toda a natureza para voltar a encapotar-se esta questão.
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