
Não é seguramente um dos temas mais interessantes, mas ainda assim é incontornável falar-se de televisão e da inerente ausência de qualidade dos programas televisivos. Da mesma forma, somos obrigados a reconhecer o impacto que a televisão, sobrepondo-se invariavelmente a outros meios de comunicação social, tem em Portugal. Mesmo o advento da Internet, apesar da evolução a ritmo estonteante que a tem caracterizado, ainda está longe de igualar a importância que a televisão tem para a generalidade das pessoas. Por conseguinte, a discussão sobre esta matéria não deve ser subestimada, sob pena de se estar a ignorar um fenómeno cujo impacto é incontornável.
Outra questão prende-se com a qualidade da oferta televisiva. Sendo certo que o surgimento, primeiro das televisões privadas e depois da televisão por cabo, veio proporcionar uma oferta diversificada, não é menos correcto afirmar que, ainda assim, a qualidade da oferta televisiva deixa muito a desejar. Senão vejamos: os canais de sinal aberto caracterizam-se pela escassez de diversidade programática e apresentam, entre si, similitudes injustificadas. A oferta televisiva resume-se a uma informação dada de forma desproporcionada, ora oferecendo quase hora e meia de serviço noticioso, ora resvalando os conteúdos informativos para assuntos de contornos sensacionalistas. Por outro lado, o entretenimento representa a maior fatia da programação, mas também aqui se verificam limitações evidentes: entre concursos bacocos e telenovelas obtusas reina a mais absoluta inanidade.
Sublinhe-se que nada do que foi já asseverado não constitui propriamente novidade. O país é ávido consumidor de telenovelas, sejam elas portuguesas, brasileiras, políticas, futebolísticas, etc. Em contrapartida, escasseiam por estes lados outros prazeres que possam ir além das trivialidades do costume. É raro assistir-se na televisão à exibição de documentários – apesar da oferta da televisão por cabo – o serviço público de televisão não pode ignorar este tipo de programas. A informação fica também aquém do que seria aceitável, optando-se invariavelmente pela quantidade em detrimento da qualidade. A programação que incide sobre debates – onde se privilegie a troca de ideias e de diferentes pontos de vista – é também ela ignorada pelos canais de sinal aberto, exceptuando alguns programas da RTP1 e da RTP2, ainda assim manifestamente insuficientes.
Assim, a televisão em Portugal não escapa a uma adjectivação depreciativa – é pobre e obtusa. Não admira, pois, que assim seja, não é a televisão, em larga medida, o reflexo da sociedade? Pois bem, escusado será dissertar muito mais sobre este assunto. De qualquer modo, as responsabilidades dividem-se também pelos operadores e pelos sucessivos Governos que não se coíbem de licenciar canais de televisão cuja programação contribui para a estupidificação colectiva. Ora, mais uma vez impera a importância desmesurada do lucro – oferece-se, portanto, programas baratos e desprovidos de qualidade. E, já agora, refira-se o quanto convirá a algumas elites a existência de um povo não-pensante afundado na sua já habitual letargia. Esquece-se, contudo, que um país desinteressado está a comprometer o seu futuro.
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