Avançar para o conteúdo principal

Europa, que futuro?

Torre de Babel, Pierre Bruegel

Por altura em que se inicia a presidência portuguesa da União Europeia, nunca é demais encetar-se a discussão sobre o futuro da Europa. A presidência portuguesa da UE pode ser histórica, na medida em que pode ser durante esta presidência que se concluam as decisões em torno do novo tratado da UE. É também neste momento que discute a pertinência de um possível referendo sobre o mesmo tratado. É consensual que a Europa atravessa uma crise, apesar dos diferendos entre Estados-membros terem sido mais ou menos ultrapassados. Em tais circunstâncias muitos cidadãos europeus questionam-se sobre o futuro de uma Europa caracterizada pelas divergências, ao invés de o ser pelas convergências.

Na verdade, a tecnocracia e afastamento dos políticos em relação às ambições dos seus cidadãos são caminhos que podem comprometer o futuro europeu. Sempre existiu uma clivagem entre os cidadãos e as instituições europeias, infelizmente essa clivagem parece conhecer agora um sério agravamento. É com este pano de fundo que muitos encaram um possível referendo como sendo uma irreversibilidade, em nome de uma participação efectiva dos cidadãos europeus nas decisões comunitárias. Efectivamente a ideia com que se fica da Europa é precisamente a do divórcio entre as expectativas dos cidadãos e as políticas distantes impostas por uma Europa não menos distante.

Desde logo, sublinhe-se o descontentamento generalizado de muitos cidadãos europeus que vêem as suas esperanças cerceadas por uma Europa exacerbadamente próxima de um modelo de globalização iníquia - o que resulta num acentuado desconforto social. O anunciado fim do modelo social europeu – sem que se anteveja uma alternativa viável – constitui um óbice oneroso para a UE. Não obstante o desconhecimento em torno do novo tratado europeu, a desconfiança dos cidadãos europeus perante este documento regulador instala-se indelevelmente.

Por outro lado, não se percebe muito bem de que forma é que uma Europa a 27 poderá, efectivamente, ser exequível. E mais, as diferenças entre Estados-membros, nas suas várias velocidades, é mais uma incongruência dificilmente ultrapassável. Paradoxalmente, recusa-se qualquer perda de soberania, mas dificilmente se poderá asseverar a exequibilidade de um modelo não-federalista
De um ponto de vista genérico, a percepção que se tem da Europa é a do esmorecimento das preocupações sociais, e esta poderá ser uma fatalidade para a viabilidade da própria União Europeia. De qualquer modo, a presidência portuguesa poderá contribuir para inverter esta situação, e seria verdadeiramente histórico que fosse durante esta presidência que apostasse num modelo de proximidade aos cidadãos. Só assim é que se poderá falar de um futuro para a UE. Agora só existe uma Europa intrincada e demasiado distante dos cidadãos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Fim do sigilo bancário

Tudo indica que o sigilo bancário vai ter um fim. O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda chegaram a um entendimento sobre a matéria em causa - o Bloco de Esquerda faz a proposta e o PS dá a sua aprovação para o levantamento do sigilo bancário. A iniciativa é louvável e coaduna-se com aquilo que o Bloco de Esquerda tem vindo a propor com o objectivo de se agilizar os mecanismos para um combate eficaz ao crime económico e ao crime de evasão fiscal. Este entendimento entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista também serve na perfeição os intentos do partido do Governo. Assim, o PS mostra a sua determinação no combate à corrupção e ao crime económico e, por outro lado, aproxima-se novamente do Bloco de Esquerda. Com efeito, a medida, apesar de ser tardia, é amplamente aplaudida e é vista como um passo certo no combate à corrupção, em particular quando a actualidade é fortemente marcada por suspeições e por casos de corrupção. De igual forma, as perspectivas do PS conseguir uma ma...

Mais uma indecência a somar-se a tantas outras

 O New York Times revelou (parte) o que Donald Trump havia escondido: o seu registo fiscal. E as revelações apenas surpreendem pelas quantias irrisórias de impostos que Trump pagou e os anos, longos anos, em que não pagou um dólar que fosse. Recorde-se que todos os presidentes americanos haviam revelado as suas declarações, apenas Trump tudo fizera para as manter sem segredo. Agora percebe-se porquê. Em 2016, ano da sua eleição, o ainda Presidente americano pagou 750 dólares em impostos, depois de declarar um manancial de prejuízos, estratégia adoptada nos tais dez anos, em quinze, em que nem sequer pagou impostos.  Ora, o homem que sempre se vangloriou do seu sucesso como empresário das duas, uma: ou não teve qualquer espécie de sucesso, apesar do estilo de vida luxuoso; ou simplesmente esta foi mais uma mentira indecente, ou um conjunto de mentiras indecentes. Seja como for, cai mais uma mancha na presidência de Donald Trump que, mesmo somando indecências atrás de indecência...