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Crise no Paquistão


Os recentes confrontos entre o Estado paquistanês e radicais inspirados no regime taliban acabaram num banho de sangue. Esta notícia não tem especial relevância em grande parte do mundo ocidental, aliás a crise que se instalou no Paquistão e que põe a nu a grave cisão entre o Governo de Musharraf e radicais islâmicos só ganha uma importância acrescida quando o terrorismo sustentado pelo radicalismo islâmico nos bate à porta. Caso contrário trata-se apenas de mais um episódio de violência que ocorre em países longínquos e quase desconhecidos. Contudo, este é mais um sinal de alerta relativamente ao recrudescimento do radicalismo que constitui seguramente a maior ameaça ao mundo ocidental.

O Paquistão é antes de mais um país dotado de tecnologia nuclear, é só esta característica aumenta exponencialmente o perigo que constitui para o Ocidente e para os países vizinhos se um país com estas características cair nas mãos dos radicais. Com efeito, o radicalismo que eclode um pouco por todo o mundo muçulmano alimenta o terrorismo que ameaça o Ocidente e parte do mundo islâmico. É a proliferação de uma visão radical do islamismo, através de madrassas e mesquitas radicalizadas, que deve ser cerceada, em particular nos países onde se verifica essa eclosão do radicalismo.

Deste modo, o que se passa neste país que já foi outrora parte integrante da Índia não poderá ser encarado de forma despicienda. Efectivamente, a possibilidade, mesmo que remota, de um Paquistão radicalizado traz novos problemas ao combate global contra o terrorismo. Sendo certo que este combate é manifestamente desigual e não convencional, é uma luta essencial para garantir a salvaguarda do modo de vida ocidental. Por conseguinte, esse combate deve compreender dois cenários: o da segurança interna de cada país, em concreto através da concertação das forças policiais e de informação, e da fundamental cooperação com outros países; e por outro lado, o cenário envolvendo as regiões onde se verifique a eclosão do radicalismo de cariz islâmico. Neste sentido, o Ocidente não pode deixar de auxiliar os regimes moderados.

Todavia, as verdadeiras mudanças só podem ser encetadas pelos Estados que se vêem confrontados com o fundamentalismo islâmico. É uma questão de sobrevivência dos próprios regimes. De igual modo, esta crise, uma das mais graves que o Presidente Musharraf conheceu, ganha uma importância insofismável para o Ocidente. Sublinhe-se, uma vez mais, o perigo que um Paquistão dominado pelos radicais, ao estilo taliban, acarreta para o mundo ocidental: um país radicalizado dotado de armas nucleares, sustentado por um ódio visceral ao Ocidente, e que, em última instância, servirá para reforçar as ideias de um pan-islamismo que procure restaurar o califado. O cenário é demasiado inquietante para passar despercebido.

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