
No país do faz de conta a imagem vale mais do que mil palavras e, naturalmente, nem tudo o que parece é. Desta forma, os episódios que configuram sérios atentados à liberdade de expressão são desvalorizados, seja pelos responsáveis governativos, seja por funcionários que denotam um acentuado excesso de zelo. É assim que dois episódios recentes são sintomáticos de um país que finge caminhar no sentido da modernização e do desenvolvimento, mas que na realidade caminha precisamente no caminho inverso: a suspensão de funções do professor da DREN e o inefável episódio envolvendo uma espécie de trica entre Ministério da Educação e uma associação de professores.
Neste contexto, assiste-se, por um lado, à exímia utilização da imagem em detrimento do diálogo e dos esclarecimentos; e por outro, constata-se que as liberdades e a tolerância nem sempre são uma realidade consolidada no nosso país. Em bom rigor, no Portugal do faz de conta, é a imagem de um Governo progressista e moderno que impera; no fim de contas que interesse é que esses episódios podem ter se o Governo está a levar a cabo reformas e a modernizar o país? De facto, nas televisões pululam imagens de um Governo reformista, de um primeiro-ministro dinâmico que não perde um debate na Assembleia da República, de um Governo que está a mudar o país… ou pelo menos, assim parece.
De resto, nos últimos anos o país teve um primeiro-ministro que desistiu, outro que se foi embora, e ainda um outro que esgotou a paciência do então Presidente da República; deste modo, e não querendo correr mais os riscos, finge-se que está tudo bem e que a intransigência e ausência de diálogo são males necessários. Interessa, contudo, sublinhar que uma comunicação social colaborante (apesar de algumas louváveis excepções) e uma oposição anódina contribuem, indubitavelmente, para reforçar a imagem de um país, com problemas é certo, mas com um Governo que está resolutamente a levar o país no melhor caminho. E se, esporadicamente, surgir um ou outro episódio mais desconfortável, mostre-se logo de seguida o povo a cantar ou enfatize-se o anúncio de alguns milhares de computadores, a preços reduzidos, para alunos e professores.
No país do faz de conta pouco importa se na educação imperam os antagonismos, pouco interessa se a justiça continua a padecer dos males do costume e se algumas liberdades estão a ser cerceadas, paciência! É tudo por um bem maior: o progresso do país. Afinal de que é que nos queixamos? A economia está a crescer a passo de caracol, mas está a crescer; o Governo tem um plano tecnológico, o que significa que nos vamos modernizar; e se calhar ainda vamos ter um aeroporto internacional no deserto da Margem Sul. No Portugal do faz de conta continuaremos, pois, a fingir que caminhamos no rumo certo, à espera do melhor que ainda está para vir.
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