
Polémicas à parte, a abertura do museu Berardo não pode deixar de ser uma boa notícia para Lisboa e para o país. Este museu de arte contemporânea contribui para aumentar a escassa oferta cultural em matéria de arte contemporânea em Lisboa. Recorde-se que este é o segundo museu de arte contemporânea a abrir desde Serralves. Portugal está ainda muito longe de poder oferecer aos seus cidadãos e a quem nos visita a diversidade cultural que caracteriza países como Espanha, França, Reino Unido, Holanda, Áustria, etc. De qualquer modo a abertura do Museu Berardo, não obstante as polémicas, é seguramente uma boa noticia.
Não existe uma visão estratégica da importância da oferta cultural. Portugal é, em larga medida, um país de feiras e de espectáculos bacocos. A afirmação pode parecer injustificada, mas, na verdade, a cultura é ainda vista por muitos como sendo dispendiosa e, essencialmente, dispensável. Esta falta de visão estratégica constitui um erro magistral de quem tem vistas curtas e não consegue perceber que um país cuja oferta cultural seja medíocre é um país pobre e pouco apelativo. Infelizmente, são inúmeros os exemplos de políticas que ignoram a importância da diversidade cultural – a Câmara do Porto tem-se mostrado fértil nesta matéria, mas não é a única. Pensa-se apenas no que é lucrativo a curto e médio prazo, mas perde-se calamitosamente a longo prazo.
O turismo, uma área estratégica para o país, não se pode reduzir às praias e aos campos de golfe. Dir-se-á que esta é uma mais uma frase redutora, que está longe da realidade. Não será bem assim, senão vejamos: o valioso património histórico nem sempre tem a atenção que merece e a cultura reduz-se a alguns serviços mínimos. Um dos argumentos que pretende justificar o menosprezo relativamente à cultura é que o seu custo é elevado e que num contexto de parcimónia orçamental se deve reduzir custos. Ora, é a mentalidade que perpetua estas imbecilidades que arrasta o país para o fundo. Se uma das nossas grandes mais-valias é precisamente o turismo, então não se deveria proporcionar a quem nos visita uma oferta diversificada? Ou será que as nossas cidades desprovidas de oferta cultural poderão competir com as cidades espanholas? E será que as mentes brilhantes que se encarregam de cercear a oferta cultural, em nome de uma suposta boa gestão, ainda não perceberam que quem visita um país à procura da sua diversidade cultural representa um encaixe financeiro muito superior a turistas que procuram outros “entretenimentos”?
Neste contexto, a abertura do museu Berardo deve ser considerado como o princípio de uma mudança de mentalidades. Até porque muitos portugueses têm manifestado interesse por este tipo de oferta cultural – existe uma clara tendência para uma maior afluência de portugueses a exposições de arte, a espectáculos musicais, etc. Assim, espera-se muito mais de quem está à frente dos destinos do país, mas também daqueles que estão à frente do poder local. Mas para isso é necessário uma abertura de espírito que não está ao alcance de todos, a responsabilidade é, em última instância, dos eleitores.
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