
De um modo geral há a tendência para se criticar a política e em particular os políticos. De facto, em Portugal, assim como em muitas democracias ocidentais, existe um descrédito crescente em relação aos políticos. Por um lado, os escândalos de corrupção e a opacidade têm denegrindo a imagem dos políticos; por outro, a falta de soluções para problemas prementes consequência da acelerada mutação das sociedades contribuem para o descrédito da política e dos seus agentes. A transformação da política em meros actos de gestão é uma tendência que tem vindo a generalizar-se. Quem tiver o prazer inefável de ler as “Farpas” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão percebe a inequívoca crítica feita pelos autores à classe política da época – parte deste fenómeno de descrédito e de suspeição é, por conseguinte, clássico.
Apesar de todas estas incongruências em volta da classe política, a sua importância é hoje absolutamente indubitável.
Com efeito, num mundo em que já não se consegue discutir a prevalência da avidez do lucro sobre valores e princípios morais sem se ser associado a movimentos radicais anti-globalização, é a política que pode ser determinante para combater exacerbamentos de toda a espécie. No entanto, é precisamente a intervenção política que têm vindo a sofrer um duro golpe com a imposição inflexível das ideias neoliberais.
Dir-se-á que o fenómeno da globalização não tem somente aspectos negativos, o que é verdade, porém o desequilíbrio entre o eixo económico e o eixo social agrava-se. Apesar do mundo de oportunidades que nem sempre corresponde à verdade, esse desequilíbrio existe e traduz-se em dificuldades que não cessam de aumentar. A procura de um equilíbrio é uma competência da classe política que não pode ser esquecida.
Não podemos ignorar o seguinte: a desvalorização da política é o primeiro passo para a fragilização das próprias democracias. Se os políticos vêem a sua esfera de actuação ser reduzida ao mínimo, é o povo soberano que também vê, gradualmente, a sua importância ser diminuída. E tanto mais é assim quando se observa a invasão do privado – das empresas – a sectores tradicionalmente sob alçada do Estado. Uma situação desta natureza e sem a actuação, uma vez mais, dos políticos pode caminhar para a “tirania do mercado”, para utilizar as palavras de André Comte-Sponville. Com este pano de fundo, a política não pode seguramente ser desvalorizada, sob pena de colocarmos as democracias num estado verdadeiramente periclitante.
É saudável que se critique, que se discuta e que se refutem algumas opções políticas – a pluralidade de opinião é uma incomensurável conquista das democracias –, contudo, é determinante para a viabilidade dos sistemas democráticos que continuem a contar com um dos seus pilares – a política. Aqueles que pugnam por um Estado mínimo, não no sentido de um Estado menos burocrático, menos controlador, menos obsidiante; mas que antes postulam o Estado espectador, estão a incorrer num erro com consequências dramáticas para a consolidação das democracias. Afinal, o lucro ainda não atingiu, para muitos de nós, o estatuto de divindade.
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ME AJUDOU BASTANTE..