
Em bom rigor, o atraso do país deve-se a um vasto conjunto de razões, que vão desde a inexistência de uma reforma da administração pública até à ineficácia da justiça; mas ainda assim, é o desprezo pela educação e pela cultura que votaram este país ao atraso estrutural que todos reconhecemos. Dir-se-á que este é, em larga medida, um problema cultural, e nós nem temos desculpa, afinal jorrou dinheiro proveniente dos fundos da UE e que nunca foi bem aplicado em programas de formação professional e na educação. Desta forma, verifica-se que até nos foi dada uma oportunidade – que outros países inteligentemente não desperdiçaram –, mas nós fomos incapazes de aproveitá-la.
Por um lado, a educação foi quase sempre uma cobaia, ou seja, desenvolveu-se todo o tipo de experiências com a educação: reformas inacabadas seguidas de novas reformas, consoante os ditames ideológicos de cada governo. E agora, deixou-se a educação nas mãos de partidários fervorosos do “eduquês”. Assim, procura-se que todos tenham a possibilidade de atingirem o tão almejado sucesso escolar. Contudo, esta premissa aparentemente inócua tem um efeito perverso: os melhores vêem as suas capacidades acima da média serem encapotadas por um sistema que cegamente não premia os melhores, limita-se a desejar que todos sejam iguais. Isto já para não falar do facilitismo que tomou conta das escolas portuguesas.
Por outro lado, a cultura não conhece melhores dias. Aqui acontece precisamente o inverso: não se procura massificar o acesso à cultura, embora haja um ou outro episódio em que isso aconteça. Simplesmente ignora-se a sua importância e, de forma subliminar, continua-se a insistir naquele estereotipo que perpetua a imagem de uma cultura apenas de intelectuais e para intelectuais. Reconhece-se que num país em que a televisão se substitui a quase tudo ser difícil a cultura chegar a todos. Pode-se ambicionar que a cultura, nas suas diferentes formas, chegue a um universo cada vez maior de pessoas – e esse deve ser o objectivo do ignoto Ministério da Cultura –, porém, é utópico pensar que possa chegar a todos. Ainda assim, espera-se que cada vez mais portugueses possam ter acesso ao teatro, à literatura, ao cinema, à música, às artes plásticas, e a todas as práticas culturais.
O que é inequívoco é a importância absolutamente determinante da educação e da cultura. Um país que persiste em viver num mundo obscuro da ignorância é um país sem qualquer futuro. Um povo sem acesso à cultura é um povo que se caracteriza por uma estreiteza de espírito que perpetua o atraso do país. Mas não são só os responsáveis governativos que têm responsabilidades nesta matéria, todos os cidadãos têm de perceber a importância da formação/educação e da importância da cultura para a necessária abertura de espírito que permita o desenvolvimento do país. De resto, a equação é simples: a má formação dos recursos humanos e a subsequente baixa produtividade aliada à inépcia de algum patronato inviabilizam o investimento no país, dando origem a salários pouco ambiciosos e a um aumento do desemprego. É, por conseguinte, óbvia a importância que a educação e formação têm para o país e para vida de cada um de nós. O estabelecimento de parcerias entre educação e cultura e uma mudança de mentalidades, em particular no sentido de perceber que a formação necessita de ser ao longo da vida, poderão inverter esta situação.
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