
O 10 de Junho começa invariavelmente da mesma forma: as mais altas figuras de Estado a proferirem discursos sem importância e a observarem orgulhosamente o desfile das forças armadas. E é assim que as mais altas figuras deste país saem da sua habitual letargia e entram num estado de fingimento – fingem que este é um grande país, fazem passar a ideia de que esta outrora grande nação não perdeu a sua impetuosidade. É igualmente nesta altura que se faz referência aos portugueses que se encontram no estrangeiro. A razão que subjaz ao facto de muitos portugueses continuarem a sair do país é relegada para um segundo plano, porque este é mais um dia do faz de conta.
De facto, o faz de conta é seguramente o jogo preferido dos responsáveis governativos portugueses. A enfatização da verdade só é feita quando são necessárias políticas difíceis, e nem toda a verdade é dita, apenas as partes que fundamentam essas políticas. É nesta perspectiva que surgem as frases de apertar o cinto, dos sacrifícios, etc. A política vive de aparências e de dissimulações, e é parca em substância. De qualquer forma, a realidade difícil da vida de um número cada vez maior de portugueses é absolutamente escamoteada. As mudanças que se estão a operar em Portugal – mudanças de fundo – são pouco discutidas, quando não passam mesmo despercebidas. É o caso de uma desvalorização das questões sociais – reduções no Sistema Nacional de Saúde, reformas cada vez mais magras, etc.
Os responsáveis políticos postulam a teoria do fim do Estado providência, ou seja o modelo que vigora desde o pós-guerra já não adaptável às novas realidades, e ao invés de se procurar novas soluções, tenta-se extingui-lo. E são estas questões, pois, que são permanentemente escamoteadas por quem governa. Aliás, as dificuldades que fazem parte da vida de muitos cidadãos deste país não fazem parte da retórica oficial do Governo ou do Presidente da República. São cada vez menos aqueles que fazem a defesa dos direitos sociais com a devida acuidade. Pelo contrário, é desconcertante constatar que os funcionários públicos, por exemplo, são verbalmente linchados por alguns dos seus concidadãos. Esta é, claramente, uma estratégia do Governo que se aproveita da mesquinhez e egoísmo de alguns portugueses para aplicar as políticas de linha dura. Qual a imagem dos funcionários públicos construída com a ajuda do Governo? A resposta é evidente e dispensa mais comentários.
Importa ter presente que nós continuamos atolados na mais pura inércia e governados pelas mentiras do costume. Por conseguinte, o 10 de Junho é uma perpetuação do fingimento que faz parte da estratégia dos responsáveis governativos. A finalidade da dita estratégia é clara: tornar o país maleável, adormecido, amansado, ou dito por outras palavras tornar o país governável. Não chega uma maioria absoluta, um Presidente da República cooperante, uma oposição débil ou uma comunicação social incipiente, é preciso que os portugueses coadjuvem, e para isso é preciso empolar as dificuldades quando é necessário, e reduzi-las a insignificâncias nos momentos certos. Consequentemente, o desemprego versus precariedade do emprego, a perda brutal de poder de compra, uma taxa fiscal elevada, serviços públicos desprovidos de qualidade, uma educação em que o essencial são as questões acessórias e burocráticas; em suma, o retrocesso das condições de vida de uma franja muito significativa de portugueses é, aos olhos de quem governa com requintes de autoritarismo, um problema menor.
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