quarta-feira, 2 de maio de 2007

Emprego precário e a baixa produtividade

O nosso país padece de vários problemas, entre os quais a baixa produtividade comparativamente com outros países europeus. Existe um conjunto de razões que permite justificar essa baixa produtividade: débil formação dos recursos humanos, aplicação de técnicas de gestão absolutamente rudimentares, a ausência de modernização das empresas, etc. Existe, no entanto, uma razão que é, amiúde, obliterada, talvez porque para anular essa razão teríamos de perpetrar profundas alterações na nossa mentalidade. Essa possível justificação está intimamente relacionada com a forma como os recursos humanos são geridos, e indissociavelmente, com as relações entre patrões e os seus funcionários.
Infelizmente, o mercado de trabalho caracteriza-se por uma exiguidade que não permite à grande maioria dos trabalhadores uma verdadeira flexibilidade – ou seja, os trabalhadores são reféns de uma conjuntura que lhes é manifestamente desfavorável. Por conseguinte, em muitos contextos, é exigido tudo ao trabalhador, em troca de muito pouco. Mais, a ameaça de desemprego paira inexoravelmente sobre as cabeças de muitos trabalhadores. Na verdade, muitos aceitam trabalhar em condições pouco edificantes: horário de trabalho que excede em muito o limite do aceitável, desempenho de funções para as quais o trabalhador não têm formação (e esta não lhe é dada), funcionários que acumulam funções para colmatar a inexistência de outros funcionários, falta de comunicação entre chefias e trabalhadores, e por vezes, alguma insensatez no que diz respeito à exploração positiva do potencial humano – o trabalho em equipa sem recurso a quaisquer iniquidades e falsos artifícios contribui decisivamente para a viabilidade das empresas.
Enfim, a generalidade dos trabalhadores têm de se sujeitar a condições de trabalho longe do razoável, sob pena de virem a conhecer de perto a triste realidade do desemprego. Além disso, ainda se exige, nem que seja de forma subliminar, um sorriso a cada colaborador…será que existirão muitas razões para sorrir? Cada um dará a sua resposta, mas num contexto de crise, com a existência de um mercado de trabalho limitado, e com a precariedade a crescer exponencialmente, muitos trabalhadores não terão, certamente, razões para sorrir.
Em suma, é importante sublinhar que o descontentamento é transversal a toda a sociedade portuguesa, e afecta em particular muitos trabalhadores, contribuindo negativamente para a economia do país, e naturalmente, para as empresas. Desta forma, o princípio da reciprocidade deve ser considerado uma mais-valia; não se pode exigir mais horas de trabalho, não se pode exigir o desempenho de tarefas para as quais o funcionário não adquiriu as devidas competências, não se pode continuar a pedir muito trabalho em troco de um salário baixo… e ainda assim, pedir aos trabalhadores um sorriso. Ao invés, se de facto, se der aos trabalhadores razões para sorrir, talvez isso contribua para um aumento da produtividade e da qualidade do serviço prestado. Não custa tentar, pois não?

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