quarta-feira, 28 de junho de 2017

Comunicação social

A desgraça que se abateu sobre o país serviu para mostrar a debilidade das florestas portuguesas, mas teve também o mérito de mostrar a verdadeira face da comunicação social. Em bom rigor não há novidade quer no que diz respeito ao primeiro assunto como ao segundo. 
Depois de dias de exploração do assunto, não raras vezes recorrendo a formas pouco dignas de tratamento das notícias, é agora tempo dos fazedores de opinião afectos ao anterior governo fazerem das suas.
Assim, aponta-se o dedo ao Executivo de António Costa, clamando-se pela demissão da ministra da Administração Interna. Assim, aproveita-se a tragédia para atacar o Governo: má preparação, incúria, opções políticas erradas - tudo terá começado e terminado com António Costa. Mesmo questões difíceis de abordar como o SIRESP - resultado da promiscuidade entre PSD e o famigerado BPN - são responsabilidade do actual governo.
Ou seja esqueçamos, convenientemente, os bons resultados económicos, que tantas dores de cabeça têm dado a uma certa direita e que tanto espaço de manobra lhes tem retirado, e centremo-nos na forçada incúria e responsabilidade deste Governo relativamente aos incêndios que devastaram o centro do país.
Pouco interessa olhar para as políticas públicas das últimas décadas, para o SIRESP, para o trabalho de Assunção Cristas no ministério da Agricultura e para todos os que a antecederam; pouco interessa atentar aos negócios que se fazem na floresta ou sugando os recursos da floresta  e a promiscuidade entre poder político e poder económico. O que interessa mesmo é afirmar que o Governo de Costa encontra-se fragilizado ou até que terá os seus contados como afiançou um jornal espanhol cuja peça terá sido assinada por uma espécie de fantasma - um tal de Sebastião Pereira.
Na ausência de um Diabo que permitisse um regresso apoteótico de Passos Coelho, a sua base de fãs desdobra-se em críticas infundadas, ridículas e desfasadas da realidade, manifestando um desespero e um aproveitamento da pior das desgraças, sem dar um contributo válido para a questão, como de resto nunca deram.
Esta é uma comunicação social que, exceptuando raras e honrosas excepções, é instrumentalizada com o objectivo de validar uma solução política que deixou saudades entre alguns. Não se espere pois que desta forma a dita comunicação social recupere da grave crise que afecta o sector. É que a realidade é esta: os cidadãos não são parvos e vêem nestes tristes exercícios tentativas de manipulação de um conjunto de desesperados e um aproveitamento ignóbil de uma desgraça.
E claro está, Passos Coelho que afirmou conhecer casos de suicídio por falta de apoio psicológico. "Porque o Estado falhou e está a falhar". O Presidente da Câmara de Pedrógão Grande e o Presidente da Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC) desmentem. Com tanta escassez de oportunidade, esta era uma que Passos não podia perder, por muito asco que tudo isto provoque. No entanto, esta infeliz e desesperada tentativa de aproveitamento político, deixou a sua base de apoio desapontada com o líder. Afinal de contas, não há forma de Passos Coelho sair bem nesta história.


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