Avançar para o conteúdo principal

E depois do alívio?

Depois da poeira assentar, é a vez da esquerda francesa e até europeia pensar o seu caminho. Refiro-me naturalmente ao resultado das eleições francesas, com a derrota de Marine Le Pen e a vitória de Macron, largamente suportado por uma frente republicana.
O trabalho da esquerda francesa, fragmentada que está, não pode ser protelado. Ou a esquerda encontra o seu caminho e sobretudo pontos em comum ou não conseguirá passar uma ideia sequer de que tem respostas para todos os que se sentem excluídos ou à beira da exclusão. Se a esquerda francesa não se entender abrirá espaço para movimentos pouco ou nada democráticos que manifestarão a capacidade de oferecer essas respostas, mesmo que vazias, pouca diferença fará a quem considera que já não tem nada a perder a quem tem um medo de morte de perder o pouco que tem.
A esquerda francesa não é excepção no panorama europeu que conta praticamente com uma única excepção: o caso português, um verdadeiro caso de sucesso da união entre as esquerdas. Um caso que não tem sido fácil de replicar pelo resto da Europa. Hámon, candidato socialista, manifestou interesse, mas os 6% conseguidos pelo seu partido retiram-lhe qualquer margem para experiências e para tudo o resto.

Macron, se insistir na receita neoliberal, com inspiração no contexto de liberalismo económico anglo-saxónico, acabará por falhar, aumentando desse modo a massa de descontentamento que a extrema-direita com Marine Le Pen tudo fará para cavalgar. Pensar que a extrema-direita se cinge aos votos apenas da extrema-direita é puro engano. Nestas eleições Le Pen conquistou votos para além dos seus votantes tradicionais. Desta feita não chegou, e da próxima vez? Sobretudo se Macron falhar. 
A esquerda não pode perder este comboio até porque se trata muito provavelmente de uma última oportunidade. Das duas uma: ou junta esforços e tenta chegar aos franceses ou deixa esse trabalho nas mão daqueles que transformarão a França num país irreconhecível, sem com isso resolver o que quer que seja.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...