Avançar para o conteúdo principal

Olhar o monstro de frente...

...E resistir à tentação de acabar a olhar para o lado. Pacheco Pereira escreveu um artigo no jornal Público sublinhando o facto dos partidos de esquerda estarem a ignorar o perigo silencioso do populismo e do seu crescimento, designadamente em Portugal.
Nesse artigo é utilizado o exemplo dos refugiados Yazidi que chegaram nas últimas semanas a Portugal e a rejeição de uma parte da população que fala entre-dentes, e que rejeita o acolhimento de imigrantes e até de refugiados. E os que rejeitam são os "abandonados" de que fala Pacheco Pereira e que todos conhecemos: pessoas que estão na classe média ou numa classe-média baixa que se sentem abandonadas pelos partidos mais tradicionais, e têm a percepção de ter perdido muito, sem esperança de vir a recuperar o que perderam. "Isto nunca mais volta a ser o mesmo" e "antigamente é que era bom" são frases que se ouvem com cada vez mais insistência. Estas pessoas perderam com o capitalismo, na sua versão mais selvagem, no entanto, paradoxalmente, não ousam discuti-lo ou por desconhecimento e confusão ou porque simplesmente preferem ignorá-lo Pelo caminho escolhem amiúde os mais desprotegidos sobre os quais depositam a sua raiva, esses e os políticos corruptos e incapazes de resolver as crises que assolam os países.
Paralelamente, esquerda mostra-se incapaz de chegar a este segmento da população e alguma direita pega nas questões sociais para dividir. Todavia, ainda não estaremos propriamente lá - no populismo. Mas ainda assim importa olhar o monstro de frente e encontrar formas de combatê-lo. De resto, nada nos garante que ele não possa mesmo vir a caminho.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Afinal não há referendo sobre o Tratado de Lisboa

Tudo indica que o primeiro-ministro vai anunciar hoje a ratificação do Tratado de Lisboa por via parlamentar. Fica assim excluída a hipótese de o mesmo tratado ser ratificado por via referendária. Segundo alguns órgãos de comunicação social, o primeiro-ministro não foi imune às opiniões do Presidente da República, mas também de vários líderes europeus que se opõem à possibilidade de referendo, entre os quais Angela Merkel, Sarkozy e Gordon Brown. Recorde-se que foi feita uma espécie de acordo entre os vários líderes europeus no sentido de fazer a ratificação do tratado sem levantar problemas, ou dito de outro modo, o processo de ratificação nos vários Estados-membros deve ser feito através dos parlamentos. De qualquer modo, os cidadãos europeus ficam, mais uma vez, fora das decisões europeias. Ninguém contesta a legitimidade dos parlamentos para se pronunciarem sobre essa matéria específica, o que se trata é da construção europeia e a sua viabilidade a médio e longo prazo. Ora, se por ...