quinta-feira, 2 de março de 2017

Foram demasiadas quintas-feiras, foram demasiados dias

Cavaco Silva resolveu oferecer ao país mais um exercício insidioso, relembrando aqueles que já haviam esquecido o anterior Presidente da República - o pior que já passou pela política portuguesa.
Entre as vacuidades do costume, Cavaco resolveu dar a conhecer as suas reuniões com o primeiro-ministro na altura, José Sócrates. O que o livro revela é sobretudo a incapacidade manifestada por Cavaco Silva de esquecer José Sócrates. 
Sendo certo que Sócrates marcou o país - pelas piores razões -, não deixa de ser curioso verificar que Sócrates marcou igualmente o anterior Presidente da República.
É evidente que no livro existem apenas ataques desferidos a terceiros, sem nunca Cavaco admitir os seus erros que foram muitos. É também evidente que este livro não constituiu qualquer exercício de cidadania, mas uma espécie de um ajuste de contas de alguém que apesar de arredado das grandes decisões, e talvez por isso mesmo, não se conforma com o passado e não se ajusta ao presente. Azedume e um vazio incomensurável são características do livro, tal como são características do ex-Presidente da República. 

Foram demasiadas quintas-feiras, foram demasiados dias aqueles protagonizados por Cavaco Silva na qualidade de Presidente da República. Noutras situações as pessoas colocam o passado atrás das costas e seguem em frente. Cavaco não o pode fazer. O passado alimenta a sua acrimónia e andar para a frente significa aceitar um presente com o qual o ex-Presidente da República não se revê e que até tentou impedir de se concretizar.

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