Avançar para o conteúdo principal

Foram demasiadas quintas-feiras, foram demasiados dias

Cavaco Silva resolveu oferecer ao país mais um exercício insidioso, relembrando aqueles que já haviam esquecido o anterior Presidente da República - o pior que já passou pela política portuguesa.
Entre as vacuidades do costume, Cavaco resolveu dar a conhecer as suas reuniões com o primeiro-ministro na altura, José Sócrates. O que o livro revela é sobretudo a incapacidade manifestada por Cavaco Silva de esquecer José Sócrates. 
Sendo certo que Sócrates marcou o país - pelas piores razões -, não deixa de ser curioso verificar que Sócrates marcou igualmente o anterior Presidente da República.
É evidente que no livro existem apenas ataques desferidos a terceiros, sem nunca Cavaco admitir os seus erros que foram muitos. É também evidente que este livro não constituiu qualquer exercício de cidadania, mas uma espécie de um ajuste de contas de alguém que apesar de arredado das grandes decisões, e talvez por isso mesmo, não se conforma com o passado e não se ajusta ao presente. Azedume e um vazio incomensurável são características do livro, tal como são características do ex-Presidente da República. 

Foram demasiadas quintas-feiras, foram demasiados dias aqueles protagonizados por Cavaco Silva na qualidade de Presidente da República. Noutras situações as pessoas colocam o passado atrás das costas e seguem em frente. Cavaco não o pode fazer. O passado alimenta a sua acrimónia e andar para a frente significa aceitar um presente com o qual o ex-Presidente da República não se revê e que até tentou impedir de se concretizar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Afinal não há referendo sobre o Tratado de Lisboa

Tudo indica que o primeiro-ministro vai anunciar hoje a ratificação do Tratado de Lisboa por via parlamentar. Fica assim excluída a hipótese de o mesmo tratado ser ratificado por via referendária. Segundo alguns órgãos de comunicação social, o primeiro-ministro não foi imune às opiniões do Presidente da República, mas também de vários líderes europeus que se opõem à possibilidade de referendo, entre os quais Angela Merkel, Sarkozy e Gordon Brown. Recorde-se que foi feita uma espécie de acordo entre os vários líderes europeus no sentido de fazer a ratificação do tratado sem levantar problemas, ou dito de outro modo, o processo de ratificação nos vários Estados-membros deve ser feito através dos parlamentos. De qualquer modo, os cidadãos europeus ficam, mais uma vez, fora das decisões europeias. Ninguém contesta a legitimidade dos parlamentos para se pronunciarem sobre essa matéria específica, o que se trata é da construção europeia e a sua viabilidade a médio e longo prazo. Ora, se por ...