sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Justiça politizada"

Com Donald Trump à frente dos destinos dos EUA existe um perigo que salta à vista - o perigo da normalização; o perigo que é inerente à banalização do que deve ser considerado inaceitável. Na verdade, não há dia em que Trump ou os seus acólitos não sugiram ou apliquem medidas não consonantes com uma democracia que se julgava (?) consolidada. Para além de sugerirem ou aplicarem essas medidas que têm esbarrado na justiça - para já -, Trump e os seus apaniguados atacam e não respeitam a separação de poderes indissociável do Estado democrático.
O último ataque foi desferido por Trump quando este acusa a justiça de ser politizada. Isto porque os estados de Washington e do Minnesota interpuseram uma acção judicial e porque os órgãos de justiça agiram, não seguindo cegamente as políticas bacocas desta Administração. E naquela linguagem pobre, Trump colocou ainda a culpa na justiça, isto se existir um ataque terrorista.
Em rigor, nada disto surpreende. Já no passado recente Donald Trump, entre tantas outras asneiras, afirmou que tinha sido vítima de fraude eleitoral, isto depois do mesmo Trump ter já vencido as eleições. Tudo isto ultrapassa claramente a irresponsabilidade ou o amadorismo que também são características desta Administração. Tudo isto constitui um ataque deliberado e sem precedentes à própria democracia - facto que a América nunca havia visto, nem mesmo com Richard Nixon.
O enfraquecimento do sistema democrático - deliberado, repito - não tem como objectivo o endurecimento do sistema, mas sim a sua transformação de que Trump é apenas um instrumento e não o seu cérebro.
Esta transformação passará pela Educação (fala-se da extinção do próprio departamento de Educação), pelo ambiente (os negócios prevalecem), pela justiça (instrumentalizada e ao serviço da Administração, com o fim da separação de poderes), a defesa alimentada com mais intervenções externas, com a consequente consolidação da ideia de uma América em perigo e subsequente exultação dos inimigos da América, pela economia com o aprofundamento dos privilégios concedidos aos mais ricos, com o desaparecimento dos apoios aos mais desfavorecidos, sobretudo na saúde e, claro está, com o enfraquecimento e transformação das próprias instituições democráticas.
Resta esperar que a América elucidada continue a lutar contra esta Administração que, quando se sentir encurralada, ansiará por um ataque terrorista em solo americano ou recorrerá a uma grande intervenção militar num qualquer país intitulado "inimigo da América".

Entretanto, o tribunal federal de recurso americano mantém a suspensão do decreto anti-imigração de Trump e a resposta deste foi: "vemo-nos em tribunal". Assim vai a América.

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