terça-feira, 18 de outubro de 2016

Sofisticação e a precariedade

A propósito da manifestação dos taxistas pouco se ouviu sobre o funcionamento da Uber, poucos falaram sobre quem está por detrás da Uber, poucos referiram a Goldman Sachs e menos foram aqueles que recordaram a mudança de paradigma a que empresas como a Uber estão forçar. A discussão resumiu-se à boçalidade manifestada por alguns taxistas, por culpa dos mesmos.
A ideia de que a Uber apenas traz problemas aos taxistas não podia estar mais longe da verdade. Esta empresa apresenta-se como sendo sofisticada, moderna e com serviços topo de gama. Não sendo uma transportadora, escuda-se nos vazios legais explorando "parceiros" - motoristas - sem vínculos laborais, ganhando à percentagem em função da oferta e da procura, colocando uns contra os outros. Perfeito. Não transportam passageiros e portanto não podem ter as obrigações que têm os taxistas, são apenas uma plataforma e quem os questiona é invariavelmente apelidado de retrógado por não aceitar este admirável mundo novo.
Na semana passada, no México, teve lugar uma manifestação de taxistas contra precisamente a Uber. E porquê? Pela simples razão que a empresa tecnológica americana destruiu a concorrência, cobrando taxas muito baixas (são conhecidos por ficaram anos a acumular prejuízos) e, depois de destruída a concorrência, os preços voltam a subir. Curiosamente quem está a financiar a Uber são os mesmos que não pagam impostos e recorrem a off-shores.
Claro que tudo isto é escamoteado pela pretensa sofisticação do serviço prestado, apresentado como uma melhoria, uma inovação, em contraste com o serviço de taxis, amiúde apresentado como anacrónico e ineficiente.

A dita sofisticação da Uber não chegará para apagar o rasto de precariedade que estas empresas deixam, apostadas que estão em mudar o paradigma laboral. A dita partilha será o golpe final nos direitos laborais já por si tão enfraquecidos.

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