quarta-feira, 8 de junho de 2016

Parar é morrer

Costuma-se dizer que parar é morrer: Paulo Portas que o diga, agora que vai deixar de ser deputado, passando a ingressar na Mota-Engil, com o objectivo de dinamizar um Conselho Consultivo Internacional na América Latina - outro nome pomposo para dizer ex-governante que não esconde a promiscuidade entre poder político e poder económico.
Em rigor, Portas já se tinha comportado, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, como um homem de negócios (chamavam-lhe diplomacia económica), sempre zelando pelo interesse de empresas como a Mota-Engil. Por conseguinte, é natural que a recompensa chegue agora. Paralelamente, durante os últimos quatro anos, e na qualidade de ministro, Portas seguramente acumulou uma vasta lista de conhecimentos que serão uma mais-valia para a empresa em questão.
Então e a salvaguarda do bem comum? Então e a própria finalidade da política? Não sejam picuinhas, a política é o que se quiser que ela seja, sobretudo para direita que tenta ser neoliberal, mas que nunca passa da direita dos negócios. E o bem comum? Insisto. O bem comum pouca relevância terá para Portas e companhia. De resto, os últimos quatro anos são paradigmáticos de um desprezo incomensurável pelo bem comum: privatizou-se tudo o que o tempo permitiu; empurrou-se centenas de milhar de portugueses para o desemprego; fragilizou-se o SNS; enfraqueceu-se a escola pública. 
Parar é morrer, lá diz a velha máxima. Portas sabe-o bem e também saberá que o actual cíclo político é-lhe desfavorável - o que justificou o seu afastamento quer do partido, quer da Assembleia da República -, mas saberá igualmente que, quando o ciclo findar e a memória colectiva esfriar, o seu regresso à política será aplaudido. Ele simplesmente não resistirá aos apelos.
Para finalizar, apenas dizer que a Mota-Engil é sobretudo uma empresa com sorte: nos últimos quatro anos, enquanto Portas foi ministro, conseguiu ficar com os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, conseguiu também a construção da barragem do Tua, apesar da contestação, e conseguiu ainda a EGF, maior empresa de resíduos. Se há pessoas com sorte, também há empresas bafejadas pela boa fortuna.


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