Avançar para o conteúdo principal

Quando o colectivo anda ausente

Em Portugal vive-se pouco o colectivo, talvez o hermetismo e a consequente asfixia provocada por décadas de autoritarismo, expliquem a pouca vivência dos portugueses no colectivo.
A excepção é o futebol. As grandes manifestações de colectivo nascem dos clubes de futebol. Não existe aqui nenhuma crítica implícita, mas apenas a constatação de um facto. A amplificação em torno deste exercício  é fundamentado pela escassez de exercícios onde colectivo prepondere. No futebol, designadamente por altura da consagração de um campeão, assistimos a um sentimento mais forte de união entre aqueles que partilham as mesmas preferências em matéria de clube de futebol. Um sentimento que, infelizmente, anda ausente durante o resto do ano; ausente noutras situações. Há identificação, há a partilha de objectivos, predomina um entendimento ao alcance de todos e existe a consolidação do espírito de pertença, no qual todos parece contarem. Contrariamente a outros domínios onde impera a exclusão e um crescente sentimento de impotência.
No entanto, o futebol é uma excepção. A dita partilha de objectivos, a referida identificação e espírito de união não são características intrínsecas a um povo que talvez ainda não tenha associado boa parte das nossas imperfeições precisamente à ausência do colectivo. No dia-a-dia, funcionamos individualmente, esquecidos de qualquer objectivo comum e convencidos que a escolha de representantes políticos é a nossa última tarefa em prol do colectivo e depois dessa escolha a responsabilidade deixa de ser nossa.
É evidente que o conceito de cidadania e de colectivo são, em larga medida, indissociáveis. Se o nosso conceito de cidadania é exíguo também será a exiguidade a marcar os qualquer espécie de espírito colectivo.

Vai-nos valendo o futebol para nos lembrar essa coisa estranha chamada colectivo. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...