quinta-feira, 18 de junho de 2015

Que se lixe a democracia

A escolha democrática dos gregos é vista como uma ameaça que necessita de cerceamento imediato. Imagine-se que outros povos europeus fazem escolhas semelhantes - escolhas democráticas contra a austeridade, contra a ditadura da finança, a favor dos cidadãos, numa espécie de regresso ao verdadeiro significado de democracia. Não é aceitável. Se se eliminar o devaneio grego (Syrisa) limitam-se as possibilidades de outros países escolherem soluções semelhantes e em bom rigor há muito boa gente a ganhar rios de dinheiro com a pretensa crise das dívidas soberanas.
Assim, não espanta que as instituições europeias, coadjuvadas pelo inefável FMI, manifestem a mais abjecta intransigência com a Grécia. Senão vejamos: apesar da austeridade ter falhado de forma retumbante, insiste-se na subida do IVA para bens de primeira necessidade (medicamentos, eletricidade); insiste-se em mais mexidas nas reformas do mercado de trabalho e vejamos igualmente o caso paradigmático das pensões: a Grécia terá, segundo o FMI, pensões demasiado elevadas (nem sequer é verdade e basta olhar para os números do próprio Eurostat). Ora, o mesmo FMI insiste no corte de pensões a raiar os 500 milhões de euros. O Governo grego sugeriu um corte na defesa, ao invés de cortar ainda mais nas pensões. O FMI disse que não. Afinal o que é que se está a jogar nestas negociações?
O insuspeito Financial Times, num artigo de Wolfgang Munchau, fez as contas e estima que a Grécia - a aceitar as imposições europeias - verá a sua economia encolher mais 12,6 por cento em quatro anos, isto depois dos 20 por cento já perdidos resultado das políticas anteriores. O mesmo Financial Times estima que a dívida da Grécia atinja os 200 por cento. Conclusão: se a Grécia aceitar as imposições europeias perderá no plano político (o Syrisa foi eleito para fazer o contrário do que as instituições exigem) e do ponto de vista económico. Chega-se mesmo a afirmar que para a Grécia a saída do Euro poderá nem ser assim tão dramática, pelo menos no médio e longo prazo e paradoxalmente, o drama colocar-se-ia aos governos alemão e francês que teriam de explicar aos seus cidadãos como é que se perde 160 mil milhões de euros.


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