segunda-feira, 18 de maio de 2015

Fazer da Grécia o exemplo

As instituições europeias encabeçadas pela Alemanha estão determinadas em fazer da Grécia o exemplo de tudo o que está errado com uma liderança política que se mostra contrária à ditadura da austeridade.
Esse exemplo de tudo o que está errado deve forçosamente traduzir-se pelo falhanço clamoroso da Grécia; um “falhanço” que serve na perfeição os intentos de lideranças pusilânimes como é o caso da portuguesa.
Fora desta equação fica naturalmente todo um contexto histórico indissociável do presente e justificativo, em larga medida, do que se passa naquele país: um contexto histórico marcado nos últimos dois séculos por invasões de países como a Turquia, Rússia, Grã-Bretanha, França, Itália, Bulgária e Alemanha; um contexto histórico marcado por monarquias absolutistas encabeçadas por reis estrangeiros (incluído o famoso rei Otto Ludwig, responsável pela “bavarocracia” - impostos e taxas e serviços impostos pela banca alemã, francesa e britânica; um contexto histórico marcado pelo saque aos recursos gregos e à imposição de empréstimos de bancos franceses, ingleses e alemães que contaram com a criação de uma oligarquia grega; um passado tristemente marcado pela ocupação nazi e pelo consequente desaparecimento de perto de 10 por cento da população grega e ainda pelo saque ao Banco Central Grego e à destruição material do país; uma história indissociável da ditadura dos coronéis, com a participação de colaboracionistas do regime nazi e, finalmente, uma historia que narra a entrada da Grécia na moeda única, com contas forjadas, e com a conivência das instituições financeiras e da Europa. Esta é a triste história da Grécia que contrasta com a história de outro país que depois de ter sido responsável por uma verdadeira hecatombe humana contou com o auxílio externo (Plano Marshall) e com perdões de dívida; um país que tem uma dívida histórica e vergonhosa precisamente com a Grécia; um país que, paradoxalmente, exige da Grécia sacrifícios atrás de sacrifícios.
Pouco interessa relevar o facto do Governo grego (Syrisa) ter conseguido aumentar as receitas e controlar as despesas. Não interessa que o Governo grego tenha visto a despesa ficar 2037 milhões de euros abaixo do previsto ou que as receitas se situem nos 372 milhões acima do valor estimado. Este saldo positivo e qualquer outro saldo eventualmente ainda mais significativo não têm ou alguma vez terão qualquer importância para as instituições europeias, que é o mesmo que dizer que não têm qualquer importância para a Alemanha.

Por cá, no reino da pusilanimidade, Passos Coelho espera retirar dividendos do “falhanço grego” e é bem capaz de o conseguir, sobretudo se continuarmos a contar com um povo que, pelo numa parte significativa, é pouco esclarecido, amiúde adormecido e quando manifesta resquícios de vida mostra-se invadido para uma inaudita apetência para o masoquismo.

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