terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lições a retirar da afronta grega

Diz-se por aí que a Grécia nada conseguiu com o acordo da passada sexta-feira. Este pretenso falhanço grego é motivo de regozijo de muitos que torcerem para que a Grécia, que ousou fazer uma escolha considerada radical, fracasse clamorosamente.
Ainda assim, parece-me justo enumerar um conjunto de lições a retirar da afronta grega:
1 - A prevalência de uma incapacidade generalizada no reconhecimento do falhanço da austeridade. Mesmo em relação à dívida pública grega importa lembrar que em 2010 esta era de 133% e em 2014 ultrapassou os 175% (a previsão da troika apontava inicialmente para 144%).
2 - A hegemonia da Alemanha nunca foi tão clara e quem desafia o poder alemão é esmagado. Esse referido poder consolida-se à custa da pusilanimidade do resto das lideranças políticas europeias.
3 - As lideranças políticas mais pífias das últimas décadas são acompanhadas pela ilusão de uma Europa de instituições que na prática são esvaziadas de qualquer poder - o que se tornou evidente com as declarações de Jean Claude Junker que, mais uma vez, não têm qualquer consequência. Na Europa, Zona Euro e União Europeia, só existe a Alemanha, o resto é história, pusilanimidade e hipocrisia.
4 - O desafio da Grécia era e continua a ser incomensurável, sendo a probabilidade de sucesso mínima. Uma situação que se agrava naturalmente com o isolamento absoluto a que a Grécia foi sujeita, consequência também da tibieza das restantes lideranças políticas. Assim como convém relembrar que, no passado, quando as lideranças europeias foram pífias e associadas à hegemonia de um país, o desfecho foi sempre desastroso.
5 - A Grécia conseguiu tempo e pouco mais. Tempo para arrumar a casa e consolidar a possibilidade de ver o seu isolamento mitigado com uma possível reconfiguração política em alguns Estados-membros, designadamente em Espanha.
6 - A estupidez não conhece, de facto, limites e não se cinge apenas a algumas lideranças políticas. A própria Alemanha parece padecer desse mal. Em última instância, a Grécia sairá do Euro e a estupidez reside em não se dar a devida importância às implicações geo-estratégicas dessa saída; uma saída que acarretará consequências que ultrapassam em muito as questões económicas e financeiras.
7 - Paralelamente, existem povos que simplesmente não aceitam a submissão, a subserviência e a escravatura. A Grécia escolheu uma solução política que procura defender os interesses dos cidadãos gregos em oposição às soluções do costume. Uma opção que, estranhamente, inquieta tantos. Sublinhe-se que o anterior Governo de Samaras tinha-se comprometido com mais austeridade já para este mês de Fevereiro, designadamente através de cortes nas pensões e aumento do IVA. Para saber mais sobre as vitórias e concessões do Governo Grego ver artigo de Francisco Louçã.

8 - Finalmente, a lição que mais directamente nos diz respeito: a verdadeira natureza do Governo português que não conhece limites para sobreviver, comportando-se de forma semelhante a um animal acossado e moribundo que ainda mantém uma réstia de força e de esperança em sobreviver. Esta postura apenas vem confirmar aquilo que já se sabia: Passos Coelho tudo fará para sobreviver, não existindo quaisquer limites. Deste modo, os interesses dos cidadãos são qualquer coisa de somenos e os limites à estupidez não existem na actuação do Executivo de Passos Coelho, sobretudo com a incapacidade de perceber que ninguém apreciou a aproximação excessiva à Alemanha - num exercício da subserviência mais bacoca. Não há limites para a pequenez e para a mediocridade. Em suma, nem se conserva o mínimo respeito por si próprio.

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