segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A pobreza e a culpa

A pobreza é amiúde vista não como o resultado de políticas, sobretudo nos últimos anos, mas como o resultado de escolhas individuais que degeneram posteriormente na sua perpetuação. Deste modo, surgem opiniões que assentam nessa premissa e que servem também para legitimar as políticas que subjazem a essa pobreza.
Em Portugal a pobreza atinge também quem trabalha. A privação material inviabiliza o pagamento atempado de rendas, da luz, da água, do gás e constituiu um óbice a uma alimentação saudável. Estima-se que perto de 40 por cento dos portugueses vivam nesta situação.
É neste contexto que assistimos a afirmações como aquelas, mais recentes, proferidas por Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar. Segundo esta senhora, há “profissionais da pobreza” em Portugal, numa “transmissão intergeracional da pobreza... e pessoas que andam de mão estendida, sem qualquer preocupação em mudar.”; paralelamente “quando se ajuda uma família pobre deve procurar-se que essa família queira deixar de ser pobre e não encare a assistência como forma de vida”.
A verborreia supra dispensaria comentários. O discurso facilitista assenta em preconceitos e na velha e gasta tentativa de culpabilização, virando umas pessoas contra as outras. Infelizmente a senhora em questão tem responsabilidades que mereciam uma maior contenção.
Escusado será dizer que estas afirmações são feitas num país que conta com um número acentuado de desempregados, outro de trabalhadores precários, num contexto de forte desvalorização. Escusado será dizer que o maior problema do país não é o Rendimento Social de Inserção que representa perto de 1 por cento do Orçamento de Estado, mas antes a promiscuidade entre poder político e poder económico, a preponderância de alguns sectores como o sector financeiro (O BPN custou quanto? Oito mil milhões? E o BPP? E o Banif? E o BES? Quase cinco mil milhões, com promessas de que vai tudo ficar bem? Afinal quem é profissional?) e a corrupção. Escusado será lembrar estas verdades onerosas porque a senhora em questão continuará a brindar-nos com a sua já habitual verborreia.

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